quarta-feira, 2 de julho de 2014

O PAPA DIFERENTE


                                                                             Reinaldo Lobo        

    Quando o cardeal Ângelo Roncalli foi eleito acidentalmente, em 1958, e se tornou o Papa João XXIII, o "Papa Bom", uma camareira de Roma fez algumas perguntas para a filósofa Hannah Arendt, que lá estava:  "Senhora, esse papa era um verdadeiro cristão. Como podia ser isso? E como aconteceu que um verdadeiro cristão se sentasse no trono de São Pedro? Ele primeiro não teve de ser indicado bispo, e arcebispo, e cardeal, até finalmente ser eleito como papa? Ninguém tinha consciência de quem ele era?"

    Bem , a resposta à última das três  perguntas da reflexiva camareira parece ser "Não"-- disse Arendt. Ninguém entre os cardeais do conclave tinha consciência clara de quem era Ângelo Roncalli, até porque ele foi escolhido para ser um "papa provisório e transitório". Foi eleito por não haver consenso a respeito dos verdadeiros "papabile" iniciais.

   João XXIII foi uma completa  surpresa durante seu breve pontificado, de 58 até 63, quando realizou a mais profunda reforma interna e doutrinária da Igreja em muitos séculos, tornando-a mais popular e, ao mesmo tempo, um pouco mais moderna. O catolicismo expandiu-se numérica e qualitativamente como nunca sob esse papa verdadeiramente  cristão.

      A eleição do Papa Francisco teve algumas diferenças de contexto histórico e os cardeais sabiam quem ele era e de onde vinha. Foram buscar um papa do "fim-do-mundo" -- do Terceiro Mundo--, como ele mesmo assinalou ao passar de arcebispo Mario Jorge Bergoglio a 266° pontífice da Igreja Católica, primeiro nascido em continente americano, primeiro não-europeu em mais de 1200 anos e o primeiro papa jesuíta.

    A profunda crise atual por que passa a Igreja, que vai de escândalos financeiros no Banco do Vaticano até os casos notórios de pedofilia em várias paróquias do mundo todo, passando pela ascensão das rivais denominações pentecostais, levou o colégio de cardeais a correr um risco calculado de oferecer o nome de alguém bem diferente do antecessor que renunciou, Bento XVI, o sisudo e dogmático cardeal alemão Joseph Aloisius Ratzinger.

    Em quê o Papa Francisco é diferente? Por que a burocracia da Igreja correu um risco ao escolhê-lo? As respostas não são fáceis, mas estão evidentes hoje para todos as diferenças, a começar pela escolha do seu nome, inspirada na frase que lhe disse seu amigo brasileiro, o cardeal d. Claudio Hummes, ao cumprimentá-lo pela eleição : "Não se esqueça dos pobres". Ele não tem esquecido e o estilo de vida mais franciscano que adotou revela sua disposição de colocar a Igreja menos ao lado dos ricos e potentados, como esteve por séculos. Depois do interregno ultra-conservador dos papas João Paulo II e Bento XVI,  esse jesuíta simpático e amante do futebol é uma lufada de ar fresco.

      As instituições e suas burocracias tendem a escolher como seus representantes e líderes os mais fiéis aos seus interesses e valores administrativos. Muitas vezes, os premiados são os mais submissos às regras políticas da instituição e os mais medíocres. Quase todas as instituições e organizações conhecidas funcionam assim. Daí, a surpresa da camareira romana e da filósofa Hannah Arendt diante da escolha de um "verdadeiro cristão", que poderia levar a Igreja a resgatar princípios originais da instituição e,portanto, a revolucioná-la.

     Essa é outra característica de um "grupo de dependência" como a Igreja, isto é, um grupo que elege um Messias, uma doutrina e a disposição fideísta para seguir um mestre e seus dogmas. Quando cresce e se distancia do Mestre original, esquece suas origens e se prende a rituais e regras rotineiras para manter-se sólida. O resgate e a evocação da origem costumam ser subversivos. Daí a surpresa diante da evocação de Francisco de Assis, que contrasta muito com o luxo do trono ocupado por Bento XVI, mais a tolerância da burocracia católica com o novo Papa e com a mudança de rumos que pode imprimir em seu pontificado.

     A resistência à sua presença por parte dos conservadores do mundo todo assemelha-se muito à que sofreu João XXIII, acusado pela direita de  "bonzinho com o comunismo" e até mesmo de "marxista". Agora , a revista conservadora "The Economist" acusou-o de "seguir Lênin", o líder soviético que escreveu o livro "Imperialismo, etapa superior do capitalismo", em que assinala a tendência monopolista e concentradora de renda do capitalismo moderno. O Papa apontou a concentração de renda capitalista e os monopólios, e os criticou por aumentarem a desigualdade e a pobreza,  o que tem sido apontado até mesmo por economistas insuspeitos de "marxismo", como o norte-americano Paul Krugman  e o francês Thomas Piketty. Somente o que chamo de  a "burrice conservadora" ou a ma fé poderiam levar à conclusão de que ele seria "leninista".

     Sua frase sobre a existência de cristãos gays , dizendo "quem sou eu para condenar um homossexual que procura espiritualmente Cristo?", tocou em outro tema polêmico em que tem sido fustigado pela estupidez conservadora. Sua atitude, porém, começa a se difundir pela corpo da própria Igreja e vários católicos relatam nas redes sociais que já presenciaram padres falando em defesa das uniões homoafetivas do púlpito em suas missas.

     Ao mesmo tempo, o Papa acaba de excomungar os membros da Máfia, responsáveis pelo assassinato de uma criança de três anos na Sicília, e também expulsou das funções eclesiásticas o ex-núncio da República Dominicana, o polonês Jozef Wesolowski, condenado por pedofilia comprovada naquele país. As suas atitudes firmes fazem crer que o Papa continuará a condenar o crime, sobretudo quando cometido pelo próprios membros da Igreja, mas não ditará regras sobre as condutas humanas em geral. Sob seu pontificado, espera-se que a Igreja interfira menos na vida privada das pessoas e seja mais tolerante em seus juízos morais.

     No início, o Papa Francisco era um enigma. Existiam até acusações apócrifas de que teria sido leniente com a Ditadura Militar argentina quando era bispo. Depois descobriu-se que foram feitas até montagens fotográficas maldosas, dele ao lado do ex-ditador Jorge Videla, de quem "seria o confessor". Nada disso se comprovou. Sabe-se apenas que ele negociou a preservação dos Direitos Humanos naquele país, o que o fazia dialogar com freqüência com os ditadores dos anos 70 e inicio dos 80.

      Francisco vem humanizando o papado e é possível esperar que promova um gradual "aggiornamento" dos cânones da Igreja, como fez João XXIII. Tudo para evitar a decadência da instituição. É uma política mais  inteligente,  para dizer o mínimo, do que a do intelectual sofisticado Bento XVI.

    Se assim for, não é  preciso ser católico e nem mesmo acreditar piamente, para dizermos como os cristãos: "Deus o proteja". Vai precisar.

 

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A BURRICE DOS PODEROSOS


                                
                                                                                    Reinaldo Lobo*

   Os editorialistas, articulistas e ideólogos da oposição empresarial e política ao governo sustentam que o decreto n° 8243 da presidente Dilma seria a criação de verdadeiros "sovietes" no Brasil. Tomara que fosse assim!

   Só a ignorância histórica , comum entre os escribas das classes dirigentes , ou a ma fé também habitual, poderiam confundir as coisas.

   Os sovietes foram a mais democrática criação na época da derrotada Revolução Russa de 1905 contra a monarquia czarista. Eram conselhos de representação direta nascidos espontaneamente de baixo para cima no seio da sociedade civil russa. Reivindicavam trabalho, pão, liberdade e, depois, paz, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914.

 "Soviete" quer dizer conselho (do russo: "Cobét"). Funcionava como um colegiado, sem um comando único. Sua inspiração era muito mais libertária do que comunista. Existiam nas fábricas, nos serviços em geral, em algumas comunidades rurais e nas Forças Armadas. Ficaram famosos os "conselhos de fábricas" paralelos aos sindicatos oficialmente aceitos e os "sovietes de camponeses". Os sovietes de soldados tiveram participação direta na guerra civil revolucionária e na sustentação do futuro governo.

   Esses conselhos foram ampliados em número e atuação em fevereiro de 1917, com uma inesperada nova onda revolucionária que acabou por derrubar o Czarismo. Mantidos no início da Revolução de outubro de 1917, em seguida foram empalmados e esvaziados pelos bolcheviques, sob o comando de Lênin e Trotsky, e, mais tarde por Stálin, após 1924. Os sovietes, apesar de tolerados oficialmente pelos bolcheviques, eram, na verdade, um obstáculo aos propósitos burocratizantes do stalinismo, virtuais e embrionários durante o governo de Lênin (1917-1924).

     Os sovietes surgiram paralelamente à Duma -- o parlamento russo-- e tiveram função deliberativa e também participativa. Muitas de suas decisões viravam leis e definiram o caráter democrático inicial da Revolução.

 Com a tomada do poder pelos bolcheviques em outubro, engolfando vários  grupos e movimentos sociais, o Partido ganhou corpo e, aos poucos, foi fazendo compromissos de poder, acabando por sufocar gradualmente os sovietes, impondo uma ditadura. O Partido Bolchevique mudou então de nome, tornando-se Partido Comunista.

    Foi o começo de um Termidor no seio da revolução russa, uma restauração de poderes imperiais e autocráticos e das instituições como a Duma, o Judiciário e a divisão dos ministérios ao estilo tradicional, além do férreo Executivo, agora exercido pelo Secretário Geral do Partido. Essas instituições tornaram-se a fachada de uma caricatura de República (chamada de "Soviética"), mas exercida por um outro poder paralelo (e real), que era a nova classe dominante. O Partido era um instrumento poderoso desses novos autocratas, mas foi, nesse momento, menos do que um poder em si mesmo, pois os seus militantes também foram submetidos a uma disciplina e a uma hierarquia rígidas.

   No stalinismo, a expressão "união soviética" tornou-se meramente simbólica.  Os sovietes foram esmagados, a democracia de baixo para cima acabou castrada e a hegemonia era exercida por uma férrea burocracia que se constituiu na classe dominante. A supressão dos sovietes é que levou ao famoso "socialismo real" de Leonid Brezhnev e outros, comandado pelos "comissários do povo", os gerentes de empresas (que hoje formam, em parte, a nova burguesia russa sob o capitalismo), o estamento  militar e os líderes políticos. Não foi, portanto, o Partido o dono exclusivo do poder, mas os burocratas que se valiam dele para ter salários altos, o comando das fábricas e do campo "coletivizado", privilégios e luxos quase ao nível da Corte czarista.

   Um pouco mais de estudo da História ajudaria  a entender a diferença entre os sovietes e o decreto para regular a participação do povo e dos chamados movimentos sociais.

   Para começar, uma diferença fundamental : o decreto abre a "possibilidade de criação de conselhos" representativos da sociedade e lhes oferece um espaço público. Não cria nenhum; abre caminho para que as comunidade os criem. Em segundo lugar, o diferencial mais importante: esses conselhos, se criados, seriam um canal consultivo, mas não deliberativo ( com exceção, parece, do Conselho da Criança e do Adolescente).

   O decreto da presidente não tem nada a ver com sovietes, até porque não estamos em revolução. É uma tentativa, a segunda em um ano, de responder positivamente às reclamações da sociedade civil nas manifestações de junho de 2013. O que mais se pedia nas ruas, entre reivindicações de salários, tarifas e melhoria das cidades, era uma Reforma Política, que , uma vez realizada, seria a mãe de todas as reformas.

   A palavra de ordem da sociedade era um pedido para modificar a representação política, com maior participação popular nas decisões. O sentido disso era que se contivesse de algum modo a voracidade de políticos e de funcionários do Estado convertidos em lobistas de interesses, às vezes, escusos. Em outras, em intermediários de interesses particulares e de minorias.

    Bem que a presidente tentou fazer um plebiscito e até uma constituinte, aliando-se democraticamente ao clamor das ruas, para tentar elaborar, enfim, a tão falada reforma política. Sua postura foi elogiada até pela ex-secretária de Estado dos EUA, Hilary Clinton, que a apresentou como um modelo mundial de democrata. Mas ela foi rapidamente barrada pelo Congresso brasileiro, inclusive pelo  PMDB, da base governista, inteiramente comprometido com interesses empresariais e eleitorais.

    Agora, pode-se dizer que é a segunda tentativa presidencial de falar direto com o povo, mas de uma maneira mais sutil. O seu decreto possibilita legalmente a criação de conselhos nascidos no interior da sociedade que ofereçam a sugestões populares. Fala também em "movimentos sociais", o que aterroriza os ricos empresários, banqueiros e beneficiários de grandes fundos de pensão.

    O que os ideólogos dessa turma não compreendem é que os tais movimentos sociais paralelos teriam, pelo decreto, um canal legal  para apresentar sugestões e reivindicações, diminuindo a dose de conflitos. Esse processo faria com que os conflitos fossem dirimidos em uma instância simbolicamente organizada. Além disso, haveria a abertura para algo como existe nos EUA nas pequenas e até em grandes cidades, os conselhos de cidadãos que , naquele caso, sugerem e , em algumas, até deliberam sobre a construção de uma ponte, de uma estrada ou sobre a utilização do dinheiro publico. Os norte-americanos, em que pesem todos os seus problemas, não têm medo da democracia direta, pelo menos em algum nível.

    Um representante inteligente das classes dominantes brasileiras, Roberto Campos, definiu o seu ponto- de- vista  na fase terminal da Ditadura, dizendo que a democracia, quanto maior e ampla, seria "uma forma de disciplinar o protesto".  (Artigo publicado em "O Estado de São Paulo", 1976).Ele e Golbery do Couto e Silva, o maquiavel de Geisel e de outros generais, sem outras alternativas de poder bruto, foram mais espertos do que boa parte do empresariado vindo do Baronato do Café, acostumados à República democrática sem povo. Acolheram a chegada da democracia.

    Nossos "liberais" com receio de mexer nos moldes republicanos tradicionais, além de não muito espertos e nem modernos, podem ser responsabilizados em grande parte pelo sistema representativo corrupto e politicamente decadente do País. O que temem não é o poder político de um Partido (que não seja o deles). Eles têm medo é do povo.

 

*Reinaldo Lobo é psicanalista e articulista. Tem uma página pública: facebook.com/reinaldolobopsi E também tem um blog: imaginarioradical.blogspot.com

quarta-feira, 4 de junho de 2014

A PÁTRIA DE CHUTEIRAS


                                                                      Reinaldo Lobo
     O pau-de-arara é genuinamente brasileiro, como a jabuticaba e o doce brigadeiro. A palavra designa três coisas diferentes: a condução que levava nordestinos para o Sul, a forma como esses migrantes se penduravam nos caminhões improvisados e um instrumento de tortura. O instrumento de tortura foi exportado, infelizmente, para muitos países. Mas também exportamos inventos mais interessantes, como o "chapéu",o "lençol" e o "drible da vaca', consagrados pelo futebol de Pelé. O francês-argelino Zidane foi um dos que aprenderam tudo isso e quem deu um "vareio" na nossa defesa em 1998.

      O Brasil não é perfeito. Tem mazelas e problemas graves há séculos. Falha, às vezes, no futebol e muitas na sociedade e na cultura. Já Guimarães Rosa, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Manoel de Barros são genuinamente brasileiros, como o genial Garrincha. Quanto ao Paulo Coelho, decidiu que não é genuinamente brasileiro e está torcendo contra. Bom para nós, bom para a cultura brasileira!

    O fato é que estamos entrando divididos em um dos maiores espetáculos da Terra, a Copa do Mundo.. Um verdadeiro "acontecimento" midiático, como a morte da princesa Diana ou o ataque da Al Qaeda às Torres Gêmeas, evento que "abriu" o século XXI -- diria o sociólogo francês Jean Baudrillard.

    O mundo estará olhando para o Brasil, mas vamos entrar em campo com uma cisão inédita entre os que apóiam a Copa e os que são contra os gastos com a Copa. Parece que não terá tanto valor a metáfora do genuinamente brasileiro Nelson Rodrigues,  "A Pátria de Chuteiras", que colocava todo o povo jogando com a seleção. A esperança é que os relutantes também passem a engrossar a "corrente prá frente", à medida em que a seleção avance na classificação.

    Os protestos contra a Copa originados nos movimentos sociais como o MST e o dos Sem Teto, somados aos que reivindicam tarifas e aumentos salariais, apresentam reivindicações conhecidas há muito tempo. Mas dividem a própria esquerda, pois uma parte dela está com o governo Dilma, que, paradoxalmente, esses movimentos apóiam..   

   Curiosamente, sempre foi uma ala do PT que considerou o futebol uma espécie de "alienação", uma distração destinada a desviar o olhar da população dos verdadeiros problemas sociais. Agora, a maioria dos petistas defende a realização da Copa com bandeirinhas verde-amarelas na mão. E apostam, em grande parte, nas chuteiras de Neymar e de seus colegas o futuro eleitoral de Dilma.

     Já a oposição está jogando duro, ao estilo europeu, às vezes sem muita inventividade, fazendo o que pode para dar uma conotação oposicionista aos protestos populares. Tudo virou culpa do PT e da Dilma. Se o trânsito até o Itaquerão parar, o problema irá direto para a conta do governo federal. Até a falta d'água em São Paulo, responsabilidade do governo estadual do PSDB, é escondida e desviada para a lista de débitos do Palácio do Planalto. A imprensa oposicionista -- a maioria dela-- não faz nenhuma cerimônia em acentuar todas e quaisquer mazelas do País, relacionando-as com os gastos da Copa.

    Aliás, o governo Dilma deveria ter previsto que isso aconteceria, mas  não conseguiu prevenir a ocorrência de alguns problemas nem acelerar obras de infra-estrutura na velocidade que calaria a boca da oposição.

   Um argumento que apareceu, contudo, nas redes sociais petistas dizia que Lula seria certamente acusado em 2007 pela imprensa oficial do PSDB  por ter perdido a oportunidade de trazer a Copa para cá e, em conseqüência, deixarmos de ganhar  bilhões em investimentos. Como a Copa veio, as acusações são ao contrário.

   Quando a situação é dessa forma monopolizada pelas grandes corporações da imprensa e TV, qualquer decisão governamental pode ser revertida contra o próprio governo. O mais surpreendente nesse processo de tentativa de liquidação do projeto petista é que a imprensa resolveu ressuscitar o "complexo de vira-latas", que Nelson Rodrigues diagnosticou.  Esse complexo começou a  desaparecer a partir do governo Juscelino Kubitschek, que coincidiu com nossa primeira Copa, em 1958. Agora, voltou com tudo, pelo menos para uma parte da população.

   O auto-desprezo, a descrição sistemática de uma identidade brasileira como incompetente e corrupta, com certeza tende a derrubar a auto-estima dos brasileiros. Não faltam pessoas que dizem: "Nesta Copa não vou torcer". E outras não hesitam: "Desta vez, vou torcer contra." Não foi por acaso que uma empresa brasileira fabricante de roupas, a Ellus, lançou uma camiseta com os dizeres idiotas: "Abaixo este Brasil atrasado". Há gente desejando um novo Maracanazo, como em 1950.

   Com esse processo de auto-difamação, a identificação entre os êxitos da democracia e do desenvolvimento com as vitórias no futebol, iniciada no período Juscelino, tende a desaparecer.  Se isso acontecer, será uma pena.

   Há toda uma geração de brasileiros que, mesmo sob a Ditadura civil-militar de 64, continuaram a torcer  pelo que é genuinamente brasileiro. Essa geração cresceu na esperança de conquistar a democracia plena e um país melhor. Mas boa parte dela também cresceu idealizando outras culturas e desprezando a nossa. A sensibilidade das classes médias brasileiras tem sido formada por Hollywood-- como sempre foi-- e estabeleceu como padrões os valores da sociedade norte-americana.

     Muitos dizem que esse é um fenômeno antigo herdado do Brasil Colônia, nascido sob a mentalidade dos colonizadores. Em parte, é verdade. Porém, a integração induzida pela "globalização", pela onda neoliberal dos anos 90 e pelas novas tecnologias trouxe para mais perto valores que não nos pertencem e que são inoculados nas novas gerações. Muito brasileiro gostaria de ser norte-americano. Essa geração acostumou-se a se ver sob a ótica  norte-americana.

     Há uma crença difundida de que nossa identidade é a de quem  louva  Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Mentira. Nunca se combateu tanto a corrupção e o mau-caratismo como hoje em nosso País. Além disso, quem ler Mário de Andrade, autor genuinamente brasileiro, vai entender que o seu herói era um ser novo, precisando construir um caráter e uma civilização originais, mesmo absorvendo o que vinha de fora.

   É disso que precisamos e, apesar da disputa eleitoral de 2014, também é necessário ganhar essa Copa, entrando em campo junto com nossos jogadores. Nem que seja só para apagar a maldição de 1950.

terça-feira, 20 de maio de 2014

CINEMA: REALIDADE, ILUSÃO.


                                                                                                             Reinaldo Lobo*

 

     A sessão de cinema está começando e aparece na tela o letreiro: "Isto é uma obra de ficção. As personagens deste filme são fictícias. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência".

     Por que esse aviso é necessário? Existem, é claro, problemas legais; alguém pode se sentir representado na história e ofender-se ao ponto de processar os roteiristas, os produtores e o diretor da obra cinematográfica. A frase é necessária, em parte, para proteger legalmente todos os que investiram no filme. Mas não é só isso. Indica também a linha demarcatória teórica entre o objeto subjetivo e o objeto objetivamente percebido na realidade compartilhada.

     O cinema pressupõe, portanto, algum grau de ilusão. Estamos no preâmbulo da transicionalidade. Situamo-nos, por enquanto, naquele território intermediário que sustenta a verossimilhança e a crença. São bastante conhecidos, por exemplo, os casos daquelas pessoas que ficam aquém da linha demarcatória e chegam a atacar atores na rua porque odeiam suas personagens nas novelas da TV. Algumas dessas pessoas deslizaram para uma crença tão forte que constitui uma alucinação.

    Ilusão não é, para nós, uma percepção distorcida de um objeto real nem tem o sentido comum atribuído pela fé perceptiva de erro, engano, imagem distorcida (ilusão de ótica), armadilha, trapaça (iludir alguém) ou de visão parcial de algo. Ilusão constitui, em nossa perspectiva conceitual, o efeito de criação decorrente da relação do sujeito com o objeto subjetivo(1). Quando essa relação não transita para o objeto não-eu e para  o brincar, temos a patologia.

   Esta é uma idéia, como todos sabem, proveniente da obra de Winnicott e bastante especificada em "O Brincar e a Realidade" como um pressuposto básico dos  fenômenos transicionais e do aparecimento  do objeto transicional. Logo no início, o bebê cria e encontra um objeto -- o seio. O objeto subjetivo é, primeiro, uma criação do bebê.

   Winnicott sugeria que ele era um autor para ser usado. Pois o estou usando para entender um pouco o cinema. Por isso, tomo a ilusão como ponto de partida e como base da crença na "realidade" do que se passa na tela. Quando psicanalistas falam de um filme tendem a prestar a atenção no conteúdo das cenas e no seu significado. Muitas vezes, psicanalisam uma personagem como se fosse um paciente. Em outras, aplicam o método psicanalítico para compreender toda a obra cinematográfica ou a sua temática. Não é uma crítica. Às vezes, isso é interessante e importante. 

    Há, contudo, um outro ângulo para ver um filme, que é desconstruir o próprio cinema e o que ele provoca em nós, espectadores e cinéfilos. O cinema é uma composição de fotogramas postos em sucessão,  o que produz uma ilusão de movimento. O cinema é filho da fotografia, só que posta em ação pela  dinâmica da rapidez da sucessão de imagens e, depois, da edição.

    Antes disso, uma história foi escrita , um roteiro, e alguém se dispôs a dirigir tudo isso, talvez em meio a  inúmeras reuniões  com produtores, atores, maquiadores, cenógrafos, diretor de fotografia e, eventualmente, de efeitos especiais. Tudo isso para produzir algo requintado próximo de um sonho, mas baseado no ponto inicial de ilusão. A ilusão cria uma abertura, uma expectância de um objeto por vir. O que surge desses elementos como produto final é uma espécie de brincar para adultos e crianças.

    O filme passa numa tela como num sonho -- cenas justapostas que acabam formando uma história. Os olhos acompanham quase como no sono REM (Revolutionnary Eyes Mouvement), seguindo as cenas de alto a baixo, da esquerda para a direita ou vice-versa. Freqüentemente, pacientes dizem no divã os seguintes lapsos: "Ontem, vi um sonho, quer dizer, um filme..." ou, então, "Esta noite tive um filme, quer dizer, um sonho...".

    O cinema se esforça para realizar não algo totalmente verdadeiro, mas verossímil. Nem o documentário se apresenta como a "realidade", mas como uma visão dela. Muitas vezes nem precisa ser tão verossímil, como nas histórias de "Harry Potter", o "Senhor dos Anéis" e outras. Basta que se entre na brincadeira.

    Um filme, nós bem o sabemos, está naquela terceira área da experiência, que não é interna nem externa. Situa-se no espaço que os objetos culturais ocupam -- o espaço potencial entre a realidade e a fantasia.

    Para o cinema existir, é necessário que haja primordialmente "um sujeito suposto crer", como também diz Slavoj Zizek (em "Como Ler Lacan", pg. 40), que seria para os lacanianos o traço constitutivo da ordem simbólica.  Esse sujeito, do nosso ponto de vista, é o da ilusão no sentido de Winnicott, pois é condição de possibilidade da transicionalidade e , portanto, de toda possibilidade de simbolização.

                              UMA LACUNA NA TEORIA DA SUBLIMAÇÂO

   Winnicott sugere no "Brincar e a Realidade" que havia um branco na teoria da sublimação de Freud e na sua concepção do lugar dos objetos culturais. A sublimação é apresentada apenas como um deslocamento no alvo do instinto. Um derivativo e uma compensação para a insatisfação pulsional. Em lugar de apenas perguntar sobre a excitação subjacente e o conteúdo das fantasias derivadas do impulso presentes nos produtos culturais, Winnicott faz a pergunta fundamental : onde está localizada a experiência cultural?

   Ele a responde  encontrando, primeiro, as etapas constitutivas do espaço em que se situam o bebê e o ambiente e onde se  dá a  experiência; depois,  discernindo os ritmos e as temporalidades em que esta localização ocorre. Diz ele:

   "Nos estudos psicanalíticos, o tema do brincar já foi intimamente e em demasia vinculado à masturbação e às variadas experiências sensuais. É verdade que quando nos defrontamos com a masturbação, sempre pensamos: qual é a fantasia? E é também verdade que, observando o brincar, tendemos a ficar imaginando qual é a excitação física que está vinculada ao tipo de brincadeira a que assistimos. Mas o brincar precisa ser estudado  como um tema  em si mesmo, suplementar  ao conceito de sublimação do instinto"( pg. 60).

   Quando a excitação aumenta e se torna predominante, diz Winnicott, acaba a brincadeira. Se a excitação física  do envolvimento instintual se torna evidente,então o brincar se interrompe ou, pelo menos, se estraga, diz ele em "Brincar: Seu estatuto teorético na situação clínica" ("Intern. Journal of Psycho-anal"(pg. 49). Isto separa o cinema como experiência cultural e como pornografia, por exemplo. Se o objetivo é masturbatório ou excitante, não estamos mais na área intermediária. Estamos no terreno da fuga para o real ou para a concretude alucinatória. Também se pode pensar em uma passagem ao ato e o bloqueio do simbólico. Acabou a área de repouso representada pela transicionalidade ou a criatividade contidas no brincar ou no objeto propriamente cultural, cujo orgasmo proporcionado é o do ego.

    Um filme como Matrix, aparentemente de ficção científica, em que foi dita a frase celebrizada intelectualmente por Slavoj Zizek  -- "Bem-vindos ao deserto do Real"-- remete-nos a uma experiência ao mesmo tempo verossímil e falsa. Verossímil, porque  o mundo da eletrônica computacional torna quase possível uma "realidade virtual" como a de Neo e de seus companheiros. Falsa, porque sabemos que é apenas um filme.

    No entanto, a impressão e a vivência de que estamos mergulhados nesse mundo transcendente e  traumático,  espelham e nos fazem sentir, em parte, nossa alienação e robotização contemporâneos.Saímos aliviados do cinema quando constatamos que era apenas um filme. Digo que era um filme aparentemente de ficção e futurologia por isso mesmo: ele fala do nosso presente. Estamos, talvez, à espera de um novo Neo que possa nos salvar.

    Quanto à realidade virtual, não pode ser confundida com espaço potencial, que é vivo, é área de jogo vital. O cinema é o jogo entre a subjetividade e a objetivação. É vida. A realidade virtual lembra o ascetismo da sociedade contemporânea: é preciso  sacrifício na academia, malhando,comer alimento sem gordura, beber  leite sem lactose e sem proteína, frutas desidratadas, tomar café descafeinado. Não é café , mas tem gosto e cheiro de café.    É a forma sem o conteúdo.  A forma sem o núcleo duro do real, como dizem os lacanianos. O ser sem a sua substância.

   Muitos interpretaram Neo como um novo Cristo, um Messias, o que, aliás, o próprio roteiro do filme sugere. Mas isso não é o mais importante. Como não é importante, a meu ver, distinguir o que é real e o que é imaginário em relação à vida atual, com base na ciência ou no avanços tecnológicos, o que seria capaz de dar um sentido realista à história contada.

   A função de um filme como Matrix é semelhante à dos mitos dos nossos ancestrais gregos e dos romances de aventura que começaram com a saga do cavaleiro da Triste Figura, D. Quixote de La Mancha. Além do enorme poder simbólico que possuem, transportam-nos  para o registro intermediário que nos faz descansar da luta infinita do Princípio do Prazer com o  P. de Realidade. Uma área de repouso, sem dúvida, mas tão precária quanto o brincar, pois ameaça permanentemente romper a linha entre o objeto subjetivo e a realidade compartilhada objetivamente percebida. 

    Winnicott demonstrou com certa clareza que não temos jamais a realidade 100% objetivamente percebida. André Bazin, o mais famoso crítico de cinema  da primeira até a segunda metade do século passado, autor da primeira grande teoria sobre o cinema, concordaria com ele. Depois de centenas de entrevistas com cineastas como Orson Welles, Chaplin,Antonioni, Howard Hawks, Roberto Rossellini, Alfred Hitchcock,  Carl Dreyer, Buñuel e muitos outros, o francês Bazin, fundador do célebre "Cahiers du Cinéma", disse que o cinema pertence a uma fronteira entre a realidade e a fantasia, usa a mentira para dizer verdades e as imagens para criar novas realidades.

    Fellini , num último documentário em vida  sobre sua obra, declarou: "Sou um mentiroso. Invento mentiras e espero que o espectador acredite nelas. E o mais curioso é que o efeito é fascinante. Todos acreditam".

    Winnicott demonstrou ainda que o Princípio de Realidade é um insulto. Fugimos dele como do Diabo de "O Exorcista" ou do maluco de "O Iluminado".Ao contrário da psicanálise clássica, Winnicott não via a onipotência narcísica primordial como necessariamente negativa e nem considerava a frustração pela realidade como um bem positivo a ser conquistado, até porque a frustração e a desilusão são inevitáveis. Ele situava esses fenômeno como parte de um jogo intermitente de resgate da onipotência ao longo da vida, pois a psique considera o principio de realidade um insulto e tenta ganhar terreno intermitentemente contra ele. A frustração humana não deve ser vista como um valor especial nem como instrumento privilegiado. A reconciliação com o princípio de realidade nunca se dá de forma rasa e absoluta, mas no plano da experiência, quando esta vem envolta em criação e, portanto, de um colorido que resulta na capacidade de espontaneidade e de estar vivo.

   No cinema,  há uma identificação onipotente do espectador com as cenas, gratificando até mesmo pulsões de curiosidade e voyeurismo sobre a cena primária. Mas há também um convite da cultura para que essa gratificação fique no registro imagético. "É só um filme".  Esse campo relacional entre o indivíduo que vê e o filme que se oferece é o jogo transicional. As identificações e os sonhos se dão dentro desse campo de colorido lúdico.

    Lembra um pouco a situação analítica entre o indivíduo que traz sua força identificatória e convive com um outro que se oferece como tela transferencial  e contra-transferencial para suas projeções e seus sonhos. Se saírem da linha demarcatória desse campo a cena pode virar passagem ao ato, concretização, excitação ou mesmo violência e pornografia.

    O cinema, como a transferência, pressupõe um certo grau de ilusão. Se fosse uma alucinação , depois de uma sessão de um  bom ou mau filme o espectador seria transportado para a ela e lá ficaria aprisionado. Não retornaria para a realidade cotidiana. A ilusão é , portanto, bem diferente da alucinação.

                     

                     AS LACUNAS NA TRANSICIONALIDADE

 

   Há dois furos , contudo, na teoria da transicionalidade de Winnicott.. Um deles é que Winnicott não explica como se passa de uma experiência particular com o objeto transicional, a posse não eu, para a experiência mais amplamente comum, como diz Adam Phillips (pg. 166-167). Em outras palavras, como se passa de um ursinho pessoal para o prazer de ler Guimarães Rosa.

   Uma das razões dessa dificuldade, penso eu, decorre do segundo furo: é que a teoria da sublimação e a da transicionalidade foram apenas acopladas em Winnicott, mas não resolvidas. Ele pensou a passagem do bebê para o objeto transicional nas condições restritas do ambiente-mãe, mas não investigou o que toda a cultura , no seu conjunto, exige de sacrifício do bebê para que seja capaz de absorver linguagem, valores e domesticar-se de acordo com os moldes representacionais dessa sociedade determinada. A mãe é também a História e a Linguagem. Uma parte da sublimação é feita por imposição de uma estrutura  lingüística que, por sua vez, é ela própria sublimada. Uma criança nasce dentro dessas condições de possibilidade e é como se fosse  exigido dela: seja capaz de sublimar pela via da linguagem e dos símbolos dados, além de transitar pela brincadeira até à cultura. A cultura espera algo dessa criança e não é pouco.

    Pode-se até dizer que, ainda bem, existem as artes, os jogos e algo como o cinema. Pois a imposição sobre o humano não é fácil.  Há um caminho alternativo , diz Winnicott, que é dar colorido à vida.

   Lembro-me que , quando bem jovem e estudante , eu matava às vezes as aulas para ir ao cinema, nas matinês, no ginásio, ou à noite, no curso noturno do colegial.No escuro do cinema, fixado na tela colorida ou em branco e preto, aprendi a modular emoções , a sofrer com o mocinho, a balear os bandidos, a amar a garota linda e a ter esperança no futuro.

  O cinema brinca , com freqüência, com sua própria natureza. Há filmes reflexivos sobre o próprio cinema, sobretudo na chamada modernidade tardia, com os herdeiros da "nouvelle vague" ou com os filmes de Woody Allen, onde uma personagem sai da tela para conversar com a fã cinéfila ou os atores se dirigem diretamente aos espectadores, convidando-os a dar palpite na história.Essa metalinguagem nos lembra sempre da linha demarcatória entre o objeto subjetivo e o objeto objetivamente percebido.

  Boa parte da nossa sensibilidade foi moldada pelo cinema. Mesmo quando os filmes de Hollywood eram tendenciosos  , como aqueles que nos influenciaram a odiar os nazistas ou a ver os japoneses como traiçoeiros e cruéis. Mas até nesses filmes B de propaganda havia algo de humano sobre a coragem e a dor da violência e da guerra.

Depois disso, surgiram filmes mais sofisticados, mostrando áreas mais complexas dos seres humanos, como os de Truffaut, Godard ou Ingmar Bergman  , que nos introduziam na psicanálise e revelavam plenamente uma estética capaz de constituir a Sétima Arte.

  Nunca me arrependi de ter matado aquelas aulas.

 

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

 

(1) "O Brincar e a Realidade, D.W.Winnicot", Imago Editora Ltda., 1975.

(2) "A Clínica da Ilusão e sua Epistemologia", Reinaldo Lobo, Rabisco, n°1, vol.3, maio de 2013.

(3) "Como ler Lacan", Slavoj Zizek. Ed. Zahar, 2010.

(4) "Winnicott", Adam Phillips, Ed .Idéias e Letras, 2006.

   

 

 

domingo, 18 de maio de 2014

UMA QUESTÃO DE LINGUAGEM


  
                                                                                             Reinaldo Lobo*

 

      A expressão "o brasileiro" costuma freqüentar inúmeras conversas entre nós, brasileiros. Dizem : "o  'brasileiro' é isso ou aquilo...assim ou assado..."  

   "O brasileiro" quem, cara pálida? Esse clichê passa, às vezes, despercebido no meio de uma discussão. Muitos não notam que, dita por brasileiros, a fala pressupõe uma estranha distância , como se falasse de um outro ser ou, quem sabe, de um estrangeiro. Implica também, geralmente, numa posição de superioridade em relação a esse ente no qual se projetam várias qualidades negativas: " o 'brasileiro' é preguiçoso, corrupto, ignorante, desorganizado..."

    A expressão muitas vezes significa racismo e preconceito. Parte da ótica das civilizações "superiores". Pretende encarnar valores e referências atribuídos a outras culturas. É como se o colonizador aqui chegasse , visse os nativos e alguns dos seus comportamentos e reduzisse tudo à declaração : lá está "o brasileiro", com seus hábitos estranhos.

   "O brasileiro" quem, cara pálida? Refere-se ao paulista, ao carioca, ao nordestino, ao pobre, ao rico, ao honesto , ao picareta? A generalização é cômoda para quem a promove e a quem desresponsabiliza por pertencer ao País onde vivemos nós, os brasileiros, no plural.

   Como é possível falar dos paulistas e dos paulistanos, por exemplo, que são descendentes de uma mistura de portugueses, africanos, italianos, árabes, judeus, alemães, russos, poloneses e índios? Se examinarmos um pouco haverá até mais origens desse povo que habita São Paulo. Em outros Estados também é um pouco dessa maneira. Ziraldo, o humorista, costuma dizer brincando que só existem três povos no Brasil : o povo mineiro, o baiano e o gaúcho. O resto, diz ele, são brasileiros.

   Bom humor à parte, o mais importante é assinalar que a expressão "o brasileiro" contém uma operação implícita de natureza psicológica e ética. Sua estrutura, além de pertencer à gramática de nossa língua, é a base da discriminação. Ou seja, o preconceito é também um dispositivo lingüístico.

  Há, portanto, uma semântica que exige a decodificação de certos termos. Existe um sistema preconceituoso de dar nomes e rótulos.

 Fica fácil detectar isso quando se ouve alguém dizer : "o 'nordestino' é isto ou aquilo..." Podem imaginar de que parte de alguém do "sul maravilha".Paulistas aludem, às vezes, ao "baiano" , velho apelido para os trabalhadores da construção civil que reuniam baianos, alagoanos , pernambucanos, cearenses e até paulistas , e que formavam, dos anos 60 em diante, a mão de obra que serviu de esteio para a edificação das cidades da região, sobretudo a capital."Baiano" vira todo nordestino.

   A operação psicológica é simples , maciça e grosseira. Consiste em projetar no outro, inclusive como bode expiatório, todas as características negativas que se encontram, virtual ou explicitamente, em quem faz a declaração. É como lembrou o filósofo Spinoza (século XVII) muito antes, portanto, de Freud: "O que Pedro diz sobre Paulo revela mais sobre Pedro do que sobre Paulo".

    Constrói-se um estereótipo, projeta-se nele tudo o que há de ruim e se passa a ter medo e/ou ódio desse ente criado. Algo assim  como o monstro do Dr. Frankenstein, uma invenção na qual se depositava a função de representar o que há de mais primitivo, infantil e bruto no ser humano. E ,depois,  os "civilizados" passavam a caçá-lo como um monstro.

   É possível que o objeto-alvo corresponda, em certos casos,  ao que foi atribuído a ele, mas isso não justifica, em absoluto, o ataque feito originalmente por quem declara o desprezo. Se alguém diz "negro é bandido" e encontra algum negro que realmente seja bandido, isto não significa que o autor da frase não tenha , dentro dele, um bandido em potencial. Nem que esteja certo ao fazer uma generalização.

    O aspecto ético do dispositivo de linguagem é evidente. Constitui uma separação de valores "positivos" de quem fala daqueles "negativos" atribuídos ao outro. É uma "ética do desprezo", do não-reconhecimento, da alegada superioridade social e/ou racial daqueles a quem que um ex-governador de São Paulo, Cláudio Lembo, chamou, num momento feliz, de "minoria branca".

     Essa  "minoria branca" ainda não se apercebeu das mudanças profundas da sociedade brasileira nas últimas décadas. Não se deu conta de que vivemos, para o melhor e o pior, em uma heterogênea sociedade de massas. O tempo das elites racistas já passou. Somos, mal comparando, algo entre a Índia e os Estados Unidos. Mas com características singulares.

    A convivência e a integração são fenômenos inevitáveis, ainda que alguns setores resistam e tentem manter nichos de privilégios semelhantes aos do Brasil Colônia. Os "sinhozinhos" e "sinhás" refugiados nos bairros chiques das nossas grandes cidades terão de aprender a viver junto, a assistir aos "rolêzinhos" nos shoppings, às manifestações de rua contra o aumento do ônibus e do trem, e a procurar entender esse outro obscuro que emerge das periferias.

    Uma forma semelhante de operação psicológica e moral ocorre hoje , também, nas discussões políticas brasileiras.  Vejamos a palavra "corrupto". Ora, no debate, "corrupto" sempre é o outro, nunca quem fala. Muitas vezes temos visto personagens como comerciantes ou taxistas que esbravejam com eloqüência contra a "corrupção política", depositando todos os males nacionais no colo da classe política e, em seguida, esse comerciante específico rouba no preço ou o taxista rouba no troco. Não faltam empresários sonegadores que protestam contra a "corrupção do Estado", etc.

   Há, porém, uma forma insidiosa de debate político entre nós que se supera nos truques com as palavras. . É  o julgamento de intenções. Atribui-se um propósito ou uma intenção ao outro, baseando-se em alguns sinais interpretáveis, em seguida condena-se o réu e se desqualifica seus argumentos.

   Por exemplo: se alguém defende o governo porque considera que, nas últimas décadas, foram os atuais líderes os que mais cumpriram o que prometeram ou os que mais fizeram pelas maiorias pobres do país, então deve haver "algo por trás", a intenção dessa pessoa só poder ser a de obter algum benefício governamental ou, quem sabe,  cargos e privilégios.

    O argumento não interessa. O que importa é a intenção.

    Se alguém critica o fato de ter havido uma ditadura de 21 anos não é porque se trata de uma pessoa democrática, mas porque quer esconder sua adesão à ditadura de Cuba ou da antiga URSS.

    Não custa lembrar que foi Stálin, o ditador da antiga URSS, quem inaugurou os processos por intenções. Nos chamados "Processos de Moscou", entre 1936 e 38, dezenas de aliados e membros do seu partido foram julgados, condenados e fuzilados porque tiveram alguma discordância ou fizeram crítica pontual ao funcionamento das instituições. Isto era um sinal "evidente" de que tinham a "intenção" de aliar-se ao trotskismo e ao nazismo, colocados assim no mesmo pé.

     Faça um exercício. Quando ouvir alguém dizendo "o 'brasileiro' é isso ou aquilo" ou ,então, usando as palavras como forma de desprezar ou julgar o  outro, pergunte: "De quem está falando, cara pálida? Quem é o sujeito psicológico da oração?"

 

 

 

 *Reinaldo Lobo é psicanalista e jornalista. Tem uma página no Facebook: www.facebook.com/reinaldolobopsi. E também um blog: imaginarioradical.blogspot.com

O DISCRETO CHARME DA DIREITA LIBERAL


                        

 

                                                                                 Reinaldo Lobo*

 

 

       Alguns ideólogos que freqüentam  a nossa imprensa estão em entusiástica campanha para tornar charmosos os "liberais" brasileiros, acusados pela esquerda de "direitistas". Ninguém no Brasil gosta de ser chamado "de direita". Esses formadores de opinião explicam que isso decorre de uma conspiração insidiosa dos esquerdistas, que se apresentam como depositários da virtude, da democracia  e da generosidade.

      Como sempre, os intelectuais que representam a fina flor do "liberalismo" brasileiro argumentam por teorias conspiratórias, como a da operação para seqüestrar as mentes dos jovens ou da infiltração sorrateira da campanha subliminar comunista. Ideologicamente, esses luminares estão ainda na Guerra Fria, os seus argumentos são muito antigos, mas a forma de apresentação é mais "moderna", ou melhor , "pós-moderna". Alegam que a esquerda é quem está "atrasada", pois o mundo mudou filosoficamente em direção ao neoliberalismo. Vamos por partes.

      A teoria da conspiração mental transformaria "o assassino Che Guevara" em ícone da juventude até hoje e a esquerda deteria o monopólio do charme. Tudo passaria pela propaganda pura e simples e pela infiltração de intelectuais gramscianos na educação, na mídia e na cultura em geral. Em outras palavras, tudo são truques psicológicos de "maquiavélicos" estrategistas marxistas. Por esse raciocínio, tudo passa pelo  espiritual, nada pela história nem pela matéria.

     O método de reflexão desses ideólogos neocons é abstrato, não examina a sociedade nem o sentido dos fatos ao longo do tempo. As palavras em questão -- "direita" e "liberais"-- não afastam os jovens e os brasileiros em geral por acaso.

    Ninguém quer ser de direita porque há uma vergonha de longa data associada à palavra, pelo menos entre nós. A nossa Direita tem sido campeã de violações de Direitos Humanos e da disseminação dos mais flagrantes preconceitos, como o social, o racial e o sexual. E a chamada Direita Liberal, que proclama defender a democracia e a liberdade de imprensa, foi a co-autora do Golpe de 64, que promoveu a censura e obscurantismo.

    A nossa Direita, inclusive a Liberal, segurou a chibata e defendeu a escravidão. A oligarquia "liberal" que governa a economia, a grande mídia, a TV, a imprensa escrita e que dita as regras da sociabilidade no País, é herdeira direta das famílias que se proclamavam "liberais" no século XIX,mas tinham escravos na cozinha e na fazenda. Mesmo no século XVII, quando surgiram os primeiros "liberais', muitos deles eram senhores de escravos.

    A palavra "direita" , assim como o termo mais ambíguo, "liberal", têm significado diferente em outros países. Nos EUA, ser  liberal significa ser de esquerda ou , no mínimo, pertencer à esquerda do Partido Democrata. Os conservadores norte-americanos se autodenominam, logicamente, conservadores. Em geral, são republicanos e defendem , como os "liberais" brasileiros, "a menor intervenção possível do Estado" na economia.

  Já na França a direita tem uma origem nobre na Revolução Francesa. Era formada pelos parlamentares que se sentavam à direita da Assembléia republicana, sobretudo os girondinos, e que se diferenciavam dos que se situavam à esquerda, os radicais jacobinos e os igualitaristas, que defendiam a plebe ou os cidadãos mais pobres.

  A direita francesa era conservadora, moderada quanto à participação popular nas decisões e quanto aos princípios ideológicos republicanos. A esquerda jacobina teve tudo a ver com a radicalização da Revolução, mas ambos os lados estiveram envolvidos com o Terror e a guilhotina. Quase dois séculos depois, o general De Gaulle não hesitava em assumir o título de  "direita nacional", herdeira da tradição conservadora, e um sociólogo como Raymond Aron, de alto nível intelectual, não se vexava quando ía a um debate na TV e o apresentavam como um pensador "de direita". Hoje, há uma extrema-direita, com já houve os "pieds noirs" militares que não queriam a independência da sua colônia argelina, mas nem por isso a palavra "direita" perdeu uma certa respeitabilidade política na França, como sinônimo de "conservador".

   No Brasil fica fácil entender porque "liberais" e "direitistas" não têm charme. Representam historicamente os privilégios e até a tortura. Muitos dos principais governadores e prefeitos biônicos durante a Ditadura Civil-Militar eram notórios empresários "liberais".

    Por ser ambígua e ter significados distintos na linguagem e no senso comum, a palavra "liberal" é a mais enganadora. Costuma-se chamar de "liberal" quem tem costumes avançados, quem possui mentalidade aberta e livre. Mas, entre nós, os "liberais" são os mais conservadores quanto aos costumes, ainda que alguns dos seus ideólogos neguem isso, e os portadores de mais preconceitos sociais e raciais. Perguntem a qualquer um deles se deixaria sua filha casar ou sequer namorar um negro pobre.

    Os "liberais" confundem-se com os ricos e com a defesa da propriedade privada. A pobreza é vista como um estorvo a ser vencido pela geração de empregos em uma sociedade "livre" de direitos sociais e de taxas do Estado para captar recursos contra a ...pobreza.

   Alguns dos nossos "liberais" admiram a China Comunista : lá não há direitos trabalhistas suficientes para atrapalhar a produtividade em grande escala e quase não há greves (recentemente houve a primeira em duas décadas). Lá é quase o paraíso do mercado livre ! Pois os nossos charmosos "liberais" -- alguns deles até a favor do aborto, pois esta prática "não deve ser controlada pelo Estado" (privatização do aborto)-- pararam de criticar a China desde que ela introduziu espaços de livre mercado na economia. Não tem tanta importância, para eles, que a China seja um país violador de Direitos Humanos, pois estes são do âmbito do liberalismo político, coisa do passado. Nossos modernos "liberais" só se interessam pela eficiência e a acumulação.

     Outro truque com palavras dos neocons consiste em dizer que a diferença entre Direita e Esquerda não existe mais. Afinal, o mundo todo é capitalista! Borrar e confundir a diferença é conveniente para esconder a Direita, mas é mais possível entre nós porque há uma indeterminação dos partidos políticos. Existe uma enorme dificuldade de localizar os partidos, os próprios políticos e até mesmo os comentadores "liberais" em meio ao amplo espectro de siglas inócuas, ocupado e disfarçado pela ...Direita. Ela está quase sempre no poder, possui o dinheiro e manipula a cena ao ponto de deter a hegemonia sob a aparência de um "centrão" fisiológico e oportunista. Coopta até a esquerda com o seu charme e elegância. São inúmeros os políticos atuais que transitaram para a "centro direita" do arco íris que esconde uma cor só, a do  capital.

    Estão errados os ideólogos da direita que dizem que os jovens não são atraídos para ela. Uma parte da juventude é constituída pelos que desejam ardentemente ser "playboys" ou, então, casar com eles. O seu charme está sobretudo em uma parte do corpo humano bastante conhecida: o bolso.

 

 

* Reinaldo Lobo é psicanalista e jornalista. Tem uma página pública no Facebook: www.facebok.com/reinaldolobopsi. E tem um blog: imaginarioradical.blogspot.com