quinta-feira, 30 de agosto de 2018

AS CABEÇAS DOS ELEITORES





                                                                  Reinaldo Lobo

   O eleitor não existe. Há eleitores, no plural. Pertencem a classes sociais diferentes, têm sonhos e aspirações distintas, alguns professam uma ideologia propriamente dita, expressam raivas, ressentimentos, visão-de-mundo e expectativas diversas. Os chamados analistas políticos costumam, às vezes, juntar tudo sob um mesmo rótulo e tentam entender as diversidades pelas pesquisas de opinião, hoje mais científicas do que no passado, mas ainda falhas.
    Em 2014, várias sondagens davam como vencedor Aécio Neves, que perdeu no seu próprio Estado e, de fato, quase ganhou em escala nacional. Foi apontado o fator Nordeste, o que também não é simples, pois o voto dos nordestinos não é homogêneo. Aí, um dado decisivo foi a saída do pernambucano Eduardo Campos da corrida presidencial. Outro ponto foi a sombra do ex-presidente Lula, de origem nordestina, catalisando votos em favor de Dilma Rousseff.
      Hoje, as disposições psíquicas dos eleitores variam nas diferentes classes e regiões, mas existem elementos comuns de desconfiança, de descrédito dos políticos e de completo realismo – quase cinismo— provocado pela crise econômica e o desencanto generalizados.
      O fator Lava Jato impera nas eleições deste ano de modo a produzir escolhas que variam da busca da “pureza” na política até uma certa complacência em relação a políticos alvejados pela Justiça, mas cuja história está registrada na memória de muitos eleitores como aqueles que deram algo novo à população –isto é,  os que fizeram efetivamente alguma coisa que beneficia as maiorias mais pobres do País.
       A complacência aparece com clareza no caso de Lula, a maior surpresa destas eleições estranhas, uma vez que está preso, mas ganharia no primeiro turno segundo as pesquisas mais recentes. Depois de vários anos de desconstrução de sua imagem de líder popular, seu registro  quase “de protesto” no TSE -- uma espécie de anticandidato, na forma de desobediência civil--, deixa muitos eleitores confusos e perplexos, mas também demonstra que o seu eleitorado registrou na memória a fase de crescimento econômico, de pleno emprego e de distribuição de renda, e entendeu perfeitamente sua mensagem.
        Houve uma desidealização geral da atividade política na mente dos eleitores, mas que deu lugar aos poucos a um maior realismo numa fatia significativa do eleitorado. O ódio surgido a partir de 2013 levou às ruas  uma classe média que se sentia ameaçada pela “ascensão” dos mais pobres e que saiu em passeatas repercutidas com barulho pela imprensa  Foi a origem do antipetismo militante que desembocaria nas vitórias eleitorais municipais do tucanato e do MDB há dois anos e meio, e ,agora, na candidatura do militar  fascista.
       Na cabeça dos eleitores de classe média, eliminar definitivamente o PT é um objetivo prioritário. Esses são os mais decepcionados com as pesquisas neste momento. A força simbólica da figura de Lula não deu espaço para candidaturas que expressariam o “novo”, isto é, a anticorrupção, a moral, os bons costumes e o anticomunismo, tradicionais “princípios” das frações que apoiaram um dia o golpe de 1964 e hoje pediriam, em última instância, intervenção militar.
      Os petistas costumam incluir nessa categoria de eleitores os juízes e procuradores que condenaram celeremente o ex-presidente Lula. Em parte, podem ter razão. Mas esquecem nessa avaliação a presença de um forte corporativismo no judiciário e o fato de que não são todos os juízes que comungam com os magistrados de Curitiba e de Porto Alegre.
      É muito provável que a escolha do próximo presidente, da maioria parlamentar e dos governadores dependerá de uma “onda” de impulsos na opinião pública, que é diferente das manifestações de classe, e que ultrapassa as fronteiras sociais na reta final das eleições. Essa “onda” esteve convergindo para o candidato militar até há pouco, em função do medo “do comunismo”, da inação das autoridades de segurança e do ódio anti-petista estimulados, inclusive, pelos meios de comunicação, incluídas aí as redes sociais, a TV, o rádio, os jornais e as revistas, em sua maioria.
     As aspirações dos mais diferentes eleitores podem ser dirigidas, em grande parte, para a visão paranoica que elege um” inimigo comum”. Neste momento da luta eleitoral, no entanto, os cidadãos estão cansados, saturados de informações e de notícias de violência. Há um governo praticamente inerte, incapaz de dar direção até aos seus próprios candidatos, Alckmin e Meireles, que representam o período de “austeridade” que se seguiu ao governo petista, exacerbando a crise e o desemprego sem o prometido crescimento econômico real. Além disso, o inimigo comum mais visível até agora --a Corrupção--, está diluído e presente em todos os partidos do cenário político, exceto em alguns virgens como o Psol,  na esquerda, e o Partido Novo, à direita. São os que mais empunham a bandeira do moralismo político, são as novas UDNs.
      O impeachment que derrubou Dilma Rousseff teve como consequência a destruição da força do Executivo quando já havia um Legislativo desmoralizado e fraco. Os corações e mentes dos cidadãos dirigiram-se, então, com esperanças para um Judiciário subitamente fortalecido, ao ponto de se falar de um Partido da Justiça.  Hoje, o próprio Judiciário perdeu força perante a chamada opinião pública, pela divulgação de seus privilégios e por suas contradições quanto ao prosseguimento da Lava Jato.
      A perplexidade é o estado mental de boa parte do eleitorado, mas os mais pobres ainda esperam dos seus símbolos uma saída vitoriosa. Vai depender do que o Judiciário Eleitoral vai fazer com a chapa “triplex”: Lula, Haddad e Manuela.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

SALADA IDEOLÓGICA




                                                         Reinaldo Lobo

         Não é de espantar que o cabo Daciolo tenha inventado a URSAL, “União das Repúblicas Socialistas da América Latina”, para descrever suas preocupações com o avanço do chamado “comunismo” nessa região do planeta. O cabo presidenciável, avatar de Bolsonaro, foi injustamente alvo de chacota nas redes sociais. Chamado de delirante e paranoico, é apenas um simplório e ignorante em matéria de política, ainda que se ache um espertalhão. Como, aliás, a maior parte da “elite” política brasileira.
         O cabo não sabe distinguir socialismo democrático de comunismo e isso não é só culpa dele. Toda a direita brasileira não vê gradações e nuances entre os que estão à esquerda no espectro político. Para essa turma, uma simples crítica social vira sinônimo de “comunismo”, a fim de aterrorizar a classe média e defender “intervenção militar”.
       A pobreza do imaginário político brasileiro só é comparável à sua capacidade para criar siglas falsas, vazias e absurdas, além das mais complexas fantasias conspiratórias.
      Temos um Partido Social Democrático, que não é social, mas só um grêmio fisiológico liderado pelo oportunista ex-prefeito Kassab, de São Paulo.
      Há um Partido Progressista, de Maluf, filho da Ditadura, agrupamento que não tem nada de “progressista”, dedicado hoje a fazer negócios e cujos membros apenas buscam se safar da cadeia.
     Existe uma série de partidos “trabalhistas” cujos militantes e líderes nem sabem exatamente o que é trabalhismo e nunca ouviram falar de Alberto Pasqualini. Hoje, seu chefe é o honorável Roberto Jefferson, cujo estilo nem chega perto do perfil de Getúlio Vargas.
     O PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), tido no início como de centro-esquerda, comportou-se como um autêntico grupo neoliberal no governo FHC, e, agora, alinha-se com o apodrecido governo Temer, cuja política de “austeridade” é ultraconservadora. Já o MDB de Temer nada tem em comum com um movimento que foi capitaneado por Ulysses Guimarães, tendo se tornado um saco de gatos pardos e noturnos.
     O próprio Partido dos Trabalhadores, considerado o mais coerente ideologicamente e visto como representante da classe operária, uma vez no governo defendeu interesses de banqueiros, de algumas empreiteiras corruptas e teve seu auge no governo Dilma, que chamou o banqueiro conservador Joaquim Levy para dirigir a economia. Quanto ao PC do B, originário da” linha chinesa”, afirma defender a democracia, mas tem no seu passado a meta da ditadura do proletariado.
     É de se duvidar que exista no mundo tamanha proliferação de partidos e  tanta contradição entre os seus “princípios” e sua prática efetiva como no Brasil. Não nos referimos somente ao jogo das denominações, mas ao vazio de conteúdo programático e ideológico. Boa parte do discurso político nacional reflete a ignorância em relação a qualquer filosofia, ética e fundamentos da política.
    Na Europa, o presidente francês Macron já citou o filósofo liberal Bertrand de Jouvenel com facilidade; os alemães social democratas lembram a filosofia de Jurgen Habermas ou mesmo recordam seus sólidos antecessores políticos, como Willy Brandt. Já os conservadores não hesitam em evocar Conrad Adenauer e, quanto aos ingleses, falam com naturalidade do filósofo liberal anglo-austríaco Karl Popper e de Winston Churchill, o seu grande estadista.
    É claro que, na Europa, existem o fisiologismo eventual e a estupidez dos neofascistas franceses ou, nos EUA, a de Donald Trump. Mas isso não é a regra dos partidos tradicionais nem do eleitorado que demonstra alguma fidelidade.
     Em nosso País, falta-nos uma tradição ideológica nítida, fundada não em reações epidérmicas, mas em pensamento. Nossos partidos têm programas frouxos, que oscilam em expressar interesses ou motivos eleitorais de ocasião.
    Boa parte do mantra anticomunista e anticorrupção que anima a direita vem dessa estreiteza de pensamento, que estimula fantasias simplistas como as dos eleitores de Bolsonaro e as do cabo Dalciolo, esse novo emergente da estupidez nacional, que ganhou uma audiência súbita e fugaz.
    Para esses, a política se resume a uma luta entre bandidos (comunistas e imorais) e a polícia (incluídos aí procuradores de justiça e juízes). Os mais sofisticados entre os conservadores falam do perigo “populista” na América Latina que precisa ser combatido com a extirpação de seus líderes e a promoção de uma “centro direita” privatista e pró-norte-americana. Desse ponto-de-vista, a URSAL é o populismo. Esquecem que pode existir populistas de direita, como fascistas, neonazistas, bolsonarianos, capitães, coronéis e generais latino-americanos, além de malucos do tipo de Trump.
    Em épocas de crise do capitalismo, que se sucedem em ondas recentes, o aparecimento de fantasias autoritárias é tão comum quanto as Fake News hoje em voga. As pessoas inseguras preferem crer em teorias conspiratórias e buscar soluções “rápidas e simples” para a segurança pública, o desemprego e a instabilidade social e econômica.
   Grande parte dos que seguiram Hitler nos anos 30 não se baseavam em nenhuma teoria filosófica nazista nem tinham tanta clareza do que faziam, mesmo existindo tradições social-democráticas na Alemanha, bem como liberais e monárquicas, todas foram diluídas pela salada ideológica oferecida pelo “tio Adolf”. Ele foi seguido, em grande parte, por gente motivada por impulsos reativos ao caos, à inflação e à ameaça de miséria permanente.
    Nossa salada ideológica não tem a maionese filosófica francesa nem o molho democrático inglês ou mesmo o chucrute prático alemão. Nossa salada tropical é salpicada de violência, fantasias mitômanas e ignorância profunda. Precisamos de muito cuidado nesse momento eleitoral pelo qual passamos.
   

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

BOLSONARIO, O MITO




                                                                Reinaldo Lobo

           A mitologia grega, com seus deuses e semideuses trágicos, está na base da cultura ocidental. Ainda hoje nos inspira. Todos sabemos que um mito tem um significado histórico, antropológico, filosófico e até político. O Mito da Caverna, de Platão, é ensinado nas escolas como forma de acesso a uma concepção da Razão. A revelação da verdade foi demonstrada muitas vezes por meio dos mitos, como o célebre mito de Édipo.
         Essa é a face nobre do mito, mas os dicionários nos ensinam que há um lado sombrio, com o sentido de pura mentira ou de “história da carochinha”. Os meios de comunicação veiculam mentiras nesse sentido mítico todos os dias.
        Os adeptos do capitão Jair Messias Bolsonaro, atual candidato à presidência por um certo “Partido Social Liberal”, perceberam, apesar de pouco sutis, essa ambiguidade da palavra. Inventaram a atribuição de “mito” a esse deputado bizarro, dublê de militar e político, antes desconhecido em sua longa permanência na Câmara Federal desde 1991.
        A palavra poderia conferir a essa figura do “baixo clero” político uma aura de potência, autoridade e coragem, como os heróis gregos. Nessa construção, o ex- capitão do Exército, aposentado em circunstâncias nebulosas, apareceria como um herói da luta contra corrupção, uma vez que foi citado pelo ex-ministro do STF, Joaquim Barbosa, como um dos únicos-- ao lado de Paulo Maluf!--, que não teria recebido a propina do “mensalão”. Além disso, a palavra alimentaria a narrativa de que lutou, durante a Ditadura, contra o “terrorismo”.
       No entanto, as contradições reveladas na entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura em São Paulo, mostraram que o ídolo não se sustenta. Aliado próximo do ex-deputado Eduardo Cunha, o Rei do Baixo Clero, de quem foi próximo durante vários anos, recebeu de forma indireta uma verba da JBS, que se apressou em devolver para o seu partido de então , o PP de Paulo Maluf e Ciro Nogueira, uma vez que a Lava Jato já estava em curso e os escândalos estouravam. Não há notícias de como pagou suas sucessivas campanhas a deputado federal nas legislaturas anteriores.
       Perguntado pela repórter Daniela Lima, da Folha, sobre a sua defesa do porte de armas pelo cidadão comum como forma de defesa contra os bandidos, enroscou-se de vez na resposta.  A jornalista fez uma pesquisa sobre ele e mostrou que , em 1995, o capitão treinado Bolsonaro foi assaltado numa rua do Rio de Janeiro e os assaltantes levaram sua arma e sua moto. Tentou explicar que foi “rendido” pelos bandidos num sinal de trânsito e que o seu batalhão de origem recuperou depois  a arma e a moto, sem responder de fato à questão.  Mas a repórter insistiu perguntando:  se ele que era treinado no uso de armas e defesa militar, foi rendido pelos bandidos, o que se poderia dizer do cidadão comum carregando uma arma?
        Os mitos da valentia militar e do herói messiânico também caíram no chão junto com o seu argumento a respeito da legislação sobre  armas e segurança.
        O capitão Bolsonaro, para associar a ex-presidente Dilma Rousseff à guerrilha de Carlos Lamarca, lembrou com orgulho que combateu no Vale do Ribeira, onde esteve, de fato, sob o comando, inclusive, do ex-coronel Erasmo Dias, como parte das tropas do Exército.
       O que ele não disse é que o Exército levou o maior baile dos guerrilheiros, que chegaram a capturar oficiais e a negociar sua soltura para abrir uma saída do cerco formado por centenas de soldados e vários batalhões, além de helicópteros e forças especiais anti-guerrilha. Enquanto negociavam, comandantes tentaram localizar Lamarca, o que resultou em combates e na morte de um tenente, executado pela guerrilha.
       A derrota das Forças Armadas no Vale do Ribeira levou o coronel Erasmo Dias a ser afastado de suas funções e relegado ao papel de chefe de polícia em São Paulo. Na versão de Bolsonaro – e, provavelmente, na versão oficial do Exército-- os “terroristas” de Lamarca foram traiçoeiros, os militares as vítimas e não existiram combates propriamente, apenas uma fuga. Ora, tudo indica, segundo inúmeros relatos históricos e de ex-agentes do governo, que os combates aconteceram e o Exército levou a pior. Lamarca só seria preso e executado no interior da Bahia muito depois.
      O capitão Bolsonaro não tem muito do que se orgulhar do desempenho no Vale do Ribeira nem em sua carreira militar de um modo geral.  Além de inventar versões históricas e dizer que apresentou 500 projetos de Lei nunca aceitos no Congresso-- quando, na verdade, admitiu na TV que foram 176 e nenhum foi aprovado--, sua carreira política não tem sido exatamente um sucesso. Mas é preciso admitir que sua equipe tem habilidade em criar “factoides” para impressionar a mídia e causar polêmica, como aquela foto dele ensinando crianças a atirar e fazendo gestos agressivos.
       O mito Bolsonaro é o resultado de vários fatores, sendo o principal a desilusão da população com os políticos em geral. Ele se apresenta como a única alternativa “fora do sistema” civil da chamada Nova República, agora em estado falimentar. As acusações de corrupção contra ele nunca apresentaram flagrantes e são relativamente pequenas.
       Seu discurso, se é que se pode chamar de discurso, é policialesco e se apresenta como um fruto da Operação Lava Jato, de caça aos políticos. A questão da segurança no País produz uma espécie de terror na classe média e também entre os pobres, que veem na fala de tom brutal uma única via simples para sairmos da guerra civil como a do Rio de Janeiro.
      Um fato inegável é que, desde 2013, quando os conservadores e a oligarquia dominante empalmaram um movimento de massas, pela primeira vez em décadas essas forças conseguem ter uma audiência. Existe hoje um público à direita que entende a política como uma luta entre a polícia e os bandidos, e ninguém apela melhor a essa demagogia simples.
       Bolsonaro não é um mito, mas uma “história da carochinha”. No entanto, tem o apoio de forças poderosas para exercer o seu populismo conservador e, se não for detido em sua ascensão eleitoral, causará sérios estragos à democracia.   Depois, será tarde, e nenhum de nós poderá dizer que não foi avisado.


quinta-feira, 19 de julho de 2018

A POLÍTICA DAS PAIXÕES



                                                                 Reinaldo Lobo*

      
           Os fascistas são os conservadores que mais têm medo. Medo da instabilidade econômica sob o capitalismo, medo de perder privilégios, medo do caos, medo do outro, do que pode mudar na vida,  do que é diferente,  do que se projetou em um inimigo escolhido como bode expiatório, medo da insegurança em geral e da vingança daqueles que submeteram infundindo o medo.
           Um filme em cartaz nas boas salas de cinema e na internet intitulado “1945” ilustra bem essa paixão oculta no coração dos opressores fascistas e de seus aliados: numa cidade húngara, mas que poderia ser qualquer uma do centro leste europeu ocupada pelos nazistas durante a Segunda Guerra, reaparecem após a libertação da ocupação alemã dois judeus ortodoxos que ali moraram. Os homens carregam duas misteriosas caixas que atemorizam os moradores locais: o que conteriam? Armas para a vingança contra a população aderida ao nazismo e que os delatou, roubou-lhes as residências e fingiu esquecer o que fez?
            A presença dos dois judeus causa um pânico nos moradores, pois aparentemente os novos ocupantes, os libertadores soviéticos, poderiam ter permitido que eles se vingassem. A insegurança se estabelece, a culpa leva uma personagem ao suicídio, as outras vivem conflitos aterrorizantes em relação àquelas caixas misteriosas e se preparam para o pior. O final é surpreendente, não vou contar para não dar “spoiler”, mas ilustra bem como paixões primitivas, como o medo e o ódio, levando à submissão irracional, ignoram o simbólico e a cultura.
          Os que não chegam a ser fascistas também têm medo da instabilidade na própria sociedade em que vivem, submetem-se e, muitas vezes, apoiam cegamente tiranias ou mesmo governos oligárquicos sob regime democrático. São os que colocam a felicidade e a segurança em primeiro lugar, como se esses fossem os principais objetivos da política e da sociabilidade. A principal paixão humana manipulada pelos governos, sejam autoritários, totalitários e mesmo hierarquias de regimes democráticos, é essa emoção subalterna, muitas vezes acompanhada de culpa, que leva a uma de servidão voluntária.
          Quem está submetido talvez imagine que está feliz e em segurança, e nega que o principal objetivo da política não seja nem a felicidade nem a segurança, mas a liberdade.
          Se aceitarmos a liberdade e a autonomia humanas como a essência da política, considerando necessária a criação de instituições que promovam realmente a liberdade, sem mentirinhas, não será o caso criarmos uma “boa sociedade” ou mesmo sem miséria. Mas seria necessário criar uma sociedade verdadeiramente livre, onde as paixões primitivas não sejam manipuladas para comandar as massas como bandos de incompetentes que não sabem o que desejam ou não possam escolher sobre suas próprias vidas. Uma sociedade autônoma será a mais consciente possível de suas necessidades, problemas, objetivos sociais e práticos. Não será perfeita, mas livre.
           Há lugares no norte do mundo, como Islândia, Finlândia, Noruega, Dinamarca e mesmo Suécia e Holanda, onde alguns experimentos que consistem em deixar a população governar quase diretamente deram excelentes resultados. Na Islândia, por exemplo, na crise do capitalismo deflagrada em 2008 e que afetou a todos até agora, a população tirou simplesmente a governança dos bancos, reuniu-se em assembleias autônomas e passou a gerir as decisões econômicas. A Islândia foi um dos primeiros, se não o primeiro país europeu a sair da crise.
            Ora, dirão, são países pequenos, fáceis de administrar e de aplicar “utopias”. Os resultados apresentados, como na Dinamarca, que em breve será o primeiro país totalmente sustentável do planeta, não são utópicos, mas concretos. O que possibilitou esses resultados não foi apenas o tamanho do território, mas uma história de conquistas sociais e políticas democráticas que vem de séculos.
           Além disso, a paixão política que alimenta essas decisões não é o medo, mas escolhas conscientes calcadas nas necessidades reais da população e nas discussões abertas de todos os canais da sociedade, onde o Estado existe, mas a serviço da população e não sobre a comunidade. São sociedades mistas, de economias “socialista” e “capitalista” ao mesmo tempo. Não são puras, nem perfeitas, mas perfectíveis em função do regime democrático.
          No Brasil, é fácil perceber dois fenômenos contrários a essa orientação: o clima de medo e de incerteza, de um lado, e a demanda de segurança, de “intervenção militar” e autoritarismo. Nem passa pela cabeça da maioria dos nossos políticos no poder convidar sequer a população para uma consulta popular ou abrir os canais de participação para a maioria opinar de verdade. Precisam manter as regras estritas das formas de representação atual, absolutamente falidas, porque têm...medo.  E, principalmente, porque eles seriam os primeiros defenestrados se a população tivesse voz e porque não defendem o bem geral, mas interesses particulares.
          Basta lembrar o que estão fazendo com a lei dos agrotóxicos, que é exatamente o oposto do que o mundo civilizado luta para atingir: a sustentabilidade e a sobrevivência geral, não apenas a do agronegócio.
          Enquanto o Brasil for manipulado pelo medo e a insegurança, teremos salvadores da Pátria fascistas, populistas e falsos democratas, oligarcas de luxo.
         Há um mito entre nós --de direita e de esquerda-- que consiste em espalhar a ideia de mais segurança, de salvação pela educação e pela redução gradual da miséria. O que esse mito esconde é que precisamos primeiro, justamente ao contrário, de uma sociedade politicamente mais livre, onde possa florescer a escolha da maioria, a mais ampla e participante possíveis, para termos os resultados práticos desejados.
       Para essa inversão dos valores e para a autoeducação política do povo, só uma paixão é necessária – a paixão da liberdade.
    

quarta-feira, 4 de julho de 2018

INVEJA NA COPA


  

                                                                    Reinaldo Lobo

       A inveja é um “monstro de olhos verdes”, disse Shakespeare – no “Otelo”, descrevendo-a sem nomeá-la exatamente e encarnada na personagem de Iago. Esse monstro é capaz de atormentar, corroer por dentro e até matar. Tem tudo a ver com olhar: a palavra “invidia” vem do latim, derivada do verbo “videor”, que quer dizer ver e, curiosamente, também ser visto. O olhar possessivo de um ser humano – todos nós—tomado pela inveja vê, vasculha, examina nos detalhes o que é do outro e que deseja para si. E ataca. A inveja dá medo.
       Não é por acaso que muitas pessoas, ao se sentirem invejadas por possuir um bem ou qualidades que as distinguem, fazem-se de humildes, como se pedissem desculpas. Têm medo de despertar ou confirmar a inveja dos outros. Algumas portam-se, ao contrário, de forma arrogante, mostrando seus bens e atributos admiráveis, defendendo-se pelo reasseguramento e o exibicionismo.
        Todos sabemos que ninguém quer se sentir um invejoso contumaz, mas o sentimento é universal. O mais difícil para contê-lo é quando está completamente mergulhado no inconsciente: a pessoa o nega com insistência, mas atua de modo a expressá-lo na conduta.
        No fundo, quem inveja se sente inferiorizado, sofre no íntimo por isso, sem se dar conta de que a inveja é apenas o desejo de possuir algo que pertence ao outro. Revela, é verdade,  o mal-estar pela felicidade do outro e por própria posição de inferioridade, por não ter o que o outro tem—e avaliar que nunca terá--, mas é um sentimento demasiado humano. A inveja envolve cobiça, voracidade e narcisismo ferido, isto é, orgulho atingido e sentimento de humilhação. Se assumida conscientemente, torna-se mais benigna.
       Não é uma emoção bonita, mas, no fundo, a inveja é admiração por linhas tortas. Para que a inveja leve a uma ação contra o objeto ou a pessoa admirada, depende do montante de raiva e de cobiça que envolve esse desejo, assim como do sentimento de inferioridade de quem cobiça. Daí os patuás de proteção, de “corpo fechado” contra o “olho gordo”, os esconjuros e as imprecações das religiões e crenças primitivas.
        É possível distinguir com certa facilidade um olhar invejoso, bem como uma fala carregada de inveja. Os jogadores mais famosos da Copa do Mundo são um alvo predileto dos comentários invejosos dos chamados cronistas esportivos e das pessoas em geral. Idealizados e admirados, são automaticamente invejados pelo público e, quando falham, é descarregado um desprezo violento ou um rebaixamento de sua condição de ídolos.
         O pavão é um bicho bonito de se ver, de plumagem colorida e de porte altivo, desfila sua beleza, mas um invejoso vai destacar um detalhe feioso: o pé do pavão. O pavão é lindo, mas o pé é feio – dirá o invejoso meticuloso.
          Há alguns dias, comentando uma declaração de alguém da equipe técnica da Seleção, que dizia a respeito do jogador Neymar que ele havia sofrido muito após uma cirurgia que o retirou dos treinos e dos campos por três meses, um cronista esportivo não hesitou em dizer na TV:
          -- Ele diz que sofreu, mas foi fotografado com a namorada Bruna Marquezine no colo em sua cadeira de rodas!
          Seguiu-se um muxoxo de desprezo no rosto do cronista. Ele ignorou o simples fato de que para um jogador de futebol no auge da juventude e da carreira brilhante ficar fora de sua atividade por três meses já é um sofrimento, além da cirurgia, da dor física, da difícil e incerta recuperação.
          E o cabelo de Neymar? Um capricho juvenil dele, um toque na imagem para fixá-la chamando a atenção, provocou uma torrente de ataques, de um tipo parecido com os dirigidos ao pé do pavão.
          Lembro-me de um episódio do célebre Ronaldo, o “Fenômeno”, que comprou certa vez uma Ferrari na Europa, no auge de sua carreira vitoriosa, e trouxe para o Rio de Janeiro, onde fez um rápido passeio à beira das praias. A imprensa caiu em cima dele com tal fúria, com afirmações sobre a indiferença   pelos pobres e a miséria no País. Não havia jornalista, esportivo ou não, que não falasse do assunto. Um cronista escreveu que Ronaldo não era lá essas coisas como jogador para merecer uma Ferrari e, ainda mais, exibir-se acintosamente pelo Rio.
         O tal cronista se esqueceu que só não ganhamos, possivelmente, a Taça em 1998 porque Ronaldo não estava em campo na final, acometido de uma doença, e que ele acabaria por vencer a Copa de 2002 com uma atuação que o consagrou como um dos maiores jogadores da história do futebol.
         Não deu outra: o coitado do Ronaldo (sim, nesse caso coitado) livrou-se da Ferrari e, para recuperar sua imagem desgastada, passou a mostrar as benemerências que fazia aos pobres e a visitar crianças doentes em hospitais.
         A frase do grande Tom Jobim --” No Brasil, o sucesso é uma ofensa” -- não vale só para o Brasil, ainda que, aqui, a desigualdade e a injustiça social tendam a  encobrir as manifestações invejosas com uma aura de respeitabilidade. É como se a inveja se justificasse pelas condições do País. Como a bíblica ira dos justos, a inveja dos cronistas esportivos e do público contra os ídolos do futebol é bastante cruel.
        Muitas vezes, a inveja provém do desamparo que a pessoa sofreu na infância, num ambiente que pode ter falhado com ela, levando-a a um sentimento de automenosprezo e fragilidade. Isso a faz atacar os “mais fortes”. Impede também de ver o outro em sua totalidade e a trajetória de vida que teve.
         Ronaldo -- como Romário, Neymar e outros-- saiu de vila pobre da periferia e passou, por seu trabalho, a ganhar milhões numa profissão que é uma das mais bem remuneradas do planeta. Não exploraram ninguém, não roubaram, não usaram o caminho da corrupção. Só jogaram bem.
         O contrário da inveja, dizia Melanie Klein, é a gratidão. Quando atacamos a mão que nos alimenta – com comida, amor, felicidade, prazer, alegria, identificação com o êxito, etc.—estamos sendo ingratos e incapazes de reparação pelo que recebemos e que podemos destruir. Há um ditado árabe que diz: “Por que me maltratas, se eu nunca te fiz bem”. Temos uma inclinação a maltratar aqueles que nos fazem bem.
        Por mais restrições que se faça a Neymar, Messi, Cristiano Ronaldo e outros craques do esporte, alguém que goste de futebol pode dizer, em sã consciência, que eles não deram aos torcedores grande momentos de identificação no êxito e muita alegria?

quinta-feira, 14 de junho de 2018

UMA UTOPIA SINISTRA


                                                                        
                                                                                 Reinaldo Lobo*

             13 de dezembro de 2018. O Brasil ganhou a Copa, as festas já cessaram, sobraram apenas algumas manifestações de patriotas e homens de bem, vestindo camisas amarelas e pedindo uma “intervenção militar”. Mas o país está agitado pelas incertezas de um pronunciamento militar feito pelo general Sérgio Etchegoyen, do Gabinete de Segurança Institucional, falando sobre as eleições realizadas em outubro e novembro
             Nesse mesmo dia, o general Eduardo Villas-Bôas, o militar mais “liberal” e simpático, comandante supremo do Exército, falando em nome das Três Armas, vem a público no horário nobre em cadeia nacional de rádio e TV , para dizer: 
            “Diante do caos causado pelas eleições fraudulentas, na qual um candidato da Ordem foi ilegalmente derrotado por um perigoso populista, somos obrigados a atender aos apelos das forças vivas da Nação para restaurar a democracia em sua pureza, afastando a corrupção e a subversão”.
            As “forças vivas da Nação” são -- como sempre-- os banqueiros, os empresários, as grandes corporações, o Mercado , uma parte da classe média e, desta vez, incluem um tanto de povo pobre desiludido com os políticos em geral. Depois de algumas reuniões com seus representantes aceitos pelos militares e consultas junto à Embaixada dos EUA, pedindo o consenso de Washington, o golpe de Estado foi consumado.
           O Congresso é cercado pelas tropas e fechado. O mesmo ocorre com o Palácio do Planalto e o STF. Centenas de deputados, ministros e funcionários do Governo somem de Brasília, alguns deles se exilam em Miami, com receio de serem presos. Vários parlamentares da direita religiosa, do agronegócio e da área de segurança procuram se aproximar dos militares que conhecem ou a quem têm acesso, procurando permanecer e reforçar o novo sistema.
          Dois ministros do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski e Dias Tóffoli, suspeitos de conspirarem com o PT antes e depois das eleições, são imediatamente cassados depostos e levados em condução coercitiva. O ex-presidente Lula é transferido da Polícia Federal, onde estava preso sem poder concorrer desde antes das eleições malogradas. Seu destino é ignorado, mas supõe-se que esteja sendo interrogado em algum quartel, com a permissão do Ministério Público de Curitiba.
           A ministra Carmen Lúcia, ex-presidente do STF, é reconduzida ao cargo por sua probidade e atuação decisiva na prisão de Lula. O juiz paranaense Sergio Moro é convidado a assumir o Ministério da Justiça. Também é sondado, com o plano B, Alexandre de Moraes, ministro do Supremo, também afeito às questões de polícia, repressão e manutenção da ordem.
           Os militares se dividem quanto às primeiras medidas junto à equipe econômica, mantida pelos banqueiros e acrescida de alguns economistas como Armínio Fraga e outros ligados ao Mercado. Um grupo nacionalista e proto-fascista propõe a manutenção da Petrobrás, o outro grupo, considerado mais “liberal” e americanófilo, sugere a imediata privatização e completa entrega do pré-sal à exploração estrangeira, na linha do que já começara com a Exxon e algumas companhias europeias. Surpreendentemente, o capitão Jair Bolsonaro, ex-candidato à Presidência, que se dizia nacionalista, passa a se alinhar com o grupo “liberal” e americanófilo.
          Uma censura prévia é imediatamente imposta à imprensa escrita e televisiva, assim como se instala uma comissão de investigação sobre o uso da internet e das redes sociais, que continuam parcialmente ativas após o golpe de Estado militar. Greves, sobretudo gerais, nem pensar. Os sindicatos sofreram intervenções e boa parte dos seus líderes, exceto aqueles patronais que pediram “intervenção militar Já”, já está presa
          As prisões, fugas e desaparecimentos prosseguem em todo o território nacional, bem como os exílios em embaixadas. As preferidas pelos políticos de esquerda são as de Portugal, França e Uruguai. Os da direita, acusados apenas  de corrupção e não de subversão, preferem os Estados Unidos, algumas ilhas no Caribe, o Panamá e , na Europa,  as ilhas Jersey , Mônaco, Luxemburgo e a Suíça, claro.
          O ex-presidente Temer desapareceu. Circulam boatos de que estaria no Líbano, terra de origem de sua família, ou então, o que é mais provável, estaria na garagem do Palácio do Planalto ou no Jaburu, negociando -- ao lado do ministro Eliseu Padilha, do deputado Carlos Marun e de sua Marcela--, uma possível composição com a Junta Militar para ter um ministério e salvar seu patrimônio de um possível Inquérito Policial Militar (IPM).
          Esse cenário futuro próximo descrito acima é distópico, isto é, o contrário de uma utopia. Sugere uma ditadura sinistra tomando conta em breve do Brasil. O pior é que esse pesadelo é, neste momento, o sonho de muita gente.
          O que essas pessoas mal informadas não sabem é que isso nos atiraria na lata do lixo do mundo e da história, perderíamos todo o prestígio internacional, seres humanos seriam injustamente detidos e humilhados nesse processo, quando não mortos. As agências de Direitos Humanos do mundo todo, a começar pela ONU, condenariam o País e o levariam aos Tribunais internacionais.
        Do ponto de vista econômico, haveria uma grande retração, diversos países parariam, no primeiro momento, de comprar produtos brasileiros e se aprofundaria a crise recessiva em que estamos mergulhados. Como o Mercado iria esperar as declarações “liberais” dos militares e de seus servidores para se recuperar, a médio prazo talvez os negócios se ativassem. Mas isso não significaria, como dantes se esperava, uma recuperação do crescimento nem a retomada plena dos negócios em escala mundial e multilateral.
      O Brasil iria depender dos acordos bilaterais com o governo Trump, que, certamente, seria dos primeiros a reconhecer a Junta Militar. O gol contra nacional nos tornaria uma pátria apenas de chuteiras e um ponto ficaria acertado e assente: o País assumiria francamente o seu papel de República das Bananas.


quarta-feira, 30 de maio de 2018

EXPLICANDO O FRACASSO




                                                                Reinaldo Lobo*

    No auge da “ditabranda”, em 1968, quando houve centenas de prisões, cassações, pessoas desaparecidas, guerrilhas, fechamento de instituições democráticas e o fim de todas as liberdades civis, chegou de Brasília um folclórico parlamentar paulista em pleno dia da edição do AI-5, e foi cercado pelos jornalistas. Um deles perguntou:
    -- Deputado, como está a situação em Brasília?
    -- Bem...—disse ele—a situação está cheia de conjunturas e as estruturas são complexas!
     Além do riso provocado, o parlamentar mostrou involuntariamente como a situação estava, de fato, feia. Ao ponto de precisar ser temida e escondida por uma nuvem de palavras de sentido obscuro e duvidoso.
     Hoje, quando temos uma crise quase tão grave como aquela -- bastando os caminhoneiros pararem para a sociedade chegar à beira do colapso--, os ideólogos do neoliberalismo estão dando explicações parecidas com a daquele ilustre parlamentar bizarro dos tempos da ditadura.
      Um conhecido colunista da Folha de S. Paulo, Hélio Schwartsman, paladino da causa do mercado e do “laissez faire”, deu uma brilhante explicação para o caos provocado pela crise dos combustíveis. Permitam-me citá-lo:
      “Como nos tornamos tão vulneráveis? A resposta é simples: complexidade. Há poucas coisas mais complexas do que o funcionamento de uma economia que se conecta em redes cada vez mais interdependentes milhões de agentes que atuam de forma autônoma. A ação estratégica de um único indivíduo – um erro de operação em Itaipu, por exemplo—pode parar o país inteiro”
       O famoso Conselheiro Acácio não daria uma explicação melhor e mais genérica sobre a economia atual. Ficando no nível mais abstrato, cabe tudo e é possível esconder o principal:  o fato de a crise dos combustíveis  não se tratar de um acaso randômico, mas do resultado de uma política geral de preços da Petrobrás, orquestrada por um conhecido adepto do mantra neoliberal, o tecnocrata Pedro Parente. A flutuação de preços, com reajustes automáticos, atrelados ao preço do barril no mercado internacional, vem sendo apontada por vários economistas sérios como a causa eficiente do drama em que meteram o País.
       Citemos mais uma vez --com a permissão do leitor-- a explicação fornecida pelo ilustre colunista:
       “Não nos pusemos nessa posição de fragilidade a troco de nada. A complexidade tem uma face mais positiva que aparece no desenvolvimento tecnológico e na produtividade. As interdependências que nos tornam reféns do imponderável também fazem com que avanços, mesmo que incrementais, tenham impacto positivo exponencial”.
         Ah, agora descobrimos a chave explicativa para o fracasso da política “interdependente” de Pedro Parente na Petrobrás – é o “imponderável”! Os Deuses da Probabilidade mandaram alterar um único elemento para bagunçar o todo!  Tudo era muito positivo -- ainda que “avanços incrementais” -- até que se abatesse sobre a Petrobrás uma “desregulação” do mercado.
       Aliás, a pergunta inevitável: positivo para quem? Quem se beneficia, o País ou os acionistas? A lógica é a da racionalidade ou a do lucro que nos leva a perdas internacionais? Então é preciso colocar a sociedade em risco em busca da “face mais positiva” da produtividade, mesmo que o remédio possa matar o doente?
       Em nenhum momento, o articulista diz que houve o fracasso da política que conduziu os caminhoneiros à greve geral. O que a retórica do ideólogo procura esconder é a feiura do “salve-se quem puder” neoliberal. Para isso, faz um contorcionismo pseudocientífico onde só falta apelar para Teoria do Caos ou a Quântica.
      O viés do ideólogo é, curiosamente, o mesmo da chamada grande imprensa que, em geral, desvia a atenção do equívocos da “equipe econômica dos sonhos” ( o “Dream Team”) do governo Temer. O habitual é criticar a fraqueza política desse governo, mas ressalvando-se os “êxitos” da equipe econômica. Começa a existir uma ambiguidade diferente dessa imprensa em relação aos fatos, na medida em que está ficando clara a dificuldade da área econômica em resolver as questões do crescimento e da estabilidade.
     A narrativa anti-Estado também tende a reduzir sua retórica diante do impacto da greve dos caminhoneiros, que colocou a necessidade de intervenção – não a militar, mas o tabelamento de preços. A imprensa descobriu igualmente, de repente, que a dependência quase absoluta da malha rodoviária, e a não existência de ferrovias e da cabotagem para o escoamento da produção, apontam para necessidade da presença estatal no remodelamento da infraestrutura.
      O modelo baseado no caminhão e no automóvel está-se esgotando, junto com a dependência do combustível fóssil. Isso exige transformação global por uma saída desenvolvimentista, com forte presença do Estado. Exige o que nenhum neoliberal gosta: planejamento estratégico. O culto do espontaneísmo monetarista e a implementação do capital financeiro internacional, fontes da interdependência louvada pelo ideólogo da Folha, não podem dar conta das realidades econômicas, nem das classes sociais em conflito. A crença de que o mercado regula tudo com sua mão invisível nega que as classes têm interesses e almejam a hegemonia no seio da sociedade.
      As contradições do capitalismo brasileiro ficaram evidentes com essa crise, que está longe de acabar. Mas as explicações dadas pelos porta-vozes do establishment lembram um pouco aquele mecânico de carros que, diante de uma pane seca, resolve enganar o cliente propondo trocar a “rebimboca da parafuseta”.