quarta-feira, 2 de maio de 2018

UMA REVOLUÇÃO SEM PODER





                                                                        Reinaldo Lobo


    O aniversário de 50 anos da revolução francesa de Maio de 1968, data já inscrita na História, não será festejado em muitos lugares. É fácil de compreender. Há uma onda de conformismo conservador mundial, a mídia comercial e os governos não se interessam tanto por relembrar fatos incômodos, pois uma verdadeira brecha se abriu naquela ocasião no núcleo do capitalismo mundial.
    Por um curto período, o mundo parou para assistir aos “acontecimentos de Paris” e entreviu uma amostra do que poderia ser o futuro de solidariedade e de liberdade para a Humanidade. Um grupo de estudantes deu início em fins de abril daquele ano a pequenas manifestações contra o capitalismo burocrático francês que se tornariam, em maio, uma verdadeira revolução, com greves operárias generalizadas, tomadas de fábricas, ocupação de universidades, paralisia da política tradicional e bloqueios da ação policial e militar, atingindo os negócios, o comércio e o próprio governo.
      Ao mesmo tempo em que atacavam as instituições do poder, os estudantes, trabalhadores e cidadãos em geral que saíam às ruas cantando hinos libertários e portando cartazes criativos, ofereciam novas formas de solidariedade social, e ações mobilizadoras de autogoverno. Espalharam ideias de autogestão, cooperativismo e democracia direta por toda a França, com repercussões na Europa, na Ásia e nas Américas. Propunham igualmente novas formas de relações pessoais, menos alienadas ou robotizadas pelo universo do trabalho capitalista, com a defesa do amor livre, da imaginação criadora, da arte e da participação de todos, com respeito à diversidade e ao outro.
     Os manifestantes de Paris tiveram a adesão das centrais operárias tradicionais, mas criticavam igualmente a esquerda clássica, autoritária, ligada aos totalitarismos soviético e chinês, conservadora sob muitos aspectos, incapaz de sair dos moldes da burocracia sindical, acomodada e adaptada ao sistema capitalista.
     A revolução foi derrotada? Sim e não. Na visão comum tradicional da política, o movimento deveria tomar o poder no estilo dos golpes de Estado ou das revoluções russa e chinesa, com a tomada de palácios, o que não aconteceu. O movimento foi sobretudo espontâneo, inesperado e , até certo ponto, apenas pedagógico. Não tinha uma lista de finalidades e de estratégias de domínio. Além disso, o mais importante é que procurava oferecer alternativas ao poder, propondo uma direção da sociedade política orientada de baixo para cima. Uma sociedade mais horizontal do que vertical e hierarquizada. Um outro ponto central era demonstrar as possibilidades organizacionais da sociedade em função da preservação do meio ambiente, da defesa dos Direitos Humanos e da igualdade de direitos para as raças e os sexos. Tudo isso era muito novo, como por exemplo, a explosão do feminismo, e abalou as relações sociais naquele momento do século XX, quando havia uma sociedade francesa e europeia conservadora na esfera comportamental.
       Maio de 68 foi sintonizado, no espírito do tempo, com  as inúmeras rebeliões negras nos EUA, com a resistência contra guerra do Vietnã e a luta contra as ditaduras latino-americanas e africanas. Personagens como Daniel Cohn Bendit, Ernesto Che Guevara, Patrice Lumumba e Ho Chi Minh têm efígies semelhantes, ainda que não idênticas, no registro da História. Todos defenderam revoluções populares e anticapitalistas. Nem todos foram “vencedores” no sentido tradicional da palavra, mas simbolizam até hoje os sonhos de emancipação e de igualdade.
       A “Nova Desordem”, como disse uma vez Claude Lefort, representou uma ruptura nas identidades políticas , sociais e até pessoais, ao ponto de ter-se tornado difícil classificar com precisão sociológica o que houve exatamente. Com o tempo, começaram as reinterpretações dos acontecimentos e de seu significado.
      Os mais conservadores julgaram que foi apenas uma crise episódica, vencida manu militari pelo governo gaullista. Mas surgiram também os historiadores revisionistas , estes mais sutis,  como Luc Ferry, que virou ministro da Educação de Sarkozy, de direita,  Alain Renaut, filósofo neoliberal e Gilles Lipovetsky, que fez sucesso na onda “pós-modernista” com sua “Era do Vazio”.
      Todos esses autores tentaram estabelecer uma ponte entre Maio de 68 e um suposto “Pensamento 68”, que incluiria todo o pós-estruturalismo francês e até mesmo os ideólogos midiáticos autointitulados “novos filósofos”, pois essas duas vertentes representariam uma espécie de “superação do marxismo”. Ou seja, procuraram desidratar o anti-capitalismo do movimento, reduzindo-o a um fenômeno (pós)marxista, para poder situá-lo, paradoxalmente, à direita.
      Mesmo criticando o que chamaram de “pensamento 68”, pois ainda conteria elementos antiliberais, os autores citados acima deduziram do movimento e da filosofia francesa da época uma espécie de elogio do individualismo, que teria derivado para um capitalismo neoliberal , do egoísmo consumista e possessivo contemporâneo.
       Para tomarmos apenas um tema de Maio de 68 :  propôs a crítica feroz do vazio, do tédio no trabalho e do individualismo capitalistas e preconizou a “imaginação ao poder”. Lipovetsky é o ideólogo do “vazio pós-moderno” e do individualismo dos “laços frouxos e passageiros”, que nada mais são do que o velho vazio da sociedade de consumo.
       As releituras conservadoras de Maio de 68, que descrevem o movimento como um trauma, mais parecem o revisionismo sobre o Holocausto feito pelos antissemitas. Ocorre que a revolução também aconteceu e despertou vivas esperanças e, como o Holocausto, repercute até hoje e não pode ser esquecida. 
    

quinta-feira, 19 de abril de 2018

LULA LÁ



                                                   Reinaldo Lobo

      Na cadeia ou na Presidência da República? Num caixão, abatido a tiros, ou vivo nos braços da multidão? “Lá”, onde? Neste momento, Lula está preso, para gozo de todos os que o chamam de ladrão, criminoso, bandido que não merece o convívio social normal dos “cidadãos de bem”. Essa fatia da sociedade quer transformá-lo numa espécie de Fernandinho Beira Mar, justamente o oposto da imagem de um Nelson Mandela oferecida pelos petistas.
     Num momento de “simpatia” e de “generosidade”, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso soltou uma frase, quando pediam o impeachment de Lula em plena época do “mensalão”, em 2005 : “Não se pode impedir ou cassar um líder social e político como ele, com a adesão e a dimensão que tem. Ele não é um Collor nem um Maluf”. Não é mesmo.
     No ano seguinte, Lula seria reeleito com mais de 60% dos votos contra Geraldo Alckmin, do PSDB, que obteve 39%.
     Ao mesmo tempo, ainda em 2005, os tucanos começaram a campanha para fazê-lo “sangrar até morrer”, que culminaria no impeachment de Dilma Rousseff e ,agora, em sua prisão. Assim funciona a política, em particular no estilo dos  tucanos, hábeis em duplicidade.
    Lula merece estar preso? Será essa a questão ou tudo não passa de uma oportuna ação política destinada a remover o líder de sua dimensão , a fim de que se possa “resolver“ a crise econômica do capitalismo brasileiro pelas mãos conservadoras e neoliberais?
     O “timing” e a severidade da Operação Lava Jato, coincidência ou não, ajudaram muito a montar o quadro eleitoral deste ano, do qual Lula parece definitivamente excluído. Por enquanto, “Lá” significa a prisão, com doze anos e meio de sentença pela frente.
     Há quem diga que a prisão poderia ser relaxada após as eleições, quando estiver eleito um adequado presidente de “centro-direita”, ao gosto do “Mercado”, cujo perfil coincide notavelmente com o de Geraldo Alckmin, o “Santo” da Odebrecht, suspeito de vários desvios em São Paulo, e que acaba de ser salvo da Lava Jato pelo STJ.  
    Os que se prendem às regras formais e aos rituais da Justiça usam isso como argumento para justificar a prisão. Dizem: “Se foi condenado, então não pode deixar de ser preso”. Não há presunção de inocência, mas preconceito. Geralmente ignoram a campanha de difamação e de redução da pessoa a um corpo, a uma coisa destinada a ser presa, e ficam com os “fatos”, neste caso altamente discutíveis em matéria de provas. Há uma enorme quantidade de “fake news” e de mentiras programadas sobre Lula e sua família. No imaginário de inúmeros eleitores da direita, os filhos de Lula seriam as pessoas mais ricas do País, sendo que a maioria deles está desempregada.
       O processo de Lula foi isento e sem conotação política? Não. Os procuradores e juízes que o acusaram são pessoas comuns, sujeitas não só aos princípios e cânones da Lei, mas suscetíveis de ideologia implícita da sua condição social e pelo moralismo desencadeado com a revelação da corrupção localizada no Sistema Corrupto, esquema transformado em rotina, envolvendo Estado e empreiteiras.  Há que acrescentar como parte dessa operação a própria mídia, usada ostensiva e seletivamente pelo juiz Moro em suas revelações e vazamentos de frases atribuídas aos denunciados delatores.
     As investigações da Lava Jato foram estimuladas por Dilma, autora de uma “faxina” ministerial e fonte da legislação sobre delações premiadas que permitiram o avanço da Força Tarefa de Curitiba. Dilma queria barrar os abusos na Petrobrás, tentando mudar as diretorias. Isso pode ter-lhe valido o furor de personagens como Eduardo Cunha, que permaneceu na presidência da Câmara até cumprir a missão de derrubá-la.
     A prisão de Lula coincide com a culminância de um crescimento das forças de extrema direita, uma real onda conservadora, não só no Brasil, mas no continente americano, norte e sul, e na Europa. É como se um pêndulo oscilasse da esquerda para direita na tarefa de enfrentar a crise do capital. Os brasileiros não escaparam. Entramos com a pior parte nessa tarefa, a mais repressiva e turbulenta, com uma política de combate à recessão com mais recessão e retirada de direitos sociais.
     O impeachment de Dilma ficou conhecido como o golpe paraguaio, pois foi dado no Congresso, com apoio no Judiciário, como no Paraguai que teve seu presidente Fernando Lugo derrubado. A mesma fórmula foi usada em Honduras, o que faz pensar em uma sequência lógica e articulada.
     Esse desvio à direita pode ter consequências desastrosas para a própria economia. Certamente terá efeitos por um bom tempo na esfera do trabalho e das classes pobres, se uma solução de compromisso não for encontrada. Paradoxalmente, Lula era, e é, a liderança mais capaz de acordos e compromissos, às vezes até temerários.
     Sua prisão deixa os conservadores com uma tarefa difícil A direita quer governar isolada no poder, apesar de ser péssima de voto. É difícil saber como o fará. Ainda que hoje tenha público, formado no antipetismo e no ódio radical, a direita não tem lideranças capazes de empolgar ou de formar um bloco transparente e hegemônico.  O único personagem disponível, Bolsonaro, é fascista demais para ser palatável pela “centro direita”. Então, ela vai recorrer a um novo golpe ou permanecer aliada dos setores mais corruptos da política do PMDB, PP, PTB, DEM e um longo desfile de pequenos partidos de compra e venda?
     O mais provável é que tente pavimentar o caminho para um Alckmin, mas correndo o risco de perder para uma Marina -- a que come quieta e balança na sua rede para a direita e à esquerda. Seria um novo momento para a elite brasileira, despreparada para encarar de verdade o povo.
      Lula é o nosso político mais controverso, mas também o único capaz de fazer as ligações e alianças que não excluam o povo pobre. A direita sabe disso. Quando pediram ao general De Gaulle que prendesse Jean Paul Sartre na rebelião de iniciada em Maio de 1968, ele respondeu: ”Não se prende Voltaire.” De Gaulle era um conservador inteligente, não fez isso por generosidade ou piedade.
      Lula não é um Voltaire, mas merece respeito como ex-presidente e como a figura pública que definiu um lugar do Brasil no mundo. Por mais que insistam em manter a prisão de Lula, volta sempre a frase de Fernando Henrique Cardoso: “não se prende um líder social e político dessa dimensão”.
     

segunda-feira, 9 de abril de 2018

O MECANISMO




                                                                  Reinaldo Lobo

         O Brasil passa por uma aguda politização. Os que só enxergam os efeitos negativos da crise política, gostariam da volta a uma pasmaceira oligárquica onde quem tem poder, manda, e quem é prudente obedece. O principal mérito da investigação conhecida como Lava Jato, independente das intenções pessoais de quem a iniciou, foi expor aos olhos de todos o que tenho chamado aqui de Sistema Corrupto, que vem de longe, de bem longe na história do País.
         O resultado foi uma fissura política no Sistema, agravada pela presença de um partido político na aliança no poder, o PT, que era um estranho no ninho da oligarquia tradicional e uma ofensa ideológica às classes dominantes. A liberdade para investigar a corrupção, mudando a legislação, fortalecendo a Polícia Federal e a Procuradoria, partiu paradoxalmente desse mesmo partido que se tornaria o alvo predileto do núcleo inicial da Lava Jato. Os mais conservadores viram nisso uma oportunidade de se livrar do PT, empalmando um genérico combate à corrupção. O impeachment da presidente petista agravou a crise política, em lugar de resolvê-la, desestabilizando as fundações da instituição central, a própria Presidência.
        A consequência foi um presidencialismo de coalizão entre suspeitos e denunciados que desejavam encerrar ali a Lava Jato, mas a dinâmica judicial e policial desencadeada não parou nem “estancou a sangria”, segundo a célebre frase do Richelieu do Sistema, o senador Jucá. Essa coalizão tem funcionado a favor do chefe maior, o presidente sem votos populares, Michel Temer.
       Da fissura política, com quase todos os políticos dos principais partidos envolvidos e acusados, da cínica permanência do grupo de Temer no comando da Câmara e do Senado, bem como da sua interferência em áreas da Justiça e da Polícia, resultou uma feroz radicalização no seio da sociedade e os anti-petistas enfurecidos ganharam fôlego com as condenações e possível exclusão de Lula das eleições presidenciais.
       Um detalhe importante: entre os que pedem a rápida e imediata prisão de Lula não estão apenas os direitistas contumazes, os proto-fascistas, mas também uma gama de setores sociais politizados e semi-politizados que acreditam de boa-fé que isso abriria o caminho para a prisão e purgação de todos os políticos na República envolvidos em corrupção.
       Esse sentimento genérico, bastante ingênuo, que supervalorizou um simples juiz de primeira instância, Sérgio Moro, é o mesmo que parece animar a polêmica série de TV “O Mecanismo”, lançada perigosamente no contexto de um ano eleitoral de absoluta indefinição até agora.
       A discussão sobre se essa série mente ou não -- da qual o autor José Padilha se defende, neste caso malandramente, dizendo que é ficção--, não é a questão mais importante. A principal, a meu ver, é se Padilha não caiu na mesma crença genérica de que basta combater os criminosos para eliminar o crime.
      Os filmes desse diretor enfocam, geralmente, a realidade social e política sob a ótica e o estilo do policial, transformando a ação em uma luta entre o Bem e o Mal a ser vencida pelos “homens de bem”. Nessa luta, a força bruta é bem-vinda, como em qualquer filme de ação “B” norte-americano. Foi assim, inclusive, nos lançamentos sobre a “Tropa de Elite”. Agora, “O Mecanismo” parece até a continuação de uma trilogia.
      A complexidade do Sistema Corrupto -- suas entranhas empresariais e políticas no bojo do Estado, a longa promiscuidade histórica do Estado Patrimonial brasileiro, que vem desde a colônia, passando pelo autoritarismo do Estado Novo, da Ditadura civil-militar de 1964, atingindo a Nova República--, não pode ser reduzida a um caso de polícia. Não há mocinhos, nem apenas bandidos nesse quadro. Os policiais, promotores e juízes também não são santos, nem isentos.
     A própria ruptura jurídico-policial imposta pela Lava Jato, aproveitada politicamente por forças que queriam tomar o governo de assalto justamente para perpetuar o Sistema e promover sua autodefesa, foi uma avalanche com repercussões que aprofundaram não só a crise política, mas a econômica. O combate à recessão com mais recessão, seguido pelo atual governo, é uma consequência do ambiente de “terra arrasada” decorrente de uma brutal e repentina brecha na estrutura política, social e econômica do País.
     A emergência de um político simplório como Jair Bolsonaro no gosto de parte das classes médias e do lumpen, nesse ambiente de redução da política a um assunto policial, não deveria surpreender ninguém. Ele é um fruto dessa mentalidade policial expressa na série da TV.
     Num ponto, o diretor Padilha está certo e diz a verdade: há um mecanismo que dá forma à corrupção brasileira. Só que o acionamento e as funções desse sistema são de natureza histórico-social e institucional, muito mais complexos do que parecem a um juiz de primeira instância ou a um policial.
    O sonho de um herói ou de um grupo de heróis idealizados que enfrentem a corrupção criminosa ignora a dura realidade de uma sociedade constituída por setores mandonistas com o chicote na mão há séculos, acrescida de estratos que já naturalizaram a exploração, o oportunismo e as táticas de submissão e compadrio.
    Os políticos que hoje mandam no País já armaram, inclusive, sua própria autodefesa para as próximas eleições, com regras eleitorais que garantem a permanência dos grandes partidos na posse do dinheiro publicitário. E nada garante que, mesmo sem a permissão de financiamento empresarial, o fluxo da dinheirama não se dê pelo caixa dois já conhecido de todos.
     Como enfrentar, então, esse sistema? Há um impasse agudo nesse momento, dentro do seu próprio núcleo sistêmico e na sociedade. Contudo, é desse mesmo ponto sem retorno que pode fluir um conjunto de ações da sociedade civil, hoje mais politizada e atenta aos movimentos tanto dos políticos quanto do judiciário. Ainda existe um povo neste País, por mais viciado que esteja em ser apenas espectador (e telespectador), que se tem movimentado em manifestações, redes sociais e mesmo numa nova atitude quanto ao voto. Não há por que desesperar, nem contar apenas com a polícia.
    A intensa corrupção contemporânea -- dizem alguns sociólogos bem informados--, resulta, sobretudo, de um movimento interno de sociedades em desenvolvimento quando a mobilidade social se intensifica entre as classes, com alguns querendo cortar caminho para a ascensão via Estado e outros se revoltando com a própria exclusão. É uma dinâmica complexa, agravada por uma sociedade como a existente no Brasil, ainda marcada por valores em conflito entre o arcaico o moderno—um Sarney, coronelzão do Norte, convive com políticos sulistas, mais antenados no futuro.
    A engenharia política para desmontar o Sistema Corrupto ainda está sendo elaborada, mas não se resume certamente a prisões, delações e desmoralizações públicas, mesmo que estas possam fazer parte do quadro. Essa visão simplista é tão prejudicial quanto a própria corrupção. É preciso lembrar a frase lapidar de Antônio Carlos Jobim, nosso grande compositor: “O Brasil não é para amadores”.

terça-feira, 20 de março de 2018

UMA CULTURA DA VINGANÇA




                                                                         Reinaldo Lobo

          Para que haja oxigênio da vida psíquica é preciso um ambiente de suficiente reconhecimento, aceitação, confirmação e validação. Quando não existe essa atmosfera, a pessoa busca adaptações para o seu Eu nas formas mais difíceis, às vezes bizarras. Uma delas é o crime.
        Boa parte da violência, ainda que não toda, existente na cultura norte-americana ultracompetitiva, deriva do que podem ser chamados de ferimentos narcísicos. Um sujeito humilhado, sentindo-se um “loser” (perdedor), com o seu Eu ameaçado de decomposição, arma-se com a facilidade encontrada nos Estados Unidos e sai à caça de seus agressores reais ou imaginários.
       Todos já vimos isso no cinema, mas também nos noticiários. Um clássico da cultura norte-americana foi aquele filme “Um dia de Fúria”, com Michael Douglas no papel central. Um homem desempregado perde a família e o direito de ver o filho, enche uma sacola de armas e passa o dia se vingando de todos os que possam humilhá-lo ou que representem um sistema de constrangimento ao indivíduo. Tem um detetive encarregado de prendê-lo, em sua última semana de trabalho, que revela uma certa empatia com o furioso, pois entende que não se trata de um psicopata, mas de um ser humano profundamente ferido em seu amor próprio.
        É isso que acontece em uma cultura da vingança: a pessoa humilhada sente-se no direito de buscar “retribution”, que, em inglês, significa um gesto vingativo.
         A cultura norte-americana é complexa, não se resume obviamente a isso, mas apresenta características de um meio ambiente que exige, por um lado, o “sucesso”, a liberdade e o culto do Eu individual, às vezes à custa de enormes sacrifícios e a qualquer preço. Ao mesmo tempo, por outro lado, prega o comunitarismo e a participação coletiva. O indivíduo precisa ser um “winner” (um vencedor) e, se não o conseguir, tem o direito a uma “segunda chance”. O reconhecimento coletivo está atrelado ao “sucesso”.
        O peso dessas exigências sobre adolescentes e crianças é bem grande. Se somarmos a esse “superego cruel” o bombardeio midiático dos filmes, séries, internet, redes sociais e também as notícias das guerras no exterior de seus compatriotas, no Iraque, no Afeganistão, contra as “ameaças terroristas” imaginárias ou verdadeiras, assim como a própria criminalidade interna, teremos um quadro assustador que explica, em parte, os massacres nas escolas e os tiroteios a bala. E, se surge um presidente à moda do faroeste como Trump, sugerindo que os professores deem aula armados, então o quadro fica ainda mais preocupante.
      O cowboy e os super-heróis são, em parte, os modelos da liberdade individual no imaginário instituído norte-americano. Andar armado é uma expressão do individualismo possessivo, em defesa da propriedade e da família. Mas quando a própria família está confusa, os pais estão perdidos em seus valores e buscam especialistas para tudo na educação dos filhos, o resultado pode ser uma exacerbação do narcisismo e da autoafirmação. Entrar armado na escola é o sintoma de uma cultura da onipotência e da fragilidade do Eu.
       O exemplo de “Um Dia de Fúria” expõe um caso de “furor narcísico”, quando o sujeito está desmoronando pelo ferimento em seu orgulho pessoal, que é o nome popular do narcisismo. O narcisismo não é sempre patológico nem uma coisa feia, pois significa também amor próprio, isto é, investimento pulsional no próprio Eu (“self”), condição para sua integração.
       Pessoas com vulnerabilidade narcísica, que não tiveram na infância suficiente acolhimento ou sofreram algum mal-entendido nessa área, tendem a formar defesas narcísicas exacerbadas, como uma “pele psíquica” grossa, onde o outro é ignorado, desprezado e/ou uma ameaça. Em outros casos, apresentam defesas tão frágeis (“pele fina”) que desmoronam diante de qualquer crítica, ameaças externas ou mesmo internas, na forma de ideias autocríticas e melancólicas.
       Ninguém pode acreditar que seja saudável uma pessoa que se arma para fuzilar outras em público, efeito da raiva por se sentir inferiorizada e humilhada. Nem que esteja usando uma defesa adequada. Mesmo que a “causa” alegada seja boa. Algumas dessas patologias do narcisismo conduzem o sujeito para o terrorismo como forma de justificar a sua raiva. Jovem ou não, criança, adolescente ou adulto, o indivíduo que extravasa sua raiva solitária pela supressão do outro, racionalizando sua dificuldade na forma de religião e ideologia, está revelando seu entranhamento narcísico e sua impossibilidade que considerar alguém como um ser humano igual.
     A crença íntima, mais ou menos consciente, do assassino solitário é a de que seu Eu será restaurado pela vingança brutal.
      Nesses casos, o assassinato é um gesto de puro egoísmo, como se diz. Não há nada de heroico, mas apenas desespero e falta de saída psíquica, como no suicídio. Aliás, muitos dos autores de massacres se matam em seguida, pois têm uma noção do que fizeram, além da possível culpa que acompanha a vergonha (um sentimento narcísico típico) e a impossibilidade de racionalizar seu gesto em sua radicalidade. A motivação vem da ferida narcísica e não da situação errada em que o mundo possa se encontrar. A violência, em si mesma, não tem justificação.
      Entender os motivos da violência não significa justificá-la. Alguns atos violentos são tão radicais que revelam um superego de tal modo cruel e punitivo, uma espécie de repressão tão severa -- como dizia, por exemplo, Melanie Klein--, que só restam a polícia ou a morte como formas de amenizá-la. Esse é um paradoxo do ideal de ego patológico: a exigência moral é tanta, a punição à transgressão e à imperfeição é tamanha, que só resta ao sujeito se tornar um psicopata.  Faltou-lhe em grau máximo um ambiente psíquico seguro-- na sua história pessoal e familiar e nos seus primeiros relacionamentos-- que oxigenasse o seu Eu com respeito mútuo, dignidade em lugar de orgulho, amor relacional e amor próprio suficientes. O indivíduo é tomado pelos seus conflitos, mas prevalece uma enorme onipotência, uma dose suplementar de crença onipotente, pois a transição suave da doce ilusão de onipotência primária falhou.
     Seria simplista supor que só a existência das armas liberadas explicaria a violência na cultura norte-americana. Existem os valores de cowboys amedrontados, a desigualdade social que precisa ser vencida heroicamente por “winners”, a vergonha de não ter reconhecimento e a patologia egocêntrica que não afeta só norte-americanos. Todos nós estamos sujeitos à fúria narcísica, em crises ao longo da vida ou por cicatrizes e brechas na nossa identidade pessoal.
    As armas liberadas, que para nós não se justificam, são um sintoma, não a causa, do mal-estar civilizatório em que nos encontramos.

 

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

UMA MUTAÇÃO SOCIAL




                                                                     Reinaldo Lobo

        Ainda não vivemos inteiramente no mundo de “Black Mirror”, a série de terror tecnológico, mas caminhamos para uma época de automação no trabalho e de controle eletrônico por uma nova classe de comando na sociedade: a “cognicracia”. São os “nerds” e “geeks”, detentores do conhecimento e das informações, que servem de agentes da globalização e do capital financeiro na economia atual. Parece que as máquinas assumem o controle, contudo, é “a economia, estupido!”, já dizia Bill Clinton.
        Tem havido uma rápida e nada sutil mutação social no trabalho e na subjetividade humana. Está difícil até mesmo considerarmos a imagem tradicional de “humanidade” nesta era de autômatos, cartões, celulares, chips, robôs, drones e controle da privacidade.
       Não nos enganemos: o que move essa transformação é a lógica do capital, agora internacionalizado ao extremo na sua forma financeira, particularmente perversa.
        As novas gerações são convidadas a ressaltar a figura do economista em detrimento do político. Do “técnico” em lugar do cidadão. Os efeitos da mutação em escala global da economia são a precarização do emprego, a desterritorialização, o declínio da burguesia e do proletariado e sua substituição gradual pelo “cognitariado” e a classe executiva financeira, a submissão dos trabalhadores por dispositivos de automação e controle, cujos resultados incluem um obstáculo para criar formas de solidariedade e de relações do tipo pessoal ou corpo a corpo.
       Esse quadro tem sido muito bem descrito nos livros e entrevistas do filósofo italiano Franco “Bifo” Berardi, que acaba de lançar “Fenomenologia do fim. Sensibilidade e mutação conectiva (Caixa Preta)”, sobre a verdadeira mutação antropológica pela qual estaria passando hoje a humanidade. Ativista dos movimentos autonomistas em seu país, Berardi é também autor, entre outros, de “A Fábrica da Infelicidade”; “Geração Pós-alfa” e “A sublevação”, obras onde aborda especificamente essas transformações da subjetividade e do trabalho na economia do capitalismo avançado ou “pós moderno”.
      Como Zygmunt Bauman, o filósofo italiano vê uma especificidade no capitalismo atual, que não se resume à destruição de valores tradicionais ou à dissolução no ar de tudo o que era sólido. Vai além: estamos diante da construção de uma nova concepção de humanidade, isto é, uma diferente forma de ver e conceber um ser humano, sua mente e seu comportamento. Diferente de Bauman, Berardi não se detém na questão do tempo (tempo líquido e velocidade), mas considera isso implícito e descreve a estrutura comunicacional submetida ao capital.
       O “fim” de que fala Berardi é a transformação do humano, devida à “abstração e à aceleração frenética provocadas pela transição tecnológica em direção ao meio digital”.
      Numa entrevista concedida ao jornal argentino “Clarín”, Berardi mostra que “a exposição incessante da sociedade a fluxos de informação, em convergência com o novo modo do capitalismo (o que chama de “absolutismo capitalista”), corrói as capacidades humanas de empatia, supera as possibilidades neuronais de atenção, debilita as condições para transformar a esfera social através da vontade política”. Tudo isso tem como efeito a perturbação ou a eliminação: do gozo, da crítica, da decisão política, da sensibilidade (a faculdade de compreender o “tácito”), do erotismo (a habilidade “de perceber o corpo do outro como uma extensão viva do meu próprio corpo”).
      Berardi considera que os efeitos dessa automação humana sobre nossa sensibilidade são desastrosos e acredita que, “diante da perda de eficácia da política, está na hora de desconectar as “concatenações estressantes” que só conduzem ao pânico, à solidão e à depressão”.
      A mutação cognitiva e antropológica a que assistimos é uma parte importante da decadência da política e da ação no espaço público. Berardi tem razão em apontar o impacto disso. Mas, ao nosso ver, a emergência dos meios eletrônicos tem duas faces: uma, é negativa, pois envolve, aliena e distrai o cidadão de seu papel e o isola; a outra, pode ter um potencial positivo de resistência – a rede social de comunicação instantânea e internacional possibilita aglutinar as pessoas de diferentes locais e mobilizar massas.
     Essa visão distópica da modernidade, apesar de conter lúgubres verdades importantes, peca pela falta de visão dialética. Há contradições evidentes na forma pela qual se apresenta a comunicação eletrônica que está disponibilizada para o consumo. Não só os nerds e geeks do capital têm acesso a ela.  Uma face é unidimensional e induz à submissão automática; a outra é expansiva do contato e da mobilização. Grandes movimentos mundiais foram convocados por meios eletrônicos. Os hackers existem e figuras como Julian Assange e Edward Snowden representam expressões dessa possibilidade de resistência.
     Uma face democrática de participação direta por meios eletrônicos também pode ser vista no futuro da humanidade. Aliás, já acontece na forma de vários tipos de interação. Consultas populares, plebiscitos, voto eletrônico, pesquisas de opinião pública, controle de qualidade, recalls e outros recursos apontam para uma democratização participativa a ser explorada a favor da cidadania. Não é impossível sermos imaginativos e vislumbrarmos uma “Eclésia” grega onde os participantes possam tomar decisões rápidas sobre questões coletivas.
     Há, sem dúvida, uma decadência da política tradicional e uma exaltação do economista, assim como do tecnólogo da comunicação a serviço do capital. Isso tem consequências negativas e destrutivas. Mas há também o oposto disso, que é a possibilidade de resistência e de resgate da política por outros meios.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O ANO DA GRAÇA DE 1968



                                                           Reinaldo Lobo

      Há 50 anos, aconteceu um milagre no mundo. Não foi nada religioso nem um produto da fé. Foi um espantoso evento histórico, inesperado por todos: uma brecha se abriu nos sistemas de poder mundiais. Por essa fenda, passaram vietcongs, mulheres, negros e minorias, estudantes de Paris e de São Paulo, de San Francisco, de Praga e de Tóquio, artistas, desempregados, hippies e roqueiros. Atrás desse cortejo, entraram os operários e trabalhadores em geral, puxados por antigos partidos comunistas e outras denominações ideológicas.
      Por um instante apenas, um grão na história de civilização, a humanidade inteira se viu diante de uma revolução diferente, inédita, que parecia mudar quase todos os valores, derrubar preconceitos milenares e abrir um futuro mais brilhante dos que surgiram após as revoluções francesa, de 1789, e russa, de 1917.
     As mulheres, que vinham entrando para o mercado de trabalho e para a cultura, passaram corajosamente por essa brecha e começaram a transformação que o nosso escritor Tristão de Ataíde considerou a única revolução exitosa do século XX, a feminina.
     Os negros norte-americanos puseram-se em marchas históricas, conquistaram os direitos civis e o sonho de Martin Luther King, assassinado em abril desse ano luminoso e violento, começaria sua realização na eleição de Barack Obama, décadas depois.
     Nas ruas de Paris e de várias cidades europeias, houve um surto de imaginação e elas se encheram de pichações criativas, como: “É proibido proibir”; “A Imaginação ao Poder”; “Rompam as cadeias infernais”; “Debaixo dos paralelepípedos, a praia”;  “Sejam realistas: peçam o impossível”.
    Foi o tempo de Bob Dylan e de John Lennon, que invocavam a paz e o amor. Foi o tempo da liberação sexual, da anti-psiquiatria, da ascensão do respeito à diversidade e  das comunidades alternativas--as “famílias” formadas por jovens e adultos que se escolhiam para viver juntos.
     Por um breve momento histórico, tudo parecia possível: a queda das oligarquias liberais ocidentais e das burocracias comunistas. No Ocidente e no Leste, surgiram fenômenos de massa como as rebeliões em Berkeley, manifestações em Londres e Belfast, e a Revolução Cultural chinesa, percebida por Mao Tsé-tung e canalizada em seu proveito. Na Polônia, na Hungria, na então Tchecoslováquia, estudantes saíram às ruas e pediram liberdade para todos. Pode-se dizer hoje, sem risco de errar, que a queda da União Soviética começou no Ano da Graça de 1968, com a chama anti-burocrática iniciada.
       Na América Latina, na África e na Ásia, os movimentos ocorreram principalmente guerrilhas de libertação nacional, para tentar pôr abaixo ditaduras sangrentas e regimes corruptos. Os jovens latino-americanos perceberam -- na esteira da Revolução Cubana e inspirados por um ícone de 68, Che Guevara-- que era possível fazer uma revolução fora dos partidos comunistas e até contra eles.
       No sudeste da Ásia, no minúsculo Vietnã o ano começou com a maior ofensiva guerrilheira contra mais de 400 mil soldados ocupantes norte-americanos, a ofensiva do Ano Novo, temporada das chuvas e da lama. Nesse momento, a guerra virou completamente a favor dos guerrilheiros vietcongs e das tropas norte-vietnamitas e culminou com a primeira grande derrota do império norte-americano desde o seu triunfo na Segunda Guerra Mundial.
      Os conservadores costumam dizer que a guerra do Vietnã foi perdida no Ocidente, em função dos movimentos a favor da paz dentro dos EUA . Talvez eles tenham razão, em parte, pois houve mesmo uma onda mundial de protestos pacifistas e,  nos EUA, as mortes dos jovens norte-americanos foram transmitidas pela primeira vez na TV. Mães no Texas ou em Nova York  chegaram a ver seus filhos mortos ou mutilados, carregados nas macas de guerra.
      Vários historiadores contemporâneos, sobretudo os conservadores, fazem uma avaliação negativa de 1968, que, afinal, não chegaria a se consumar integralmente como uma revolução. Alguns ressaltam o fato de não ter surgido nenhum poder e nenhum regime derivado do movimento.
     Ora,  o objetivo dos vários levantes internacionais de 1968 foi justamente o de negar os regimes existentes e de criticar as formas clássicas de poder. Foram movimentos libertários, que desconstruíram a política tradicional e propuseram novas relações no interior das sociedades existentes, assim como novas formas de poder menos hierárquicas e mais participativas. Alguns deles mostraram justamente que o poder está difundido na estrutura das sociedades e que só a criação de contra poderes e de uma contracultura poderiam fazer avançar a emancipação humana.
     Intelectuais franceses de direita exaltam 1968 por sua crítica do totalitarismo e um pretenso elogio do individualismo, que viriam desembocar no pós-modernismo e no neoliberalismo. Essa é uma interpretação equivocada e uma distorção ideológica. Assim como os comunistas tradicionais, que lamentam os movimentos daquele ano por não chegarem a tomar nenhum Palácio de Inverno e por abrirem caminho para uma reação da direita, os pensadores de direita confundiram com individualismo a busca pela emancipação, des-alienação e autonomia.  
     1968 é mesmo um ano que não acabou--como disse uma vez, com outro significado, o escritor brasileiro Zuenir Ventura. Foi um período que, além de ter aberto a discussão sobre o sentido de uma revolução, estimulou uma transvaloração de todos os valores existentes, introduziu uma nova noção de luta social, abriu caminho para os movimentos LGBT, feministas, ecológicos e antirracistas e deixa o futuro aberto para a criação de novas maneiras de resolver as questões políticas e sociais.

      Surgiu, em consequência dele, uma disputa sobre os comportamentos e valores que-- pode-se dizer-- deu origem a uma esquerda e a uma direita que se digladiam na esfera “comportamental”. Mas, sobretudo, o ano de 1968 representou a esperança de liberdade para toda uma geração de seres humanos, inclusive para aqueles que ainda estão por vir.

A ERA DO LUSCO-FUSCO


                                                                     
                                                                      Reinaldo Lobo


              Não é noite nem dia, a luz não é clara nem escura. É a hora do lusco-fusco, o crepúsculo vespertino ou matutino, quando o Sol se põe ou está nascendo. É o momento mais perigoso nas estradas, os motoristas adormecem ao volante, enxergam com dificuldade e as estatísticas exigem muita atenção e farol aceso. Um instante de transição perigoso.
              Nossa época está um pouco assim, no lusco-fusco. As significações sociais estão derretendo, várias instituições mudam com a velocidade da internet, a política oficial faliu,  as identidades pessoais e sociais são difíceis de discernir : pais não sabem o que fazer, homens inseguros, mulheres em estado de dúvida quanto ao seu lugar, filhos em plena mutação no ciberespaço e nos games, as famílias com várias configurações, a sexualidade cambiante, diversa e complexa, as imagens rápidas povoam a mídia, os computadores pessoais e os sonhos são distópicos. Têm-se a impressão de que não temos mais uma humanidade, mas fractais do que outrora foi o ser humano.
             Vivemos em uma época interessante, ainda que o antigo sábio chinês dissesse que Deus deveria nos poupar de viver em épocas interessantes, pois costumam ser as mais desastrosas.
            Na verdade, não sabemos, por enquanto, se o lusco-fusco em que estamos mergulhados é um crepúsculo ou um alvorecer, mas há uma evidente falta de clareza e visibilidade.  Nos anos setenta, na virada para o que Bauman chamou de “modernidade líquida”, o poeta mexicano Octávio Paz usou uma metáfora meteorológica para dizer que estávamos entrando num “tempo nublado”. Os sintomas seriam a decadência das ideologias que sustentavam a existência da Guerra Fria, a revolução cultural de Maio de 1968, o levante das novas gerações no mundo todo, a ascensão das mulheres ao trabalho e à igualdade de direitos, a explosão dos direitos civis nos EUA e na Europa, a natureza indiferenciada das novas   sociedades pós-industriais e os efeitos na arte, como a mutação nas narrativas, na poesia e nas expressões visuais.
          Hoje, depois da globalização e das resistências a ela, a situação ficou mais embaçada. A emergência do terrorismo, do novo racismo contra refugiados e a rejeição a culturas diferentes, trouxeram traços complicados ao quadro civilizatório que pareciam superados pela modernidade.   A atitude adequada diante desse panorama difuso não parece ser julgar – julgar as mudanças como se fossem más ou boas--, mas observar, primeiro, antes do juízo da razão prática.
            Há indicações de que o terrorismo veio para fazer parte da vida do século XXI, assim como o individualismo possessivo do capitalismo deve permanecer por algum tempo no nosso horizonte. Estão-se “naturalizando”. A teoria difundida nas últimas décadas de que “todos são vítimas e, portanto, não há carrascos”, parece prevalecer no clima depressivo do lusco-fusco vespertino. Se estivermos em uma era de decadência, os sinais e os novos hábitos apontam para uma crise civilizatória sem precedentes – e não temos a bússola funcional para dar uma direção melhor aos acontecimentos.
            Houve um período em que muitos esperávamos uma revolução redentora, capaz de emancipar de uma só vez a humanidade. Era a época do triunfo da razão, do progresso, da educação e dos “amanhãs que cantam”.
           Hoje, desconfiamos não só do conceito de revolução como da própria ideia de humanidade. Como diria Woody Allen: “Deus morreu, Marx morreu, o Homem morreu, e eu não estou passando muito bem”.
           Os filósofos da “modernidade líquida” não mais tratam a questão da identidade com os modelos racionais tradicionais. Um cientista Prêmio Nobel, Ylia Prigogine, escreveu um livro “A Era da Incerteza”, partindo do interior da própria ciência, que hoje desconfia de seus axiomas e postulados, da objetividade e da verdade, em função da Física contemporânea que trabalha com o infinitamente pequeno e suas variações.
            Atualmente, talvez seja preciso desenvolver uma reflexão que seja mais relacionada à dinâmica do transitório e do efêmero do que do universal e perene, mas sem perder de vista a dimensão histórica que nos é comum a todos. Não é tarefa fácil.
           A dificuldade de enxergar no crepúsculo ou no amanhecer leva muita gente para as certezas da religião, daí, talvez, a grande difusão e crescimento dos fundamentalismos. O fanatismo decorrente causa traumas sociais, políticos, o fechamento dos horizontes, o reaparecimento do autoritarismo e do totalitarismo e, possivelmente, pode ser o nosso maior desafio atual.  A luta principal, hoje, como diz Amós Óz, ocorre entre as pessoas de lucidez democrática e o fanatismo. Mas a questão fundamental -- a principal contradição ética e política--, continua a ser entre a civilização e a barbárie.
         É razoável pensar que existem formas de religião, maneiras de fazer política e estruturas sociais que conduzem mais os homens e mulheres à barbárie do que outras. Também é o caso de pensarmos, ao contrário, em modos de se comunicar e de usar os meios eletrônicos disponíveis que nos emancipem mais do que mídia atual e sua enxurrada de informação mal digerida.
        Buscar e imaginar essas alternativas capazes de abrir caminho no nevoeiro ou enxergar melhor na hora do lusco-fusco pode ser a única esperança real para os novos anos que temos pela frente.