quinta-feira, 14 de junho de 2018

UMA UTOPIA SINISTRA


                                                                        
                                                                                 Reinaldo Lobo*

             13 de dezembro de 2018. O Brasil ganhou a Copa, as festas já cessaram, sobraram apenas algumas manifestações de patriotas e homens de bem, vestindo camisas amarelas e pedindo uma “intervenção militar”. Mas o país está agitado pelas incertezas de um pronunciamento militar feito pelo general Sérgio Etchegoyen, do Gabinete de Segurança Institucional, falando sobre as eleições realizadas em outubro e novembro
             Nesse mesmo dia, o general Eduardo Villas-Bôas, o militar mais “liberal” e simpático, comandante supremo do Exército, falando em nome das Três Armas, vem a público no horário nobre em cadeia nacional de rádio e TV , para dizer: 
            “Diante do caos causado pelas eleições fraudulentas, na qual um candidato da Ordem foi ilegalmente derrotado por um perigoso populista, somos obrigados a atender aos apelos das forças vivas da Nação para restaurar a democracia em sua pureza, afastando a corrupção e a subversão”.
            As “forças vivas da Nação” são -- como sempre-- os banqueiros, os empresários, as grandes corporações, o Mercado , uma parte da classe média e, desta vez, incluem um tanto de povo pobre desiludido com os políticos em geral. Depois de algumas reuniões com seus representantes aceitos pelos militares e consultas junto à Embaixada dos EUA, pedindo o consenso de Washington, o golpe de Estado foi consumado.
           O Congresso é cercado pelas tropas e fechado. O mesmo ocorre com o Palácio do Planalto e o STF. Centenas de deputados, ministros e funcionários do Governo somem de Brasília, alguns deles se exilam em Miami, com receio de serem presos. Vários parlamentares da direita religiosa, do agronegócio e da área de segurança procuram se aproximar dos militares que conhecem ou a quem têm acesso, procurando permanecer e reforçar o novo sistema.
          Dois ministros do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski e Dias Tóffoli, suspeitos de conspirarem com o PT antes e depois das eleições, são imediatamente cassados depostos e levados em condução coercitiva. O ex-presidente Lula é transferido da Polícia Federal, onde estava preso sem poder concorrer desde antes das eleições malogradas. Seu destino é ignorado, mas supõe-se que esteja sendo interrogado em algum quartel, com a permissão do Ministério Público de Curitiba.
           A ministra Carmen Lúcia, ex-presidente do STF, é reconduzida ao cargo por sua probidade e atuação decisiva na prisão de Lula. O juiz paranaense Sergio Moro é convidado a assumir o Ministério da Justiça. Também é sondado, com o plano B, Alexandre de Moraes, ministro do Supremo, também afeito às questões de polícia, repressão e manutenção da ordem.
           Os militares se dividem quanto às primeiras medidas junto à equipe econômica, mantida pelos banqueiros e acrescida de alguns economistas como Armínio Fraga e outros ligados ao Mercado. Um grupo nacionalista e proto-fascista propõe a manutenção da Petrobrás, o outro grupo, considerado mais “liberal” e americanófilo, sugere a imediata privatização e completa entrega do pré-sal à exploração estrangeira, na linha do que já começara com a Exxon e algumas companhias europeias. Surpreendentemente, o capitão Jair Bolsonaro, ex-candidato à Presidência, que se dizia nacionalista, passa a se alinhar com o grupo “liberal” e americanófilo.
          Uma censura prévia é imediatamente imposta à imprensa escrita e televisiva, assim como se instala uma comissão de investigação sobre o uso da internet e das redes sociais, que continuam parcialmente ativas após o golpe de Estado militar. Greves, sobretudo gerais, nem pensar. Os sindicatos sofreram intervenções e boa parte dos seus líderes, exceto aqueles patronais que pediram “intervenção militar Já”, já está presa
          As prisões, fugas e desaparecimentos prosseguem em todo o território nacional, bem como os exílios em embaixadas. As preferidas pelos políticos de esquerda são as de Portugal, França e Uruguai. Os da direita, acusados apenas  de corrupção e não de subversão, preferem os Estados Unidos, algumas ilhas no Caribe, o Panamá e , na Europa,  as ilhas Jersey , Mônaco, Luxemburgo e a Suíça, claro.
          O ex-presidente Temer desapareceu. Circulam boatos de que estaria no Líbano, terra de origem de sua família, ou então, o que é mais provável, estaria na garagem do Palácio do Planalto ou no Jaburu, negociando -- ao lado do ministro Eliseu Padilha, do deputado Carlos Marun e de sua Marcela--, uma possível composição com a Junta Militar para ter um ministério e salvar seu patrimônio de um possível Inquérito Policial Militar (IPM).
          Esse cenário futuro próximo descrito acima é distópico, isto é, o contrário de uma utopia. Sugere uma ditadura sinistra tomando conta em breve do Brasil. O pior é que esse pesadelo é, neste momento, o sonho de muita gente.
          O que essas pessoas mal informadas não sabem é que isso nos atiraria na lata do lixo do mundo e da história, perderíamos todo o prestígio internacional, seres humanos seriam injustamente detidos e humilhados nesse processo, quando não mortos. As agências de Direitos Humanos do mundo todo, a começar pela ONU, condenariam o País e o levariam aos Tribunais internacionais.
        Do ponto de vista econômico, haveria uma grande retração, diversos países parariam, no primeiro momento, de comprar produtos brasileiros e se aprofundaria a crise recessiva em que estamos mergulhados. Como o Mercado iria esperar as declarações “liberais” dos militares e de seus servidores para se recuperar, a médio prazo talvez os negócios se ativassem. Mas isso não significaria, como dantes se esperava, uma recuperação do crescimento nem a retomada plena dos negócios em escala mundial e multilateral.
      O Brasil iria depender dos acordos bilaterais com o governo Trump, que, certamente, seria dos primeiros a reconhecer a Junta Militar. O gol contra nacional nos tornaria uma pátria apenas de chuteiras e um ponto ficaria acertado e assente: o País assumiria francamente o seu papel de República das Bananas.


quarta-feira, 30 de maio de 2018

EXPLICANDO O FRACASSO




                                                                Reinaldo Lobo*

    No auge da “ditabranda”, em 1968, quando houve centenas de prisões, cassações, pessoas desaparecidas, guerrilhas, fechamento de instituições democráticas e o fim de todas as liberdades civis, chegou de Brasília um folclórico parlamentar paulista em pleno dia da edição do AI-5, e foi cercado pelos jornalistas. Um deles perguntou:
    -- Deputado, como está a situação em Brasília?
    -- Bem...—disse ele—a situação está cheia de conjunturas e as estruturas são complexas!
     Além do riso provocado, o parlamentar mostrou involuntariamente como a situação estava, de fato, feia. Ao ponto de precisar ser temida e escondida por uma nuvem de palavras de sentido obscuro e duvidoso.
     Hoje, quando temos uma crise quase tão grave como aquela -- bastando os caminhoneiros pararem para a sociedade chegar à beira do colapso--, os ideólogos do neoliberalismo estão dando explicações parecidas com a daquele ilustre parlamentar bizarro dos tempos da ditadura.
      Um conhecido colunista da Folha de S. Paulo, Hélio Schwartsman, paladino da causa do mercado e do “laissez faire”, deu uma brilhante explicação para o caos provocado pela crise dos combustíveis. Permitam-me citá-lo:
      “Como nos tornamos tão vulneráveis? A resposta é simples: complexidade. Há poucas coisas mais complexas do que o funcionamento de uma economia que se conecta em redes cada vez mais interdependentes milhões de agentes que atuam de forma autônoma. A ação estratégica de um único indivíduo – um erro de operação em Itaipu, por exemplo—pode parar o país inteiro”
       O famoso Conselheiro Acácio não daria uma explicação melhor e mais genérica sobre a economia atual. Ficando no nível mais abstrato, cabe tudo e é possível esconder o principal:  o fato de a crise dos combustíveis  não se tratar de um acaso randômico, mas do resultado de uma política geral de preços da Petrobrás, orquestrada por um conhecido adepto do mantra neoliberal, o tecnocrata Pedro Parente. A flutuação de preços, com reajustes automáticos, atrelados ao preço do barril no mercado internacional, vem sendo apontada por vários economistas sérios como a causa eficiente do drama em que meteram o País.
       Citemos mais uma vez --com a permissão do leitor-- a explicação fornecida pelo ilustre colunista:
       “Não nos pusemos nessa posição de fragilidade a troco de nada. A complexidade tem uma face mais positiva que aparece no desenvolvimento tecnológico e na produtividade. As interdependências que nos tornam reféns do imponderável também fazem com que avanços, mesmo que incrementais, tenham impacto positivo exponencial”.
         Ah, agora descobrimos a chave explicativa para o fracasso da política “interdependente” de Pedro Parente na Petrobrás – é o “imponderável”! Os Deuses da Probabilidade mandaram alterar um único elemento para bagunçar o todo!  Tudo era muito positivo -- ainda que “avanços incrementais” -- até que se abatesse sobre a Petrobrás uma “desregulação” do mercado.
       Aliás, a pergunta inevitável: positivo para quem? Quem se beneficia, o País ou os acionistas? A lógica é a da racionalidade ou a do lucro que nos leva a perdas internacionais? Então é preciso colocar a sociedade em risco em busca da “face mais positiva” da produtividade, mesmo que o remédio possa matar o doente?
       Em nenhum momento, o articulista diz que houve o fracasso da política que conduziu os caminhoneiros à greve geral. O que a retórica do ideólogo procura esconder é a feiura do “salve-se quem puder” neoliberal. Para isso, faz um contorcionismo pseudocientífico onde só falta apelar para Teoria do Caos ou a Quântica.
      O viés do ideólogo é, curiosamente, o mesmo da chamada grande imprensa que, em geral, desvia a atenção do equívocos da “equipe econômica dos sonhos” ( o “Dream Team”) do governo Temer. O habitual é criticar a fraqueza política desse governo, mas ressalvando-se os “êxitos” da equipe econômica. Começa a existir uma ambiguidade diferente dessa imprensa em relação aos fatos, na medida em que está ficando clara a dificuldade da área econômica em resolver as questões do crescimento e da estabilidade.
     A narrativa anti-Estado também tende a reduzir sua retórica diante do impacto da greve dos caminhoneiros, que colocou a necessidade de intervenção – não a militar, mas o tabelamento de preços. A imprensa descobriu igualmente, de repente, que a dependência quase absoluta da malha rodoviária, e a não existência de ferrovias e da cabotagem para o escoamento da produção, apontam para necessidade da presença estatal no remodelamento da infraestrutura.
      O modelo baseado no caminhão e no automóvel está-se esgotando, junto com a dependência do combustível fóssil. Isso exige transformação global por uma saída desenvolvimentista, com forte presença do Estado. Exige o que nenhum neoliberal gosta: planejamento estratégico. O culto do espontaneísmo monetarista e a implementação do capital financeiro internacional, fontes da interdependência louvada pelo ideólogo da Folha, não podem dar conta das realidades econômicas, nem das classes sociais em conflito. A crença de que o mercado regula tudo com sua mão invisível nega que as classes têm interesses e almejam a hegemonia no seio da sociedade.
      As contradições do capitalismo brasileiro ficaram evidentes com essa crise, que está longe de acabar. Mas as explicações dadas pelos porta-vozes do establishment lembram um pouco aquele mecânico de carros que, diante de uma pane seca, resolve enganar o cliente propondo trocar a “rebimboca da parafuseta”.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

LIÇÃO DE VIOLÊNCIA




                                                          Reinaldo Lobo

      Três tiros certeiros no peito. A mulher sacou rápido a arma da bolsa e o assaltante não teve sequer tempo de perceber o que se passava. Caiu gemendo de dor e morreria depois no hospital, tal a precisão da “mãe PM” à paisana, que atirou na frente de sua filha e de outras crianças na porta da escola, quando iam para uma cerimônia de homenagem pelo Dia das Mães.
      Aparentemente, o assaltante queria levar a bolsa de uma ou de várias mães paradas na frente do portão da escola, esperando que abrisse. Por sua ação eficiente no combate ao crime, o novo governador de São Paulo, Márcio França, deu um prêmio em cerimônia pública, na frente da imprensa, para a cabo Kátia Sastre.
      A maior autoridade do Estado legitimou e exaltou um ato de violência, que considerou “legítima defesa”. As perguntas e as discussões que se seguiram ao evento, muito comum na Grande São Paulo, giraram em torno da “mãe PM”, se ela agiu certo, se foi mesmo legítima defesa, por que atirou no seu dia de folga ou se ela não exagerou nos tiros, pondo em risco a vida das crianças presentes.
     O foco das perguntas não deveria ser a ação da “mãe PM”, mas a atitude das autoridades legitimando a violência.
     Será que o melhor caminho é dar exemplo às crianças de que é preciso “matar bandidos”?
     É necessário legitimar o uso de armas de fogo como melhor meio para proteger os cidadãos de bem?
     A violência deve ser respondida preferencialmente com mais violência por parte das autoridades e premiar a execução sumária?
      Por ser véspera do Dia das Mães a ação de uma “mãe PM “ não precisa  ter inquérito e ser imediatamente louvada por um político à procura dos votos da classe média ameaçada?
      Essas questões fazem pensar não só no momento pelo qual passa nosso País, mas também na forma de combater a violência. Se adotarmos a política do slogan “bandido bom é bandido morto”, que aliás já é praticada nas periferias e nos morros das grandes cidades, nós não estaremos assumindo que há uma guerra civil entre os que possuem bens e aqueles que quase nada possuem?
      A violência é contagiosa, psíquica e socialmente. Não é por acaso que existem tantos filmes e séries de ação onde a vingança, o ódio e a retribuição de agressão é feita por heróis que cometem , eles próprios, crimes tão ou mais brutais do que aqueles sofridos pelos personagens ou pela sociedade. Esses filmes e séries liberam emoções reprimidas e funcionam como uma espécie de vacina contra o contágio da violência real.
     Num plano sublimado, as cenas de violência do cinema são uma prevenção. Mas, mesmo nesse plano, o grau crescente de virulência na arte pode induzir mentes frágeis à imitação e à ação. A cena da PM Kátia matando o assaltante bem poderia fazer parte de um desses filmes.
     A violência deve sua efetividade e virulência contagiante à aparência de justificação, que a torna realmente epidêmica O terrorismo funciona assim, por contágio e imitação, sob o signo de uma religião ou ideologia que o apresenta como legítimo e justificável.
      O que se sente justificado como antiviolência é também violência. Proibida como delito, ela é prescrita como sanção e punição ao crime. As justificativas geram e fazem progredir aquilo que se quer negar e esconder: a própria violência. A sua legitimação utiliza a trama das denominações e racionalizações, como “legítima defesa”, “direito natural”, “serviços a causas mais elevadas”, “objetivos superiores”, a “Pátria” e o “dever”.
       Muitas vezes, a negação ou a repressão da própria agressividade, projetada no inimigo, torna mais fácil que se acredite estar praticando o contrário da violência, apenas uma defesa necessária. Sente-se, nesses casos, que se está combatendo o bom combate contra a “verdadeira” violência.  Hitler sempre justificou sua busca pelo “espaço vital” para a “raça ariana” invadindo países que teriam cometido algum tipo de agressão, real ou inventada, contra a Alemanha nazista.
       No Brasil atual, onde o ódio de classes e entre partidos políticos têm-se exacerbado, bem como a guerra entre os “moralmente puros” e os “corruptos”, é preciso refletir sobre a natureza da violência. Nem toda agressão, em sua gradação que vai do bate-boca ao sarcasmo e desprezo, é violência, mas toda violência é agressão em seu grau extremo.
       Quem mata um assaltante está agindo em “defesa da sociedade”, mas está também ensinando as crianças que o único caminho para defender a sociedade é a morte do outro.
        É preciso perguntar se a violência, que se apresenta simples e bruta, só pode ser enfrentada de uma forma simplificadora e igualmente bruta. Se ela é simples, talvez a solução não seja simples, mas complexa. A complexidade não pode ser reduzida agressivamente, sob pena de gerar mais brutalidade e não simplicidade.
        A solução para a violência talvez implique em buscar as raízes dela, suas ramificações na alma humana e na sociedade.
       A educação violenta para induzir a paz e a redução da agressividade pode criar um sistema metódico de brutalidade e crime.  Ensinar que é permitido matar bandidos, como costumavam fazer, e ainda fazem, o BOPE e a ROTA, pode ajudar a eliminar seres humanos , mas não a violência.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

UMA REVOLUÇÃO SEM PODER





                                                                        Reinaldo Lobo


    O aniversário de 50 anos da revolução francesa de Maio de 1968, data já inscrita na História, não será festejado em muitos lugares. É fácil de compreender. Há uma onda de conformismo conservador mundial, a mídia comercial e os governos não se interessam tanto por relembrar fatos incômodos, pois uma verdadeira brecha se abriu naquela ocasião no núcleo do capitalismo mundial.
    Por um curto período, o mundo parou para assistir aos “acontecimentos de Paris” e entreviu uma amostra do que poderia ser o futuro de solidariedade e de liberdade para a Humanidade. Um grupo de estudantes deu início em fins de abril daquele ano a pequenas manifestações contra o capitalismo burocrático francês que se tornariam, em maio, uma verdadeira revolução, com greves operárias generalizadas, tomadas de fábricas, ocupação de universidades, paralisia da política tradicional e bloqueios da ação policial e militar, atingindo os negócios, o comércio e o próprio governo.
      Ao mesmo tempo em que atacavam as instituições do poder, os estudantes, trabalhadores e cidadãos em geral que saíam às ruas cantando hinos libertários e portando cartazes criativos, ofereciam novas formas de solidariedade social, e ações mobilizadoras de autogoverno. Espalharam ideias de autogestão, cooperativismo e democracia direta por toda a França, com repercussões na Europa, na Ásia e nas Américas. Propunham igualmente novas formas de relações pessoais, menos alienadas ou robotizadas pelo universo do trabalho capitalista, com a defesa do amor livre, da imaginação criadora, da arte e da participação de todos, com respeito à diversidade e ao outro.
     Os manifestantes de Paris tiveram a adesão das centrais operárias tradicionais, mas criticavam igualmente a esquerda clássica, autoritária, ligada aos totalitarismos soviético e chinês, conservadora sob muitos aspectos, incapaz de sair dos moldes da burocracia sindical, acomodada e adaptada ao sistema capitalista.
     A revolução foi derrotada? Sim e não. Na visão comum tradicional da política, o movimento deveria tomar o poder no estilo dos golpes de Estado ou das revoluções russa e chinesa, com a tomada de palácios, o que não aconteceu. O movimento foi sobretudo espontâneo, inesperado e , até certo ponto, apenas pedagógico. Não tinha uma lista de finalidades e de estratégias de domínio. Além disso, o mais importante é que procurava oferecer alternativas ao poder, propondo uma direção da sociedade política orientada de baixo para cima. Uma sociedade mais horizontal do que vertical e hierarquizada. Um outro ponto central era demonstrar as possibilidades organizacionais da sociedade em função da preservação do meio ambiente, da defesa dos Direitos Humanos e da igualdade de direitos para as raças e os sexos. Tudo isso era muito novo, como por exemplo, a explosão do feminismo, e abalou as relações sociais naquele momento do século XX, quando havia uma sociedade francesa e europeia conservadora na esfera comportamental.
       Maio de 68 foi sintonizado, no espírito do tempo, com  as inúmeras rebeliões negras nos EUA, com a resistência contra guerra do Vietnã e a luta contra as ditaduras latino-americanas e africanas. Personagens como Daniel Cohn Bendit, Ernesto Che Guevara, Patrice Lumumba e Ho Chi Minh têm efígies semelhantes, ainda que não idênticas, no registro da História. Todos defenderam revoluções populares e anticapitalistas. Nem todos foram “vencedores” no sentido tradicional da palavra, mas simbolizam até hoje os sonhos de emancipação e de igualdade.
       A “Nova Desordem”, como disse uma vez Claude Lefort, representou uma ruptura nas identidades políticas , sociais e até pessoais, ao ponto de ter-se tornado difícil classificar com precisão sociológica o que houve exatamente. Com o tempo, começaram as reinterpretações dos acontecimentos e de seu significado.
      Os mais conservadores julgaram que foi apenas uma crise episódica, vencida manu militari pelo governo gaullista. Mas surgiram também os historiadores revisionistas , estes mais sutis,  como Luc Ferry, que virou ministro da Educação de Sarkozy, de direita,  Alain Renaut, filósofo neoliberal e Gilles Lipovetsky, que fez sucesso na onda “pós-modernista” com sua “Era do Vazio”.
      Todos esses autores tentaram estabelecer uma ponte entre Maio de 68 e um suposto “Pensamento 68”, que incluiria todo o pós-estruturalismo francês e até mesmo os ideólogos midiáticos autointitulados “novos filósofos”, pois essas duas vertentes representariam uma espécie de “superação do marxismo”. Ou seja, procuraram desidratar o anti-capitalismo do movimento, reduzindo-o a um fenômeno (pós)marxista, para poder situá-lo, paradoxalmente, à direita.
      Mesmo criticando o que chamaram de “pensamento 68”, pois ainda conteria elementos antiliberais, os autores citados acima deduziram do movimento e da filosofia francesa da época uma espécie de elogio do individualismo, que teria derivado para um capitalismo neoliberal , do egoísmo consumista e possessivo contemporâneo.
       Para tomarmos apenas um tema de Maio de 68 :  propôs a crítica feroz do vazio, do tédio no trabalho e do individualismo capitalistas e preconizou a “imaginação ao poder”. Lipovetsky é o ideólogo do “vazio pós-moderno” e do individualismo dos “laços frouxos e passageiros”, que nada mais são do que o velho vazio da sociedade de consumo.
       As releituras conservadoras de Maio de 68, que descrevem o movimento como um trauma, mais parecem o revisionismo sobre o Holocausto feito pelos antissemitas. Ocorre que a revolução também aconteceu e despertou vivas esperanças e, como o Holocausto, repercute até hoje e não pode ser esquecida. 
    

quinta-feira, 19 de abril de 2018

LULA LÁ



                                                   Reinaldo Lobo

      Na cadeia ou na Presidência da República? Num caixão, abatido a tiros, ou vivo nos braços da multidão? “Lá”, onde? Neste momento, Lula está preso, para gozo de todos os que o chamam de ladrão, criminoso, bandido que não merece o convívio social normal dos “cidadãos de bem”. Essa fatia da sociedade quer transformá-lo numa espécie de Fernandinho Beira Mar, justamente o oposto da imagem de um Nelson Mandela oferecida pelos petistas.
     Num momento de “simpatia” e de “generosidade”, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso soltou uma frase, quando pediam o impeachment de Lula em plena época do “mensalão”, em 2005 : “Não se pode impedir ou cassar um líder social e político como ele, com a adesão e a dimensão que tem. Ele não é um Collor nem um Maluf”. Não é mesmo.
     No ano seguinte, Lula seria reeleito com mais de 60% dos votos contra Geraldo Alckmin, do PSDB, que obteve 39%.
     Ao mesmo tempo, ainda em 2005, os tucanos começaram a campanha para fazê-lo “sangrar até morrer”, que culminaria no impeachment de Dilma Rousseff e ,agora, em sua prisão. Assim funciona a política, em particular no estilo dos  tucanos, hábeis em duplicidade.
    Lula merece estar preso? Será essa a questão ou tudo não passa de uma oportuna ação política destinada a remover o líder de sua dimensão , a fim de que se possa “resolver“ a crise econômica do capitalismo brasileiro pelas mãos conservadoras e neoliberais?
     O “timing” e a severidade da Operação Lava Jato, coincidência ou não, ajudaram muito a montar o quadro eleitoral deste ano, do qual Lula parece definitivamente excluído. Por enquanto, “Lá” significa a prisão, com doze anos e meio de sentença pela frente.
     Há quem diga que a prisão poderia ser relaxada após as eleições, quando estiver eleito um adequado presidente de “centro-direita”, ao gosto do “Mercado”, cujo perfil coincide notavelmente com o de Geraldo Alckmin, o “Santo” da Odebrecht, suspeito de vários desvios em São Paulo, e que acaba de ser salvo da Lava Jato pelo STJ.  
    Os que se prendem às regras formais e aos rituais da Justiça usam isso como argumento para justificar a prisão. Dizem: “Se foi condenado, então não pode deixar de ser preso”. Não há presunção de inocência, mas preconceito. Geralmente ignoram a campanha de difamação e de redução da pessoa a um corpo, a uma coisa destinada a ser presa, e ficam com os “fatos”, neste caso altamente discutíveis em matéria de provas. Há uma enorme quantidade de “fake news” e de mentiras programadas sobre Lula e sua família. No imaginário de inúmeros eleitores da direita, os filhos de Lula seriam as pessoas mais ricas do País, sendo que a maioria deles está desempregada.
       O processo de Lula foi isento e sem conotação política? Não. Os procuradores e juízes que o acusaram são pessoas comuns, sujeitas não só aos princípios e cânones da Lei, mas suscetíveis de ideologia implícita da sua condição social e pelo moralismo desencadeado com a revelação da corrupção localizada no Sistema Corrupto, esquema transformado em rotina, envolvendo Estado e empreiteiras.  Há que acrescentar como parte dessa operação a própria mídia, usada ostensiva e seletivamente pelo juiz Moro em suas revelações e vazamentos de frases atribuídas aos denunciados delatores.
     As investigações da Lava Jato foram estimuladas por Dilma, autora de uma “faxina” ministerial e fonte da legislação sobre delações premiadas que permitiram o avanço da Força Tarefa de Curitiba. Dilma queria barrar os abusos na Petrobrás, tentando mudar as diretorias. Isso pode ter-lhe valido o furor de personagens como Eduardo Cunha, que permaneceu na presidência da Câmara até cumprir a missão de derrubá-la.
     A prisão de Lula coincide com a culminância de um crescimento das forças de extrema direita, uma real onda conservadora, não só no Brasil, mas no continente americano, norte e sul, e na Europa. É como se um pêndulo oscilasse da esquerda para direita na tarefa de enfrentar a crise do capital. Os brasileiros não escaparam. Entramos com a pior parte nessa tarefa, a mais repressiva e turbulenta, com uma política de combate à recessão com mais recessão e retirada de direitos sociais.
     O impeachment de Dilma ficou conhecido como o golpe paraguaio, pois foi dado no Congresso, com apoio no Judiciário, como no Paraguai que teve seu presidente Fernando Lugo derrubado. A mesma fórmula foi usada em Honduras, o que faz pensar em uma sequência lógica e articulada.
     Esse desvio à direita pode ter consequências desastrosas para a própria economia. Certamente terá efeitos por um bom tempo na esfera do trabalho e das classes pobres, se uma solução de compromisso não for encontrada. Paradoxalmente, Lula era, e é, a liderança mais capaz de acordos e compromissos, às vezes até temerários.
     Sua prisão deixa os conservadores com uma tarefa difícil A direita quer governar isolada no poder, apesar de ser péssima de voto. É difícil saber como o fará. Ainda que hoje tenha público, formado no antipetismo e no ódio radical, a direita não tem lideranças capazes de empolgar ou de formar um bloco transparente e hegemônico.  O único personagem disponível, Bolsonaro, é fascista demais para ser palatável pela “centro direita”. Então, ela vai recorrer a um novo golpe ou permanecer aliada dos setores mais corruptos da política do PMDB, PP, PTB, DEM e um longo desfile de pequenos partidos de compra e venda?
     O mais provável é que tente pavimentar o caminho para um Alckmin, mas correndo o risco de perder para uma Marina -- a que come quieta e balança na sua rede para a direita e à esquerda. Seria um novo momento para a elite brasileira, despreparada para encarar de verdade o povo.
      Lula é o nosso político mais controverso, mas também o único capaz de fazer as ligações e alianças que não excluam o povo pobre. A direita sabe disso. Quando pediram ao general De Gaulle que prendesse Jean Paul Sartre na rebelião de iniciada em Maio de 1968, ele respondeu: ”Não se prende Voltaire.” De Gaulle era um conservador inteligente, não fez isso por generosidade ou piedade.
      Lula não é um Voltaire, mas merece respeito como ex-presidente e como a figura pública que definiu um lugar do Brasil no mundo. Por mais que insistam em manter a prisão de Lula, volta sempre a frase de Fernando Henrique Cardoso: “não se prende um líder social e político dessa dimensão”.
     

segunda-feira, 9 de abril de 2018

O MECANISMO




                                                                  Reinaldo Lobo

         O Brasil passa por uma aguda politização. Os que só enxergam os efeitos negativos da crise política, gostariam da volta a uma pasmaceira oligárquica onde quem tem poder, manda, e quem é prudente obedece. O principal mérito da investigação conhecida como Lava Jato, independente das intenções pessoais de quem a iniciou, foi expor aos olhos de todos o que tenho chamado aqui de Sistema Corrupto, que vem de longe, de bem longe na história do País.
         O resultado foi uma fissura política no Sistema, agravada pela presença de um partido político na aliança no poder, o PT, que era um estranho no ninho da oligarquia tradicional e uma ofensa ideológica às classes dominantes. A liberdade para investigar a corrupção, mudando a legislação, fortalecendo a Polícia Federal e a Procuradoria, partiu paradoxalmente desse mesmo partido que se tornaria o alvo predileto do núcleo inicial da Lava Jato. Os mais conservadores viram nisso uma oportunidade de se livrar do PT, empalmando um genérico combate à corrupção. O impeachment da presidente petista agravou a crise política, em lugar de resolvê-la, desestabilizando as fundações da instituição central, a própria Presidência.
        A consequência foi um presidencialismo de coalizão entre suspeitos e denunciados que desejavam encerrar ali a Lava Jato, mas a dinâmica judicial e policial desencadeada não parou nem “estancou a sangria”, segundo a célebre frase do Richelieu do Sistema, o senador Jucá. Essa coalizão tem funcionado a favor do chefe maior, o presidente sem votos populares, Michel Temer.
       Da fissura política, com quase todos os políticos dos principais partidos envolvidos e acusados, da cínica permanência do grupo de Temer no comando da Câmara e do Senado, bem como da sua interferência em áreas da Justiça e da Polícia, resultou uma feroz radicalização no seio da sociedade e os anti-petistas enfurecidos ganharam fôlego com as condenações e possível exclusão de Lula das eleições presidenciais.
       Um detalhe importante: entre os que pedem a rápida e imediata prisão de Lula não estão apenas os direitistas contumazes, os proto-fascistas, mas também uma gama de setores sociais politizados e semi-politizados que acreditam de boa-fé que isso abriria o caminho para a prisão e purgação de todos os políticos na República envolvidos em corrupção.
       Esse sentimento genérico, bastante ingênuo, que supervalorizou um simples juiz de primeira instância, Sérgio Moro, é o mesmo que parece animar a polêmica série de TV “O Mecanismo”, lançada perigosamente no contexto de um ano eleitoral de absoluta indefinição até agora.
       A discussão sobre se essa série mente ou não -- da qual o autor José Padilha se defende, neste caso malandramente, dizendo que é ficção--, não é a questão mais importante. A principal, a meu ver, é se Padilha não caiu na mesma crença genérica de que basta combater os criminosos para eliminar o crime.
      Os filmes desse diretor enfocam, geralmente, a realidade social e política sob a ótica e o estilo do policial, transformando a ação em uma luta entre o Bem e o Mal a ser vencida pelos “homens de bem”. Nessa luta, a força bruta é bem-vinda, como em qualquer filme de ação “B” norte-americano. Foi assim, inclusive, nos lançamentos sobre a “Tropa de Elite”. Agora, “O Mecanismo” parece até a continuação de uma trilogia.
      A complexidade do Sistema Corrupto -- suas entranhas empresariais e políticas no bojo do Estado, a longa promiscuidade histórica do Estado Patrimonial brasileiro, que vem desde a colônia, passando pelo autoritarismo do Estado Novo, da Ditadura civil-militar de 1964, atingindo a Nova República--, não pode ser reduzida a um caso de polícia. Não há mocinhos, nem apenas bandidos nesse quadro. Os policiais, promotores e juízes também não são santos, nem isentos.
     A própria ruptura jurídico-policial imposta pela Lava Jato, aproveitada politicamente por forças que queriam tomar o governo de assalto justamente para perpetuar o Sistema e promover sua autodefesa, foi uma avalanche com repercussões que aprofundaram não só a crise política, mas a econômica. O combate à recessão com mais recessão, seguido pelo atual governo, é uma consequência do ambiente de “terra arrasada” decorrente de uma brutal e repentina brecha na estrutura política, social e econômica do País.
     A emergência de um político simplório como Jair Bolsonaro no gosto de parte das classes médias e do lumpen, nesse ambiente de redução da política a um assunto policial, não deveria surpreender ninguém. Ele é um fruto dessa mentalidade policial expressa na série da TV.
     Num ponto, o diretor Padilha está certo e diz a verdade: há um mecanismo que dá forma à corrupção brasileira. Só que o acionamento e as funções desse sistema são de natureza histórico-social e institucional, muito mais complexos do que parecem a um juiz de primeira instância ou a um policial.
    O sonho de um herói ou de um grupo de heróis idealizados que enfrentem a corrupção criminosa ignora a dura realidade de uma sociedade constituída por setores mandonistas com o chicote na mão há séculos, acrescida de estratos que já naturalizaram a exploração, o oportunismo e as táticas de submissão e compadrio.
    Os políticos que hoje mandam no País já armaram, inclusive, sua própria autodefesa para as próximas eleições, com regras eleitorais que garantem a permanência dos grandes partidos na posse do dinheiro publicitário. E nada garante que, mesmo sem a permissão de financiamento empresarial, o fluxo da dinheirama não se dê pelo caixa dois já conhecido de todos.
     Como enfrentar, então, esse sistema? Há um impasse agudo nesse momento, dentro do seu próprio núcleo sistêmico e na sociedade. Contudo, é desse mesmo ponto sem retorno que pode fluir um conjunto de ações da sociedade civil, hoje mais politizada e atenta aos movimentos tanto dos políticos quanto do judiciário. Ainda existe um povo neste País, por mais viciado que esteja em ser apenas espectador (e telespectador), que se tem movimentado em manifestações, redes sociais e mesmo numa nova atitude quanto ao voto. Não há por que desesperar, nem contar apenas com a polícia.
    A intensa corrupção contemporânea -- dizem alguns sociólogos bem informados--, resulta, sobretudo, de um movimento interno de sociedades em desenvolvimento quando a mobilidade social se intensifica entre as classes, com alguns querendo cortar caminho para a ascensão via Estado e outros se revoltando com a própria exclusão. É uma dinâmica complexa, agravada por uma sociedade como a existente no Brasil, ainda marcada por valores em conflito entre o arcaico o moderno—um Sarney, coronelzão do Norte, convive com políticos sulistas, mais antenados no futuro.
    A engenharia política para desmontar o Sistema Corrupto ainda está sendo elaborada, mas não se resume certamente a prisões, delações e desmoralizações públicas, mesmo que estas possam fazer parte do quadro. Essa visão simplista é tão prejudicial quanto a própria corrupção. É preciso lembrar a frase lapidar de Antônio Carlos Jobim, nosso grande compositor: “O Brasil não é para amadores”.

terça-feira, 20 de março de 2018

UMA CULTURA DA VINGANÇA




                                                                         Reinaldo Lobo

          Para que haja oxigênio da vida psíquica é preciso um ambiente de suficiente reconhecimento, aceitação, confirmação e validação. Quando não existe essa atmosfera, a pessoa busca adaptações para o seu Eu nas formas mais difíceis, às vezes bizarras. Uma delas é o crime.
        Boa parte da violência, ainda que não toda, existente na cultura norte-americana ultracompetitiva, deriva do que podem ser chamados de ferimentos narcísicos. Um sujeito humilhado, sentindo-se um “loser” (perdedor), com o seu Eu ameaçado de decomposição, arma-se com a facilidade encontrada nos Estados Unidos e sai à caça de seus agressores reais ou imaginários.
       Todos já vimos isso no cinema, mas também nos noticiários. Um clássico da cultura norte-americana foi aquele filme “Um dia de Fúria”, com Michael Douglas no papel central. Um homem desempregado perde a família e o direito de ver o filho, enche uma sacola de armas e passa o dia se vingando de todos os que possam humilhá-lo ou que representem um sistema de constrangimento ao indivíduo. Tem um detetive encarregado de prendê-lo, em sua última semana de trabalho, que revela uma certa empatia com o furioso, pois entende que não se trata de um psicopata, mas de um ser humano profundamente ferido em seu amor próprio.
        É isso que acontece em uma cultura da vingança: a pessoa humilhada sente-se no direito de buscar “retribution”, que, em inglês, significa um gesto vingativo.
         A cultura norte-americana é complexa, não se resume obviamente a isso, mas apresenta características de um meio ambiente que exige, por um lado, o “sucesso”, a liberdade e o culto do Eu individual, às vezes à custa de enormes sacrifícios e a qualquer preço. Ao mesmo tempo, por outro lado, prega o comunitarismo e a participação coletiva. O indivíduo precisa ser um “winner” (um vencedor) e, se não o conseguir, tem o direito a uma “segunda chance”. O reconhecimento coletivo está atrelado ao “sucesso”.
        O peso dessas exigências sobre adolescentes e crianças é bem grande. Se somarmos a esse “superego cruel” o bombardeio midiático dos filmes, séries, internet, redes sociais e também as notícias das guerras no exterior de seus compatriotas, no Iraque, no Afeganistão, contra as “ameaças terroristas” imaginárias ou verdadeiras, assim como a própria criminalidade interna, teremos um quadro assustador que explica, em parte, os massacres nas escolas e os tiroteios a bala. E, se surge um presidente à moda do faroeste como Trump, sugerindo que os professores deem aula armados, então o quadro fica ainda mais preocupante.
      O cowboy e os super-heróis são, em parte, os modelos da liberdade individual no imaginário instituído norte-americano. Andar armado é uma expressão do individualismo possessivo, em defesa da propriedade e da família. Mas quando a própria família está confusa, os pais estão perdidos em seus valores e buscam especialistas para tudo na educação dos filhos, o resultado pode ser uma exacerbação do narcisismo e da autoafirmação. Entrar armado na escola é o sintoma de uma cultura da onipotência e da fragilidade do Eu.
       O exemplo de “Um Dia de Fúria” expõe um caso de “furor narcísico”, quando o sujeito está desmoronando pelo ferimento em seu orgulho pessoal, que é o nome popular do narcisismo. O narcisismo não é sempre patológico nem uma coisa feia, pois significa também amor próprio, isto é, investimento pulsional no próprio Eu (“self”), condição para sua integração.
       Pessoas com vulnerabilidade narcísica, que não tiveram na infância suficiente acolhimento ou sofreram algum mal-entendido nessa área, tendem a formar defesas narcísicas exacerbadas, como uma “pele psíquica” grossa, onde o outro é ignorado, desprezado e/ou uma ameaça. Em outros casos, apresentam defesas tão frágeis (“pele fina”) que desmoronam diante de qualquer crítica, ameaças externas ou mesmo internas, na forma de ideias autocríticas e melancólicas.
       Ninguém pode acreditar que seja saudável uma pessoa que se arma para fuzilar outras em público, efeito da raiva por se sentir inferiorizada e humilhada. Nem que esteja usando uma defesa adequada. Mesmo que a “causa” alegada seja boa. Algumas dessas patologias do narcisismo conduzem o sujeito para o terrorismo como forma de justificar a sua raiva. Jovem ou não, criança, adolescente ou adulto, o indivíduo que extravasa sua raiva solitária pela supressão do outro, racionalizando sua dificuldade na forma de religião e ideologia, está revelando seu entranhamento narcísico e sua impossibilidade que considerar alguém como um ser humano igual.
     A crença íntima, mais ou menos consciente, do assassino solitário é a de que seu Eu será restaurado pela vingança brutal.
      Nesses casos, o assassinato é um gesto de puro egoísmo, como se diz. Não há nada de heroico, mas apenas desespero e falta de saída psíquica, como no suicídio. Aliás, muitos dos autores de massacres se matam em seguida, pois têm uma noção do que fizeram, além da possível culpa que acompanha a vergonha (um sentimento narcísico típico) e a impossibilidade de racionalizar seu gesto em sua radicalidade. A motivação vem da ferida narcísica e não da situação errada em que o mundo possa se encontrar. A violência, em si mesma, não tem justificação.
      Entender os motivos da violência não significa justificá-la. Alguns atos violentos são tão radicais que revelam um superego de tal modo cruel e punitivo, uma espécie de repressão tão severa -- como dizia, por exemplo, Melanie Klein--, que só restam a polícia ou a morte como formas de amenizá-la. Esse é um paradoxo do ideal de ego patológico: a exigência moral é tanta, a punição à transgressão e à imperfeição é tamanha, que só resta ao sujeito se tornar um psicopata.  Faltou-lhe em grau máximo um ambiente psíquico seguro-- na sua história pessoal e familiar e nos seus primeiros relacionamentos-- que oxigenasse o seu Eu com respeito mútuo, dignidade em lugar de orgulho, amor relacional e amor próprio suficientes. O indivíduo é tomado pelos seus conflitos, mas prevalece uma enorme onipotência, uma dose suplementar de crença onipotente, pois a transição suave da doce ilusão de onipotência primária falhou.
     Seria simplista supor que só a existência das armas liberadas explicaria a violência na cultura norte-americana. Existem os valores de cowboys amedrontados, a desigualdade social que precisa ser vencida heroicamente por “winners”, a vergonha de não ter reconhecimento e a patologia egocêntrica que não afeta só norte-americanos. Todos nós estamos sujeitos à fúria narcísica, em crises ao longo da vida ou por cicatrizes e brechas na nossa identidade pessoal.
    As armas liberadas, que para nós não se justificam, são um sintoma, não a causa, do mal-estar civilizatório em que nos encontramos.