terça-feira, 20 de março de 2018

UMA CULTURA DA VINGANÇA




                                                                         Reinaldo Lobo

          Para que haja oxigênio da vida psíquica é preciso um ambiente de suficiente reconhecimento, aceitação, confirmação e validação. Quando não existe essa atmosfera, a pessoa busca adaptações para o seu Eu nas formas mais difíceis, às vezes bizarras. Uma delas é o crime.
        Boa parte da violência, ainda que não toda, existente na cultura norte-americana ultracompetitiva, deriva do que podem ser chamados de ferimentos narcísicos. Um sujeito humilhado, sentindo-se um “loser” (perdedor), com o seu Eu ameaçado de decomposição, arma-se com a facilidade encontrada nos Estados Unidos e sai à caça de seus agressores reais ou imaginários.
       Todos já vimos isso no cinema, mas também nos noticiários. Um clássico da cultura norte-americana foi aquele filme “Um dia de Fúria”, com Michael Douglas no papel central. Um homem desempregado perde a família e o direito de ver o filho, enche uma sacola de armas e passa o dia se vingando de todos os que possam humilhá-lo ou que representem um sistema de constrangimento ao indivíduo. Tem um detetive encarregado de prendê-lo, em sua última semana de trabalho, que revela uma certa empatia com o furioso, pois entende que não se trata de um psicopata, mas de um ser humano profundamente ferido em seu amor próprio.
        É isso que acontece em uma cultura da vingança: a pessoa humilhada sente-se no direito de buscar “retribution”, que, em inglês, significa um gesto vingativo.
         A cultura norte-americana é complexa, não se resume obviamente a isso, mas apresenta características de um meio ambiente que exige, por um lado, o “sucesso”, a liberdade e o culto do Eu individual, às vezes à custa de enormes sacrifícios e a qualquer preço. Ao mesmo tempo, por outro lado, prega o comunitarismo e a participação coletiva. O indivíduo precisa ser um “winner” (um vencedor) e, se não o conseguir, tem o direito a uma “segunda chance”. O reconhecimento coletivo está atrelado ao “sucesso”.
        O peso dessas exigências sobre adolescentes e crianças é bem grande. Se somarmos a esse “superego cruel” o bombardeio midiático dos filmes, séries, internet, redes sociais e também as notícias das guerras no exterior de seus compatriotas, no Iraque, no Afeganistão, contra as “ameaças terroristas” imaginárias ou verdadeiras, assim como a própria criminalidade interna, teremos um quadro assustador que explica, em parte, os massacres nas escolas e os tiroteios a bala. E, se surge um presidente à moda do faroeste como Trump, sugerindo que os professores deem aula armados, então o quadro fica ainda mais preocupante.
      O cowboy e os super-heróis são, em parte, os modelos da liberdade individual no imaginário instituído norte-americano. Andar armado é uma expressão do individualismo possessivo, em defesa da propriedade e da família. Mas quando a própria família está confusa, os pais estão perdidos em seus valores e buscam especialistas para tudo na educação dos filhos, o resultado pode ser uma exacerbação do narcisismo e da autoafirmação. Entrar armado na escola é o sintoma de uma cultura da onipotência e da fragilidade do Eu.
       O exemplo de “Um Dia de Fúria” expõe um caso de “furor narcísico”, quando o sujeito está desmoronando pelo ferimento em seu orgulho pessoal, que é o nome popular do narcisismo. O narcisismo não é sempre patológico nem uma coisa feia, pois significa também amor próprio, isto é, investimento pulsional no próprio Eu (“self”), condição para sua integração.
       Pessoas com vulnerabilidade narcísica, que não tiveram na infância suficiente acolhimento ou sofreram algum mal-entendido nessa área, tendem a formar defesas narcísicas exacerbadas, como uma “pele psíquica” grossa, onde o outro é ignorado, desprezado e/ou uma ameaça. Em outros casos, apresentam defesas tão frágeis (“pele fina”) que desmoronam diante de qualquer crítica, ameaças externas ou mesmo internas, na forma de ideias autocríticas e melancólicas.
       Ninguém pode acreditar que seja saudável uma pessoa que se arma para fuzilar outras em público, efeito da raiva por se sentir inferiorizada e humilhada. Nem que esteja usando uma defesa adequada. Mesmo que a “causa” alegada seja boa. Algumas dessas patologias do narcisismo conduzem o sujeito para o terrorismo como forma de justificar a sua raiva. Jovem ou não, criança, adolescente ou adulto, o indivíduo que extravasa sua raiva solitária pela supressão do outro, racionalizando sua dificuldade na forma de religião e ideologia, está revelando seu entranhamento narcísico e sua impossibilidade que considerar alguém como um ser humano igual.
     A crença íntima, mais ou menos consciente, do assassino solitário é a de que seu Eu será restaurado pela vingança brutal.
      Nesses casos, o assassinato é um gesto de puro egoísmo, como se diz. Não há nada de heroico, mas apenas desespero e falta de saída psíquica, como no suicídio. Aliás, muitos dos autores de massacres se matam em seguida, pois têm uma noção do que fizeram, além da possível culpa que acompanha a vergonha (um sentimento narcísico típico) e a impossibilidade de racionalizar seu gesto em sua radicalidade. A motivação vem da ferida narcísica e não da situação errada em que o mundo possa se encontrar. A violência, em si mesma, não tem justificação.
      Entender os motivos da violência não significa justificá-la. Alguns atos violentos são tão radicais que revelam um superego de tal modo cruel e punitivo, uma espécie de repressão tão severa -- como dizia, por exemplo, Melanie Klein--, que só restam a polícia ou a morte como formas de amenizá-la. Esse é um paradoxo do ideal de ego patológico: a exigência moral é tanta, a punição à transgressão e à imperfeição é tamanha, que só resta ao sujeito se tornar um psicopata.  Faltou-lhe em grau máximo um ambiente psíquico seguro-- na sua história pessoal e familiar e nos seus primeiros relacionamentos-- que oxigenasse o seu Eu com respeito mútuo, dignidade em lugar de orgulho, amor relacional e amor próprio suficientes. O indivíduo é tomado pelos seus conflitos, mas prevalece uma enorme onipotência, uma dose suplementar de crença onipotente, pois a transição suave da doce ilusão de onipotência primária falhou.
     Seria simplista supor que só a existência das armas liberadas explicaria a violência na cultura norte-americana. Existem os valores de cowboys amedrontados, a desigualdade social que precisa ser vencida heroicamente por “winners”, a vergonha de não ter reconhecimento e a patologia egocêntrica que não afeta só norte-americanos. Todos nós estamos sujeitos à fúria narcísica, em crises ao longo da vida ou por cicatrizes e brechas na nossa identidade pessoal.
    As armas liberadas, que para nós não se justificam, são um sintoma, não a causa, do mal-estar civilizatório em que nos encontramos.

 

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

UMA MUTAÇÃO SOCIAL




                                                                     Reinaldo Lobo

        Ainda não vivemos inteiramente no mundo de “Black Mirror”, a série de terror tecnológico, mas caminhamos para uma época de automação no trabalho e de controle eletrônico por uma nova classe de comando na sociedade: a “cognicracia”. São os “nerds” e “geeks”, detentores do conhecimento e das informações, que servem de agentes da globalização e do capital financeiro na economia atual. Parece que as máquinas assumem o controle, contudo, é “a economia, estupido!”, já dizia Bill Clinton.
        Tem havido uma rápida e nada sutil mutação social no trabalho e na subjetividade humana. Está difícil até mesmo considerarmos a imagem tradicional de “humanidade” nesta era de autômatos, cartões, celulares, chips, robôs, drones e controle da privacidade.
       Não nos enganemos: o que move essa transformação é a lógica do capital, agora internacionalizado ao extremo na sua forma financeira, particularmente perversa.
        As novas gerações são convidadas a ressaltar a figura do economista em detrimento do político. Do “técnico” em lugar do cidadão. Os efeitos da mutação em escala global da economia são a precarização do emprego, a desterritorialização, o declínio da burguesia e do proletariado e sua substituição gradual pelo “cognitariado” e a classe executiva financeira, a submissão dos trabalhadores por dispositivos de automação e controle, cujos resultados incluem um obstáculo para criar formas de solidariedade e de relações do tipo pessoal ou corpo a corpo.
       Esse quadro tem sido muito bem descrito nos livros e entrevistas do filósofo italiano Franco “Bifo” Berardi, que acaba de lançar “Fenomenologia do fim. Sensibilidade e mutação conectiva (Caixa Preta)”, sobre a verdadeira mutação antropológica pela qual estaria passando hoje a humanidade. Ativista dos movimentos autonomistas em seu país, Berardi é também autor, entre outros, de “A Fábrica da Infelicidade”; “Geração Pós-alfa” e “A sublevação”, obras onde aborda especificamente essas transformações da subjetividade e do trabalho na economia do capitalismo avançado ou “pós moderno”.
      Como Zygmunt Bauman, o filósofo italiano vê uma especificidade no capitalismo atual, que não se resume à destruição de valores tradicionais ou à dissolução no ar de tudo o que era sólido. Vai além: estamos diante da construção de uma nova concepção de humanidade, isto é, uma diferente forma de ver e conceber um ser humano, sua mente e seu comportamento. Diferente de Bauman, Berardi não se detém na questão do tempo (tempo líquido e velocidade), mas considera isso implícito e descreve a estrutura comunicacional submetida ao capital.
       O “fim” de que fala Berardi é a transformação do humano, devida à “abstração e à aceleração frenética provocadas pela transição tecnológica em direção ao meio digital”.
      Numa entrevista concedida ao jornal argentino “Clarín”, Berardi mostra que “a exposição incessante da sociedade a fluxos de informação, em convergência com o novo modo do capitalismo (o que chama de “absolutismo capitalista”), corrói as capacidades humanas de empatia, supera as possibilidades neuronais de atenção, debilita as condições para transformar a esfera social através da vontade política”. Tudo isso tem como efeito a perturbação ou a eliminação: do gozo, da crítica, da decisão política, da sensibilidade (a faculdade de compreender o “tácito”), do erotismo (a habilidade “de perceber o corpo do outro como uma extensão viva do meu próprio corpo”).
      Berardi considera que os efeitos dessa automação humana sobre nossa sensibilidade são desastrosos e acredita que, “diante da perda de eficácia da política, está na hora de desconectar as “concatenações estressantes” que só conduzem ao pânico, à solidão e à depressão”.
      A mutação cognitiva e antropológica a que assistimos é uma parte importante da decadência da política e da ação no espaço público. Berardi tem razão em apontar o impacto disso. Mas, ao nosso ver, a emergência dos meios eletrônicos tem duas faces: uma, é negativa, pois envolve, aliena e distrai o cidadão de seu papel e o isola; a outra, pode ter um potencial positivo de resistência – a rede social de comunicação instantânea e internacional possibilita aglutinar as pessoas de diferentes locais e mobilizar massas.
     Essa visão distópica da modernidade, apesar de conter lúgubres verdades importantes, peca pela falta de visão dialética. Há contradições evidentes na forma pela qual se apresenta a comunicação eletrônica que está disponibilizada para o consumo. Não só os nerds e geeks do capital têm acesso a ela.  Uma face é unidimensional e induz à submissão automática; a outra é expansiva do contato e da mobilização. Grandes movimentos mundiais foram convocados por meios eletrônicos. Os hackers existem e figuras como Julian Assange e Edward Snowden representam expressões dessa possibilidade de resistência.
     Uma face democrática de participação direta por meios eletrônicos também pode ser vista no futuro da humanidade. Aliás, já acontece na forma de vários tipos de interação. Consultas populares, plebiscitos, voto eletrônico, pesquisas de opinião pública, controle de qualidade, recalls e outros recursos apontam para uma democratização participativa a ser explorada a favor da cidadania. Não é impossível sermos imaginativos e vislumbrarmos uma “Eclésia” grega onde os participantes possam tomar decisões rápidas sobre questões coletivas.
     Há, sem dúvida, uma decadência da política tradicional e uma exaltação do economista, assim como do tecnólogo da comunicação a serviço do capital. Isso tem consequências negativas e destrutivas. Mas há também o oposto disso, que é a possibilidade de resistência e de resgate da política por outros meios.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O ANO DA GRAÇA DE 1968



                                                           Reinaldo Lobo

      Há 50 anos, aconteceu um milagre no mundo. Não foi nada religioso nem um produto da fé. Foi um espantoso evento histórico, inesperado por todos: uma brecha se abriu nos sistemas de poder mundiais. Por essa fenda, passaram vietcongs, mulheres, negros e minorias, estudantes de Paris e de São Paulo, de San Francisco, de Praga e de Tóquio, artistas, desempregados, hippies e roqueiros. Atrás desse cortejo, entraram os operários e trabalhadores em geral, puxados por antigos partidos comunistas e outras denominações ideológicas.
      Por um instante apenas, um grão na história de civilização, a humanidade inteira se viu diante de uma revolução diferente, inédita, que parecia mudar quase todos os valores, derrubar preconceitos milenares e abrir um futuro mais brilhante dos que surgiram após as revoluções francesa, de 1789, e russa, de 1917.
     As mulheres, que vinham entrando para o mercado de trabalho e para a cultura, passaram corajosamente por essa brecha e começaram a transformação que o nosso escritor Tristão de Ataíde considerou a única revolução exitosa do século XX, a feminina.
     Os negros norte-americanos puseram-se em marchas históricas, conquistaram os direitos civis e o sonho de Martin Luther King, assassinado em abril desse ano luminoso e violento, começaria sua realização na eleição de Barack Obama, décadas depois.
     Nas ruas de Paris e de várias cidades europeias, houve um surto de imaginação e elas se encheram de pichações criativas, como: “É proibido proibir”; “A Imaginação ao Poder”; “Rompam as cadeias infernais”; “Debaixo dos paralelepípedos, a praia”;  “Sejam realistas: peçam o impossível”.
    Foi o tempo de Bob Dylan e de John Lennon, que invocavam a paz e o amor. Foi o tempo da liberação sexual, da anti-psiquiatria, da ascensão do respeito à diversidade e  das comunidades alternativas--as “famílias” formadas por jovens e adultos que se escolhiam para viver juntos.
     Por um breve momento histórico, tudo parecia possível: a queda das oligarquias liberais ocidentais e das burocracias comunistas. No Ocidente e no Leste, surgiram fenômenos de massa como as rebeliões em Berkeley, manifestações em Londres e Belfast, e a Revolução Cultural chinesa, percebida por Mao Tsé-tung e canalizada em seu proveito. Na Polônia, na Hungria, na então Tchecoslováquia, estudantes saíram às ruas e pediram liberdade para todos. Pode-se dizer hoje, sem risco de errar, que a queda da União Soviética começou no Ano da Graça de 1968, com a chama anti-burocrática iniciada.
       Na América Latina, na África e na Ásia, os movimentos ocorreram principalmente guerrilhas de libertação nacional, para tentar pôr abaixo ditaduras sangrentas e regimes corruptos. Os jovens latino-americanos perceberam -- na esteira da Revolução Cubana e inspirados por um ícone de 68, Che Guevara-- que era possível fazer uma revolução fora dos partidos comunistas e até contra eles.
       No sudeste da Ásia, no minúsculo Vietnã o ano começou com a maior ofensiva guerrilheira contra mais de 400 mil soldados ocupantes norte-americanos, a ofensiva do Ano Novo, temporada das chuvas e da lama. Nesse momento, a guerra virou completamente a favor dos guerrilheiros vietcongs e das tropas norte-vietnamitas e culminou com a primeira grande derrota do império norte-americano desde o seu triunfo na Segunda Guerra Mundial.
      Os conservadores costumam dizer que a guerra do Vietnã foi perdida no Ocidente, em função dos movimentos a favor da paz dentro dos EUA . Talvez eles tenham razão, em parte, pois houve mesmo uma onda mundial de protestos pacifistas e,  nos EUA, as mortes dos jovens norte-americanos foram transmitidas pela primeira vez na TV. Mães no Texas ou em Nova York  chegaram a ver seus filhos mortos ou mutilados, carregados nas macas de guerra.
      Vários historiadores contemporâneos, sobretudo os conservadores, fazem uma avaliação negativa de 1968, que, afinal, não chegaria a se consumar integralmente como uma revolução. Alguns ressaltam o fato de não ter surgido nenhum poder e nenhum regime derivado do movimento.
     Ora,  o objetivo dos vários levantes internacionais de 1968 foi justamente o de negar os regimes existentes e de criticar as formas clássicas de poder. Foram movimentos libertários, que desconstruíram a política tradicional e propuseram novas relações no interior das sociedades existentes, assim como novas formas de poder menos hierárquicas e mais participativas. Alguns deles mostraram justamente que o poder está difundido na estrutura das sociedades e que só a criação de contra poderes e de uma contracultura poderiam fazer avançar a emancipação humana.
     Intelectuais franceses de direita exaltam 1968 por sua crítica do totalitarismo e um pretenso elogio do individualismo, que viriam desembocar no pós-modernismo e no neoliberalismo. Essa é uma interpretação equivocada e uma distorção ideológica. Assim como os comunistas tradicionais, que lamentam os movimentos daquele ano por não chegarem a tomar nenhum Palácio de Inverno e por abrirem caminho para uma reação da direita, os pensadores de direita confundiram com individualismo a busca pela emancipação, des-alienação e autonomia.  
     1968 é mesmo um ano que não acabou--como disse uma vez, com outro significado, o escritor brasileiro Zuenir Ventura. Foi um período que, além de ter aberto a discussão sobre o sentido de uma revolução, estimulou uma transvaloração de todos os valores existentes, introduziu uma nova noção de luta social, abriu caminho para os movimentos LGBT, feministas, ecológicos e antirracistas e deixa o futuro aberto para a criação de novas maneiras de resolver as questões políticas e sociais.

      Surgiu, em consequência dele, uma disputa sobre os comportamentos e valores que-- pode-se dizer-- deu origem a uma esquerda e a uma direita que se digladiam na esfera “comportamental”. Mas, sobretudo, o ano de 1968 representou a esperança de liberdade para toda uma geração de seres humanos, inclusive para aqueles que ainda estão por vir.

A ERA DO LUSCO-FUSCO


                                                                     
                                                                      Reinaldo Lobo


              Não é noite nem dia, a luz não é clara nem escura. É a hora do lusco-fusco, o crepúsculo vespertino ou matutino, quando o Sol se põe ou está nascendo. É o momento mais perigoso nas estradas, os motoristas adormecem ao volante, enxergam com dificuldade e as estatísticas exigem muita atenção e farol aceso. Um instante de transição perigoso.
              Nossa época está um pouco assim, no lusco-fusco. As significações sociais estão derretendo, várias instituições mudam com a velocidade da internet, a política oficial faliu,  as identidades pessoais e sociais são difíceis de discernir : pais não sabem o que fazer, homens inseguros, mulheres em estado de dúvida quanto ao seu lugar, filhos em plena mutação no ciberespaço e nos games, as famílias com várias configurações, a sexualidade cambiante, diversa e complexa, as imagens rápidas povoam a mídia, os computadores pessoais e os sonhos são distópicos. Têm-se a impressão de que não temos mais uma humanidade, mas fractais do que outrora foi o ser humano.
             Vivemos em uma época interessante, ainda que o antigo sábio chinês dissesse que Deus deveria nos poupar de viver em épocas interessantes, pois costumam ser as mais desastrosas.
            Na verdade, não sabemos, por enquanto, se o lusco-fusco em que estamos mergulhados é um crepúsculo ou um alvorecer, mas há uma evidente falta de clareza e visibilidade.  Nos anos setenta, na virada para o que Bauman chamou de “modernidade líquida”, o poeta mexicano Octávio Paz usou uma metáfora meteorológica para dizer que estávamos entrando num “tempo nublado”. Os sintomas seriam a decadência das ideologias que sustentavam a existência da Guerra Fria, a revolução cultural de Maio de 1968, o levante das novas gerações no mundo todo, a ascensão das mulheres ao trabalho e à igualdade de direitos, a explosão dos direitos civis nos EUA e na Europa, a natureza indiferenciada das novas   sociedades pós-industriais e os efeitos na arte, como a mutação nas narrativas, na poesia e nas expressões visuais.
          Hoje, depois da globalização e das resistências a ela, a situação ficou mais embaçada. A emergência do terrorismo, do novo racismo contra refugiados e a rejeição a culturas diferentes, trouxeram traços complicados ao quadro civilizatório que pareciam superados pela modernidade.   A atitude adequada diante desse panorama difuso não parece ser julgar – julgar as mudanças como se fossem más ou boas--, mas observar, primeiro, antes do juízo da razão prática.
            Há indicações de que o terrorismo veio para fazer parte da vida do século XXI, assim como o individualismo possessivo do capitalismo deve permanecer por algum tempo no nosso horizonte. Estão-se “naturalizando”. A teoria difundida nas últimas décadas de que “todos são vítimas e, portanto, não há carrascos”, parece prevalecer no clima depressivo do lusco-fusco vespertino. Se estivermos em uma era de decadência, os sinais e os novos hábitos apontam para uma crise civilizatória sem precedentes – e não temos a bússola funcional para dar uma direção melhor aos acontecimentos.
            Houve um período em que muitos esperávamos uma revolução redentora, capaz de emancipar de uma só vez a humanidade. Era a época do triunfo da razão, do progresso, da educação e dos “amanhãs que cantam”.
           Hoje, desconfiamos não só do conceito de revolução como da própria ideia de humanidade. Como diria Woody Allen: “Deus morreu, Marx morreu, o Homem morreu, e eu não estou passando muito bem”.
           Os filósofos da “modernidade líquida” não mais tratam a questão da identidade com os modelos racionais tradicionais. Um cientista Prêmio Nobel, Ylia Prigogine, escreveu um livro “A Era da Incerteza”, partindo do interior da própria ciência, que hoje desconfia de seus axiomas e postulados, da objetividade e da verdade, em função da Física contemporânea que trabalha com o infinitamente pequeno e suas variações.
            Atualmente, talvez seja preciso desenvolver uma reflexão que seja mais relacionada à dinâmica do transitório e do efêmero do que do universal e perene, mas sem perder de vista a dimensão histórica que nos é comum a todos. Não é tarefa fácil.
           A dificuldade de enxergar no crepúsculo ou no amanhecer leva muita gente para as certezas da religião, daí, talvez, a grande difusão e crescimento dos fundamentalismos. O fanatismo decorrente causa traumas sociais, políticos, o fechamento dos horizontes, o reaparecimento do autoritarismo e do totalitarismo e, possivelmente, pode ser o nosso maior desafio atual.  A luta principal, hoje, como diz Amós Óz, ocorre entre as pessoas de lucidez democrática e o fanatismo. Mas a questão fundamental -- a principal contradição ética e política--, continua a ser entre a civilização e a barbárie.
         É razoável pensar que existem formas de religião, maneiras de fazer política e estruturas sociais que conduzem mais os homens e mulheres à barbárie do que outras. Também é o caso de pensarmos, ao contrário, em modos de se comunicar e de usar os meios eletrônicos disponíveis que nos emancipem mais do que mídia atual e sua enxurrada de informação mal digerida.
        Buscar e imaginar essas alternativas capazes de abrir caminho no nevoeiro ou enxergar melhor na hora do lusco-fusco pode ser a única esperança real para os novos anos que temos pela frente.
 

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

FALSAS LEMBRANÇAS



                                                              Reinaldo Lobo*

       O paciente lembra para poder esquecer, dizia Freud. Dito de outra maneira, uma boa análise pode facilitar a revelação da lembrança, mas com a finalidade de recuperar a saúde do paciente. O psicanalista propicia a análise das defesas que formam obstáculos à recordação e uma das maiores dificuldades para recordar é a própria lembrança. “A lembrança falsificada”, escreve Freud em seu ensaio “Lembrança Encobridora”, já em 1899, “é a primeira de que tomamos consciência”.
     Em sua análise de neuróticos, ele concebeu que aquilo que foi pensado antes como recordação -- seja uma narrativa ou uma imagem interiorizada do passado--, não é de fato uma lembrança até que tenha sido interpretada. Em outras palavras, até que seja analisada e elaborada, ela é o que Freud chama de uma lembrança encobridora, uma fantasia sobre o passado. Assim, inúmeras recordações banais podem esconder conflitos insuspeitados pela consciência, imagens simples da própria infância podem revelar verdades dolorosas distorcidas e conflitos traumáticos inconscientes, os quais precisam ser recordados em sua verdadeira dimensão, para que a pessoa que sofre se recupere. Lacan dirá mais tarde, em seus “Escritos”, com seu gosto pelos paradoxos: “O paciente não está curado porque se lembra, ele se lembra porque está curado”.  
       Usando a metáfora psicanalítica, pode-se dizer que o Brasil continuará muito doente enquanto não resgatar de verdade seu passado, e elaborar seus traumas e conflitos soterrados. Entre nós, temos o hábito de varrer tudo isso para debaixo do tapete, passar por cima dos conflitos em nome da conciliação nacional.
      A nossa anistia assimétrica, no final da Ditadura, foi assim: os crimes cometidos em nome do Estado não foram apurados, os criminosos estão soltos até hoje e personagens como o coronel Ustra se foram sem prestar contas à Justiça. Tudo em nome de um projeto de reconciliação proposto pela oligarquia dominante, com vistas a um hipotético futuro de paz social e política. Há até quem tenha saudades desse período ditatorial nefasto, pintado infantilmente com as cores de um sonho desperto e as tintas da idealização.
      A nossa miséria social tem o mesmo destino: sonhamos com tempos de milagres econômicos como se não fossem parte de um processo cíclico de crises capitalistas que não nos tiram do subdesenvolvimento e que agravam a desigualdade entre as classes. Também idealizamos outros povos mais desenvolvidos, como se a disparidade em escala internacional e o desenvolvimento desigual e combinado não existissem.
      Não há conservadorismo maior do que o daquelas pessoas que dizem existir apenas uma “crise moral” na sociedade brasileira, negando nosso passado colonial de exploração, de escravidão e de hipocrisia constante de nossas elites dominantes. Falar na maravilha da produção agrícola, negando uma histórica concentração fundiária no País e a condição subalterna de fornecedores de matéria prima aos mercados internacionais, enquanto a população rural ainda padece de trabalho escravo, é o mesmo que um neurótico falar de seu passado infantil feliz, sem reconhecer as causas do seu sofrimento.
       No Brasil, temos o hábito de lembrar o que nos convém: as lindas paisagens, a natureza “benévola” do povo em geral, recortes de anos dourados, como os de JK e aspirações a “País do Futuro”, e nos habituamos a negar as destruições da floresta amazônica, a poluição desenfreada das grandes cidades, a violência urbana que mata mais do que as guerras da Síria e do Iraque, a conversão nacional ao tráfico de cocaína mais intenso do mundo, superando a Colômbia, a Bolívia, além de muitas outras mazelas.
       O sistema corrupto revelado pela Operação Lava Jato inspirou nostalgia em muitas pessoas em relação ao regime civil-militar de 64 a 85, como se este não fosse uma fonte importante da montagem do próprio sistema corrupto. Foram os “nacionalistas” militares que deram toda a força possível para que surgissem os conglomerados de empreiteiras brasileiras como a Camargo Correia, Odebrecht, Hidroservice, etc., que se alimentavam e algumas ainda se alimentam das grandes obras públicas do governo. Preocupados com a logística e a estratégia de defesa, os militares preferiram priorizar grupos de empresários nacionais em detrimento das empreiteiras norte-americanas ou de quaisquer outros países.
     Sabemos hoje, examinadas as causas e não apenas a superfície e os sintomas da “crise moral” brasileira, que os célebres “tocadores de obras” Paulo Maluf e Mário Andreazza, foram recordistas mundiais, nas proporções do dinheiro da época, nesse curioso fenômeno do superfaturamento. Os complexos viários de Maluf, sua “aventura” da Paulipetro, gastaram milhões denunciados pela imprensa amordaçada e nunca investigados devidamente. A ponte Rio-Niterói e a Transamazônica tiveram, àquela época, o metro quadrado mais caro do planeta, mas os nostálgicos da Ditadura fazem questão de não recordar exatamente.
      Os que justificam esse passado de exploração e violência tendem a esquecer e a banalizar. Fazendo novamente uma analogia metafórica com a situação analítica, vale a pena dizer que uma análise do passado mostra que as lembranças banalizadas, aparentemente periféricas e desimportantes tendem a omitir o principal porque, na maioria das vezes revelam o principal em sua forma e até sinais do conteúdo. O mesmo vale para a negação: quando uma pessoa diz “não que eu queira ofender ninguém”, podemos ter um indício de que teve a intenção ou já está ofendendo.
      Por isso, é difícil acreditar, hoje, que não seja uma grande mentira quando os governantes falam de “reformas” para corrigir injustiças do passado, sem examinar o que foram essas injustiças e esse passado. Suas intenções declaradas não só não correspondem aos gestos, como partem de autoridades ilegítimas e suspeitas de apenas repetir o passado. Em psicanálise, o sintoma gira em torno da repetição; é a pura repetição. Há que interpretar e mostrar. Sem isso, o paciente continua doente.


terça-feira, 5 de dezembro de 2017

UM PENSADOR DA LIBERDADE



                                                                  Reinaldo Lobo

      Na nossa época da rapidez, da imagem fugaz, do consumo infinito, da destruição das significações, da retirada da população da esfera política, da decomposição dos instrumentos de direção da sociedade, do espetáculo da alienação e da superficialidade, faz uma falta imensa uma figura da grandeza do filósofo Cornelius Castoriadis, falecido há exatos 20 anos, em dezembro de 1997.
      Filósofo e psicanalista, o greco-francês Castoriadis (1922) não só diagnosticou a insignificância de nossa época como também apontou o prognóstico implícito e as possibilidades de cura.
     Desde que saiu em 1945 de Atenas, onde estudou economia, direito e filosofia, o filósofo elaborou uma obra diversificada na França, trabalhando décadas como economista da OCDE, entidade que deu origem à União Europeia. Militante revolucionário, fundou com outro filósofo, Claude Lefort, a revista “Socialismo ou Barbárie”, motivo de um grande impacto intelectual junto às esquerdas por sua originalidade de pensamento e sua crítica do totalitarismo.
     Ainda que a obra singular de Castoriadis alcance campos tão diferentes quanto a psicanálise, a economia, a política, a história e a filosofia, ela tem uma unidade em torno de um problema básico – colocar em ação o conceito de imaginário social para gerar e alimentar uma filosofia da história e da transformação.
    O pensamento castoriadiano estabelece a liberdade humana e a imaginação radical, que movem o indivíduo e a sociedade, como os centros da história, cuja natureza é, em grande parte, indeterminada. A imaginação não é definida por ele como representação ou simples combinatória de imagens, ou como erro e distorção, mas como um fluxo de prazer representativo, imagens, fantasias e afetos que atravessam permanentemente o sujeito, de forma aleatória e indeterminada. A imaginação é o disruptivo em nós. Equivale à “vontade” de Nietzsche, só para dar uma ideia aproximada.
    Apesar de não negar os conflitos e as determinantes sociais, Castoriadis privilegia a liberdade como fundamento da ação humana. Ele se situa, assim, no polo oposto da filosofia liberal e do marxismo mais determinista. Ambas as filosofias postulam uma racionalidade calcada no inelutável progresso econômico e tecnológico (em direção ao crescimento da liberdade, no liberalismo), determinados pelo primado da economia e da propriedade (no caso da ortodoxia marxista e, também, do liberalismo). A filosofia marxista pressupõe não só a primazia do fator econômico em todas as instâncias do corpo social, mas também as inescapáveis Leis da História e a chegada inevitável do comunismo.
    Ao contrário desses dois modelos, o projeto claro de Castoriadis é o de pensar a sociedade (e suas instituições) como uma criação humana que não é previamente determinada. A sociedade se constitui não só sobre uma dimensão de base material, mas também pela criação de significações imaginárias sociais (como a religião, os mitos, os ritos e outras obras culturais) que estabelecem as relações entre os homens e que dão sentido às suas ações.
     O filósofo foi marxista durante um certo tempo e militou na corrente trotskista, da qual divergiu porque esta sustentava que a União Soviética era um “Estado proletário degenerado pela burocracia”.  Para Castoriadis a sociedade nascida da Revolução de 1917 não era apenas uma distorção da via correta do marxismo, mas uma entidade nova, com novas relações de exploração de classes, com uma hipertrofia estatal que procurava abranger tudo e todos, isto é, um sistema totalitário. Um novo monstro: o totalitarismo.
     Ao contrário de muitos ex-trotskistas e ex-marxistas, ele não foi para a direita, mas reconstruiu o pensamento de esquerda a partir do anti-capitalismo e do anti-totalitarismo. Não se limitou a uma “decisão ideológica”, impensada e cômoda; foi mais fundo e construiu uma complexa nova filosofia da História.
    Conhecedor de Platão e de Aristóteles, com sólida formação na história da Grécia antiga, Castoriadis não se preocupou a apenas em “desconstruir” (palavra da moda) a filosofia clássica ou o pensamento político – procurou renová-lo de um modo original, apesar da resistência que encontrou nos meios acadêmicos por ter uma cultura erudita, polivalente, e que não ignorou a prática política revolucionária.
     As referências de Castoriadis foram a Paidéia grega, a filosofia clássica, sobretudo Aristóteles; o marxismo do primeiro Marx (o chamado “jovem Marx”); Hegel; os economistas tradicionais e os contemporâneos; a psicanálise, que ele praticou desde os anos 60 até morrer. Em relação a essa última, dizia que era um “fervoroso freudiano”, mas se nota também duas influências importantes, que ele admitiu para mim pessoalmente: Melanie Klein e Lacan.
    Do lacanismo, dizia que aproveitou os erros e os exageros, sobretudo na questão da linguagem e também teria aprendido com Lacan “o que não fazer”. Criticava a “impostura” dos lacanianos ao exacerbar a importância do silêncio na análise e seu equívoco em confundir a lei simbólica com a Lei real, da sociedade efetiva. Curiosamente, há uma semelhança muito grande entre a teoria e a prática de Castoriadis com um autor pós-kleiniano jamais citado: Winnicott, que, como ele, dizia haver uma lacuna a ser preenchida na teoria freudiana da sublimação. Para ambos, a cultura não se explica exclusivamente por um deslocamento sublimatório dos indivíduos, mas há uma autonomia do cultural que interage com o individual, e vice-versa.
    Do ponto-de-vista castoriadiano, a imaginação e o imaginário são constitutivos do homem e da sociedade, cujas metas paralelas poderiam ser a autonomia e a democracia calcada na ação coletiva “de baixo para cima”. A sociedade é uma entidade (uma “mônada”, termo que emprestou de Leibniz) que se autocria organizando-se sobre o que se apresenta a ela em decorrência de um fundo comum de significações (o imaginário social, constituído por crenças, ideologias, mitos, etc.). O “projeto de autonomia” consiste naquilo que define a palavra autonomia: dar-se as próprias leis. Um sujeito é autônomo quando se emancipa das autoridades paternas e vai para o espaço público lidar com as instâncias e instituições de autoridade, legítimas ou não.
   Vivemos, dizia Castoriadis, sob as democracias liberais, sob as primitivas ou sob o totalitarismo, em sociedade heterônomas, onde a liberdade vem “de fora” e “de cima”. Dependemos de leis abstratas que não criamos, de deuses a que nos submetemos, de autoridades impostas. Apenas em alguns momentos da História, o projeto de autonomia prosperou: na Grécia, com a criação da democracia incipiente, nas revoluções antimonárquicas do século XVIII, nos movimentos operários nascentes do século XIX e nas suas sequências de lutas do século XX, como as revoluções russa de 1917 e a húngara, de 1956, autonomista e antitotalitária.
   Hoje, o projeto de autonomia humana consiste em revolucionar a política para tirar a humanidade da alternativa entre democracia liberal capitalista e regimes autoritários falsamente socialistas. A revolução, misto de utopia no sentido mais nobre e de reatualização das ideias do jovem Marx, não será necessariamente feita de sangue ou da tomada de palácios. Será a progressiva consciência de homens lúcidos e da vontade democrática dos povos diante dos abusos do poder: lucidez de que podem fazer suas próprias leis e modificá-las permanentemente. Será uma revolução permanente.
    
      



quinta-feira, 16 de novembro de 2017

A MALÍCIA IDEOLÓGICA


                
                                                                         Reinaldo Lobo

       Puxa, a gente não pode ser nem “um pouquinho racista”, meio de “brincadeira”, que logo vem a turma dos Direitos Humanos querendo impor o “politicamente correto”! Esses chatos sem senso de humor estão inventando, “de cima para baixo, uma sociedade mal-humorada, neurastênica e hostil à liberdade de expressão”.
       Esse raciocínio simplista acima, difundido pela mídia conservadora, como a revista Veja, contém vários truques maliciosos próprios da ideologia. O discurso ideológico tem a capacidade de inverter tudo, esconder o principal e apresentar uma racionalização—no sentido psicanalítico, uma justificativa defensiva para evitar o contato com alguma verdade incômoda ou inconveniente.
      Um exemplo: quando se diz no papel “todos são iguais perante a Lei”  --uma vez que existem na realidade os “Mais Iguais” do que outros--, essa declaração é pura falsificação e generalização ideológica.
      O primeiro truque proposto pelos argumentos em defesa do racismo “leve” é a suposição de que a pessoa que faz “piada de preto”, “piada de judeu”, “piada sobre mulher”, como se fossem apenas “piada de papagaio”, está apenas “se divertindo”. Ora, ela está expressando um preconceito enraizado na sociedade a fim de extravasar seu desprezo e seu ódio contra segmentos discriminados da população.
      Uma parte da sociedade brasileira já aprendeu a distinguir o teor das piadas racistas, graças à assimilação de valores contemporâneos mais avançados e às lutas das comunidades negras para sua integração e reconhecimento. Não somos mais um país tão atrasado que ainda canta a “mulher do cabelo duro”, sem saber “qual o pente” que a penteia. Nem uma nação exclusiva de uma elite que, além de matar mais jovens negros no mundo, proclamava que “negro ou c...na entrada, ou c... na saída”.
      A juventude negra hoje se revolta e a classe média branca tem um pingo de vergonha do que nossa sociedade tem feito há séculos com sua população mais rejeitada e pobre. A própria classe média evoluiu e essa vergonha é o resultado de valores mais recentes adquiridos pelos embates históricos aqui e em outras partes do mundo.
     O “politicamente correto”, assim chamado pelos recalcitrantes e ambíguos das nossas classes dominantes, é desprezado por setores que, justamente, estão na vanguarda da defesa de valores ultrapassados.
     O segundo grande truque dos sutis argumentos racistas é a inversão do papel de vítima. Quem é apresentada como vítima generalizada das críticas ao racismo é a própria sociedade, em sua totalidade, e não a sua parte verdadeiramente vitimada, como os negros e pobres. E quem critica o racismo é acusado de “impor de cima para baixo”, como se a nossa sociedade hierarquizada e estruturada em torno de poder e privilégios.  Ou seja, são esses “intelectuais esquerdistas” que querem doutrinar o povo e torná-lo racista ao contrário, de negros discriminando brancos. A sociedade “neurasténica” não é a da imposição e a educação por meio dos valores de privilegiados, mas é “inventada” justamente por quem resiste a esses valores.
      O fato é que existem hoje setores da sociedade, como as mulheres, os gays, os jovens simpatizantes de causas progressistas e libertárias, muito mais sensíveis às violações dos direitos civis e humanos. E isso incomoda os setores dominantes, que fingem aderir à democracia, mas, na prática, resistem a que seja exercida.
      Quando a causa se torna relativamente inócua, toleram um pouco mais. Aconteceu uma trajetória curiosa com a defesa do meio ambiente: no início, os setores dominantes e suas gazetas acusavam todos ecologistas de serem “ecochatos”. A citada revista Veja repetiu várias vezes o refrão contra os ambientalistas, até pela pena dos mesmos articulistas, como se a defesa da vida e a sobrevivência do planeta fossem lutas vãs.
      Foram necessários anos de provas científicas e evidências da vida cotidiana para que nossas gazetas mudassem um pouco o tom das críticas. À medida em que surgiu uma consciência mundial a respeito do clima e que a própria população começou a perceber a necessidade de uma visão mais séria sobre a sustentabilidade, o assunto da esfera do sarcasmo e do riso irônico e foi parar nas capas e manchetes.
     A democracia permite a criação de novos direitos, como o do divórcio, do aborto, do casamento de pessoas do mesmo sexo. Isso assombra as áreas mais conservadoras do País, como as Igrejas e os ideólogos fundamentalistas. No caso do racismo, o perigo ainda é maior: os conservadores temem que se “crie” abertamente uma “luta racial”, que, por sinal, já existe em parte nos morros e favelas, sob outra denominação.
    Enquanto houver distância social entre as raças, tudo bem, existirá a “paz racial”. Os arautos do conservadorismo querem manter a crença hipócrita de que não há racismo enquanto estiver debaixo do tapete. O que muitos de nós já percebemos é que o racismo cotidiano “escapa” por meio de desabafos involuntários -- ou não-- na forma de piadas e agressões mais ou menos veladas. O extravasamento do ódio racial não é mais encarado como uma brincadeira com a “nega fulô” ou a “negrinha sarará”, como acontecia até o século passado. E a há uma razão para isso: a modernização, que acarreta uma maior consciência negra.
      A chave para compreender a ideologia conservadora é a operação que torna vítimas os poderosos, e as verdadeiras vítimas são acusadas de ter o poder de impor suas ideias e valores. Essa é a inversão predileta de certa mídia.
     Os conservadores na mídia corporativa, nas classes dominantes e na classe média branca são saudosistas de um País que foi o último a abolir a escravidão e que mantinha o negro “no seu devido lugar”.

    Como estamos vivendo uma onda de conservadorismo aqui e no mundo, é de se temer que a democracia esteja ameaçada e que os saudosistas de velhos valores vençam. Já estão elogiando até mesmo Bolsonaro, que ridicularizou os simpatizantes dos quilombolas, e condenando aquela juíza que repreendeu o deputado dizendo que “política não é piada”. Talvez nossas classes dominantes mereçam um candidato a presidente que seja, ele próprio, uma perigosa piada de mau gosto.