segunda-feira, 5 de junho de 2017

AUTONOMIA OU INDIVIDUALISMO?

    

                                                                                          Reinaldo Lobo

         A ideologia neoliberal consagra o individualismo possessivo. O seu ideal de homem livre é o que cuida de si e de sua família, de preferência proprietário e capaz de “empreender”. Essa visão-de-mundo foi magnificamente resumida por Margareth Thatcher, ex-premiê britânica: “A sociedade não existe. Quando olho, vejo indivíduos e, no máximo, famílias”.
        No polo ideológico oposto, a vulgata bíblica marxista ressalta o coletivismo. Só existe a sociedade. Josef Stálin, autor do inacreditável texto “As Quatro Leis da Dialética”, definiu certa vez: “ Só temos a história coletiva. O indivíduo é uma ficção. ”
        Na verdade, é bem difícil pensar o indivíduo sem a sociedade. Mas também o contrário: a sociedade sem os indivíduos. Os seres humanos são animais sociais. Só isso garante sua sobrevivência.
        A ideia de uma liberdade sem peias, sem nenhum constrangimento ou continência, uma espécie de anarquismo dominado pelo princípio do prazer, onde o outro não exista como obstáculo nem referência, é uma ficção infantil. Essa não é a liberdade fundada na autonomia, mas nas fantasias mais primitivas, estimuladas pela sociedade de consumo para nunca serem realizadas de verdade.
       Vivemos numa sociedade anárquica da insatisfação permanente, justamente por negar a falta, a falha e a carência, dando a ilusão de uma possibilidade infinita de participação na riqueza e no poder. 
    Certa vez, um ultraconservador, o germano- americano Henry Kissinger, lamentou: “Muitas pessoas sofrem tanto por não participarem da afluência e dos benefícios do capitalismo, ao ponto do desespero, porque alimentam o sonho americano de que o esforço as conduzirá a se tornarem proprietárias de bens e de suas vidas. Nem sempre isso é possível”. Faltou dizer que, na maioria das vezes, é impossível, pelo menos por caminhos normais de trabalho e competição.
       A sociedade de consumo é como aquela mulher de suéter justo na tela do cinema, insinuando, mas não deixando ao alcance a beleza crua e o erotismo. Seduz, promete. É só a miragem estética, no dizer o filósofo alemão Theodor Adorno, mas não cumpre jamais.
       Há uma enorme confusão entre autonomia e sujeito isolado, racional,  da filosofia liberal e , sobretudo, da ideologia neoliberal. A autonomia -- como mostraram Castoriadis e até os filósofos clássicos--, é o sujeito dar-se suas próprias leis. No plano do indivíduo, isso significa estabelecer a própria legalidade das determinações do sujeito. 
      A psicanálise é um exemplo evidente, um modelo da possibilidade de alcançar a autonomia individual, quando o sujeito enfrenta as próprias determinações. Foi por isso que Castoriadis incluiu a psicanálise no que chamou de “projeto de autonomia”, que seria a disseminação da autonomia auto reflexiva e lúcida, ou, em outras palavras, a emancipação humana.
      No plano da sociedade, a autonomia não se reduz à liberdade individual, mas tem a ver com a existência e criação de instituições coletivas que favoreçam a autonomia e a responsabilidade de seus membros. Dito de uma maneira diferente: a autonomia pressupõe uma sociedade autônoma. A minha autonomia está imbricada e até depende da autonomia dos outros. É contrário do individualismo de um modo geral e do possessivo, em particular.
      Do mesmo modo, uma autonomia individual pressupõe uma educação para a liberdade coletiva, uma “Paideia”, como dizia Castoriadis. Esta seria o eixo central da autonomia social, por sua capacidade para criar sujeitos autônomos. O projeto de autonomia, segundo este ponto-de-vista, é o movimento histórico dos sujeitos para alcançar um auto instituição lúcida da sociedade, que é o sentido máximo da autonomia: dar-se as próprias leis. Mas é uma lei que significa autocriação da sociedade, que não reconhece fundamentos extra sociais.  Não depende de deuses, poderes acima dos homens, raça ou classe social superior. Depende apenas da própria sociedade.
      A sociedade da autonomia, portanto, não se dissolve num coletivismo estrito, socialista, ainda que implique na participação comunitária permanente. Também não se subordina à ideia de uma coleção de indivíduos proprietários ou despossuídos, distinguindo-se totalmente da democracia liberal clássica.
     O projeto de autonomia é uma atividade que não se detém, envolve a crítica das leis, o questionamento do sentido da sociedade, de suas significações imaginárias e da participação nas decisões coletivas. A ideia de autonomia é o oposto de todo totalitarismo. É a ruptura da heteronomia e da alienação. Constitui um esforço constante e incessante para “desalienar” os sujeitos. Tarefa a ser aplicada no sentido individual e coletivo.
     Uma sociedade autônoma é uma radicalização da democracia, isto é, do regime que permite a criação de novos direitos e instituições. Mas não é só isso: talvez seja a essência do que uma verdadeira democracia pode ser.



segunda-feira, 8 de maio de 2017

ARTIMANHAS DO PODER

     

                                                                  Reinaldo Lobo

     Freud formulou uma intrigante pergunta: como as pessoas interiorizam o poder? Quais as condições subjetivas para a aceitação das instituições, das regras, do comando do Estado e dos governos?
     Winnicott, outro psicanalista, ofereceu uma excelente resposta:  primeiro, é pela via da onipotência primitiva de todo ser humano, quando ainda é uma criancinha pequena. O bebê, sua majestade, sente controlar e dominar o mundo que “inventou“ e, ao mesmo tempo, encontrou ao seu redor. É um período de indiferenciação mágica e de sentimento irrefletido de poder. Cabe à mãe confirmar ou desmentir essa ilusão primária de poder absoluto. De preferência, uma boa mãe confirma e, depois, desilude gradualmente o seu bebê, impondo-lhe delicados limites.
      Aos poucos, tudo passa pela identificação com as figuras materna e paterna e, com frequência, a constituição de um “falso Eu” adaptativo, que torna o sujeito parcialmente integrado e possivelmente submisso à sociedade a que pertence. Um “falso Eu” é uma defesa sofisticada para evitar o sofrimento psíquico de se confrontar com o ambiente, escondendo assim um “verdadeiro Eu”, mais espontâneo e, às vezes, agressivo.
    Com a “falsificação de si mesmo”, para evitar perder amor e reconhecimento, adia-se o uso do núcleo mais verdadeiro, potencialmente perigoso para as relações interpessoais e sociais, para um dia, quem sabe, ser usado. Essa é uma saída exitosa e funcional. O preço é a submissão às leis do ambiente. Isso acompanha um certo grau de alienação e, às vezes, um sentimento de irrealidade.
    A falta de sentido junta-se a essa estranheza em relação ao mundo a que o sujeito pertence. Escritores como Kafka, Camus, Sartre, o filósofo Heidegger, Nietzsche, o teatrólogo Ionesco e até mesmo Homero, na Grécia Antiga, captaram o sentimento de absurdo que acomete seres humanos quanto ao seu pertencimento.
    Há várias saídas possíveis para essa situação de conflito entre sujeito e sociedade. Uma delas, é comportamento que foge do comum e adquire contornos antissociais. Seja pela via do heroísmo e da revolução, seja pelo caminho da delinquência. Uma outra, como vimos, é a adaptação submissa. Mas há também a rota da identificação mais ambiciosa com o poder, apropriando-se dele e dos seus métodos. O caminho de muitos políticos, corruptos ou não.
    Uma patologia particular de apropriação do poder, que evoca a onipotência primária do bebê, é o totalitarismo, a meu ver. Um colega psicanalista contemporâneo, Henrique Honigztejn, do Rio de Janeiro, chama de “onipotência secundária” esse fenômeno que faz o sujeito derivar para o nazismo ou outras formas de política totalitária.
     Estudando milhares de páginas dos “Diários” de Joseph Goebbels, o ministro da propaganda de Hitler, e a própria história do nazi fascismo, Honigztejn postula que, quando a relação mãe-bebê primitiva é falha e mal resolvida, surge nesses indivíduos uma espécie de onipotência compensatória que os leva até aos delírios de poder.  Seria interessante estudar também outras personagens históricas sob esse ângulo, como Stálin, Mao Tsé-tung e congêneres.
     A impressão é a de que se combinam nesses perfis de políticos a necessidade de reconhecimento, uma espécie de “prova de legitimidade”, a delinquência, a busca do “verdadeiro” sentido da vida, a ilusão onipotente desmedida, o senso de heroísmo e a submissão a crenças adquiridas. Estamos diante de uma patologia política particular.
    Na verdade, como diria Bion, estamos falando de personalidades com partes psicóticas adaptadas, com uma enorme fragilidade do Eu. Como se diz, egos frágeis e, por isso mesmo, perigosos.
     Mesmo que os casos citados sejam extremos, o gradiente de hipóteses combinatórias destes exemplos vale para qualquer vocação política e pode ser aplicado ao estudo do cotidiano das democracias e ao político comum. Não só existem casos de totalitários bem-sucedidos, mas também há os virtuais.
    Carl Schmitt, o estudioso da política, ele próprio um simpatizante do fascismo, viu um certo aspecto paranoico em toda a estrutura da vida política: é a divisão recorrente entre amigos e inimigos (amigos  versus inimigos), essência da prática partidária, inclusive nas democracias mais abertas.
    Ainda que existam políticos sérios e construtivos, que tiveram – pode-se supor-- mães razoavelmente sensíveis e suficientemente adequadas, também estes estão sujeitos às variáveis e aos potenciais que apontamos na relação com a sociedade.
    A corrupção proposta pelo fascínio do poder pode levar a uma interiorização derivada da onipotência e do resíduo de narcisismo de todos nós, em busca de alcançar objetivos pelos meios mais rápidos e a busca do prazer imediato.
    Existe uma contrapartida de toda patologia política vinda “de cima”, proposta pelo poder. É a adesão dos governados, que se identificam, às vezes, até com o agressor.
    Espera-se destes cidadãos comuns a submissão quase absoluta. Muitos perguntam: por que se vota em gente tão corrupta e reincidente no abuso de poder? Por que essa espécie de submissão voluntária aos poderosos, à espera de gratificações? De que tipo de gratificação profunda estamos falando?

   É que temos dentro de nós um potencial de onipotência e de corrupção para nos identificarmos com o que um político, corrupto ou não, tem – o desejo de poder. 

quinta-feira, 20 de abril de 2017

A GRANDE CATARSE

  
                                                                
                                                           Reinaldo Lobo

       Na tragédia grega, a catarse ocorre quando o espectador do teatro se identifica com os conflitos, a culpa e o destino terrível dos heróis e vivencia tudo isso de modo a expiar e a purgar intensamente suas próprias emoções, por um breve momento. No Brasil atual, os espectadores assistiram nos últimos dias à novela da corrupção como os gregos antigos experimentavam a tragédia, sem final feliz.
       Alguns estudiosos do teatro interpretaram o herói trágico como o lutador que se contrapõe ao mundo, a fim de impedir sua letargia. Sua destruição é inevitável, mas não lhe falta sentido. Sua época não estaria madura para o valor pelo qual luta, e cai, mas seu sacrifício abre caminho para um futuro melhor -- como mostraram Hebbel e do mesmo modo Hegel. A morte do herói deixa uma herança positiva.
       Por esse ângulo, não há mais heróis em nosso País. Nem herança positiva visível. As explosões catárticas provocadas pelas revelações expostas na semana passada pelo Ministério Público mostraram que o “sentido”  reivindicado por nossos políticos recobria apenas atos de corrupção de vários tipos. Não há esperança coletiva na corrupção.
      Foram desencadeadas 211 investigações envolvendo 98 políticos em Brasília, sendo 39 deputados de todos os principais partidos e diversos senadores importantes, mais três ex-presidentes da República, 9 governadores, um ministro do TCU, e uma lista de prefeitos e vereadores em todo o território nacional. Seu político predileto pode estar entre eles.
     Alguns inquéritos já estão avançados e mostram sinais evidentes de abuso de poder, malversação de dinheiro público e propinas num montante de 3.4 bilhões de dólares só nos últimos oito anos.
     Por mais polêmicas que as delações premiadas da Odebrecht possam causar, não há dúvida de que expuseram claramente o método de operar das empreiteiras junto aos governos e aos políticos, além dos seus esquemas de campanha e de caixa 2.
      Personagens tidos como exemplos de “ética na política” por certo período foram desmascarados agora. Líderes principais dos partidos mais importantes, como PSDB, PMDB e PT receberam dezenas de denúncias de crimes de peculato, favorecimento pessoal, tráfico de influência e crimes eleitorais.
      Foi uma experiência em escala nacional de catarse e de desidealização das figuras centrais que governaram o Brasil desde, pelo menos, a instauração da Nova República, em 1985, e a promulgação da Constituição pós-Ditadura, em 1988.
         Uma pequena digressão sobre catarse:
         Freud inaugurou a psicanálise utilizando o primitivo método catártico de Breuer e dos hipnotizadores, como forma de cura das neuroses. Consistia em deixar fluir as emoções, fantasias e a fala livre dos pacientes, seja sob hipnose, seja em estado de aparente vigília. Funcionava como descarga e alívio. Depressa, descobriu-se um fato surpreendente, a “dissociação da consciência”, que se torna clara a esse método ao mesmo tempo em que produz uma “ampliação da consciência”.
        Depois de discutir teorias discrepantes com Breuer, Freud logo descobriu que a dissociação da consciência é um fenômeno psicológico - não físico ou químico- e que estava ligado a conflitos emocionais ocultos dos pacientes, expelidos e reagidos na catarse. Daí, foi um passo para descobrir que todos temos atividade mental inconsciente, isto é, desconhecida de nós mesmos -- ideias, fantasias e emoções que não podem vir à tona, a não ser de forma indireta por sinais e sintomas.
        Um desses sintomas são a dissociação e a própria expressão intensa de emoções. Freud descobriu que elas têm um sentido.
        Estamos lembrando Freud e seus métodos apenas para dizer que é possível viver catarses coletivas que, se não forem devidamente conhecidas e interpretadas, de nada servirão, como a morte dos heróis sem legado futuro. Ou como nas novelas, que são falsas tragédias com final feliz, onde apenas os vilões caricaturais são enterrados.
        Corremos o risco, no Brasil de hoje, de mantermos uma dissociação da consciência e não enxergarmos mais fundo, em busca de um significado oculto. Não basta assistirmos passivos o desenrolar da tragédia política brasileira e o desnudamento do que temos denominado de Sistema Corrupto. Nunca se viu de forma tão clara como funciona o Sistema, mas é preciso ver o seu eixo constitutivo, que é o uso do Estado de forma autoritária pelo conluio entre os políticos e as empreiteiras privadas para evitar a concorrência. Os lobbies e os cartéis integram um esquema bem montado há décadas, como revelou o delator Emílio Odebrecht, dono da maior empreiteira.
       Talvez esteja no fundo da tragédia atual o autoritarismo da sociedade brasileira, girando em torno de uma elite antiquada e privilegiada que faz suas próprias regras e leis. É o que chamamos de “oligarquia liberal”, uma contradição entre os termos. Democracia não é isso.
         Não basta escandalizar-se, nem apenas sofrer as paixões do desnudamento da corrupção, mas é preciso localizar a raiz da promiscuidade político-institucional em que vivemos. Como sugeriu uma vez Sérgio Buarque de Holanda, no coração do homem cordial brasileiro estão ao mesmo tempo a submissão e a prepotência.
        Falando uma linguagem mais ainda psicanalítica, enquanto gozarmos com a tragédia alheia e não tomarmos consciência de que a corrupção é um assunto de todos nós, com o qual precisamos lidar aberta, pessoal e internamente, continuaremos dissociados, a idealizar heróis na forma de juízes, salvadores da pátria e políticos de ocasião.


quarta-feira, 19 de abril de 2017

 


        "O essencial do trabalho de Freud consistiu, talvez, na descoberta do elemento imaginário da 'psyché'-- no desvelamento das dimensões as mais profundas do que chamo de imaginação radical".
     
        Cornelius Castoriadis

    ("L'institution imaginaire de la société", pg. 381)

quarta-feira, 29 de março de 2017

O SISTEMA EM AÇÃO



                                                                Reinaldo Lobo

         O Brasil vai descobrindo, finalmente, a existência e a extensão do Sistema Corrupto. Várias provas foram fornecidas nos últimos dias. Ficamos sabendo que não se restringe a um esquema na Petrobrás, nos Correios ou qualquer ente isolado estatal, paraestatal ou privado. É uma verdadeira constelação de planetas e estrelas no meio de uma galáxia – a “oligarquia liberal” dominante.
         Soubemos, inclusive, que esse subsistema ilegal girando em nosso universo cultural e político é longevo e transgeracional. O patriarca da nossa maior empreiteira, o sênior Emilio Odebrecht, revelou em depoimento para a Operação Lava Jato que seu pai, avô de Marcelo, o neto detido, já pagava propina há décadas para operar junto ao Estado. Não é difícil deduzir que o mesmo processo acontece em outras gigantes do ramo.
         O Sistema existe estruturado desde, pelo menos, a Ditadura civil-militar que governou de 1964 a 1985, entrou pela Nova República, reina até agora pelas mãos do PMDB. Não nos enganemos: esse não é o único partido agente e beneficiário. Envolve todos os partidos, sem exceção. No governo de FHC, um jornalista, Paulo Francis, denunciou sua incrustação nas diretorias da Petrobrás, sem êxito. Acabou morrendo antes de dar as provas nem apresentar suas fontes de informação.
          Se não criaram, os militares foram os responsáveis pela consolidação do Sistema. Como se imaginavam nacionalistas, seus governos ditatoriais escolheram entregar a empreiteiras nacionais as obras do seu ufanismo sobre um “Brasil Grande”.
        Foi então que surgiram esses gigantescos conglomerados de “tocadores de obras” financiadas pelos bancos estatais. Participavam do esquema desde políticos como Paulo Maluf, militares como Mário Andreazza, até fundos de pensão e empresas privadas terceirizadas. Depois da Ditadura, já no período Sarney, o Sistema cresceu, “normalizou-se”, ficou colado nas diversas instituições do Estado. Foi quando se consagrou a expressão “mamar nas tetas do Estado”, dirigida como crítica tanto pelos liberais como pelos sociólogos marxistas.
        O governo FHC fez algo parecido com a invenção militar das empreiteiras locais, ao dar toda a força para fortalecer a concentração de um sistema bancário endógeno, criando grandes conglomerados de uma banca nacional, em detrimento da concorrência estrangeira. Hoje, esses monstros bancários monopolizam as decisões na esfera financeira e econômica, têm lucros exorbitantes, estratosféricos, agindo como verdadeiros cartéis. É esse controle da concorrência que impede a diminuição dos juros para o consumidor, mesmo quando o Banco Central derruba a taxa Selic.
        Nenhum político que quisesse se eleger estava isento de passar pelo filtro das empreiteiras, da rede bancária privada conivente, das indústrias e do agronegócio subsidiado. Os financiamentos de campanhas eleitorais contavam, como ainda contam, com a retribuição de favores dos partidos e políticos premiados.
        Os marxistas costumam dizer que o capitalismo é, por natureza, corrupto. Consideram essas acomodações sistêmicas apenas um efeito da corrupção essencial. Ora, não é dessa corrupção definida teoricamente que falamos. O subsistema da corrupção brasileira serve, sem dúvida, a uma oligarquia, mas tem sua especificidade histórica e suas peculiaridades.
       Muito já se escreveu sobre o patrimonialismo herdado da colonização portuguesa e o hábito de nossos políticos se considerarem donos do poder assim que o assumem. Vendem o poder como uma mercadoria que detêm.  Mas o mercado é restrito, passa por essa fusão dos interesses estatais com os privados, bem como por uma burocracia – escolhida muitas vezes pelos políticos e suas bancadas especiais: como a da Bala, do Boi e da Bíblia.
      Há ainda os gestores dos fundos de pensão, aparentemente regrados pelo Estado, mas que têm interesses e vida própria. Pelo menos um sociólogo, Chico de Oliveira, mostrou que o caso brasileiro não é de capitalismo “puro”, mas algo semelhante a um Ornitorrinco, aquele animal misto de ave e mamífero, raro, uma verdadeira exceção na escala evolutiva.
      O Sistema hoje parece ameaçado e em crise. Isso é “culpa do PT”. Ao entrar na cena política adquirindo poder, este introduziu o distributivismo e a participação popular, via Estado, nas benesses do consumo e da renda.
      Desequilibrou o Sistema, cuja única finalidade era beneficiar a “oligarquia liberal”, formada pela participação nas instituições e mantendo o  subsistema ilegal. Expôs sua contradição entre o funcionamento do crescimento das forças produtivas e o sistema de apropriação.
      A corrupção reinante mantinha o sistema capitalista em pleno funcionamento, até a entrada do caçula da corrupção, que trazia com ele, contudo, o vírus do distributivismo, chamado pelos ideólogos do Sistema de populismo.
      O atual governo do conglomerado PMDB-DEM-PSDB tem a missão de consertar o desequilíbrio, restaurando a exclusão das massas populares de qualquer participação. Para isso, é preciso primeiro “estancar a sangria” da Lava Jato e a perseguição aos seus membros genuínos, como sugeriu o mais claro e consciente de seus representantes, o senador Romero Jucá. A meta inicial era só pegar o PT, mas a Lava Jato fugiu do controle, uma vez que o Sistema considerava necessário também salvar “os outros”, como Aécio, Serra, Alckmin, Aloisio Nunes Ferreira, etc., cujos nomes foram revelados pelas delações das empreiteiras.
      Não está fácil. Os escândalos se sucedem. Um outro desequilíbrio ocorreu ao longo dos anos após a Ditadura, quando houve a independência da Polícia Federal e dos jovens Procuradores da República. Aparelhados para servir às instituições republicanas, os poderosos contavam com que eles se voltariam apenas contra os intrusos ou estranhos ao seu grupo. Mas a dinâmica do Judiciário, aliada à divulgação exacerbada pela própria mídia conservadora, impõe aos juízes que considerem as provas contra o Sistema que encontram no caminho.
      Essas provas estão ameaçando conter o furor antipopular do atual governo, ainda que este esteja inteiramente a serviço da oligarquia. Essa é hoje a principal contradição que faz com que até juízes do Supremo se comportem como verdadeiros militantes partidários, tentando sustentar a continuidade do Sistema Corrupto, pois está em jogo o próprio capitalismo, para que ele nunca acabe.


quinta-feira, 9 de março de 2017

A ESTUPIDEZ GENERALIZADA


                                                                              
                                                                              Reinaldo Lobo

     Um belo dia o francês Antoine, aos 25 anos, decidiu ser estúpido. Anuncia aos seus amigos mais próximos que, dali em diante, iria investir na idiotice. Tinha suas razões.
     Ser inteligente, apreciar leituras, não gostar da burocracia e de todos os seus disfarces, detestar ser manipulado e explorado, odiar ser obrigado a estudar assuntos desinteressantes, ser capaz de traduzir do aramaico, conhecer profundamente o cinema de Frank Capra e de Sam Peckinpah, “não o levaram muito longe”. Na verdade, a quase lugar algum.
     O seu plano perfeito foi o de se voltar para o cultivo da idiotice como forma de sobrevivência. Depois de tentar o alcoolismo e o suicídio, Antoine convenceu-se de que só a estupidez lhe permitiria ser plenamente aceito pela sociedade em que vive – a contemporânea.
     E o que pode ser, pergunta-se ele, mais estúpido do que ganhar dinheiro, muito dinheiro, e gastar em bens de consumo inúteis?
     Esse é o resumo do sentido inicial de um pequeno grande livro francês do jovem Martin Page, de 31 anos, possivelmente com motivos autobiográficos: ”Como me tornei um estúpido”, traduzido pela Editora Rocco em 2005 e relançado agora.
   Um texto nada estúpido, por sinal. Dele, disse o jornal “Le Monde” que se trata de “um romance coberto de razões e que revela um escritor que domina seu estilo tão bem quanto seu humor fino e sutil”.
    A contundência de Page está em revelar o “espírito do tempo” dominante na sociedade atual.  Apesar de se autodenominar “pós-moderna” ou de se situar para além da modernidade, parece imediatista, primitiva, gananciosa, violenta, regressiva, de uma ética rasteira movida por “interesses egoístas”. E conformista, quase de um conformismo generalizado.
    As exceções são pessoas como Martin Page e alguns outros que questionam a alienação dos cidadãos rotinizados do trabalho para casa, a balada e a TV, com seu lazer consumista e a submissão despolitizada. E, por que não, cretinizados?
     Se a modernidade era o questionamento permanente do que estava estabelecido, tanto em arte quanto em política ou filosofia, essa inquietação praticamente começou a desaparecer a partir de 1950. Essa é uma data arbitrária, mas é por volta dessa época que o demônio crítico que animava o Ocidente com seu sopro criador durante mais de dois séculos, como dizia Cornelius Castoriadis, começou a perder força até quase sumir hoje em dia.
     Não é caso de se exigir das pessoas em geral que leiam só bons livros, obras primas de gênios, mas pode-se dizer que o culto atual do pragmatismo e da imediatez ajuda e imbecilizar. Ah, dirão, mas as crianças leem e-mails e frequentam computadores, assistem a filmes e são obrigadas a redigir na internet. Sem dúvida, mas não é do QI nem de habilidades práticas de que se fala sobre a estupidez contemporânea. Citemos a ironia da personagem bem construída de Antoine:
      “Uma coisa que se pode admitir é que frequentar grandes obras, servir-se do seu próprio espírito, ler livros de gênios não asseguram a ninguém inteligência, mas tornam isso provável. Naturalmente, há pessoas que terão lido Freud, Platão, que saberão fazer trocadilhos com os “quarks” e ver a diferença entre os falcões-peregrinos e um peneireiro, e que, todavia, serão rematados imbecis. Não obstante, potencialmente, estando em contato com uma multidão de estímulos e deixando seu espírito frequentar uma atmosfera enriquecedora, a inteligência encontra terreno favorável para o seu desenvolvimento, exatamente como uma doença. Pois a inteligência é uma doença”.
      Ironia à parte, a inteligência é uma doença de que deveríamos nos livrar?
      A personagem tem certa razão em chamá-la de doença, pois produz inquietações. Até mesmo stress, quando se volta para o confronto com uma realidade estabelecida. “Pensar é dizer Não! ”, lembrava o filósofo Gaston Bachelard. É um tipo de doença contagiosa, que leva, contudo, ao progresso.
      O que estamos enfrentando no mundo atual é o contrário do progresso, ou, pelo menos a sua negação. Vejam o estado das artes e da política, por exemplo. Patinam sem sair do lugar. Não se pode dizer isso da tecnologia e da ciência, que avançam, mas em direção a quê? Qual a sua qualidade humana? Teria razão Heidegger quando desconfiava da ciência, pois ela imporia um déficit de Ser? 
       Há inteligência em toda parte, mas não parece acompanhada de sensatez. Há intelectuais, operários inteligentes, estrategistas do mercado que trabalham para reproduzir inteligentemente o sistema em que vivemos. O sistema é que é burro, digamos assim? A era da letargia do consumo e dos prazeres fugazes, dos laços rápidos e do whatsApp induz à estupidez? Dizer sim é muito fácil, talvez a situação seja mais complexa.
      Para o personagem Antoine, a estupidez é um grande refúgio e uma forma de se relacionar com os iguais na nossa vida cotidiana. Nesse sentido, a inteligência seria mesmo uma doença, algo negativo capaz de atrapalhar a convivência.
      No plano da técnica e da economia, a obsolescência rápida das máquinas, celulares e outras, mostra que a inteligência produz progresso, mas também problemas. Se algo existe hoje como um ser funcional, amanhã se torna um não-ser, inexistente. Será que desacelerar em vários planos o progresso, não seria tornar a convivência um pouco mais fácil e calma, aplainá-la, ainda que mais burra?
      Nosso herói Antoine pensa e repensa esses problemas do conformismo generalizado, apesar de almejar à estupidez. E diz, citando o roteirista de “Nascido para Matar”, Michael Herr, que comenta em seu brilhante livro sobre Stanley Kubrick :
    “A estupidez das pessoas não deriva de sua falta de inteligência, mas da sua falta de coragem.”

     

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

UMA OUTRA MILITÂNCIA

                          

                                                             Reinaldo Lobo*

        Vários são veganos e naturalistas, como os antigos anarquistas. Andam de bicicleta e combatem a cultura do automóvel. Dizem que a era dos combustíveis fósseis acabou, lutam pela preservação das reservas florestais e ecológicas, pela humanização das cidades e a sustentabilidade. Não se limitam a praticar esportes e se manterem “fit”; sua energia é canalizada para causas sociais e culturais. Lembram um pouco os antigos hippies, alguns vivem fora do perímetro urbano, mas muitos trabalham nas cidades como a maioria das pessoas.
        Aos poucos, vai surgindo no Brasil uma geração preocupada em dar um uso vital e humano aos espaços públicos, como salvar praças, destiná-las às crianças, aos idosos e à convivência. Em lugar de muros, preferem pontes – para citar a sugestão do Papa Francisco. Em lugar dos congestionamentos de trânsito, da poluição do ar e da falta de mobilidade, preferem andar a pé ou de metrô, valorizando o transporte público. Lutam pela energia eólica, os mananciais e fontes alternativas. São os campeões da reciclagem e do reaproveitamento da água.
       Alguns críticos ainda repetem a tolice de que esses são os “ecochatos”. Não são. Preparam o futuro.
       As próprias crianças, educadas na época do pós-fumo, da condenação dos cigarros de tabaco e dentro de uma consciência levemente ecológica, vão exigindo condutas dos pais, como se os educassem e, devagar, engrossarão as fileiras dessa militância discreta e menos eufórica do ponto de vista ideológico.      
      A consciência de estarmos perdendo a camada da atmosfera em que respiramos e vivemos impõe uma mudança de comportamento. Isso vai além dos partidos políticos e das causas tradicionais – o que não significa que outras lutas perderam o sentido, como, por exemplo, a dos Direitos Humanos. Curiosamente, essa nova geração de militantes é também tolerante com a diversidade de gêneros, as diferenças de opiniões e intolerante com a corrupção da política tradicional. Calcula-se que existam cerca de dois milhões de militantes sociais desse tipo no País.
      Como a mudança se passa na esfera dos comportamentos, é uma política relativamente silenciosa. Não faz alarde. Produz eventos, maratonas, apelo à saúde e ao bem-estar das pessoas, o que implica em reivindicações e crítica do caráter destrutivo da economia de consumo.
      Uma dessas críticas consiste em apontar a superficialidade, a banalização e a robotização dos consumidores. Algumas intervenções dessa nova militância, como as atividades ao lar livre num país ensolarado são uma denúncia direta dos shopping centers espalhados pela febre do consumo, cuja iluminação artificial em pleno dia cria ambientes de desperdício, clausuras de aprisionamento com foco exclusivo na sedução das compras. Num país como o nosso, cheio de Sol em todos os quadrantes, chega a ser bizarro que tenhamos tantos shoppings escuros e fechados, gastando energia preciosa  durante o dia  em ambientes concentracionários.
       Nas grandes cidades, como São Paulo, Rio, Porto Alegre, Salvador, etc., as praças públicas deterioram, entregues às vezes ao uso do crack e à ocupação dos sem teto. Os carros passam com motoristas apressados e indiferentes, pois a civilização do automóvel ignora os espaços públicos de virtual convivência. É verdade que os grandes problemas sociais agravam a situação, mas a condescendência geral nos informa: enquanto as desigualdades não forem corrigidas, nada mudará. É uma meia verdade.
     Se nada for feito pela política e as autoridades, ficaremos esperando uma revolução geral, por enquanto utópica. As praças e as pessoas estarão do mesmo jeito. Geralmente, nada é feito. A própria esquerda criticou o prefeito Haddad de São Paulo por priorizar pedestres e bicicletas, enfrentado pela primeira vez a cultura do automóvel. Quanto à direita, estava no seu papel de detonar tudo o que viesse de uma política da esquerda, sobretudo do PT, uma vez que sua visão de mundo prioriza a eficiência, a produção, o lucro, o empreendedorismo e a rapidez de resultados.
       O novo prefeito de São Paulo, João Dória Jr., percebeu essa falha da direita em se restringir a uma visão conservadora e procura combinar espertamente o empreendedorismo com uma tentativa de dar uma face humana. Como é uma política contraditória, que começou negando a ousadia de Haddad, premiada e elogiada internacionalmente, sua maquiagem de São Paulo ainda não se definiu, esbarrando na atitude equivocada de pintar de cinza os muros onde havia verdadeiras obras de arte em grafites. São Paulo era considerada uma das cidades com os melhores grafites no mundo, junto com Barcelona e Nova York.
       A característica principal da outra militância surgida no País são as ações sociais e ecológicas concretas, sem fazer ideologia disso. A crítica está no gesto, não no discurso. Não se propõe a traçar programa eleitoral ou tomar o poder. Como é --digamos-- uma política de baixo para cima, questionando as autoridades, age por atitudes críticas específicas e tem a tolerância da mídia conservadora. Atua na esfera da sociedade civil, mas não é privatista, uma vez que combate por melhores usos do espaço público e pela solidariedade comunitária.
      Penso que essas ações, principalmente da juventude, ajudam a instaurar uma nova estrutura ética na organização da sociedade, que assim não se limitará a políticos de vários matizes, sobretudo os corruptos. Devagar, bem devagar, vai-se criando uma postura educativa positiva que pode, um dia, tornar-se hegemônica. O italiano Antônio Gramsci aprovaria.
      Seria muito triste e pouco inteligente se todos os que se acham progressistas se limitassem a julgar ingênua, inconsequente ou ideologicamente equivocada essa outra geração espontaneamente contestadora, acreditando -- aí sim, erradamente-- que a mudança só se faz com sindicatos, barricadas ou mimeógrafos, como no passado.