quarta-feira, 10 de abril de 2019

VIVENDO NO IMAGINÁRIO




                                                        Reinaldo Lobo

    Imagine um adolescente que vê um filme de ação, digamos da Marvel, com aquelas violências repetidas e acrobáticas. Você estará vendo o presidente do seu País, Jair Bolsonaro, em Istrael, com uma metralhadora na mão, fazendo gestos de capitão América, matando inimigos imaginários no ar.
    A cena seria apenas uma brincadeira, pois, como disse o Rodrigo Maia, presidente da Câmara, o capitão está brincando de ser presidente. Mas  a gestualidade tem muitos significados bélicos, políticos e diplomáticos. Foi, por exemplo, uma provocação ao Hamas, que --gostemos ou não-- representa os palestinos, os quais , por sua vez, estão intrinsecamente ligados ao mundo árabe e muçulmano.
   Os palestinos são um símbolo de resistência ao “imperialismo norte-americano e israelense” no universo islâmico. São um xodó de quase todos os governos árabes e até do Irã, que não é árabe mas ultra muçulmano.  E, como todos sabem, essa parte do mundo é um dos mercados preferenciais da economia brasileira.
   Muitos brasileiros se escandalizam com as atitudes do governante do seu País, que mais parece um idiota dando tiros nos próprios interesses nacionais. Mas, antes, é preciso compreender que, desde a eleição presidencial de 2018, entramos numa nova era.
    Ainda que pareça uma viagem retrô aos anos 50/60, essa nova fase do Brasil é e será dominada pela irresolução de um problema político e ideológico revivido pelas nossas elites: como governar com apoio popular fazendo governos anti-populares calcados numa tradição escravista?
    Muitos recursos têm sido usados para operar esse milagre, que chamarei de opressão tolerável. O Brasil tem vivido nesse regime há muito tempo, pois o fundo determinante de suas políticas é sempre autoritário. Os que falam de “nossa frágil e jovem democracia” parecem responsabilizar a fraqueza do regime democrático por sua incapacidade de se impor. Ao contrário, a força de nossas elites dominantes, viciadas no mandonismo, na exclusão social e no poder discricionário, é o que impede a democracia de prosperar.
    O governo Bolsonaro, apoiado pelo Judiciário elitista e conservador na sua essência e agora recheado de militares por ocupação direta, é o ápice desse processo de ilusão ideológica que sustenta a necessidade inevitável da repressão sobre as classes populares. Essas classes são o perigo real e imediato que heróis em quadrinhos da família Bolsonaro precisam enfrentar.
   O imaginário da “família imperial”, como disse FHC, encarna essa necessidade de eliminar o “excedente” representado por frações da pobreza, culpabilizadas  e criminalizadas. Para alívio das elites e de boa parte da classe média branca, os gestos de “arminha” feitos pelos filhos do presidente amigos de milicianos assassinos e pelo próprio pai, sedento de poder bélico, são a síntese simbólica de uma nova fase excludente da história brasileira.
    A tradição autoritária é a mesma, mas a nova etapa é a do imaginário “norte-americano” da violência.
   Nossos heróis vivem num mundo hollywoodiano, onde a realidade se adapta às premissas dos autores do filme. É o processo de se isolar dentro de categorias ideológicas, criar um mundo falso à imagem dessas categorias e agir como se estivesse em guerra com um inimigo conhecido por todos.
   Alguns setores da esquerda padecem dessa mesma ideologia – retrô por natureza--, fantasiando que ainda estamos no tempo de Sierra Maestra e que todos deveriam largar seus celulares e partirem para as montanhas ou para as barricadas.
   Bolsonaro parece estar brincando de presidente, mas está fazendo algo pior: desejando impor um mundo falso à imagem do tempo da Guerra Fria e dos anos 50. Sua ideologia é melancólica, lastima a perda de um passado que precisaria se completar. A patética proposta de comemoração do golpe de Estado de 1964 expressa essa busca de um tempo perdido e o desejo  de retomada desse mesmo passado.
    O imaginário humano permite esse enclausuramento em símbolos, mitos e imagens de todo tipo. Na psicose, isso constitui a criação de um mundo à parte de fantasias onipotentes. Há formas ideológicas que se parecem muito com a loucura, tal o grau de distanciamento da experiência da vida concreta. Quem não se lembra do universo criado pelos regimes totalitários do século XX  : crianças dando loas com saudação fascista a Hitler e Mussolini, assim como na URSS homens adultos, barbados, vários na meia idade gritando: “Viva o paizinho Stálin,  guia genial do povos, viva!” ?
    Já se disse que a palavra “mito” aplicada a Bolsonaro é uma expl.oração do irracional e das emoções humanas para impedir o uso da razão, como nos regimes totalitários. Acho que há  nessa opinião uma admiração e um culto da razão separada das emoções. Não há política sem emoções humanas nem sem exploração das motivações inconscientes.
    A questão é se estamos diante de uma política infantilizadora e regressiva ou de uma política madura, que promova o desenvolvimento de personalidades democráticas, com  respeito ao outro e à opinião divergente. A política da “nova política” ,vingativa e persecutória, pode ser tudo, menos madura e democrática.

  


HOMO BOLSONARIANNUS



                                                                     Reinaldo Lobo
     O Brasil já produz o “homo bolsonariannus”. O major Olímpio, senador da República, é um exemplar da espécie. É um ser que gosta das soluções simples, violentas e estúpidas, como a idéia de armar bedéis, professores e merendeiras das escolas para reagirem a ataques de garotos suicidas e homicidas armados com armas de fogo. 
    Outro modelo da nova safra de brasileiros surgidos após a eleição de novembro de 2018, é o general Mourão, vice presidente da República, que foi capaz de diagnosticar o que houve na escola em Suzano, quando morreram pelo menos dez pessoas , incluindo os dois jovens suicidas. Achou a chave de tudo: o excesso de vídeo games violentos na praça, capazes de distorcer a mente dos garotos e garotas.
   O grande estrategista militar foi fiel ao pensamento da Escola Superior de Guerra, segundo o qual o controle das mentes é o instrumento para manipular populações de seres humanos como parte da guerra psicológica pelo poder e a dominação. Na época da Guerra Fria , quando o hoje general de divisão era jovem, esse pensamento visava a combater o comunismo, essa insidiosa ideologia capaz de lavar e submeter os cérebros das crianças e dos adultos. Hoje, o discurso é mesmo, ainda que não exista nenhuma potência comunista atrás de nossas crianças.
   A complexidade de uma tragédia como a de Suzano fica reduzida ao clique do gatilho de uma arma ou de um botão de videogame.
   O “homo bolsonariannus” não está interessado em complexidades nem em sutilezas psicossociais. Suas respostas são diretas e imediatas, na ponta da língua. Não lhe ocorre que a insegurança generalizada da população talvez não se possa resolver com mais armas ou com maior repressão paterna aos jogos das crianças.
    Tampouco passa pelas cabeças do major e do general que a educação de qualidade nas escolas, emprego para os pais, uma orientação preventiva de psicólogos competentes, confiança na seguridade social,  a assistência às famílias, difusão de valores democráticos, como respeito às diferenças e liberdade de manifestação, igualdade salarial entre homens e mulheres , promoção real dos professores, alimentação de qualidade, mais cuidado do Estado com as pessoas e sua saúde mental, sem fanatismo religioso ou reduções simplórias, talvez possam minorar a angústia das crianças e das famílias.
    No mundo inteiro, o reconhecido narcisismo ferido dos adolescentes, fonte de fúrias, às vezes assassinas e suicidas, costuma ser prevenido com trabalhos de dinâmica nas escolas e, sobretudo, evitando-se o acesso às armas de fogo. Não há dúvida de que vídeos e filmes podem inspirar a FORMA dos gestos violentos, mas só em alguns indivíduos cuja problemática no lar e nas suas mentes atormentadas os convida à violência.
    Crianças saudáveis podem perder o equilíbrio quando submetidas ao bullying nas escolas, muito freqüentes, mas não chegariam ao furor narcísico se tivessem assistência a tempo e não obtivessem acesso a armas de fogo. Uma cultura da paz e do diálogo pode ser implementada na vida escolar e, mesmo que os jovens tenham uma maior impulsividade, não é a maioria que chega ao desespero dos atiradores de Suzano. É possível um trabalho cuidadoso de prevenção ao suicídio – pois os franco atiradores geralmente são suicidas. Mas isso não ocorre ao “homo bolsonariannus” cuja regra consiste em usar a violência e a repressão para combater a violência.
    Vídeos e filmes violentos, ao contrário do que supõe o “homo bolsonariannus”, são uma forma de descarga de impulsos agressivos e caminho para uma forma de alguma sublimação. Só induzem à violência os que estão suscetíveis a ela, isto é, os mais perturbados ou traumatizados. Os estudos realizados nos EUA, onde as ocorrências são bem conhecidas, mostram que quem comete massacres em escolas são os vingadores, eles próprios vítimas de traumas prévios e de famílias inseguras na condução dos afetos. Não são afligidos apenas por questões morais e espirituais, como querem os religiosos, mas afetivas. 
    A busca dos jovens por atenção e reconhecimento, sua fome por olhares compreensivos e tolerantes em relação  às suas idiossincrasias e expectativas, às vezes exageradas, pode ser uma das bases complexas da violência, quando essa busca é frustrada.
    Famílias suficientemente amorosas e tolerantes não geram monstros, exceto em casos muito raros. Só que essas famílias, para existirem, também precisam do cuidado do Estado e da sociedade com as pessoas. Cuidados reais, não verbas para construções e promessas  de campanha.
    É o caso de perguntarmos que educação familiar e quais famílias produziram seres como Jair Bolsonaro, seus filhos pró milicianos, o major Olímpio e mesmo o general Mourão, politiqueiro e oportunista que não ousa contestar a idéia absurda de flexibilizar o uso de armas entre a população civil, como se estivéssemos em uma guerra permanente dentro de casa e fora dela. Isso é a consagração da estupidez, do femenicídio, da brutalidade e do desprezo pelo outro.
    Militares gostam de uma guerra, aprenderam a guerrear como se aprende a jogar videogames, temos problemas com os traficantes e matamos negros nos morros que são seres humanos excluídos e miseráveis. Mas será que a única solução que vislumbram é matar mais?
    O “homo blosonariannus” não deve ser o melhor modelo civilizatório para o Brasil, ainda que seja o produto de uma eleição carregada de expectativas de melhoria da economia e da sociedade.  Sua visão “hobbesiana”, sem conhecer Hobbes, é a de que o homem é o lobo do homem, e não tem outra saída. Esse tipo de homem se parece muito com um fascista. Pela simples razão de que suas soluções são iguais às daqueles garotos confusos que mataram uma dezena de pessoas, inclusive eles próprios
   

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

A MODA BOLSONARO



                                                                              Reinaldo Lobo

      Como todas as modas, terá seu tempo de duração. Um dia passa, como uma onda no mar, diria Lulu Santos. Várias teses sociológicas interessantes serão escritas sobre o assunto. Já apareceu até uma quase teoria sobre o “Mito”, sob a pena brilhante de Eliane Brum: o ex-capitão representa o homem comum ressentido (a palavra é minha), excluído do circuito moderno e culto em que imperam os Direitos Humanos e Civis. É quem está fora das rodas sofisticadas da classe média de esquerda, instruída e “antenada”.
     Esse sujeito teria sufocado um bom tempo seus velhos preconceitos machistas e antiquados e saiu do armário, com sinal trocado, despejando seus votos na caixa da extrema direita, sem nenhum pudor.
     Há verdade nessa interpretação, mas é possível dizer que houve mais complexidade nessa ascensão de uma moda, afinal, retrô, com forte nostalgia da época da Guerra Fria e de 1964. Ora, dirão, nada a ver: o passado já era, as circunstâncias são outras, hoje existem as redes sociais, habilmente explorados pelo candidato Bolsonaro e seus ricos apoiadores, além dos seguidores “medianos”.  Sem dúvida. Os tempos são outros, mas o fantasma de crise e de medo está presente como em 1964.
     A classe média daquela época apoiou a queda do trabalhismo e a intervenção militar para “restaurar a democracia” como se houvesse um verdadeiro “perigo comunista” no País. Hoje sabemos que era tudo “fake”, uma montagem de cenário com apoio norte-americano para desestabilizar o governo Goulart, que corria o risco de se tornar “neutro” (uma outra fantasia, pois Goulart cedeu em tudo o que pôde) no embate com a então União Soviética. O que os líderes norte-americanos temiam eram os votos do Brasil na OEA, então território quase exclusivo das ordens de Washington. Paradoxalmente, quem tentou virar “neutro” foi o conservador Jânio Quadros em 1961, e caiu rápido.
      Na dinâmica interna do Brasil, a classe média temia a ascensão das classes populares e, como consequência, sua própria proletarização. Outra fantasia ideológica difundida pela mídia da época pelos “institutos de defesa da democracia” financiados pelos ricos e os norte-americanos, que preparavam o golpe de Estado.  O País nunca esteve, apesar da crise política e inflação alta, à beira de engolir a classe média, que se expandia naquele momento. Os ministros e aliados, como Afonso Arinos e Santiago Dantas, eram notáveis liberais. Um ministro do Trabalho foi Franco Montoro, democrata cristão por filosofia. Até a reforma agrária proposta por Goulart era uma tentativa de criar uma classe média de pequenos proprietários no campo, e ampliar dessa forma o mercado interno para a economia em geral.
     As reformas eram  essencialmente capitalistas em sua maioria, ainda que houvessem pequenas concessões como 13º salário e manutenção da estabilidade no emprego para os trabalhadores. Tudo assustou não só a classe média tradicional, pouco afeita a mudanças inclusivas, mas também os ruralistas e industriais da época, que se comportavam reagindo mais à moda do esquema marxista da luta de classes – no que pareciam acreditar no clima ideológico de então.
     Hoje, a moda Bolsonaro tentou recuperar um fator semelhante ao daquela época, inventando cenários externo e interno fakes -- para usar a palavra tão atual. Foi uma estratégia política, em primeiro lugar, que começou atabalhoadamente, mas deu certo. Funcionou porque surgiu do mundo do baixo clero do Congresso um deputado medíocre, mas saudoso da ditadura militar onde localiza seus ídolos e que representava apenas um lobby das Forças Armadas e defendia causas adormecidas, como o uso da tortura e um furioso anticomunismo.
     Aos poucos, seu embate isolado com a esquerda estendeu seu interesse contra o “politicamente correto”, muito parecido com o que se difundira na camaradagem de caserna em todos os escalões militares. Foi a pólvora. Capturou o homem ressentido em toda a sociedade. De saída, 70% do eleitorado de Bolsonaro, segundo as pesquisas, era masculino. Por duas razões principais e uma derivada: o machismo, o anti-feminismo mais ou menos disfarçado entre os homens brasileiros; e o medo da insegurança nas ruas, na sociedade e no emprego. O tom anti-político, o discurso contra a corrupção do candidato, associando tudo ao PT, foi a outra razão decisiva.
     Houve fatores importantes, que não devem ser negligenciados para explicar a moda Bolsonaro. Por exemplo, a facada. Gerou uma onda de solidariedade, suspeita, polêmica e ódio anti-petista, como se o lulopetismo fosse o autor do atentado. Isso gerou uma dimensão imaginária perigosa. Lula ganhou uma espécie de espectro nefasto, apesar de preso e quase impossibilitado de coordenar ações políticas eficientes—tanto que seu candidato, para ganhar alguns votos do centro, teve de se afastar simbolicamente de Lula.
      O desafio para o novo governo empossado com um aparato militar espetacular e iniciado com muitos tropeços, com o silêncio obsequioso dos militares fora da administração civil, é conseguir governabilidade nã9o junto ao Congresso ou ao Judiciário, que parecem bastante submissos até agora á Nova Ordem. O maior obstáculo são seus próprios quadros e a falta de um programa nacional claro que não se restrinja ao discurso neoliberal para o mercado e à restauração de costumes antiquados, via religião evangélica e ataques “à ideologia de gênero”. Detalhe: até agora Bolsonaro não falou a palavra emprego.
       A começar pelo próprio presidente, o governo parece muito despreparado tecnicamente para a Política (justamente onde Bolsonaro mais insistiu, na “qualidade técnica”) e é incoerente, num vai-e-vem inquietante. Seu ministro mais popular, Sérgio Moro, continua a fingir que não é um político. Parece pretender uma política de despachos administrativos, como se ainda fosse um juiz, na base do “cumpra-se a sentença”.  Bolsonaro tropeça na língua quando se mete em economia e lá vem o Guedes para corrigir. Enrola-se em declarações políticas prematuras e lá vem o Ônix para tentar corrigir, falar demais e se enrolar também.
       Janaína Paschoal, que se elegeu com forte votação na onda da moda, já avisou que não quer um governo ideológico, um ”PT com sinal trocado”, pois é o que já está vendo. Está errada quanto ao PT, que foi sempre um partido de centro esquerda, nunca de extrema, como se montou no cenário da imaginação popular. Na política externa, por exemplo, o PT assinalou simpatias à esquerda, mas foi extremamente pragmático, privilegiando as relações com os EUA e a Europa. Nada semelhante à Teologia de Trump e da família Bolsonaro, que usa a bandeira de Israel como se fosse a nossa. Já brincaram: que tal mudar nossa capital para Jerusalém?
     Se a moda não passar de seu período agudo e se a realidade não se impuser, vamos ficar sem exportar carne de cordeiro, frangos e outros produtos para os países muçulmanos. Por puro preconceito, chave para entender esse modismo.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

MUNDO, VASTO MUNDO




                                                         Reinaldo Lobo

      Vivemos um surto de globalização nos anos 80 e 90 do século passado, sob o impulso do neoliberalismo e com o fim do comunismo em quase todo o mundo. O capitalismo parecia triunfante e definitivo, destruindo barreiras, costumes e tradições, como o descreveu Karl Marx já no seu manifesto comunista de 1848.
    Tudo indicava sua expansão sem limites, sua conquista universal e a conexão de todos os países entre si, caindo até mesmo as fronteiras. A União Europeia, o Mercosul e outros tratados de intercâmbio comercial e cooperação apontavam na direção de um certo equilíbrio internacional e de uma racionalidade bem temperada. Os economistas mais radicais imaginavam o livre comércio com pouquíssimas barreiras e a definitiva decadência do Estado como mediador social e econômico. A utopia neoliberal trazida inicialmente por Margareth Thatcher e Ronald Reagan parecia ter-se tornado realidade.
     Durou pouco. O século XXI se abriu com o ataque às Torres Gêmeas e o advento de um novo terrorismo, assustador. Era uma espécie de reação regionalista e particularista contra a universalização dos costumes e a destruição das tradições. Os militantes da Al Qaeda, chefiados por Osama Bin Laden, usaram os meios tecnológicos mais modernos para atacar o coração do capitalismo.
    O efeito foi devastador para as ilusões da livre competição entre empresas e nações, assim como da livre circulação de mercadorias e pessoas. Até mesmo porque essa liberdade competitiva nunca existiu de fato de modo pleno, sobretudo pela existência de um poderoso sistema de monopólios em escala mundial, mediado pelo capital financeiro, o famoso “cassino” que operou febrilmente nas três últimas décadas.
    Desde então, surgiram as contradições mais graves, que explodiram na crise de 2008 e cujas consequências reverberam até hoje.
    Um desses efeitos foi a emergência do Estado de Exceção, a suspensão frequente e temporária dos direitos civis e humanos em várias partes. Mais do que isso, surgiram guerras regionais e fenômenos como o Estado Islâmico, buscando instaurar um califado do século XII no Oriente Médio. Outro, foi o surgimento de levas enormes de refugiados dos países do “Terceiro Mundo” em busca de sobrevivência física, forçando as fronteiras de países mais ricos.
    A onda conservadora que atinge o planeta, inclusive o Brasil, é uma reação a essas contradições do capitalismo que se quer universal destruindo barreiras, e a permanência da existência dos Estados nacionais com suas fronteiras, interesses, costumes e tradições regionais.
    Há uma guerra aberta, neste momento, entre o universalismo e o particularismo, em escala internacional. As reações do tipo Brexit, Trump e, agora a resposta retardada do tipo Bolsonaro entre nós, são a contrapartida, o outro lado da moeda do fundamentalismo terrorista e do desespero das populações crescentes do chamado “Terceiro Mundo”, das ex-colônias e do “fraco baixo ventre” do mundo -- parafraseando uma declaração de Winston Churchill sobre a vulnerabilidade do sul da Europa, então pobre e suscetível aos avanços do comunismo após a Segunda Guerra.
    Hoje, o “perigo comunista” não existe. As fantasias da expansão de Cuba ou da Venezuela (que não tem nada de comunista, mas de um populismo atrapalhado e autoritário) pela América Latina, chegariam a ser risíveis, se não servissem de justificativa ideológica para legitimar a hegemonia norte-americana na região.
    O lugar do Brasil nesse contexto internacional é, para variar, paradoxal. O governo que vai começar em janeiro já delineou suas políticas ao escolher o novo chanceler, um desconhecido sem credenciais diplomáticas e experiência internacional de respeito, mas com uma ideologia de extrema direita bem clara e até teocrática. Vamos nos colocar, por um lado, na esteira atual dos EUA em matéria de particularismo. Teremos uma política externa fechada, de fato, à globalização e à mundialização. Aparentemente, uma política “nacionalista”.
     Por outro lado, porém, continuamos a adotar “ideias fora do lugar”, como diria o sociólogo e escritor Roberto Schwarz: quando o neoliberalismo faz água em toda parte, teremos um chefe da Economia doutrinado na Escola de Chicago e que prega a desregulamentação, a desestatização e a entrega de patrimônio público para as empresas internacionais em larga escala. O que é o contrário exato do nacionalismo ou do particularismo.
     O modelo da Argentina, que antecedeu o Brasil na onda conservadora e neoliberal, dá mostras de grandes problemas, ao ponto de o governo Macri estar pedindo ainda “mais sacrifícios” ao povo, isto é, que suporte uma maior recessão por mais tempo.
     Tudo indica que o governo Bolsonaro será uma contradição ambulante, a começar pela pressão do estamento militar, presente em várias esferas de sua programação. Os militares têm uma noção de “áreas estratégicas” na economia que não poderiam ser privadas e, muito menos, entregues ao capital internacional. Mas, como o Brasil já suportou várias feitiçarias ao longo de sua História, é difícil prever o que acontecerá no futuro pelos próximos quatro anos.
     Na política econômica, seremos “particularistas-universalistas”, e não exatamente liberais como apregoam os arautos das boas novas. Ou seja, será dado prosseguimento aos “ajustes” recessivos que era a tônica do governo Temer e serão tentadas privatizações aceleradas.
     Já na esfera propriamente política, a ideologia com traços fascistas do século XX (e do conservadorismo do século XIX) deve predominar. Nos costumes, nas reformas antipopulares com finalidades estritamente econômicas e não sociais, com a provável punição judicial da esquerda e preservação da corrupção sistêmica entre governo e empresas, tudo indica que continuaremos na mesma situação corrupta, agora mais discreta e beneficiando os partidos mais conservadores.
     As Igrejas de cunho comercial, como as da Teologia da Prosperidade --outro fenômeno de escala mundial, mas particularista e retrógrado--, vão ganhar mais poder do que a Igreja Católica, e isto é tão óbvio que não chega a ser uma previsão.
     No quadro mundial, o Brasil deve ter um período de isolamento e de desprestígio pelos personagens exóticos que estarão no poder: Bolsonaro, que não precisa de explicações, o inacreditável Ônyx Lorenzoni, o juiz “imparcial” Moro, dublê de Juiz Falcone e político pseudomoralista de extrema direita, o Guedes extemporâneo, e, sobretudo, o novo Golbery, o festejado general Augusto Heleno, estrategista da vitória obtida com fakenews.
     O Brasil estará no centro da contradição dos que acreditavam num “mundo, mundo, vasto mundo/ se me chamasse Raimundo/ seria uma rima, não uma solução”, como dizia o poeta Carlos Drummond de Andrade.
     

terça-feira, 20 de novembro de 2018

CRÍTICAS AO PT


   
 
                                                                                                                     
                                                           Reinaldo Lobo*

      Quando se faz uma crítica ao PT, seus militantes mais aficionados respondem que isso é “fazer o jogo da direita”, não importa quem a faça. Consideram qualquer crítica, venha de onde vier, “inoportuna”. Ora, toda crítica é incômoda, independente do momento em que é feita. A questão é se pode ser verdadeira e se tem consequências positivas. Permitam-me citar Shakespeare: “A verdade é um cachorro que tem de ficar preso no canil. E deve ser posto para fora a chicotadas...”
       A sugestão do filósofo norte-americano Noam Chomsky – salvo engano, insuspeito de pertencer à direita--, de se formar dentro da própria esquerda uma “comissão da verdade” para avaliar “os erros do PT”, vem num momento em que o partido perdeu uma eleição e, apesar da grande votação, temos consciência da grande rejeição oculta nessa votação por parte dos eleitores que apenas queriam evitar Bolsonaro. Todos sabemos também que inúmeras pessoas à esquerda já haviam feito a sugestão de uma autocrítica petista, pois essa atitude só fortaleceria o partido internamente e junto ao eleitorado.
     A cúpula partidária, a começar por Lula, nunca aceitou uma posição de humildade, de submissão ao julgamento dos fatos, de reflexão ou de exposição das mazelas surgidas ao longo da Operação Lava Jato e mesmo antes, por ocasião do mensalão. Se houve autocrítica foi muito interna, quase secreta. Sua alegação sempre foi que isso fortaleceria o adversário à direita e que negaria tudo de bom que o PT fez para os trabalhadores, os pobres e pelo País.
     Ora, vamos por partes. “Favorecer o adversário” : o PT não fez a autocrítica para “preservar votos”  e, mesmo assim, perdeu. Houve um momento em que o candidato Fernando Haddad esboçou um afastamento das mazelas partidárias e sua popularidade subiu nas pesquisas. Por isso mesmo, ainda tem o respeito de parte do eleitorado e poderá tentar novos voos políticos. Além disso, sempre que um partido perde uma eleição – qualquer partido—é saudável que dedique um tempo à reflexão sobre os equívocos que cometeu e, principalmente, sobre sua maneira de governar.
     O segundo argumento, o mais forte, segundo o qual a autocrítica poderia fazer obscurecer o que o PT fez de bom, precisa de consideração mais detida. De fato, o partido fez coisas boas, a maioria nunca feitas antes. Os exemplos são uma longa lista: a agricultura familiar forte; o fortalecimento do crédito popular e das cooperativas de pequenos produtores; a preservação dos direitos trabalhistas – o que não foi pouco, e custou uma enorme resistência aos lobbies empresariais que hoje apoiam Temer e Bolsonaro--; a ressurreição do Nordeste, que hoje agradece com votos e fidelidade; a consistência na manutenção da democracia nacional; a legislação que permitiu a investigação da corrupção; a autonomia da Policia Federal e das Procuradorias ( o juiz Sergio Moro deve a Dilma sua carreira de “paladino da Justiça”, graças à instituição da delação premiada em seu governo); a redistribuição de renda não só via créditos, mas também dos programas sociais bem conhecidos, com destaque ao Bolsa Família, que até o governo de extrema direita de Temer-Bolsonaro hesita em anular; a política externa pacificadora que garantiu identidade, dignidade internacional e respeito ao Brasil; e muitas outras.
      A direita insiste em dizer que tudo aconteceu graças ao governo de FHC, o que é uma outra grossa mentira-- esse governo quebrou mesmo por três vezes o País, a desigualdade social cresceu cerca de 35%, assim como o desemprego, sua política externa era bilateralista, ignorou o Terceiro Mundo e se submeteu docilmente a Bill Clinton e ao neoliberalismo então imperante. Ao contrário do que dizem as más línguas, Lula colocou o Brasil na posição de manter 40% de seus negócios externos com os EUA (com a Venezuela e Cuba foram menos de 2%) e com o restante do mundo, como África e Ásia, sobretudo com a China.
       Tudo isso – e, repito, não é pouco—não justifica o que o partido andou fazendo ao se relacionar com gente como o deputado Roberto Jefferson no mensalão, comprando votos par aprovação de projetos no Congresso ou com o “pragmatismo” aventureiro do ex-guerrilheiro José Dirceu nos tratos com a Petrobrás. A teoria simplista de que “o fim justificam os meios” ignora que, numa política socialista, significa invalidar os fins.
       Dizer que o PT “cometeu erros” é bondade. O partido de Lula foi longe nos acordos e cambalachos com seus parceiros da Nova República, em nome de alcançar e manter o poder. Os casos que ocorreram não são dignos de um partido socialista, cujo objetivo, entre outros, é combater a corrupção capitalista, e não aderir a ela.
      O principal argumento dos defensores da teoria “pragmática” de Lula e Dirceu é que, se não tivessem recorrido aos meios correntes na Nova República (“afinal, todos faziam e não havia meio de sobreviver sem isso”.) não teriam chegado sequer à Presidência. Ora, houve também abusos pessoais de personagens mais ou menos importantes, como Palocci, o pequenino Silvio Pereira e sabe-se lá quem mais nos quadros intermediários.
     Dizer que Palocci foi um traidor, depois das delações, não resolve. Por que se permitiu que tudo  ocorresse nas barbas de Lula. E as relações de Lula com a Odebrecht? Ela era parceira, é verdade, de muitos governos anteriores, desde a Ditadura civil-militar, mas isso também não justifica o PT ter-se aconchegado no interior de um Sistema corrupto (como, aliás, tenho dito aqui há muito tempo e já dizia em 2005).
     Quem disse que o PT não conseguiria ajudar os pobres ou mesmo chegar ao poder, se se mantivesse menor e combativo como era em seus princípios? Teria a oportunidade, mesmo não se tornando poderoso nacionalmente logo de início, de ir dando o exemplo em programas menores, localizados em municípios e estados, formulados com a sua pressão nos parlamentos. Houve um tempo, no Rio Grande do Sul, que os deputados e prefeitos eleitos pelo PT criaram os orçamentos participativos, de grande repercussão e eficiência. Ajudaram, inclusive, em gerar sistemas de transparência adotados por todos os partidos perante o eleitorado.
     A fantasia de uma mudança global, em escala federal, foi instaurada a partir da ambição de poder de alguns líderes da cúpula. Essa cúpula deve ser criticada e responsabilizada, inclusive, pela derrota na eleição presidencial de 2018, pois demorou demais a assumir que precisaria unir-se a outras forças para barrar a direita. Quando fez isso, já era tarde e não se pôde evitar a avalanche em que tentam enterrar a esquerda brasileira, toda ela, mesmo a independente, sob a arrogância e repressão de fascistas e reacionários de todo tipo.
      Se o PT tiver a coragem coletiva de se autocriticar e de se renovar, seus militantes e simpatizantes poderão dizer, talvez mais cedo do que imaginam, algo que li no pórtico de uma floricultura: “Tentaram nos enterrar. Não sabiam que éramos sementes.”

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

O CAPITÃO SEM FORÇAS




                                                               Reinaldo Lobo

      Desde o estrondoso sucesso do filme “Tropa de Elite” (2007), do diretor José Padilha, ficou evidente que estava em gestação na sociedade brasileira um tipo repressivo, violento, “faca na caveira”, um justiceiro admirado por sua capacidade de simplificar tudo e, assim, alcançar resultados rápidos contra o crime. O capitão Bolsonaro iria se tornar mais tarde a encarnação do capitão Nascimento, que até hoje povoa o imaginário da classe média.
      A idealização do herói assassino e torturador é, todos sabemos, perigosa para a democracia, mas, com a crise econômica iniciada em 2008 e generalizada a partir de 2013, a extrema direita ganhou uma opinião pública favorável, pela primeira vez desde a Ditadura civil-militar de 1964-1985.
     Que fique claro: não foi o filme de sucesso que criou essa situação, mas ele refletiu um clima potencial no interior de várias camadas das classes médias e até mesmo das mais pobres. As pessoas estavam cansadas da criminalidade impune, cujo auge se revelou nas denúncias na Lava Jato.
      A violência cotidiana dos morros e favelas, o tráfico fortalecido pela desemprego em massa, os recordes de balas perdidas e assassinatos, tudo isso levou a formar um caldo de cultura favorável ao aparecimento de um Bolsonaro, não por acaso chamado de “o mito” por seus adeptos.
     Os seus potenciais eleitores viam nele a aura imaginária do capitão Nascimento: rude, tosco, voltado para o dever ao ponto de, com pouca relutância, matar friamente e torturar, mas sempre do lado “dos cidadãos de bem”. Estes, como os historiadores e sociólogos sabem, são a massa infantilizada, de mentes simplórias, dos seguidores de líderes fascistas mais do que idealizados, idolizados.
       A política passou a ser demonizada como um caso de polícia: “bandidos versus cidadãos de bem”. Essa visão simplória leva à reforçar soluções onipotentes e igualmente simplórias de Bolsonaro e seu vice “faca-na-caveira”, o vaidoso e arrogante general Mourão, os quais não deixam dúvidas sobre seu propósito: tornar a violência política de Estado.
       Ocorre que, para isso, precisavam alimentar o mito do capitão infalível. Depois da facada desferida por um presumível psicótico que recebia “ordens de Deus” --talvez um invejoso admirador secreto do “capitão justiceiro” --, houve um efeito psicológico paradoxal: o capitão mostrou-se às mentes adolescentes e infantilizadas completamente vulnerável, com perigo de morte, prostrado num leito de hospital.
         A pena e a comoção não fizeram disparar as pesquisas de opinião a favor do líder fascista, cujo ídolo pessoal é o ex-major Carlos Brilhante Ustra, já falecido, antigo chefe dos torturadores do DOI-Codi, centro de operações do II Exército em São Paulo – o “herói que mata”, segundo o vice Mourão.
       Os jovens que não viveram o período da Ditadura e que estão revoltados com os políticos continuam a se inclinar diante de Bolsonaro, mas talvez percam um pouco do fascínio em relação a um ídolo vulnerável, vítima de sua própria incitação à violência. A dó pela sua condição de alvo de um ataque brutal pode não ser suficiente para recuperar o prestígio de “homem forte”. 
     O Super-homem que queria armar toda a população brasileira contra os “bandidos” encontrou a sua “criptonita” na forma de uma simples arma branca e as mentes simplórias dos que o apoiam talvez neguem sua fragilidade, mas o fato é que sua popularidade não aumentou depois do atentado. Tentam restaurar a idealização desfeita cultivando uma outra imagem, a de mártir. Até agora, sem sucesso.
     Um mérito se deve à candidatura do inquieto fascista: colocou, talvez definitivamente, a questão da segurança no centro do debate político. A própria esquerda sempre evitou entrar direto no assunto, negando sua pertinência em função da necessidade de achar soluções sociais para o problema.
    Agora, é impossível ignorá-lo. Os candidatos da esquerda e da centro-esquerda, como Ciro Gomes, Marina Silva e Fernando Haddad, sem falar no jacobino Guilherme Boulos, estão sugerindo fórmulas para reforçar a vigilância das fronteiras, criar uma área forte de inteligência, unificar as polícias, a fim de enfrentar o crime organizado. Suas soluções são sempre mais complexas do que as da chapa Bolsonaro-Mourão, que já propuseram invadir, e não intervir, as favelas para “metralhar uns dez mil de uma vez”. Parecem que tiraram suas opiniões desses programas policiais na TV, sensacionalistas para impressionar o público.
     O problema com os “profissionais da violência”, como se autodenominam, é que não se limitam a falar, mas podem agir num futuro governo, a se delinear a partir das eleições das próximas semanas.  Uma característica das mentes fascistas, desde Mussolini e Hitler, é que costumam anunciar medidas que muitos não acreditam que serão postas em prática, mas que se mostram efetivas logo depois.
    Alguns dizem que Bolsonaro não passa de um boquirroto, como Trump. Ele gosta dessa comparação, pois pode ajudá-lo a ganhar uma eleição até aqui bizarra. Mas há uma diferença em comparação com Trump: as instituições da democracia norte-americana são muito mais fortes do que as brasileiras.
     Aqui, onde Bolsonaro encontrou sem dúvida, como queria o ditador Stálin, o “inimigo objetivo” para assustar o povo -- a ameaça do banditismo e dos traficantes--, as instituições estão enfraquecidas pela Lava Jato e pelo impeachment, fruto de uma operação parlamentar bem armada para desalojar a presidente eleita. O Executivo está fraco, o Judiciário parece forte, mas está politizado e dividido, e o Parlamento todos sabemos como está. O poderoso Collor também havia encontrado seu “inimigo objetivo” – os “marajás” do funcionalismo— e hoje vemos o que resultou do seu governo.
      Há uma esperança: na manifestação em que o capitão foi ferido não havia uma única mulher lhe dando apoio político. A maior rejeição ao candidato nas pesquisas é das mulheres. Vamos torcer para que elas, hoje mais próximas da política do que nunca, arranquem de vez a aura dos fascistas e deem a resposta democrática que a maioria deseja.


quinta-feira, 30 de agosto de 2018

AS CABEÇAS DOS ELEITORES





                                                                  Reinaldo Lobo

   O eleitor não existe. Há eleitores, no plural. Pertencem a classes sociais diferentes, têm sonhos e aspirações distintas, alguns professam uma ideologia propriamente dita, expressam raivas, ressentimentos, visão-de-mundo e expectativas diversas. Os chamados analistas políticos costumam, às vezes, juntar tudo sob um mesmo rótulo e tentam entender as diversidades pelas pesquisas de opinião, hoje mais científicas do que no passado, mas ainda falhas.
    Em 2014, várias sondagens davam como vencedor Aécio Neves, que perdeu no seu próprio Estado e, de fato, quase ganhou em escala nacional. Foi apontado o fator Nordeste, o que também não é simples, pois o voto dos nordestinos não é homogêneo. Aí, um dado decisivo foi a saída do pernambucano Eduardo Campos da corrida presidencial. Outro ponto foi a sombra do ex-presidente Lula, de origem nordestina, catalisando votos em favor de Dilma Rousseff.
      Hoje, as disposições psíquicas dos eleitores variam nas diferentes classes e regiões, mas existem elementos comuns de desconfiança, de descrédito dos políticos e de completo realismo – quase cinismo— provocado pela crise econômica e o desencanto generalizados.
      O fator Lava Jato impera nas eleições deste ano de modo a produzir escolhas que variam da busca da “pureza” na política até uma certa complacência em relação a políticos alvejados pela Justiça, mas cuja história está registrada na memória de muitos eleitores como aqueles que deram algo novo à população –isto é,  os que fizeram efetivamente alguma coisa que beneficia as maiorias mais pobres do País.
       A complacência aparece com clareza no caso de Lula, a maior surpresa destas eleições estranhas, uma vez que está preso, mas ganharia no primeiro turno segundo as pesquisas mais recentes. Depois de vários anos de desconstrução de sua imagem de líder popular, seu registro  quase “de protesto” no TSE -- uma espécie de anticandidato, na forma de desobediência civil--, deixa muitos eleitores confusos e perplexos, mas também demonstra que o seu eleitorado registrou na memória a fase de crescimento econômico, de pleno emprego e de distribuição de renda, e entendeu perfeitamente sua mensagem.
        Houve uma desidealização geral da atividade política na mente dos eleitores, mas que deu lugar aos poucos a um maior realismo numa fatia significativa do eleitorado. O ódio surgido a partir de 2013 levou às ruas  uma classe média que se sentia ameaçada pela “ascensão” dos mais pobres e que saiu em passeatas repercutidas com barulho pela imprensa  Foi a origem do antipetismo militante que desembocaria nas vitórias eleitorais municipais do tucanato e do MDB há dois anos e meio, e ,agora, na candidatura do militar  fascista.
       Na cabeça dos eleitores de classe média, eliminar definitivamente o PT é um objetivo prioritário. Esses são os mais decepcionados com as pesquisas neste momento. A força simbólica da figura de Lula não deu espaço para candidaturas que expressariam o “novo”, isto é, a anticorrupção, a moral, os bons costumes e o anticomunismo, tradicionais “princípios” das frações que apoiaram um dia o golpe de 1964 e hoje pediriam, em última instância, intervenção militar.
      Os petistas costumam incluir nessa categoria de eleitores os juízes e procuradores que condenaram celeremente o ex-presidente Lula. Em parte, podem ter razão. Mas esquecem nessa avaliação a presença de um forte corporativismo no judiciário e o fato de que não são todos os juízes que comungam com os magistrados de Curitiba e de Porto Alegre.
      É muito provável que a escolha do próximo presidente, da maioria parlamentar e dos governadores dependerá de uma “onda” de impulsos na opinião pública, que é diferente das manifestações de classe, e que ultrapassa as fronteiras sociais na reta final das eleições. Essa “onda” esteve convergindo para o candidato militar até há pouco, em função do medo “do comunismo”, da inação das autoridades de segurança e do ódio anti-petista estimulados, inclusive, pelos meios de comunicação, incluídas aí as redes sociais, a TV, o rádio, os jornais e as revistas, em sua maioria.
     As aspirações dos mais diferentes eleitores podem ser dirigidas, em grande parte, para a visão paranoica que elege um” inimigo comum”. Neste momento da luta eleitoral, no entanto, os cidadãos estão cansados, saturados de informações e de notícias de violência. Há um governo praticamente inerte, incapaz de dar direção até aos seus próprios candidatos, Alckmin e Meireles, que representam o período de “austeridade” que se seguiu ao governo petista, exacerbando a crise e o desemprego sem o prometido crescimento econômico real. Além disso, o inimigo comum mais visível até agora --a Corrupção--, está diluído e presente em todos os partidos do cenário político, exceto em alguns virgens como o Psol,  na esquerda, e o Partido Novo, à direita. São os que mais empunham a bandeira do moralismo político, são as novas UDNs.
      O impeachment que derrubou Dilma Rousseff teve como consequência a destruição da força do Executivo quando já havia um Legislativo desmoralizado e fraco. Os corações e mentes dos cidadãos dirigiram-se, então, com esperanças para um Judiciário subitamente fortalecido, ao ponto de se falar de um Partido da Justiça.  Hoje, o próprio Judiciário perdeu força perante a chamada opinião pública, pela divulgação de seus privilégios e por suas contradições quanto ao prosseguimento da Lava Jato.
      A perplexidade é o estado mental de boa parte do eleitorado, mas os mais pobres ainda esperam dos seus símbolos uma saída vitoriosa. Vai depender do que o Judiciário Eleitoral vai fazer com a chapa “triplex”: Lula, Haddad e Manuela.