quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

A ESTRELA VERMELHA OSCILA


   

 

                                                                         Reinaldo Lobo*

                                                                                          

             

    O PT não é mais aquele. Mudou muito nos seus 35 anos de vida. De movimento dos trabalhadores do ABC, dos  intelectuais de esquerda, de ex-guerrilheiros e de agentes das pastorais católicas, passou a ser um partido eleitoral e de massas. São 1,5 milhão de filiados, mais de doze anos no poder, várias crises internas e externas.

             Muitas rupturas depois, o partido da estrela vermelha e do programa de maior coerência ideológica no cenário democrático brasileiro, encontra-se numa encruzilhada ao mesmo tempo promissora e perigosa: seguir na trilha eleitoral vitoriosa ou voltar, mesmo eleitoralmente vencedor, às suas origens programáticas.       

            Hoje, a militância petista é composta por funcionários públicos, classes médias, antigos militantes socialistas e políticos com variados graus de interesses e de princípios. Houve uma alteração qualitativa em sua composição, mas sobretudo em sua estrutura burocrática.

           Dizia o célebre Robert Michels, sociólogo que estudou a natureza das organizações partidárias e sindicais já no início do século passado, que há nos partidos uma tendência à centralização e estratificação de poder. Do seu ponto de vista, isso não significa necessariamente um mal, mas tem o risco de desvitalizar a luta política e esvaziar o sentido original dos programas ideológicos.   Chamou essa tendência de "lei de ferro da oligarquização".

           A rotinização burocrática conduz à delegação de poder às chefias, que passam a tomar decisões em comissões e gabinetes. Funcionários, sobretudo quando o partido está no comando do Estado, podem ser pessoas que se valem dos pequenos poderes, que se encostam na estrutura partidária em busca de benefícios e que,às vezes, são tipos medíocres  e corruptos. No entanto, não devemos nos fiar no mito difundido de que "o poder corrompe". 

         O poder não corrompe, revela --como dizia um colega psicanalista, Fábio Herrmann, já falecido. O corrupto encarapitado em sinecuras pode usá-las, em seu favor e dos interesses particulares de alguns grupos, simplesmente por ser corrupto ou ter uma mente corruptível.

          O PT tem passado por essas vicissitudes, não por defeito de origem ou por defender princípios socialistas, mas por ter-se modificado em direção à política tradicional, às alianças eleitorais e de classe de um presidencialismo perverso. As chamadas bases de sustentação dos presidentes impõem alianças absurdas, que petistas e tucanos acusam-se mutuamente de cometer. Esse é um problema que a Constituição de 1988 não preveniu nem resolveu e que só a proverbial reforma política profunda poderia solucionar.

          A colaboração com governos de transição, a busca da chamada governabilidade, envolvendo um empresariado e um sistema social corruptos, levou-o a dissolver sua identidade revolucionária original e parte de sua natureza diferenciada.

          Sempre que criticam o PT, à direita ou à esquerda, é para dizer que o seu maior defeito foi ter ficado igual aos outros partidos. Ou seja, há uma desidealização do PT por deixar, em alguns momentos,  de representar uma genuína opção ética e política "ao que aí está".

        Talvez muitos não se dêem conta disso, mas quando essa crítica parte da direita é auto-contraditória, pois acusam o partido de deixar de ser diferente justamente daqueles que os conservadores apóiam: os partidos do sistema. No mínimo, está-se dizendo que temos um sistema político e uma sociedade corruptos -- o que, pelo menos em parte, é verdade.

          O maior desafio do PT neste momento, o seu dilema existencial, é sobreviver em meio a essa ambigüidade da nossa República, sem perder a chama que lhe deu força, confiança das massas e poder. Ninguém pode negar que o PT tem sido o único partido com consistência ideológica no seu DNA e, principalmente, o mais organizado do País, além de o mais ativo nas lides sociais.

          O seu principal drama é mesmo o pacto político pela governabilidade com forças muito diferentes dele mesmo. A aliança com o empresariado, que caracteriza sua moderação continuada e progressiva, é, ao mesmo tempo, o pólo de equilíbrio da governabilidade e também a fonte das crises e conflitos constantes repercutidas pela imprensa conservadora. A pressão é enorme. A mídia desempenha hoje um papel adicional na "desmoralização" do PT, como se ele fosse a única razão dos descompassos econômicos e da corrupção endêmica do Estado brasileiro. Sabemos todos que não é assim, e que a corrupção vem de longe e  sempre foi volumosa. No entanto, tudo "é culpa do PT".

          Uma outra característica do Partido dos Trabalhadores nestes 35 anos de vida foi ter rompido com preconceitos e mitos históricos em relação aos pobres, às mulheres, aos homossexuais e transgêneros , aos negros e aos excluídos em geral. Tem combatido o racismo, a homofobia e a violência contra os jovens. Representa com freqüência o melhor papel em relação aos Direitos Humanos, estando na origem da luta para a consecução da Comissão da Verdade, que vasculhou na medida do possível os crimes da Ditadura civil-militar de 1964.

         Se dependesse dos partidos que expressam os interesses e os pontos -de- vista da "oligarquia liberal", tudo seria varrido para o mesmo lixo em que muitos órgãos militares jogaram documentos do período ditatorial. 

         Não é preciso falar de Lula e de Dilma, ainda que façam parte da principal força política do PT, e simbolizem  sua existência. Nem dizer que é necessária uma autocrítica de todo o corpo desse partido, pois isso está óbvio.   Mas o alcance do PT vai além disso na sociedade brasileira e só será ainda mais vitorioso se der a devida relevância a um projeto maior do que suas lideranças -- o projeto  de uma sociedade cada vez mais democrática, inclusiva e justa.

         Se não for assim, a luz da estrela vermelha se apaga e, com ela -- não tenham dúvidas disso--  a principal e quase única esperança de milhões de brasileiros.  

 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A CHANCE DA ESQUERDA


       

 

                                                                           Reinaldo Lobo*

 

     A eleição da esquerda na Grécia não foi obra de Zeus, que comanda o Olimpo, nem de Perséfone, mãe de filhos ilustres, como Dionísio. Foi  um fruto do Caos, que não é uma divindade, mas tão somente um "bocejo" vazio,como dizia Hesíodo, isto é, um movimento de criação no princípio de tudo. Uma brecha surgida da indefinição ("apeíron").

    No meio de uma crise econômica sem precedentes, surgiu uma força política bastante original pela primeira vez nas últimas décadas na Europa . É muito fácil definí-la apenas como "esquerda radical", quando é , na verdade, um efeito da crítica aos caminhos erráticos da própria esquerda tradicional.

     Depois de muitas tentativas e erros da direita grega, atrelada à divida externa e apoiada nas forças mais conservadoras da Alemanha e nos "neoliberais" da União Européia, os gregos cansaram-se do desemprego, da insegurança e da regressão à quase miséria por uma crise que se arrasta desde 2008.

     A situação só fez piorar depois que se iniciou a "austeridade" econômica imposta pelo governo conservador em 2010, da Nova Democracia-Pasok- Dimar. O desencanto grego com a direita e a aceitação da novidade levou à surpreendente ascensão e vitória das forças mais jovens da política européia, concentradas no grupo Syriza.

    O governo liderado pelo primeiro ministro  Alexis Tsipras,  de 40 anos, é uma tentativa inédita de a esquerda governar sem concessões fatais às "oligarquias liberais" da Europa e às pressões do capital internacional. Todos os governos anteriores estavam dependentes dos poderosos da União Européia , a começar pela Alemanha da senhora Ângela Merkel.

    Não foi por acaso que, antes mesmo da eleição, a líder alemã ameaçou enxotar a Grécia da Europa do euro, caso o eleitorado grego se comportasse mal. Os gregos fizeram a traquinagem de votar contra ela e a favor da renegociação da dívida grega prometida pelo Syriza. Estavam sendo humilhados há muito tempo e reagiram.

     As conseqüências são imprevisíveis, ainda que a pressão,  as ameaças  e a chantagem sobre o novo governo já tenham começado em seus primeiros dias de virtual poder. Mas existem questões mais amplas no horizonte de um governo de esquerda que não se define nem como social-democrata nem como candidato ao totalitarismo.

   Não vão faltar --anotem-- quem denuncie rapidamente o governo de Tsiras, eleito democraticamente na pátria mãe da democracia, de ser anti-democrático e "leninista", para não dizer "terrorista". A direita não vai poupar esforços para sabotar a governabilidade de um governo de esquerda amplamente majoritário.  Com cerca de 300 cadeiras no Parlamento , a Syriza teve 149, enquanto a oposição está pulverizada em número e em coerência política. Por dois votos, o jovem Tsipras não teve a maioria  completa para governar sozinho. Curiosamente, convidou o velho Partido Comunista grego para se coligar, num gesto simbólico de reverência à velha esquerda, mas os herdeiros do stalinismo recusaram. As resistências à direita e à esquerda eram previsíveis.

      O desafio da nova esquerda grega será enorme. Primeiro, precisa manejar a economia caótica sem  respaldo externo. Além disso, o combate  capitalista será implacável contra a possibilidade de uma virada á esquerda-- uma revirada do sistema, na verdade-- pela via democrática. Tudo se fará  para desmoralizar o jovem governo de Atenas. Segundo, necessita provar que um projeto autêntico de esquerda não é mera "utopia" e pode se realizar na vida cotidiana a partir de uma sociedade capitalista moderna.

      A palavra utopia costuma ser aplicada a um projeto como o dos jovens esquerdistas gregos. É importante tomar a significação exata e original da palavra: a utopia é algo que não ocorreu e que não pode ocorrer. O que os gregos estão propondo é revolucionário, mas não é uma utopia. É um projeto social e histórico que pode ser realizado e em relação ao qual não há nada que comprove ser impossível.

     Sua realização dentro de uma democracia radical depende apenas-- como dizia um grego que por ele lutou mais do que tudo, Cornelius Castoriadis --da "atividade lúcida dos indivíduos e do povo, de sua compreensão, de sua vontade, de sua imaginação".

     O povo grego votou conscientemente, sabia o que estava fazendo, escolheu o risco da mudança. Usou sua vontade lucidamente e sua imaginação. Enfrentou as potências conservadoras da Europa e todo o capitalismo internacional, incluindo-se aí os Estados Unidos.

      Se os jovens gregos que chegam ao poder com o Syriza cuidarem de não se encarapitar no poder burocrático e não forem mordidos pela famosa mosca azul. Se seguirem o caminho original que seguiram até agora, enraizados nos movimentos sociais no interior da sociedade grega e nos grupos que surgiram com os protestos contra a "austeridade econômica" (leia-se: arrôcho e recessão). Se lembrarem do trajeto dos partidos socialistas e social-democratas que se perverteram ao tornar o movimento um fim em si mesmo e também dos leninistas que se fizeram stalinistas rapidamente logo após a vitória da revolução russa, então talvez seja possível a criação de novas instituições radicalmente democráticas, com participação de baixo para cima, com o máximo de liberdade para o povo governar não só através dos seus representantes,porém, inclusive mais diretamente.

       Será necessário não só enfrentar a pressão alheia, mas igualmente a interna, que empurra partidos de esquerda para os benefícios do poder e da corrupção. Não se pode esquecer que já em 1914 o marxismo ocidental mostrou que deixara de ser um movimento revolucionário, quando os partidos social-democratas europeus votaram os créditos de guerra e,logo depois, fizeram ministros em gabinetes "burgueses". Lênin não se enganou quanto a isso: a social-democracia tinha aceito a colaboração de classes  e a II Internacional só era "marxista" no nome. O leninismo não teve destino melhor, resultando não só totalitarismo stalinista como também seus partidos espalhados pelo mundo foram um modelo de colaboracionismo.

      Todos já sabemos o trajeto histórico de diferentes projetos políticos de esquerda. Ninguém está-se enganando quanto aos riscos, mas é preciso experimentar o novo caminho dessa Maratona. Sem ilusões.

      O entusiasmo dos jovens esquerdistas gregos está sob o signo de Dionísio, sem dúvida. Mas o seu governo e a sua revolução vão precisar da força  de todos os deuses do Olimpo.

 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

UM SIGNIFICADO DO TERRORISMO


                        

 

                                                                          Reinaldo Lobo*

      O terrorismo atual pode ser um sintoma do vazio em que vive a democracia representativa moderna e do fracasso da chamada "globalização". Os políticos tradicionais, seus partidos e suas burocracias são incapazes de resolver os problemas reais da população, assim como a prometida integração internacional não consegue reduzir a xenofobia, o racismo e as brutais diferenças entre Norte e Sul.

      Não foi por acaso que, em meio às manifestações de solidariedade às vítimas do Charlie Hebdo, surgiram slogans  como: "Os terroristas fizeram algo. E o meu presidente? O que fizeram nossos políticos?" O problema é que esse espaço vazio deixado pela política tradicional escancara uma porta para todo tipo de violência vingativa e, sobretudo, para o neofascismo.

      À brutalidade estúpida dos terroristas contrapõe-se a brutalidade estúpida dos neofascistas. E da maioria silenciosa conivente, assustada e insegura com o terrorismo.e com a crise econômica mundial, não necessariamente nessa ordem de temores.

      A questão da imigração de árabes e africanos das antigas colônias européias, assim como da Turquia e outros pontos do Oriente Médio, está longe de ser resolvida no Parlamento Europeu e nos países membros da União Européia. Na França, a situação é particularmente grave e se soma à impotência dos partidos de esquerda de oferecerem uma alternativa séria à visão neofascista e conservadora.

     A extrema direita é tão simplista quanto os terroristas : é preciso expulsar os imigrantes para os seus países de origem ou confiná-los por leis severas e repressão  "ao seu devido lugar" , os subúrbios ("les banlieues").

    Some-se a esse quadro a precariedade econômica dos imigrantes, a crise e o desemprego, e temos o caldo de cultura perfeito para alimentar o terrorismo dos radicais islâmicos.

     A "globalização" -- na verdade, a circulação internacional do capital --prometia a livre circulação das pessoas, a integração e o diálogo entre as culturas. O que está acontecendo-- desde pelo menos 2001, quando houve o 11 de setembro nos EUA--, é o contrário de qualquer integração harmônica, mas a exacerbação de contradições e conflitos. Apontar apenas o radicalismo islâmico como causa é buscar uma explicação tranqüilizadora ou, no mínimo, um bode expiatório. Insisto; o terror parece ser sintoma e não causa de origem. No máximo, é causa imediata de tragédias que poderiam ser evitadas.

      É bem evidente que  a causa original seja a compressão de uma "globalização" forçada pelos interesses do capital no Oriente Médio e em outras partes do mundo. Uma pergunta ingênua: o que tropas norte-americanas têm a fazer em países como a Arábia Saudita, o Iraque, o Afeganistão?   Levar a democracia? Ou instaurar a Pax Americana? Estão lá para preservar valores ou pelo petróleo?

      Há também uma certa ingenuidade real nas manifestações pela "liberdade de pensamento" e pela "paz" dos espíritos, em conseqüência da tragédia que abriu o ano em Paris, ainda que sejam legítimas para expressar solidariedade humana e reafirmação de valores democráticos.

     Os que inspiraram atentados como o massacre dos cartunistas e jornalistas do "Charlie Hebdo", não estão "nem aí" para a liberdade de pensamento nem para a paz dos espíritos democráticos.   O que desejavam -- e desejam-- era justamente criar a insegurança, o medo e a comoção de um espetáculo da grandeza da queda das Torres Gêmeas, para anular qualquer possibilidade de blasfêmia viabilizada pela liberdade de pensamento.  Como lembrou o psicanalista francês Jacques Alain Miller , querem que voltemos à época medieval, da Baixa Idade Média, qualquer impropério ou brincadeira blasfema poderia ser punida com a fogueira, pois todos eram submetidos ao mesmo discurso religioso.

   O que os estúpidos autores do ato terrorista e seus inspiradores sempre quiseram era abalar a democracia moderna e, quem sabe, conseguir a instauração artificial e extemporânea de um califado como o do Estado Islâmico. Têm uma política regressiva. O pior é nós, ocidentais, temos uma política paralisada.

   O fato de os autores do atentado de Paris serem dois perdidos meio loucos, criados em orfanatos ou reformatórios, material humano típico para o uso do terrorismo, não elimina o seu caráter político e seu alcance estratégico, que terão conseqüências de longo prazo.

     Opor a esses fanáticos o livre pensar e palavras de ordem pacifistas é como propor aos fascistas que tolerassem a resistência pacífica de um Gandhi ou de um Martin Luther King. Estes dois não durariam uma semana nas praças de Berlim sob o nazifascismo.

    É preciso compreender, sem justificar jamais, a natureza do terrorismo atual e de  seus efeitos.

     Comecemos pelos efeitos. Duas conseqüências óbvias serão, primeiro, o fortalecimento do discurso soreliano da violência na ultra direita da Europa, com o crescimento do poder dos neofascistas na França e de seus apoiadores em toda parte;  em segundo, o enfraquecimento a curto prazo da causa palestina, favorecendo a extrema direita que governa Israel e cujos organismos judaicos na França chegaram ao ponto de se aliar com a Frente Nacional da feroz Anne Marie Le Pen, tradicional ninho de cobras anti-semitas, a fim de combater o islamismo e a imigração árabe.

     O paradoxo da união entre fascistas e judeus contra o movimento palestino não é o único suscitado pela radicalização facilitada pelo estúpido terrorismo. O outro é o surgimento de uma frente ampla envolvendo direita e esquerda na contenção dos radicais islâmicos, deteriorando a luta política pelos direitos humanos dos imigrantes e vítimas da perseguição racista.

      O terror não vai ceder com passeatas, ainda que uma união das pessoas civilizadas seja importante. Mas, quando se vê nas passeatas representantes de Estados terroristas, chega a ser desanimador! Também não será contido  com mais violência "defensiva" dos pilares da civilização.

     O terrorismo é a forma da ação política no século XXI. É uma forma limite, na falta de eficácia real da representação. Os radicais islâmicos usam a tecnologia ocidental, o caráter espetaculoso dos meios de comunicação, a instantaneidade e o morticínio contra o próprio Ocidente, cortando os caminhos de qualquer representação possível. Para combatê-los, temos insistido-- é necessária uma profunda mudança política não só nas relações de forças internacionais , mas nas estruturas da própria política do Ocidente.

    Se não houver uma mudança na consciência e na prática política entre nós, ocidentais, o terrorismo continuará a fazer mais vitimas.

    Albert Camus dizia que o Século XX foi o século do  medo, em função da Guerra Fria e da bomba atômica. O século XXI é o século do terror, em decorrência da desigualdade social em escala planetária, da ganância imperialista e da falta de participação popular nas decisões.

A IGREJA NO DIVÃ


                                    

 

                                                                Reinaldo Lobo*     

 

      A psicanálise costuma constatar na clínica que proibimos geralmente aquilo que é mais  tentador e desejado. A Igreja Católica -- e não só ela-- é uma instituição que proíbe taxativamente o sexo e particularmente o homossexualismo entre seus membros. As Forças Armadas de muitos países também.  São justamente os espaços onde vários escândalos ocorreram em todos os tempos. A comunhão entre si de padres , entre as freiras, o culto da misoginia e do celibato, a camaradagem da caserna e a separação absoluta, até há pouco, de homens e mulheres, tornava a proximidade confinada muito "perigosa".

      Perversões como a pedofilia surgiram no interior da Igreja, em grande parte, como conseqüência da repressão à sexualidade. Os menores foram vítimas do deslocamento de desejos  Mas, sabemos hoje  graças ao Papa Francisco, que essa não seria a única perversão a atingir essa instituição.

     Ao longo de séculos, diz ele, foi-se formando uma espécie de elite viciada em formas doentias de narcisismo e de exibicionismo. Vestidos com os hábitos da pompa e circunstância, carregados de símbolos de poder e de jóias, bispos mais parecem reis ou imperadores acompanhados por séquitos de serviçais, do que humildes servos de Deus. Os herdeiros de Cristo juntaram-se ao poder e às grifes de luxo ao longo da história, servindo não a Deus, mas às classes dominantes e até a chefes guerreiros.

    Ficaram famosas as fotos de João Paulo II ao lado de generais da OTAN, acompanhando as estratégias de Ronald Reagan para cercar as tropas virtuais da então União Soviética, a fim de destruir o comunismo ateu. E as do antigo Papa Pio XII sorrindo para os generais e embaixadores de Hitler. Os retratos das roupas no armário de Bento XVI , com suas chinelas especiais fabricadas pela Prada, são ícones do narcisismo e da ostentação de uma Igreja ameaçada de decadência.

     As declarações zangadas de Francisco, usando metáforas severas,  sobre o "Alzheimer espiritual" da Cúria, as "doenças" que acometem o corpo da Igreja como "qualquer corpo humano", anunciando que vai publicar um catálogo com as moléstias que "precisa aprender a curar", são uma proposta para que os católicos militantes e, sobretudo, seus pastores submetam sua instituição a uma espécie de profunda psicoterapia. Necessária, aliás, há muito tempo.

    Entre as 15 doenças apontadas pelo Papa estão o "terrorismo do falatório e da fofoca", a "esquizofrenia existencial", o "exibicionismo mundano", o "narcisismo falso" e as "rivalidades pela glória". Acrescentou que a "a cura é o fruto da tomada de consciência da doença".

     Vindo de um país , a Argentina, onde a psicanálise goza de merecido prestígio, o Papa não hesitou em usar as categorias dessa disciplina para diagnosticar os males da Igreja e para propor um tratamento. Demonstrou conhecer o assunto.

     Sua atitude lembra muito o gesto de Cristo relatado no Evangelho, quando foi tomado pela ira diante das distorções da religião e teria chicoteado os vendilhões do Templo. Seu pedido de "perdão pelos erros cometidos por mim e meus colaboradores" e , sobretudo, pelos escândalos de pedofilia em várias paróquias do mundo, não só demonstrou seu firme propósito de sanear a Igreja, mas a coragem de enfrentar a verdade. Isso combina muito com uma visão psicanalítica.

     Desde que Freud escreveu "O Futuro de uma Ilusão", muitos acreditam que a psicanálise "condenou" a religião. Ela seria um erro infantil dos homens diante da precariedade da existência, em busca de um Pai salvador e protetor .ou uma "neurose obsessiva da humanidade", pelos seus rituais e estereotipias. Jamais se deveria entender "ilusão" como "erro". Os aspectos infantis existem em todas as manifestações humanas e a conquista da maturidade é feita a duras penas por todos nós. O infantil em nós não cessa nunca.e ,em muitos assuntos humanos, é essencial, como no humor e nas artes. "Ilusão" deve ser entendido como "lenitivo", um recurso contra as dores e temores da existência.

    É como em Marx, em relação ao qual há um mal-entendido sobre a expressão "a religião é o ópio do povo". Marx não estava condenando a religião e nem equiparando ópio a um mal destruidor. O ópio era visto, sua época, como um recurso contra a dor, um lenitivo.

     Para Lacan, por exemplo, um católico já estaria no meio caminho para a compreensão psicanalítica, pelos simples fato de colocar o amor no centro de sua religião. O reconhecimento e a significância do amor e do ódio são fundamentais para a constituição do sujeito humano. E, quanto à  "fé", pode ser considerado como sinônimo de "esperança", não de erro. Isso fica claro não apenas em Freud, mas em toda psicanálise contemporânea. O "ato de fé" é uma forma de conhecimento e de aposta no futuro.

     Uma psicanálise da Igreja , e não dos padres, já foi iniciada com Freud. Sua visão da instituição como um organismo agregador e protetor que se tornaria cada vez menos necessário à  medida em que a ciência avançasse , explicou muita coisa. Mas não dava conta do fato de que a ciência nunca avançou tanto como hoje e, ainda assim, os homens sentem fome de religião. Talvez fosse mais correto dizer que a religião se tornará menos necessária somente quando a humanidade se emancipar em muitas áreas, inclusive na social e política.

     Enquanto isso não ocorre, e não sabemos se e quando ocorrerá, nada melhor do que um Papa que se propõe a avançar na psicanálise da própria Igreja. Os padres , eles próprios, poderiam fazer análise e testar assim suas vocações, como foi feito uma vez num mosteiro do México, em Cuernavaca. O resultado assustou, é verdade, a hierarquia de Roma: apenas dois de cem continuaram padres.

    Curar a Igreja de suas mazelas pode ser o melhor caminho, por ora, para ajudar na emancipação em geral, pois significa colocá-la na própria condição humana.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

QUAL SOCIALISMO? (2)


 

 

                                                                             Reinaldo Lobo*

         A melhor solução para um problema nas ciências ditas "exatas" é geralmente a fórmula mais simples e elegante.  Já nas questões sociais e históricas o melhor método é o que dá conta da complexidade, sem reduzir os fenômenos ao menor elemento.

         A dialética marxista tinha a vantagem de tentar abarcar o conjunto dos fatos histórico-sociais, suas contradições e conflitos, sem o reducionismo inicial.  O defeito da teoria de Marx era, porém, o seu excessivo racionalismo e sua inclinação para o positivismo. O resultado final foram as chamadas "leis da História" que tudo explicavam pelo determinismo econômico e o "motor" da luta de classes. No extremo da vulgata marxista, o que não fosse sintetizado nos termos dessas leis -- Stálin aperfeiçoou o modelo, com suas "quatro leis da dialética"-- estava literalmente fora da realidade.

        Essa visão promove o fechamento do pensamento sobre fenômenos complexos, exatamente o contrário do que o propósito inicial de Marx parecia indicar. Há um elemento de indeterminação, de acaso e de instabilidade na História que Hegel havia entrevisto, mas o marxismo ocultou de muitas maneiras. É impossível diagnosticar precisamente o que se passa no plano histórico-social, até porque o observador está vivendo no meio do que é preciso registrar. Mais difícil ainda é fazer prognósticos ou adivinhar o futuro.

      É possível elucidar uma práxis, um processo, analisar o curso dos acontecimentos e até fazer ilações provisórias, embora estas não possam ser tomadas como certezas e, menos ainda, leis. Quem poderia dizer  que a Revolução Francesa desembocaria em Napoleão Bonaparte, ou que  a Revolução norte-americana de independência redundaria num imperialismo expansionista mais refinado do que o colonialismo, ou que a libertária União dos Sovietes desse no regime que deu?

      Neste campo complexo, podemos falar, no máximo, de projetos. Esses projetos podem ser discernidos no tempo e no espaço, conter intenções e esperanças diversas, princípios diferentes -- e podem realizar-se ou não.

      A vantagem que os autores pós-marxistas vêem no cerne do projeto democrático é, em grande parte, justamente a sua abertura. Desde a Grécia Antiga, a democracia, com todas as suas limitações, tende a sustentar um ambiente humano aberto aos eventos ...humanos. A democracia é falível e flexível, pode facilitar a realização de projetos de transformação, ainda que o seu método encontre muita resistência e, com freqüência, seja posto de lado em favor dos vários tipos de autoritarismo. Há um componente de criação na democracia que pode dar origem ao inédito, àquilo que é radicalmente novo.

         Um desses autores pós-marxistas, Claude Lefort, costumava dizer que uma das características da democracia é a capacidade de criar novos direitos. A pressão de baixo para cima, contra o poder, pode dar origem a mudanças importantes nas sociedades minimamente democráticas.

         Se tomarmos o exemplo norte-americano, fica fácil entender o que esse filósofo queria dizer. O povo dos Estados Unidos, lá por volta dos anos 60 do século passado, teve uma pequena revolução nas esferas dos costumes , das raças  e dos direitos civis. Minorias e mesmo grandes maiorias, como as mulheres discriminadas, conquistaram novos direitos e mudaram o panorama da vida social norte-americana. Essas mudanças espalharam-se pelo mundo afora e hoje constituem uma política.

         Uma outra característica do projeto democrático é que contém dentro dele o núcleo de um outro projeto -- o de autonomia humana, como demonstrou a obra de outro autor, Cornelius Castoriadis. A autonomia não é entendida aqui no sentido do liberalismo, como uma essência natural humana ou no mesmo sentido prático de Kant, como a realização da lei moral. A autonomia castoriadiana é concebida na mesma direção de Freud, como uma conquista. Não é algo que se dá naturalmente, nem pré-existente na essência humana. É o resultado de um processo em que o sujeito se apropria reflexivamente de si mesmo, desalienando-se e livrando-se progressivamente da heteronomia.

         Autonomia  é a capacidade de fazer a própria lei. Assemelha-se -- sem se reduzir a-- à independência que o paciente da psicanálise vai adquirindo progressivamente, à medida em que se torna mais lúcido e capaz de auto-observação. A autonomia pressupõe um mínimo necessário de auto-reflexão lúcida e a conseqüente liberdade de se dar a própria lei. Sair da heteronomia é sair do manto da lei do outro.

       Não significa ignorar o outro ou realizar qualquer desejo, mas conhecer a responsabilidade da auto-limitação. Não se trata de psicologismo nem de atender à Lei do Desejo indiscriminadamente, mas de considerar inclusive a esfera institucional e social.

      A decisão sempre será , ao mesmo tempo, singular e coletiva -- será subjetiva, mas estará também ligada a uma situação coletiva e social-histórica. Em psicanálise , longe de uma "ética do desejo privatizado"-- dirá Castoriadis--, o projeto de autonomia é posto em circulação como indissociavelmente individual e social. Isto quer dizer que "o problema da ação subjetiva e da liberdade, na medida em que o ser humano é um ser social, é posta em jogo em sua relação com a liberdade dos outros". Em suma , a atividade livre de um sujeito não pode ser senão aquela que visa a liberdade dos outros.

      É por isso que Castoriadis costumava dizer que a psicanálise tem, no essencial, o mesmo objeto que a política: a autonomia dos seres humanos. (Falava da verdadeira política, não do ofício de um Aécio Neves, de um Michel Temer, ou mesmo de uma Dilma, filhos de uma sociedade heterônoma.) Ninguém pode viver sozinho, e também não pode eliminar os outros. A pergunta é : como posso ser livre se sou obrigado a viver em uma sociedade em que a lei é determinada por alguém outro ?

     A única resposta não utópica e não delirante-- diria Castoriadis-- é : ter a possibilidade efetiva de participar em pé de igualdade com qualquer outra pessoa da formação e da aplicação da lei. Esta é a verdadeira significação da democracia. "Uma sociedade autônoma só é possível se  for formada por indivíduos autônomos. E indivíduos autônomos só podem existir por meio e numa sociedade autônoma." A educação para a autonomia faz parte desse projeto. Houve "picos" de emergência do projeto de autonomia na História : na Grécia clássica, nas revoluções americana e francesa, na Rússia de 1917, na revolução húngara de 1956 , na "brecha" de Maio de 1968 e, agora, na Primavera Árabe.

     O projeto de uma sociedade autônoma deve ser a busca de uma conquista de maior liberdade em todas as esferas sociais e institucionais, e pode resultar em uma revolução. A radicalização da democracia pode levar a uma exigência maior de mudanças institucionais e a revolução não se dá só na esfera da transformação econômica. Movimentos sociais, como o MST, propõem a criação de novas instituições no interior da sociedade.

     Revolução é a autotransformação e recriação de todas as instituições.É, portanto, a autotransformação, de baixo para acima, de toda a sociedade.Pode ocorrer.Pode...  
 

         

        *Reinaldo Lobo é psicanalista e articulista. Tem um blog: imaginarioradical.blogspot.com.   

        

       

 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

QUAL SOCIALISMO? (1)


                                                                 Reinaldo Lobo*

 

   Uma pergunta que me fazem com freqüência, seja por provocação ideológica ou simples curiosidade, é: qual seria o modelo adequado de socialismo preconizado para o Brasil?  A minha resposta é bem simples: nenhum.

   A interrogação é quase sempre  uma armadilha preparada por aqueles que professam uma ideologia anti-socialista ou, se quiserem, anticomunista. Ou seja, uma pegadinha sectária vinda da direita, formulada pelos que pregam o individualismo possessivo -- o capitalismo e a propriedade privada -- como caminho único para a organização da sociedade.

   A questão capciosa visa a obrigar o interlocutor a optar entre os vários exemplos históricos que reclamam o rótulo de socialistas ou , então, a refugiar-se na desprezada abstração da utopia.

   O menu que oferecem é Cuba, União Soviética, Venezuela "bolivariana", China convertida ao mercado, Coréia do Norte ou ditaduras nacional-capitalistas da África, do Oriente Médio ou da Ásia.  Nem chegam a falar de países como a Suécia, a Dinamarca ou a Noruega, pois estes são reivindicados como pertencentes ao capitalismo puro, ainda que estejam num regime "socializante" de Estado do Bem-Estar social.

    O resto é quimera vã -- dizem. O que sobra? Resposta invariável : o capitalismo, a sociedade de consumo intensivo e crescimento "ilimitado", nas suas versões norte-americana e européia. Não é o regime perfeito --argumentam--, mas é o que existe de efetivo, real, ao qual devemos nos resignar  e com o qual teremos de conviver.

    A própria palavra socialismo deve ser usada com cuidado, pois está muito desgastada  após décadas de social democracia e de socialismo europeus, oportunistas e camaleônicos, muito mais comprometidos, na verdade, com a exploração, a neutralização da luta de classes e a manutenção do status quo capitalista, do que com qualquer avanço social.

   Quanto ao socialismo comunista, também bastante oportunista nos seus partidos no Ocidente, ganhou definitivamente a pecha de totalitarismo pela experiência repressiva, de exploração de classes e antidemocrática do Leste Europeu.

    O que resta, então, para a chamada "ala progressista"?

    Para alguns antigos socialistas sérios, cultos e respeitáveis o que restou foi um conjunto de valores éticos e de princípios políticos. Uma forma de encarar o mundo e de lutar para torná-lo mais justo. Algo assim como faz a esquerda norte-americana, que sabe que não vai tomar o poder a curto ou a médio prazo, mas tenta permanentemente escolher o presidente "menos ruim", e fazer número no Congresso e criar grupos de pressão para que se concretizem os direitos humanos e sociais, protegendo os trabalhadores, o povo pobre, as mulheres e as minorias discriminadas. A esquerda dos EUA "vive o presente" e não traça objetivos futuros muito claros, ainda que tenha um papel relevante no combate à discriminação, ao racismo e na conquista de direitos civis.

     É uma posição respeitável, porém , só parcialmente verdadeira e eficaz. Ao fim e ao cabo, tudo continua dentro do modo de produção capitalista e uns poucos permanecem  proprietários  dos meios de produção. O problema do capitalismo, dizia George Bernard Shaw, é que tem poucos capitalistas.

      Sobre o Brasil, é preciso dizer, em primeiro lugar, que não existe modelo formulado de antemão para a situação de um país específico. Só a práxis concreta desse povo poderá determinar a trajetória de construção de uma sociedade, principalmente se pretendermos que seja política e socialmente democrática.

    Chega a ser meio ridículo quando dizem, tanto à direita quanto à esquerda, que Cuba, por exemplo, deveria ser um modelo de sociedade socialista para os brasileiros. Por mais semelhanças culturais ou antropológicas  existam entre os dois povos, há  diferenças - históricas, geopolíticas e geográficas- abissais que impedem a convergência sob um mesmo regime. Além disso, nunca se soube de uma revolução de determinado país que desse certo em outro.

    A derrota foi inevitável quando a esquerda brasileira quis imitar os "focos no campo" dos cubanos entre nós, apenas porque havia uma ditadura aqui, evocando a ditadura que houve lá sob o regime de Batista, nos anos 40 e 50 do século XX..  As classes dirigentes brasileiras já haviam aprendido com toda a experiência histórica cubana e sabiam exatamente como evitar a guerrilha. Aqui, e mesmo na Bolívia e outras regiões. Che Guevara, revolucionário desprendido e corajoso, foi uma inspiração moral para a juventude latino-americana e mesmo mundial nos anos 60, mas jamais conseguiu replicar a revolução cubana. E nem poderia.

    Uma revolução é um fenômeno de destruição e criação que emerge com certa espontaneidade imprevisível e surpreende as sociedades mais ou menos estratificadas. Cada uma vem de um jeito diferente e gera sociedades e instituições diversas. Não fórmula pronta de revolução, assim como não existe uma sociedade exatamente igual à outra.

    Existem autores que pensaram e pensam essas questões e que são pós-marxistas, isto é,  incluem Marx em seu repertório teórico e prático, mas vão além e, de certa forma, superam o marxismo ou não o consideram o único pensamento possível para a esquerda. São os casos, por exemplo, de pensadores como Cornelius Castoriadis e Claude Lefort, na França, Axel Honneth, Jürgen Habermas e outros herdeiros da Escola de Frankfurt, na Alemanha.

        Todos têm em comum uma certa crítica radical tanto do capitalismo predatório quanto do marxismo  do universo totalitário dos regimes comunistas. O mais importante é que todos, vindos de tradições filosóficas relativamente diferentes, utilizam a chave da democracia para repensar o projeto de emancipação social, política e humana.

    O mais curioso é que todos também aposentaram a palavra socialismo, que prestou grandes serviços ao movimento operário e revolucionário, mas que hoje é inoperante e desnecessária. Até porque declarar-se "socialista" tem tantos significados que , ao final, não tem significado consistente algum.

   Já repensar a democracia e levantar a questão do poder e de sua distribuição como centro de qualquer projeto transformador, é um exercício necessário num mundo onde praticamente todos os países reivindicam rótulo de democráticos. Nunca houve tantos governos e regimes que se intitulam "democracias" na face da terra, mas já são escassos os que se apropriam e exibem, como sua definição e identidade, a palavra "socialismo".

(Prossegue no dia 17/12/2014)

 

* Reinaldo Lobo é psicanalista e articulista. Tem um blog: imaginarioradical.blogspot.com.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

UM PERIGO REAL E IMEDIATO


                                

                                                                               Reinaldo Lobo*

 

          Um cartaz erguido por uma mulher jovem na passeata de extrema direita contra a reeleição da presidente Dilma, pedia há alguns dias : "Militares, façam uma faxina. Queremos um golpe durante  90 dias. Depois devolvam o poder". Até o poeta Ferreira Gullar, ex integrante do Partido Comunista Brasileiro, o "Partidão" supostamente de esquerda, falou de um "golpe democrático" contra o PT em sua coluna na Folha de São Paulo. Como se houvessem golpes de Estado democráticos!

        Doce ilusão!

         Em primeiro lugar, porque não haverá golpe. As instituições democráticas, o quadro político, a situação internacional, a economia, a posição do Brasil e a respeitabilidade do próprio governo Dilma em escala mundial, não autorizam ninguém a falar em intervenção militar. Aliás, os próprios militares brasileiros não parecem nada interessados nisso, pois  muitos deles estão alinhados francamente com o governo na sua política externa e com o propósito de Dilma de apurar seriamente as acusações de corrupção.

        Em segundo, porque ,se houvesse golpe, repetiríamos o que houve em 64, talvez até de forma pior. Os "liberais" de então, que pediam uma intervenção rápida das Forças Armadas contra o governo Goulart, o perigo comunista e a corrupção, arrependeram-se logo depois com o que veio e durou 21 anos de repressão, censura e violência de Estado. Acostumados com o poder, os militares não o largaram mais.

        A atual onda contra a corrupção "dos políticos" iniciada junto com os movimentos de massas de junho de 2013, que se tornaram ambíguos e acabaram liderados por uma Nova Direita, parece caminhar em algumas direções imaginárias perigosas:

1. imitar a oposição venezuelana que se contrapôs a Chaves e,agora, à herança "bolivariana , supondo semelhanças inexistentes entre Caracas e Brasília";

 2. provocar no Brasil uma espécie de cruzada anti-corrupção semelhante à "Operação Mãos Limpas" da Itália, que acabaria por conduzir Silvio Berlusconi ao poder por quase duas décadas;

3. o movimento espanhol, replicado um pouco na Argentina, sem êxito, baseado no slogan "que se vayan todos" ("que vão embora todos" -- os políticos).

        Todas essas saídas  imaginárias, para nós brasileiros, tinham algo em comum. É o ataque à política e aos políticos, tornados bodes expiatórios de crises mais profundas das sociedades implicadas. O resultado de todos esses movimentos foi o recrudescimento do fascismo, da violência e das ameaças à democracia.

        Tomemos o caso da Itália. A "Operação Mãos Limpas" foi uma investigação judicial de grande alcance que visava a esclarecer casos de corrupção durante a década de 1990, em conseqüência do escândalo do Banco Ambrosiano em 1982, que envolvia a Máfia, o Banco do Vaticano e a loja maçônica P2. A Operação "Mane Puliti" levou ao fim da Primeira República Italiana e à extinção de muitos partidos políticos.

       A imprensa da época estampou casos de alguns políticos e empresários que se suicidaram quando seu envolvimento com os crimes foi descoberto. Os principais partidos das coligações de centro que se sucediam no poder saíram enfraquecidos Não suportaram a blitz realizada pela classe média, a imprensa e a própria opinião pública mundial, escandalizada com a mistura do Vaticano e a Máfia. O alvo foi a classe política como um todo.

    A Operação alterou a correlação de forças na disputa política italiana. Todos os quatro partidos no governo em 1992 -- a Democracia Cristã, o Partido Socialista, o Social Democrata e o Liberal-- desapareceram em seguida. O Partido Democrático da Esquerda (um mix de PCI e Socialistas), o Partido Republicano e o Movimento Social Italiano (neofascista) foram os únicos grupos de expressão nacional que sobreviveram. O único a manter o próprio nome foi o Partido Republicano.

    Algo semelhante pode estar ocorrendo no Brasil em decorrência da tempestade moralista e anti-política promovida pela Nova Direita surgida em 2013, aquela que vaiou e xingou Dilma nos estádios de futebol, e reforçada pelos seus aliados nos partidos e na mídia que queriam vencer as eleições a qualquer custo.

    Na Itália, a Operação foi um sucesso ou um fracasso? Na medida em que desqualificou os políticos, já que este era seu objetivo, foi um estrondoso sucesso. Enquanto exaltou os empresários, dando novos rumos à sociedade civil, foi ainda um espetacular sucesso de crítica e de público. Não por acaso os italianos foram buscar na figura de um empresário, Silvio Berlusconi, o dirigente mais importante de duas décadas. Só que esse empresário levou junto com ele ao poder, o Movimento Social Italiano,herança de Mussolini e a racista e violenta Liga Lombarda. O fascismo, enfim.

     Na Venezuela, a nova direita contra Chaves resultou num golpe de Estado fracassado em 11 de abril de 2002, liderado por um empresário e dado justamente para aniquilar com a classe política, no caso bolivariana. A primeira atitude do curto governo "empresarial" venezuelano (durou três dias) foi uma amostra do que seria: aboliu o Congresso e a Constituição, que não eram, na época, sequer bolivarianos.

    A lógica desses movimentos moralistas para expulsar os políticos é simples: valoriza-se em contrapartida o empresariado e, em conseqüência, os grupos de ultra-direita de mentalidade fascista, cujos propósitos finais são eliminar os políticos e, junto, a democracia. Estes atingem com freqüência o poder, que não querem devolver.

    O perigo real e imediato que o Brasil corre não está num possível golpe. O perigo é a difusão e crescimento de um movimento nas classes médias sintetizado numa palavra naquele cartaz,  erguido por aquela jovem mulher  ignorante talvez do passado ditatorial recente: a  "faxina", pedida aos militares. Essa é a palavra de ordem da nova direita, que não quer saber de reforma política democrática.