quinta-feira, 2 de agosto de 2018

BOLSONARIO, O MITO




                                                                Reinaldo Lobo

           A mitologia grega, com seus deuses e semideuses trágicos, está na base da cultura ocidental. Ainda hoje nos inspira. Todos sabemos que um mito tem um significado histórico, antropológico, filosófico e até político. O Mito da Caverna, de Platão, é ensinado nas escolas como forma de acesso a uma concepção da Razão. A revelação da verdade foi demonstrada muitas vezes por meio dos mitos, como o célebre mito de Édipo.
         Essa é a face nobre do mito, mas os dicionários nos ensinam que há um lado sombrio, com o sentido de pura mentira ou de “história da carochinha”. Os meios de comunicação veiculam mentiras nesse sentido mítico todos os dias.
        Os adeptos do capitão Jair Messias Bolsonaro, atual candidato à presidência por um certo “Partido Social Liberal”, perceberam, apesar de pouco sutis, essa ambiguidade da palavra. Inventaram a atribuição de “mito” a esse deputado bizarro, dublê de militar e político, antes desconhecido em sua longa permanência na Câmara Federal desde 1991.
        A palavra poderia conferir a essa figura do “baixo clero” político uma aura de potência, autoridade e coragem, como os heróis gregos. Nessa construção, o ex- capitão do Exército, aposentado em circunstâncias nebulosas, apareceria como um herói da luta contra corrupção, uma vez que foi citado pelo ex-ministro do STF, Joaquim Barbosa, como um dos únicos-- ao lado de Paulo Maluf!--, que não teria recebido a propina do “mensalão”. Além disso, a palavra alimentaria a narrativa de que lutou, durante a Ditadura, contra o “terrorismo”.
       No entanto, as contradições reveladas na entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura em São Paulo, mostraram que o ídolo não se sustenta. Aliado próximo do ex-deputado Eduardo Cunha, o Rei do Baixo Clero, de quem foi próximo durante vários anos, recebeu de forma indireta uma verba da JBS, que se apressou em devolver para o seu partido de então , o PP de Paulo Maluf e Ciro Nogueira, uma vez que a Lava Jato já estava em curso e os escândalos estouravam. Não há notícias de como pagou suas sucessivas campanhas a deputado federal nas legislaturas anteriores.
       Perguntado pela repórter Daniela Lima, da Folha, sobre a sua defesa do porte de armas pelo cidadão comum como forma de defesa contra os bandidos, enroscou-se de vez na resposta.  A jornalista fez uma pesquisa sobre ele e mostrou que , em 1995, o capitão treinado Bolsonaro foi assaltado numa rua do Rio de Janeiro e os assaltantes levaram sua arma e sua moto. Tentou explicar que foi “rendido” pelos bandidos num sinal de trânsito e que o seu batalhão de origem recuperou depois  a arma e a moto, sem responder de fato à questão.  Mas a repórter insistiu perguntando:  se ele que era treinado no uso de armas e defesa militar, foi rendido pelos bandidos, o que se poderia dizer do cidadão comum carregando uma arma?
        Os mitos da valentia militar e do herói messiânico também caíram no chão junto com o seu argumento a respeito da legislação sobre  armas e segurança.
        O capitão Bolsonaro, para associar a ex-presidente Dilma Rousseff à guerrilha de Carlos Lamarca, lembrou com orgulho que combateu no Vale do Ribeira, onde esteve, de fato, sob o comando, inclusive, do ex-coronel Erasmo Dias, como parte das tropas do Exército.
       O que ele não disse é que o Exército levou o maior baile dos guerrilheiros, que chegaram a capturar oficiais e a negociar sua soltura para abrir uma saída do cerco formado por centenas de soldados e vários batalhões, além de helicópteros e forças especiais anti-guerrilha. Enquanto negociavam, comandantes tentaram localizar Lamarca, o que resultou em combates e na morte de um tenente, executado pela guerrilha.
       A derrota das Forças Armadas no Vale do Ribeira levou o coronel Erasmo Dias a ser afastado de suas funções e relegado ao papel de chefe de polícia em São Paulo. Na versão de Bolsonaro – e, provavelmente, na versão oficial do Exército-- os “terroristas” de Lamarca foram traiçoeiros, os militares as vítimas e não existiram combates propriamente, apenas uma fuga. Ora, tudo indica, segundo inúmeros relatos históricos e de ex-agentes do governo, que os combates aconteceram e o Exército levou a pior. Lamarca só seria preso e executado no interior da Bahia muito depois.
      O capitão Bolsonaro não tem muito do que se orgulhar do desempenho no Vale do Ribeira nem em sua carreira militar de um modo geral.  Além de inventar versões históricas e dizer que apresentou 500 projetos de Lei nunca aceitos no Congresso-- quando, na verdade, admitiu na TV que foram 176 e nenhum foi aprovado--, sua carreira política não tem sido exatamente um sucesso. Mas é preciso admitir que sua equipe tem habilidade em criar “factoides” para impressionar a mídia e causar polêmica, como aquela foto dele ensinando crianças a atirar e fazendo gestos agressivos.
       O mito Bolsonaro é o resultado de vários fatores, sendo o principal a desilusão da população com os políticos em geral. Ele se apresenta como a única alternativa “fora do sistema” civil da chamada Nova República, agora em estado falimentar. As acusações de corrupção contra ele nunca apresentaram flagrantes e são relativamente pequenas.
       Seu discurso, se é que se pode chamar de discurso, é policialesco e se apresenta como um fruto da Operação Lava Jato, de caça aos políticos. A questão da segurança no País produz uma espécie de terror na classe média e também entre os pobres, que veem na fala de tom brutal uma única via simples para sairmos da guerra civil como a do Rio de Janeiro.
      Um fato inegável é que, desde 2013, quando os conservadores e a oligarquia dominante empalmaram um movimento de massas, pela primeira vez em décadas essas forças conseguem ter uma audiência. Existe hoje um público à direita que entende a política como uma luta entre a polícia e os bandidos, e ninguém apela melhor a essa demagogia simples.
       Bolsonaro não é um mito, mas uma “história da carochinha”. No entanto, tem o apoio de forças poderosas para exercer o seu populismo conservador e, se não for detido em sua ascensão eleitoral, causará sérios estragos à democracia.   Depois, será tarde, e nenhum de nós poderá dizer que não foi avisado.


quinta-feira, 19 de julho de 2018

A POLÍTICA DAS PAIXÕES



                                                                 Reinaldo Lobo*

      
           Os fascistas são os conservadores que mais têm medo. Medo da instabilidade econômica sob o capitalismo, medo de perder privilégios, medo do caos, medo do outro, do que pode mudar na vida,  do que é diferente,  do que se projetou em um inimigo escolhido como bode expiatório, medo da insegurança em geral e da vingança daqueles que submeteram infundindo o medo.
           Um filme em cartaz nas boas salas de cinema e na internet intitulado “1945” ilustra bem essa paixão oculta no coração dos opressores fascistas e de seus aliados: numa cidade húngara, mas que poderia ser qualquer uma do centro leste europeu ocupada pelos nazistas durante a Segunda Guerra, reaparecem após a libertação da ocupação alemã dois judeus ortodoxos que ali moraram. Os homens carregam duas misteriosas caixas que atemorizam os moradores locais: o que conteriam? Armas para a vingança contra a população aderida ao nazismo e que os delatou, roubou-lhes as residências e fingiu esquecer o que fez?
            A presença dos dois judeus causa um pânico nos moradores, pois aparentemente os novos ocupantes, os libertadores soviéticos, poderiam ter permitido que eles se vingassem. A insegurança se estabelece, a culpa leva uma personagem ao suicídio, as outras vivem conflitos aterrorizantes em relação àquelas caixas misteriosas e se preparam para o pior. O final é surpreendente, não vou contar para não dar “spoiler”, mas ilustra bem como paixões primitivas, como o medo e o ódio, levando à submissão irracional, ignoram o simbólico e a cultura.
          Os que não chegam a ser fascistas também têm medo da instabilidade na própria sociedade em que vivem, submetem-se e, muitas vezes, apoiam cegamente tiranias ou mesmo governos oligárquicos sob regime democrático. São os que colocam a felicidade e a segurança em primeiro lugar, como se esses fossem os principais objetivos da política e da sociabilidade. A principal paixão humana manipulada pelos governos, sejam autoritários, totalitários e mesmo hierarquias de regimes democráticos, é essa emoção subalterna, muitas vezes acompanhada de culpa, que leva a uma de servidão voluntária.
          Quem está submetido talvez imagine que está feliz e em segurança, e nega que o principal objetivo da política não seja nem a felicidade nem a segurança, mas a liberdade.
          Se aceitarmos a liberdade e a autonomia humanas como a essência da política, considerando necessária a criação de instituições que promovam realmente a liberdade, sem mentirinhas, não será o caso criarmos uma “boa sociedade” ou mesmo sem miséria. Mas seria necessário criar uma sociedade verdadeiramente livre, onde as paixões primitivas não sejam manipuladas para comandar as massas como bandos de incompetentes que não sabem o que desejam ou não possam escolher sobre suas próprias vidas. Uma sociedade autônoma será a mais consciente possível de suas necessidades, problemas, objetivos sociais e práticos. Não será perfeita, mas livre.
           Há lugares no norte do mundo, como Islândia, Finlândia, Noruega, Dinamarca e mesmo Suécia e Holanda, onde alguns experimentos que consistem em deixar a população governar quase diretamente deram excelentes resultados. Na Islândia, por exemplo, na crise do capitalismo deflagrada em 2008 e que afetou a todos até agora, a população tirou simplesmente a governança dos bancos, reuniu-se em assembleias autônomas e passou a gerir as decisões econômicas. A Islândia foi um dos primeiros, se não o primeiro país europeu a sair da crise.
            Ora, dirão, são países pequenos, fáceis de administrar e de aplicar “utopias”. Os resultados apresentados, como na Dinamarca, que em breve será o primeiro país totalmente sustentável do planeta, não são utópicos, mas concretos. O que possibilitou esses resultados não foi apenas o tamanho do território, mas uma história de conquistas sociais e políticas democráticas que vem de séculos.
           Além disso, a paixão política que alimenta essas decisões não é o medo, mas escolhas conscientes calcadas nas necessidades reais da população e nas discussões abertas de todos os canais da sociedade, onde o Estado existe, mas a serviço da população e não sobre a comunidade. São sociedades mistas, de economias “socialista” e “capitalista” ao mesmo tempo. Não são puras, nem perfeitas, mas perfectíveis em função do regime democrático.
          No Brasil, é fácil perceber dois fenômenos contrários a essa orientação: o clima de medo e de incerteza, de um lado, e a demanda de segurança, de “intervenção militar” e autoritarismo. Nem passa pela cabeça da maioria dos nossos políticos no poder convidar sequer a população para uma consulta popular ou abrir os canais de participação para a maioria opinar de verdade. Precisam manter as regras estritas das formas de representação atual, absolutamente falidas, porque têm...medo.  E, principalmente, porque eles seriam os primeiros defenestrados se a população tivesse voz e porque não defendem o bem geral, mas interesses particulares.
          Basta lembrar o que estão fazendo com a lei dos agrotóxicos, que é exatamente o oposto do que o mundo civilizado luta para atingir: a sustentabilidade e a sobrevivência geral, não apenas a do agronegócio.
          Enquanto o Brasil for manipulado pelo medo e a insegurança, teremos salvadores da Pátria fascistas, populistas e falsos democratas, oligarcas de luxo.
         Há um mito entre nós --de direita e de esquerda-- que consiste em espalhar a ideia de mais segurança, de salvação pela educação e pela redução gradual da miséria. O que esse mito esconde é que precisamos primeiro, justamente ao contrário, de uma sociedade politicamente mais livre, onde possa florescer a escolha da maioria, a mais ampla e participante possíveis, para termos os resultados práticos desejados.
       Para essa inversão dos valores e para a autoeducação política do povo, só uma paixão é necessária – a paixão da liberdade.
    

quarta-feira, 4 de julho de 2018

INVEJA NA COPA


  

                                                                    Reinaldo Lobo

       A inveja é um “monstro de olhos verdes”, disse Shakespeare – no “Otelo”, descrevendo-a sem nomeá-la exatamente e encarnada na personagem de Iago. Esse monstro é capaz de atormentar, corroer por dentro e até matar. Tem tudo a ver com olhar: a palavra “invidia” vem do latim, derivada do verbo “videor”, que quer dizer ver e, curiosamente, também ser visto. O olhar possessivo de um ser humano – todos nós—tomado pela inveja vê, vasculha, examina nos detalhes o que é do outro e que deseja para si. E ataca. A inveja dá medo.
       Não é por acaso que muitas pessoas, ao se sentirem invejadas por possuir um bem ou qualidades que as distinguem, fazem-se de humildes, como se pedissem desculpas. Têm medo de despertar ou confirmar a inveja dos outros. Algumas portam-se, ao contrário, de forma arrogante, mostrando seus bens e atributos admiráveis, defendendo-se pelo reasseguramento e o exibicionismo.
        Todos sabemos que ninguém quer se sentir um invejoso contumaz, mas o sentimento é universal. O mais difícil para contê-lo é quando está completamente mergulhado no inconsciente: a pessoa o nega com insistência, mas atua de modo a expressá-lo na conduta.
        No fundo, quem inveja se sente inferiorizado, sofre no íntimo por isso, sem se dar conta de que a inveja é apenas o desejo de possuir algo que pertence ao outro. Revela, é verdade,  o mal-estar pela felicidade do outro e por própria posição de inferioridade, por não ter o que o outro tem—e avaliar que nunca terá--, mas é um sentimento demasiado humano. A inveja envolve cobiça, voracidade e narcisismo ferido, isto é, orgulho atingido e sentimento de humilhação. Se assumida conscientemente, torna-se mais benigna.
       Não é uma emoção bonita, mas, no fundo, a inveja é admiração por linhas tortas. Para que a inveja leve a uma ação contra o objeto ou a pessoa admirada, depende do montante de raiva e de cobiça que envolve esse desejo, assim como do sentimento de inferioridade de quem cobiça. Daí os patuás de proteção, de “corpo fechado” contra o “olho gordo”, os esconjuros e as imprecações das religiões e crenças primitivas.
        É possível distinguir com certa facilidade um olhar invejoso, bem como uma fala carregada de inveja. Os jogadores mais famosos da Copa do Mundo são um alvo predileto dos comentários invejosos dos chamados cronistas esportivos e das pessoas em geral. Idealizados e admirados, são automaticamente invejados pelo público e, quando falham, é descarregado um desprezo violento ou um rebaixamento de sua condição de ídolos.
         O pavão é um bicho bonito de se ver, de plumagem colorida e de porte altivo, desfila sua beleza, mas um invejoso vai destacar um detalhe feioso: o pé do pavão. O pavão é lindo, mas o pé é feio – dirá o invejoso meticuloso.
          Há alguns dias, comentando uma declaração de alguém da equipe técnica da Seleção, que dizia a respeito do jogador Neymar que ele havia sofrido muito após uma cirurgia que o retirou dos treinos e dos campos por três meses, um cronista esportivo não hesitou em dizer na TV:
          -- Ele diz que sofreu, mas foi fotografado com a namorada Bruna Marquezine no colo em sua cadeira de rodas!
          Seguiu-se um muxoxo de desprezo no rosto do cronista. Ele ignorou o simples fato de que para um jogador de futebol no auge da juventude e da carreira brilhante ficar fora de sua atividade por três meses já é um sofrimento, além da cirurgia, da dor física, da difícil e incerta recuperação.
          E o cabelo de Neymar? Um capricho juvenil dele, um toque na imagem para fixá-la chamando a atenção, provocou uma torrente de ataques, de um tipo parecido com os dirigidos ao pé do pavão.
          Lembro-me de um episódio do célebre Ronaldo, o “Fenômeno”, que comprou certa vez uma Ferrari na Europa, no auge de sua carreira vitoriosa, e trouxe para o Rio de Janeiro, onde fez um rápido passeio à beira das praias. A imprensa caiu em cima dele com tal fúria, com afirmações sobre a indiferença   pelos pobres e a miséria no País. Não havia jornalista, esportivo ou não, que não falasse do assunto. Um cronista escreveu que Ronaldo não era lá essas coisas como jogador para merecer uma Ferrari e, ainda mais, exibir-se acintosamente pelo Rio.
         O tal cronista se esqueceu que só não ganhamos, possivelmente, a Taça em 1998 porque Ronaldo não estava em campo na final, acometido de uma doença, e que ele acabaria por vencer a Copa de 2002 com uma atuação que o consagrou como um dos maiores jogadores da história do futebol.
         Não deu outra: o coitado do Ronaldo (sim, nesse caso coitado) livrou-se da Ferrari e, para recuperar sua imagem desgastada, passou a mostrar as benemerências que fazia aos pobres e a visitar crianças doentes em hospitais.
         A frase do grande Tom Jobim --” No Brasil, o sucesso é uma ofensa” -- não vale só para o Brasil, ainda que, aqui, a desigualdade e a injustiça social tendam a  encobrir as manifestações invejosas com uma aura de respeitabilidade. É como se a inveja se justificasse pelas condições do País. Como a bíblica ira dos justos, a inveja dos cronistas esportivos e do público contra os ídolos do futebol é bastante cruel.
        Muitas vezes, a inveja provém do desamparo que a pessoa sofreu na infância, num ambiente que pode ter falhado com ela, levando-a a um sentimento de automenosprezo e fragilidade. Isso a faz atacar os “mais fortes”. Impede também de ver o outro em sua totalidade e a trajetória de vida que teve.
         Ronaldo -- como Romário, Neymar e outros-- saiu de vila pobre da periferia e passou, por seu trabalho, a ganhar milhões numa profissão que é uma das mais bem remuneradas do planeta. Não exploraram ninguém, não roubaram, não usaram o caminho da corrupção. Só jogaram bem.
         O contrário da inveja, dizia Melanie Klein, é a gratidão. Quando atacamos a mão que nos alimenta – com comida, amor, felicidade, prazer, alegria, identificação com o êxito, etc.—estamos sendo ingratos e incapazes de reparação pelo que recebemos e que podemos destruir. Há um ditado árabe que diz: “Por que me maltratas, se eu nunca te fiz bem”. Temos uma inclinação a maltratar aqueles que nos fazem bem.
        Por mais restrições que se faça a Neymar, Messi, Cristiano Ronaldo e outros craques do esporte, alguém que goste de futebol pode dizer, em sã consciência, que eles não deram aos torcedores grande momentos de identificação no êxito e muita alegria?

quinta-feira, 14 de junho de 2018

UMA UTOPIA SINISTRA


                                                                        
                                                                                 Reinaldo Lobo*

             13 de dezembro de 2018. O Brasil ganhou a Copa, as festas já cessaram, sobraram apenas algumas manifestações de patriotas e homens de bem, vestindo camisas amarelas e pedindo uma “intervenção militar”. Mas o país está agitado pelas incertezas de um pronunciamento militar feito pelo general Sérgio Etchegoyen, do Gabinete de Segurança Institucional, falando sobre as eleições realizadas em outubro e novembro
             Nesse mesmo dia, o general Eduardo Villas-Bôas, o militar mais “liberal” e simpático, comandante supremo do Exército, falando em nome das Três Armas, vem a público no horário nobre em cadeia nacional de rádio e TV , para dizer: 
            “Diante do caos causado pelas eleições fraudulentas, na qual um candidato da Ordem foi ilegalmente derrotado por um perigoso populista, somos obrigados a atender aos apelos das forças vivas da Nação para restaurar a democracia em sua pureza, afastando a corrupção e a subversão”.
            As “forças vivas da Nação” são -- como sempre-- os banqueiros, os empresários, as grandes corporações, o Mercado , uma parte da classe média e, desta vez, incluem um tanto de povo pobre desiludido com os políticos em geral. Depois de algumas reuniões com seus representantes aceitos pelos militares e consultas junto à Embaixada dos EUA, pedindo o consenso de Washington, o golpe de Estado foi consumado.
           O Congresso é cercado pelas tropas e fechado. O mesmo ocorre com o Palácio do Planalto e o STF. Centenas de deputados, ministros e funcionários do Governo somem de Brasília, alguns deles se exilam em Miami, com receio de serem presos. Vários parlamentares da direita religiosa, do agronegócio e da área de segurança procuram se aproximar dos militares que conhecem ou a quem têm acesso, procurando permanecer e reforçar o novo sistema.
          Dois ministros do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski e Dias Tóffoli, suspeitos de conspirarem com o PT antes e depois das eleições, são imediatamente cassados depostos e levados em condução coercitiva. O ex-presidente Lula é transferido da Polícia Federal, onde estava preso sem poder concorrer desde antes das eleições malogradas. Seu destino é ignorado, mas supõe-se que esteja sendo interrogado em algum quartel, com a permissão do Ministério Público de Curitiba.
           A ministra Carmen Lúcia, ex-presidente do STF, é reconduzida ao cargo por sua probidade e atuação decisiva na prisão de Lula. O juiz paranaense Sergio Moro é convidado a assumir o Ministério da Justiça. Também é sondado, com o plano B, Alexandre de Moraes, ministro do Supremo, também afeito às questões de polícia, repressão e manutenção da ordem.
           Os militares se dividem quanto às primeiras medidas junto à equipe econômica, mantida pelos banqueiros e acrescida de alguns economistas como Armínio Fraga e outros ligados ao Mercado. Um grupo nacionalista e proto-fascista propõe a manutenção da Petrobrás, o outro grupo, considerado mais “liberal” e americanófilo, sugere a imediata privatização e completa entrega do pré-sal à exploração estrangeira, na linha do que já começara com a Exxon e algumas companhias europeias. Surpreendentemente, o capitão Jair Bolsonaro, ex-candidato à Presidência, que se dizia nacionalista, passa a se alinhar com o grupo “liberal” e americanófilo.
          Uma censura prévia é imediatamente imposta à imprensa escrita e televisiva, assim como se instala uma comissão de investigação sobre o uso da internet e das redes sociais, que continuam parcialmente ativas após o golpe de Estado militar. Greves, sobretudo gerais, nem pensar. Os sindicatos sofreram intervenções e boa parte dos seus líderes, exceto aqueles patronais que pediram “intervenção militar Já”, já está presa
          As prisões, fugas e desaparecimentos prosseguem em todo o território nacional, bem como os exílios em embaixadas. As preferidas pelos políticos de esquerda são as de Portugal, França e Uruguai. Os da direita, acusados apenas  de corrupção e não de subversão, preferem os Estados Unidos, algumas ilhas no Caribe, o Panamá e , na Europa,  as ilhas Jersey , Mônaco, Luxemburgo e a Suíça, claro.
          O ex-presidente Temer desapareceu. Circulam boatos de que estaria no Líbano, terra de origem de sua família, ou então, o que é mais provável, estaria na garagem do Palácio do Planalto ou no Jaburu, negociando -- ao lado do ministro Eliseu Padilha, do deputado Carlos Marun e de sua Marcela--, uma possível composição com a Junta Militar para ter um ministério e salvar seu patrimônio de um possível Inquérito Policial Militar (IPM).
          Esse cenário futuro próximo descrito acima é distópico, isto é, o contrário de uma utopia. Sugere uma ditadura sinistra tomando conta em breve do Brasil. O pior é que esse pesadelo é, neste momento, o sonho de muita gente.
          O que essas pessoas mal informadas não sabem é que isso nos atiraria na lata do lixo do mundo e da história, perderíamos todo o prestígio internacional, seres humanos seriam injustamente detidos e humilhados nesse processo, quando não mortos. As agências de Direitos Humanos do mundo todo, a começar pela ONU, condenariam o País e o levariam aos Tribunais internacionais.
        Do ponto de vista econômico, haveria uma grande retração, diversos países parariam, no primeiro momento, de comprar produtos brasileiros e se aprofundaria a crise recessiva em que estamos mergulhados. Como o Mercado iria esperar as declarações “liberais” dos militares e de seus servidores para se recuperar, a médio prazo talvez os negócios se ativassem. Mas isso não significaria, como dantes se esperava, uma recuperação do crescimento nem a retomada plena dos negócios em escala mundial e multilateral.
      O Brasil iria depender dos acordos bilaterais com o governo Trump, que, certamente, seria dos primeiros a reconhecer a Junta Militar. O gol contra nacional nos tornaria uma pátria apenas de chuteiras e um ponto ficaria acertado e assente: o País assumiria francamente o seu papel de República das Bananas.


quarta-feira, 30 de maio de 2018

EXPLICANDO O FRACASSO




                                                                Reinaldo Lobo*

    No auge da “ditabranda”, em 1968, quando houve centenas de prisões, cassações, pessoas desaparecidas, guerrilhas, fechamento de instituições democráticas e o fim de todas as liberdades civis, chegou de Brasília um folclórico parlamentar paulista em pleno dia da edição do AI-5, e foi cercado pelos jornalistas. Um deles perguntou:
    -- Deputado, como está a situação em Brasília?
    -- Bem...—disse ele—a situação está cheia de conjunturas e as estruturas são complexas!
     Além do riso provocado, o parlamentar mostrou involuntariamente como a situação estava, de fato, feia. Ao ponto de precisar ser temida e escondida por uma nuvem de palavras de sentido obscuro e duvidoso.
     Hoje, quando temos uma crise quase tão grave como aquela -- bastando os caminhoneiros pararem para a sociedade chegar à beira do colapso--, os ideólogos do neoliberalismo estão dando explicações parecidas com a daquele ilustre parlamentar bizarro dos tempos da ditadura.
      Um conhecido colunista da Folha de S. Paulo, Hélio Schwartsman, paladino da causa do mercado e do “laissez faire”, deu uma brilhante explicação para o caos provocado pela crise dos combustíveis. Permitam-me citá-lo:
      “Como nos tornamos tão vulneráveis? A resposta é simples: complexidade. Há poucas coisas mais complexas do que o funcionamento de uma economia que se conecta em redes cada vez mais interdependentes milhões de agentes que atuam de forma autônoma. A ação estratégica de um único indivíduo – um erro de operação em Itaipu, por exemplo—pode parar o país inteiro”
       O famoso Conselheiro Acácio não daria uma explicação melhor e mais genérica sobre a economia atual. Ficando no nível mais abstrato, cabe tudo e é possível esconder o principal:  o fato de a crise dos combustíveis  não se tratar de um acaso randômico, mas do resultado de uma política geral de preços da Petrobrás, orquestrada por um conhecido adepto do mantra neoliberal, o tecnocrata Pedro Parente. A flutuação de preços, com reajustes automáticos, atrelados ao preço do barril no mercado internacional, vem sendo apontada por vários economistas sérios como a causa eficiente do drama em que meteram o País.
       Citemos mais uma vez --com a permissão do leitor-- a explicação fornecida pelo ilustre colunista:
       “Não nos pusemos nessa posição de fragilidade a troco de nada. A complexidade tem uma face mais positiva que aparece no desenvolvimento tecnológico e na produtividade. As interdependências que nos tornam reféns do imponderável também fazem com que avanços, mesmo que incrementais, tenham impacto positivo exponencial”.
         Ah, agora descobrimos a chave explicativa para o fracasso da política “interdependente” de Pedro Parente na Petrobrás – é o “imponderável”! Os Deuses da Probabilidade mandaram alterar um único elemento para bagunçar o todo!  Tudo era muito positivo -- ainda que “avanços incrementais” -- até que se abatesse sobre a Petrobrás uma “desregulação” do mercado.
       Aliás, a pergunta inevitável: positivo para quem? Quem se beneficia, o País ou os acionistas? A lógica é a da racionalidade ou a do lucro que nos leva a perdas internacionais? Então é preciso colocar a sociedade em risco em busca da “face mais positiva” da produtividade, mesmo que o remédio possa matar o doente?
       Em nenhum momento, o articulista diz que houve o fracasso da política que conduziu os caminhoneiros à greve geral. O que a retórica do ideólogo procura esconder é a feiura do “salve-se quem puder” neoliberal. Para isso, faz um contorcionismo pseudocientífico onde só falta apelar para Teoria do Caos ou a Quântica.
      O viés do ideólogo é, curiosamente, o mesmo da chamada grande imprensa que, em geral, desvia a atenção do equívocos da “equipe econômica dos sonhos” ( o “Dream Team”) do governo Temer. O habitual é criticar a fraqueza política desse governo, mas ressalvando-se os “êxitos” da equipe econômica. Começa a existir uma ambiguidade diferente dessa imprensa em relação aos fatos, na medida em que está ficando clara a dificuldade da área econômica em resolver as questões do crescimento e da estabilidade.
     A narrativa anti-Estado também tende a reduzir sua retórica diante do impacto da greve dos caminhoneiros, que colocou a necessidade de intervenção – não a militar, mas o tabelamento de preços. A imprensa descobriu igualmente, de repente, que a dependência quase absoluta da malha rodoviária, e a não existência de ferrovias e da cabotagem para o escoamento da produção, apontam para necessidade da presença estatal no remodelamento da infraestrutura.
      O modelo baseado no caminhão e no automóvel está-se esgotando, junto com a dependência do combustível fóssil. Isso exige transformação global por uma saída desenvolvimentista, com forte presença do Estado. Exige o que nenhum neoliberal gosta: planejamento estratégico. O culto do espontaneísmo monetarista e a implementação do capital financeiro internacional, fontes da interdependência louvada pelo ideólogo da Folha, não podem dar conta das realidades econômicas, nem das classes sociais em conflito. A crença de que o mercado regula tudo com sua mão invisível nega que as classes têm interesses e almejam a hegemonia no seio da sociedade.
      As contradições do capitalismo brasileiro ficaram evidentes com essa crise, que está longe de acabar. Mas as explicações dadas pelos porta-vozes do establishment lembram um pouco aquele mecânico de carros que, diante de uma pane seca, resolve enganar o cliente propondo trocar a “rebimboca da parafuseta”.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

LIÇÃO DE VIOLÊNCIA




                                                          Reinaldo Lobo

      Três tiros certeiros no peito. A mulher sacou rápido a arma da bolsa e o assaltante não teve sequer tempo de perceber o que se passava. Caiu gemendo de dor e morreria depois no hospital, tal a precisão da “mãe PM” à paisana, que atirou na frente de sua filha e de outras crianças na porta da escola, quando iam para uma cerimônia de homenagem pelo Dia das Mães.
      Aparentemente, o assaltante queria levar a bolsa de uma ou de várias mães paradas na frente do portão da escola, esperando que abrisse. Por sua ação eficiente no combate ao crime, o novo governador de São Paulo, Márcio França, deu um prêmio em cerimônia pública, na frente da imprensa, para a cabo Kátia Sastre.
      A maior autoridade do Estado legitimou e exaltou um ato de violência, que considerou “legítima defesa”. As perguntas e as discussões que se seguiram ao evento, muito comum na Grande São Paulo, giraram em torno da “mãe PM”, se ela agiu certo, se foi mesmo legítima defesa, por que atirou no seu dia de folga ou se ela não exagerou nos tiros, pondo em risco a vida das crianças presentes.
     O foco das perguntas não deveria ser a ação da “mãe PM”, mas a atitude das autoridades legitimando a violência.
     Será que o melhor caminho é dar exemplo às crianças de que é preciso “matar bandidos”?
     É necessário legitimar o uso de armas de fogo como melhor meio para proteger os cidadãos de bem?
     A violência deve ser respondida preferencialmente com mais violência por parte das autoridades e premiar a execução sumária?
      Por ser véspera do Dia das Mães a ação de uma “mãe PM “ não precisa  ter inquérito e ser imediatamente louvada por um político à procura dos votos da classe média ameaçada?
      Essas questões fazem pensar não só no momento pelo qual passa nosso País, mas também na forma de combater a violência. Se adotarmos a política do slogan “bandido bom é bandido morto”, que aliás já é praticada nas periferias e nos morros das grandes cidades, nós não estaremos assumindo que há uma guerra civil entre os que possuem bens e aqueles que quase nada possuem?
      A violência é contagiosa, psíquica e socialmente. Não é por acaso que existem tantos filmes e séries de ação onde a vingança, o ódio e a retribuição de agressão é feita por heróis que cometem , eles próprios, crimes tão ou mais brutais do que aqueles sofridos pelos personagens ou pela sociedade. Esses filmes e séries liberam emoções reprimidas e funcionam como uma espécie de vacina contra o contágio da violência real.
     Num plano sublimado, as cenas de violência do cinema são uma prevenção. Mas, mesmo nesse plano, o grau crescente de virulência na arte pode induzir mentes frágeis à imitação e à ação. A cena da PM Kátia matando o assaltante bem poderia fazer parte de um desses filmes.
     A violência deve sua efetividade e virulência contagiante à aparência de justificação, que a torna realmente epidêmica O terrorismo funciona assim, por contágio e imitação, sob o signo de uma religião ou ideologia que o apresenta como legítimo e justificável.
      O que se sente justificado como antiviolência é também violência. Proibida como delito, ela é prescrita como sanção e punição ao crime. As justificativas geram e fazem progredir aquilo que se quer negar e esconder: a própria violência. A sua legitimação utiliza a trama das denominações e racionalizações, como “legítima defesa”, “direito natural”, “serviços a causas mais elevadas”, “objetivos superiores”, a “Pátria” e o “dever”.
       Muitas vezes, a negação ou a repressão da própria agressividade, projetada no inimigo, torna mais fácil que se acredite estar praticando o contrário da violência, apenas uma defesa necessária. Sente-se, nesses casos, que se está combatendo o bom combate contra a “verdadeira” violência.  Hitler sempre justificou sua busca pelo “espaço vital” para a “raça ariana” invadindo países que teriam cometido algum tipo de agressão, real ou inventada, contra a Alemanha nazista.
       No Brasil atual, onde o ódio de classes e entre partidos políticos têm-se exacerbado, bem como a guerra entre os “moralmente puros” e os “corruptos”, é preciso refletir sobre a natureza da violência. Nem toda agressão, em sua gradação que vai do bate-boca ao sarcasmo e desprezo, é violência, mas toda violência é agressão em seu grau extremo.
       Quem mata um assaltante está agindo em “defesa da sociedade”, mas está também ensinando as crianças que o único caminho para defender a sociedade é a morte do outro.
        É preciso perguntar se a violência, que se apresenta simples e bruta, só pode ser enfrentada de uma forma simplificadora e igualmente bruta. Se ela é simples, talvez a solução não seja simples, mas complexa. A complexidade não pode ser reduzida agressivamente, sob pena de gerar mais brutalidade e não simplicidade.
        A solução para a violência talvez implique em buscar as raízes dela, suas ramificações na alma humana e na sociedade.
       A educação violenta para induzir a paz e a redução da agressividade pode criar um sistema metódico de brutalidade e crime.  Ensinar que é permitido matar bandidos, como costumavam fazer, e ainda fazem, o BOPE e a ROTA, pode ajudar a eliminar seres humanos , mas não a violência.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

UMA REVOLUÇÃO SEM PODER





                                                                        Reinaldo Lobo


    O aniversário de 50 anos da revolução francesa de Maio de 1968, data já inscrita na História, não será festejado em muitos lugares. É fácil de compreender. Há uma onda de conformismo conservador mundial, a mídia comercial e os governos não se interessam tanto por relembrar fatos incômodos, pois uma verdadeira brecha se abriu naquela ocasião no núcleo do capitalismo mundial.
    Por um curto período, o mundo parou para assistir aos “acontecimentos de Paris” e entreviu uma amostra do que poderia ser o futuro de solidariedade e de liberdade para a Humanidade. Um grupo de estudantes deu início em fins de abril daquele ano a pequenas manifestações contra o capitalismo burocrático francês que se tornariam, em maio, uma verdadeira revolução, com greves operárias generalizadas, tomadas de fábricas, ocupação de universidades, paralisia da política tradicional e bloqueios da ação policial e militar, atingindo os negócios, o comércio e o próprio governo.
      Ao mesmo tempo em que atacavam as instituições do poder, os estudantes, trabalhadores e cidadãos em geral que saíam às ruas cantando hinos libertários e portando cartazes criativos, ofereciam novas formas de solidariedade social, e ações mobilizadoras de autogoverno. Espalharam ideias de autogestão, cooperativismo e democracia direta por toda a França, com repercussões na Europa, na Ásia e nas Américas. Propunham igualmente novas formas de relações pessoais, menos alienadas ou robotizadas pelo universo do trabalho capitalista, com a defesa do amor livre, da imaginação criadora, da arte e da participação de todos, com respeito à diversidade e ao outro.
     Os manifestantes de Paris tiveram a adesão das centrais operárias tradicionais, mas criticavam igualmente a esquerda clássica, autoritária, ligada aos totalitarismos soviético e chinês, conservadora sob muitos aspectos, incapaz de sair dos moldes da burocracia sindical, acomodada e adaptada ao sistema capitalista.
     A revolução foi derrotada? Sim e não. Na visão comum tradicional da política, o movimento deveria tomar o poder no estilo dos golpes de Estado ou das revoluções russa e chinesa, com a tomada de palácios, o que não aconteceu. O movimento foi sobretudo espontâneo, inesperado e , até certo ponto, apenas pedagógico. Não tinha uma lista de finalidades e de estratégias de domínio. Além disso, o mais importante é que procurava oferecer alternativas ao poder, propondo uma direção da sociedade política orientada de baixo para cima. Uma sociedade mais horizontal do que vertical e hierarquizada. Um outro ponto central era demonstrar as possibilidades organizacionais da sociedade em função da preservação do meio ambiente, da defesa dos Direitos Humanos e da igualdade de direitos para as raças e os sexos. Tudo isso era muito novo, como por exemplo, a explosão do feminismo, e abalou as relações sociais naquele momento do século XX, quando havia uma sociedade francesa e europeia conservadora na esfera comportamental.
       Maio de 68 foi sintonizado, no espírito do tempo, com  as inúmeras rebeliões negras nos EUA, com a resistência contra guerra do Vietnã e a luta contra as ditaduras latino-americanas e africanas. Personagens como Daniel Cohn Bendit, Ernesto Che Guevara, Patrice Lumumba e Ho Chi Minh têm efígies semelhantes, ainda que não idênticas, no registro da História. Todos defenderam revoluções populares e anticapitalistas. Nem todos foram “vencedores” no sentido tradicional da palavra, mas simbolizam até hoje os sonhos de emancipação e de igualdade.
       A “Nova Desordem”, como disse uma vez Claude Lefort, representou uma ruptura nas identidades políticas , sociais e até pessoais, ao ponto de ter-se tornado difícil classificar com precisão sociológica o que houve exatamente. Com o tempo, começaram as reinterpretações dos acontecimentos e de seu significado.
      Os mais conservadores julgaram que foi apenas uma crise episódica, vencida manu militari pelo governo gaullista. Mas surgiram também os historiadores revisionistas , estes mais sutis,  como Luc Ferry, que virou ministro da Educação de Sarkozy, de direita,  Alain Renaut, filósofo neoliberal e Gilles Lipovetsky, que fez sucesso na onda “pós-modernista” com sua “Era do Vazio”.
      Todos esses autores tentaram estabelecer uma ponte entre Maio de 68 e um suposto “Pensamento 68”, que incluiria todo o pós-estruturalismo francês e até mesmo os ideólogos midiáticos autointitulados “novos filósofos”, pois essas duas vertentes representariam uma espécie de “superação do marxismo”. Ou seja, procuraram desidratar o anti-capitalismo do movimento, reduzindo-o a um fenômeno (pós)marxista, para poder situá-lo, paradoxalmente, à direita.
      Mesmo criticando o que chamaram de “pensamento 68”, pois ainda conteria elementos antiliberais, os autores citados acima deduziram do movimento e da filosofia francesa da época uma espécie de elogio do individualismo, que teria derivado para um capitalismo neoliberal , do egoísmo consumista e possessivo contemporâneo.
       Para tomarmos apenas um tema de Maio de 68 :  propôs a crítica feroz do vazio, do tédio no trabalho e do individualismo capitalistas e preconizou a “imaginação ao poder”. Lipovetsky é o ideólogo do “vazio pós-moderno” e do individualismo dos “laços frouxos e passageiros”, que nada mais são do que o velho vazio da sociedade de consumo.
       As releituras conservadoras de Maio de 68, que descrevem o movimento como um trauma, mais parecem o revisionismo sobre o Holocausto feito pelos antissemitas. Ocorre que a revolução também aconteceu e despertou vivas esperanças e, como o Holocausto, repercute até hoje e não pode ser esquecida.