quinta-feira, 7 de maio de 2015

O MEDO DO OUTRO


 

                                                             Reinaldo Lobo*

 

         Já se tornou um lugar comum, quase um clichê contemporâneo, falarmos da estranheza em relação ao outro. E lamentá-la.

         O estranho, o estrangeiro, o "bárbaro", o que não reza pela nossa cartilha, o que não fala a mesma língua, o portador da alteridade "esquisita", o misterioso, o de outra cor , o de raça diferente, o "inferior", o "sujo", o bruto, o ignorante, o pobre, o favelado, o bandido, o grupo "superior", o "modelo" do colonizador, o invejado, o mais "belo", "o "feio", o deficiente, o de comportamentos "desviantes", o diverso, o  invertido, o travestido, o transgêneros, o que não tem juízo nem nunca terá.

         Sempre existiu o "outro". O racismo quase faz parte da afirmação da própria identidade de muitos povos, como se precisassem sempre de uma referência negativa para se constituírem.  Os símbolos da diferença estão em todas as culturas.O culto da dicotomia amigo-inimigo também.

        Por que, então, hoje esse tema do resgate do "outro" está tão presente entre nós? Por qual razão se tornou tão moderno e atual?

         Uma das possíveis razões dessa contemporaneidade do problema das diferenças, ao ponto de existirem até "filosofias da diferença" há algumas décadas, está no medo gerado pela internacionalização da economia, até há pouco chamada de "globalização".

        A utopia decorrente da circulação do capital financeiro e da abertura mundial de mercados proclamava que teríamos uma queda das fronteiras, uma generalização cultural e a livre troca de pessoas, de trabalho e de bens. A fantasia neoliberal alimentou essa utopia até onde era possível nas décadas de  80 e 90. O ex-presidente norte-americano Bill Clinton tocava em seu saxofone o hino à mundialização e os discursos meritocráticos selecionavam os países dignos de participar do bravo mundo novo. Nosso perspicaz FHC, apoiado no guarda chuva protetor norte-americano, não hesitou em dizer: "Esqueçam a África". E a África foi esquecida, pelo menos até que surgiram, há pouco , os BRICs e uma nova política dos emergentes, Sul-Sul.

          A utopia neoliberal começou a ruir em 2001, quando ocorreu o atentado às Torres Gêmeas. Muitos ainda vêem essa tragédia apenas como um evento randômico, aleatório, ou como o resultado da inveja de terroristas pobres ou da maldade de sujeitos vindos das Trevas medievais do Oriente. Isto é, como a maldade do outro.    

         Passou quase despercebido que o atentado foi altamente sofisticado, envolvendo técnicos e engenheiros, usando a tecnologia mais avançada ocidental. Não tinha nada de medieval, talvez só a crença em uma interpretação arcaica do Islamismo. Também escapou à atenção de muitos que, em grande parte, o atentado era uma reação a um fenômeno predominantemente norte-americano -- a tal globalização. Ela prometia nivelar todas as culturas, impor uma religião comum -- a cristã--  em escala universal, liquidar com as singularidades culturais e regionais, matar o "lar" de muita gente e promover a "livre circulação" entre os países.

        O singular e o regional resistiram à homogeneização,  de forma violenta. À insegurança da internacionalização foram contra-postos o medo e a instabilidade da circulação dos cidadãos ditos ocidentais. A qualquer momento, o terror pode voltar.

         Aqui no Brasil, também já se tornou lugar-comum a afirmação de que as classes dirigentes vivem com medo, muradas atrás de condomínios e de forças policiais violentas e repressivas,  das quais a PM do Paraná é apenas um aperitivo do que ocorre com pobres e negros nas ruas das periferias das grandes cidades,  no campo e nas prisões.

        O medo tem sua utilidade. Se é verdade que constitui uma espécie de antecipação do que poderá ocorrer, uma defesa diante de uma expectativa de catástrofe ou de violência a ser sofrida, também é fato que se referir ao medo significa falar dos nossos projetos, do nosso futuro e da esperança de um porvir. Mesmo que se reporte a experiências localizadas supostamente no passado, o nosso medo visa tudo ao que põe em risco no futuro o que nos daria bem-estar e prazer.

      O sujeito humano, para Freud se definia basicamente pelo terror. Seu mundo interno se desenvolve num meio ambiente próximo ao estado de guerra, não tanto por combates com terroristas ou bandos de criminosos.  A criança pequena cresce em meio ao perigo de perder o amor dos pais, sua proteção, em face de seus próprios impulsos e de um mundo pouco hospitaleiro. Sua luta pela sobrevivência ainda enfrenta a repressão civilizatória e a necessidade de socialização.

      Ao longo da vida, o pequeno animal humano terá que assimilar regras éticas, estratégias para não sucumbir à maldade, violência e malícia do mundo social. O medo faz parte e o protege na medida do possível, mas sempre haverá a busca por uma estabilidade ambiental interna e externa, por mínimas que sejam.

    Quando a sociedade impõe um "a mais"  (um plus) de violência à precária segurança do sujeito humano, uma das respostas possíveis consiste em projetar no outro, até por identificação, os próprios impulsos assassinos e partes sinistras recalcadas da própria subjetividade. Daí, partir para a discriminação ou a guerra é apenas um passo.

    A aceitação do outro-- cantada em prosa e verso tanto pelos cristãos, judeus, budistas, muçulmanos e outros, passando por Lévinas, Habermas, Castoriadis e as filosofias atuais da compreensão da diferença--,  é uma conquista ultra sofisticada do ser humano. Nem sempre passa pela realidade da política ou da PM do Paraná, pelas forças militares norte-americanas, israelenses ou pelos jihadistas de plantão, ainda que hoje freqüente muitos discursos bonitos na ONU e nas gazetas.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

A OPINIÃO PÚBLICA


                                

                                                             Reinaldo Lobo*

 

 

     Havia um torturador no extinto DOI-CODI, durante a Ditadura civil-militar, que era conhecido como "Dr. José". Era um presumível capitão considerado o "intelectual" do grupo. Gostava de fazer --acreditem!-- entrevistas "científicas" e aplicava "testes psicológicos" em seus torturados. Às vezes, entabulava conversações sobre "teoria política" com seus inimigos, em sua maioria jovens estudantes ou professores universitários.

      Formulava assim a sua versão do que era a opinião pública:

     "Se você estiver no Viaduto do Chá, em São Paulo, e presenciar a cena de um ladrão roubando a bolsa de uma velhinha, verá a multidão que passa por ali  começar a gritar "pega ladrão!", revoltada. Mas se chegar a polícia --a autoridade legal--, e prender o ladrão dando-lhe umas cacetadas, logo descobrirá que a multidão vira a casaca e começa a vaiar a polícia. Isso é a opinião pública. Não sabe o que quer. Por isso, ela precisa ser manipulada pelos que sabem das coisas."

      Quem "sabia das coisas"? Os militares e seus aliados da "elite nacional". Simples assim.

      Essa não era a visão de um Platão, mas de um fascista e torturador. Foi também, espantosamente, o ponto-de-vista aproximado de um "liberal" histórico, o jornalista e pensador norte-americano Walter Lipmann (1889-1974).

     Libertário no início, quase um anarquista quando jovem jornalista, tornou-se um conservador e foi o criador do termo "Guerra Fria" para definir o quadro após a Segunda Guerra no mundo dividido entre URSS e EUA. Seu "liberalismo" distinguia um grupo de  cidadãos -- jornalistas, juristas e empresários, de preferência de sua escola, Harvard-- que deveria "orientar a multidão", pois esta poderia perder-se irracionalmente em meio às emoções e às muitas opiniões propiciadas pela democracia norte-americana. Não propunha censura, mas uma cuidadosa e ativa indução pedagógica.                 

     Em seu livro "Opinião Pública" defende a liberdade de opinião, mas também uma hegemonia das idéias que deveriam ser disseminadas pela elite entre a massa ignorante, através de vários órgãos, por exemplo, como o "The New York Times" e revistas "Time" e "Life", capazes de infundir o "american way". Enfim, uma democracia livre, mas dirigida. O papel dos monopólios de comunicação, inclusive das TVs, seria crucial na missão de modelar a opinião nacional e, quem sabe, internacional.

      Surgido  no século XVIII, o conceito de opinião pública ainda é muito vago. É o resultado de manifestações públicas? A massa emitindo os sinais de uma opinião consensual? Uma espécie de "onda" do imaginário coletivo que ganha proporções em certos períodos? O simples efeito daquilo que aparece nas eleições, fruto do voto das multidões? Algo a ser aferido por pesquisas? O conjunto dos preconceitos e dos valores de um determinado povo ou de parte dele? A expressão das ideologias secretadas por segmentos da sociedade?

      Os filósofos da política sugerem que opinião pública não deve ser confundida com soberania. O eventual clamor da "opinião" é circunstancial e não representa o direito de escolher governantes ou de proclamar sua deposição. A soberania é o direito que o povo tem de escolher seus dirigentes, suas leis e a preservação do respeito ao seu território-- daí, soberania nacional. A soberania é, portanto, fundante da democracia. A opinião é passageira.

     O erro do torturador do DOI-CODI foi, portanto, o de fazer maliciosamente essa confusão, a fim de defender o seu "direito" de manipular e de reprimir. A soberania não se confunde sequer com maioria, pois é constitutiva de um sistema de convivência e de governo. As eleições servem para consultar periodicamente a maioria, promover a alternância ou permanência no poder, mas não para destituir a própria soberania ou eliminar os fundamentos do regime democrático.

     As ditaduras tentam justificar sua existência alegando a volubilidade da opinião pública, muitas vezes motivada pelo medo infundido pelos próprios agentes e defensores da exceção.

    Na democracia, o direito de dissentir e de constituir minorias não é apenas para garantir a existência de uma oposição, de indivíduos ou pequenos grupos, mas também -- e principalmente-- para sustentar a democracia, mesmo indo contra o desejo de maiorias.

    Na Argentina, quando o ex-ditador Perón voltou do exílio e se candidatou à presidência, foi eleito com oito milhões de votos. Foi a maior votação até então na história do país, obteve mais de 90% dos eleitores. Um repórter entrevistou alguém que não votou em Perón, o escritor Jorge Luis Borges, velho adversário do peronismo, e perguntou : " O senhor não se sente estranho e isolado, sabendo que oito milhões de argentinos discordam do senhor? . Borges respondeu: "Não tenho culpa se  existem na Argentina oito milhões de idiotas".

    Borges exerceu, apesar do tom arrogante, o direito de ir contra a corrente, de não seguir o impulso da opinião pública. A existência da minoria está nos fundamentos da democracia, desde a Grécia antiga. Sabe-se que no Brasil atual cerca de 90% dos brasileiros-- segundo as pesquisas de opinião-- são favoráveis à diminuição da maioridade penal, mas existem uns 10% contrários a isso. Estes 10% que  não querem seguir a maioria não estão desrespeitando à democracia. Ao contrário, fazem o que Borges teve a coragem de enunciar, isto é, dissentir. Nesse sentido, a presença dos 10% é o que garante a democracia.

     A opinião publica não é garantia de nada; nesse ponto o torturador "filósofo" tinha razão. Ela pode mudar. Mas o direito legal de escolha e de discordância-- e de não ser torturado por isso-- são a própria essência da democracia.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

UM MITO POLÍTICO QUE PEGOU


                                

                                                             Reinaldo Lobo*

 

 

          "Primeiro a gente decide tudo entre nós numa sala, depois convoca a reunião  para votar". Muitos talvez conheçam a frase do nosso folclore político.Os jornalistas políticos se deliciam com ela. Uma versão mais explicada é assim:  "Primeiro reunimos os chefes dos partidos que importam e decidimos tudo, depois, marcamos democraticamente uma assembléia para referendar".

       As frases são atribuídas a Tancredo Neves, a velha raposa do antigo PSD mineiro, e sua origem remonta aos tempos do período ditatorial de Getúlio Vargas. O estilo é de Tancredo, sem dúvida. Faz parte não só da tradição mineira, mas da política nacional. Mas esse método anti-democrático e matreiro de realizar uma reunião que deveria ser democrática ultrapassa a figura histórica de Tancredo.

      A forma autoritária do comportamento, essa visão-de-mundo cínica, a prática sem cerimônia da cooptação são a maneira freqüente  de se fazer política em escala municipal, estadual e federal. Os sociólogos chamam esse "jeito", com razão, de "pacto das elites", pois define uma acomodação para a governança dos que estão por cima, dos chefes. O que vale não é a "formalidade" do voto, mas a vontade dos que realmente mandam.

     Vou chamar essa preferência política nacional de "tancredismo". A sistemática foi sem dúvida inspirada na vida, na história e nos pensamentos de Tancredo. No entanto, suas raízes têm origem no coronelismo do mundo rural brasileiro, nos tempos em que o povo era levado a votar naqueles que defendiam os interesses dos chefes locais e dos latifundiários.  Não por acaso, há uma informação histórica, polêmica, de que a família Neves da Fontoura, dos avós de Tancredo, foi a última a libertar os escravos em Minas, após a proclamação das leis sancionadas pela Princesa Isabel. Seu compromisso foi originalmente não com Tiradentes e a liberdade -- como proclamava Tancredo ao falar "de Minas"--, mas um compromisso estreito com os poderosos do latifúndio, inclusive escravocrata.

    No Brasil é assim. Muitos dos que se proclamam democratas vem do autoritarismo mais escachado, ainda que possam ter-se convertido à retórica liberal. Os sociólogos já chamaram a atenção para a contradição das idéias brasileiras fora do lugar, quando se defendia o liberalismo ideológico e, de fato,  praticava-se a escravidão.

     O ponto central, no entanto, é um real vício político que "pegou" e que transcende a figura pessoal de Tancredo e de sua família. Esse vício torna nossa democracia uma colcha de acordos de gaveta, cambalachos e  corrupção.

    O tancredismo está em toda parte. No futebol, tem o nome de "tapetão", uma forma de ganhar jogos fora do campo, onde as regras são claras. Essa política consiste também em achar "brechas" nas legalidades, para fazê-las cumprir ao gosto do freguês. Recentemente, o presidente da Câmara Federal, deputado Eduardo Cunha, não escondeu seu intento de usar quaisquer filigranas legais para impedir que sejam aprovados temas dos quais não gosta.

     O presidente do Senado, Renan Calheiros, não só declarou como fez. Devolveu ao Executivo, sem consultar os seus pares formalmente, todas as matérias de iniciativa do Governo sobre as quais ele tem opiniões particulares e não quer aprovar. Usou a sua "prerrogativa" de presidente da Casa. Não fez a menor questão de esconder seu veto a nomes indicados para assumir cargos na Justiça, chantageando assim o governo.

    Um detalhe interessante é que ambos , Campos e Calheiros, foram cumprimentados efusivamente pelo líder da oposição, por acaso o neto de... Tancredo Neves. A imprensa conservadora, que tem restrições "morais" a Cunha e Renan, elogiou as atitudes de ambos, por sua coragem e seu caráter "democrático". Ambos viraram verdadeiros heróis da resistência ao governo Dilma e ao PT.

     Ninguém assinalou com firmeza que Cunha seduziu parlamentares com mordomias. dinheiro e sinecuras para obter votos favoráveis às suas decisões "evangélicas" contra descriminalização do aborto, pela  restrição aos direitos da comunidade LGBT e, sobretudo, para conseguir distorções na Comissão de Justiça da Câmara, a fim de fazer passar a redução da maioridade penal, algo que viola cláusulas pétreas da Constituição.

      Essas decisões do legislativo são "normais", foram tomadas por minorias e conquistaram a maioria "na hora da reunião formal". Isso é o tancredismo.

      Não se refere só à oposição e ao PMDB. Os governos de Lula e de Dilma fizeram uso do método. É quase generalizado, percorre os partidos e, implicitamente, a própria mentalidade política nacional. Agora só está mais explícito e "naturalizado", pois tem o apoio da imprensa. Como bem diz o fotógrafo Sebastião Salgado, temos no Brasil, hoje, um fenômeno  dos últimos doze anos : pela primeira vez,  a imprensa não apóia o governo. A grande  imprensa, com raras exceções de independência, fica sempre com os poderosos, o  que é outra faceta do pacto das cúpulas.

     A "filosofia" do tancredismo é baseada no culto das idéias de conciliação e de moderação. Não foi um acaso Tancredo ser chamado para aplacar os militares em 1961, servindo-os como primeiro ministro da fórmula parlamentarista. Funcionou como ponte para conter o trabalhista Jango e como garantia de redução da força dos "radicais"-- o próprio Jango e a esquerda, segundo a ótica dos militares.

     Serviu aos militares também em outra transição, na campanha pela presidência em 1984, quando foi de um oportunismo exemplar. Compareceu a todos os comícios das diretas, que sabia muito improváveis, enquanto articulava, ao mesmo tempo, sua escolha pelo Colégio Eleitoral indireto, da Ditadura. Esta vitória estava garantida com o apoio dos poderosos de então, inclusive do seu célebre aliado  ACM, Antonio Carlos Magalhães, ex-governador da Bahia e ex- ministro.  Apoiou igualmente a "lei de Anistia", mesmo sabendo que salvava da cadeia os torturadores.

    Nosso herói Tancredo dizia: "Se é mineiro não é radical, se é radical não é mineiro". Esse ditado ideológico, aparentemente regional, deve ser ampliado a todo político brasileiro, a maioria deles viciada em girar em torno  do extremo centro. Celso Kassab, ex-prefeito de São Paulo e hoje cacique de uma nova versão do "PSD", percebeu que o caminho do centro é o da oportunidade. E vai em frente.

    Como dissemos, o tancredismo não é Tancredo. Esse  teve, bem ou mal, um papel histórico na redemocratização em 1985. Mas a sua herança é maligna  na medida em que seu método se generalizou, faz parte de nossa cultura política. Quem não se lembra de Lula, em seu primeiro mandato, dizendo para agradar aos poderosos do Sistema: "Nunca disse que sou de esquerda"?

    Como assim? Isso foi tancredismo puro.    

    Será que nossos heróis se resumem mesmo a um só, o arquetípico Macunaíma?

      
     

quinta-feira, 26 de março de 2015

O SISTEMA CORRUPTO


                                           

                                                                          Reinaldo Lobo*

 

           O preconceito, o ódio e a propaganda maciça pelos meios de comunicação impedem muitas pessoas de enxergar as nuances, os detalhes e as diferenças no cenário e na estrutura política do País. O campo de visão fica nublado,  excludente. Escapam fenômenos mais amplos, que, às vezes, nem estão ocultos, mas à vista de todos. È o caso, a meu ver, do Sistema Empresarial-Burocrático-Político corrupto que transcende o governo atual, o PT e os nomes habituais escolhidos pela mídia como espantalhos. O Sistema é permanente, vem de longe -- o que não absolve os eventuais corruptos atuais. Só explica melhor sua existência.

            Esse Sistema é um modo de funcionamento subjacente quase rotineiro da política nacional, onde existem eleições formais sempre a serviço desse circuito que envolve empreiteiras, firmas terceirizadas pelas empreiteiras, vários tipos de empresas privadas, burocratas de autarquias, de empresas estatais, partidos e políticos. Às vezes, chega a juízes ou a membros do Judiciário. Envolve caixa-dois dos partidos, sem dúvida, mas não se restringe isso. É um modo de funcionamento institucionalizado, ainda que mais ou menos informal e não explicitado publicamente.

         Há uma mistura de contribuições legais e de propinas que formam as célebres "sobras de campanha", termo usado pelos políticos para designar o dinheiro que vai parar nos seus bolsos, na compra de obras de arte ou de apartamentos para lavagem e outras aquisições aparentemente legais. Uma vez, conheci um marchand de arte que se dizia "especializado em clientes políticos", que compravam obras a granel, contanto que fossem valiosas no mercado de arte e pudessem ser vendidas depois por um preço compatível ao investimento ou mesmo maior. Os tais clientes do marchand trocavam obras entre si, a fim de um lavar o dinheiro do outro.

         Um banqueiro conhecido, Andrade Vieira, dono do falecido Bamerindus,  denunciou que na campanha de Fernando Henrique Cardoso em 1994, houve uma "sobra" de cerca de 300 milhões de reais (calculados a posteriori em reais) cujo destino permaneceria desconhecido até hoje. Insinuou, então, que o dinheiro passou por Paris e estaria na Suíça ou em algum outro "paraíso fiscal". Enquanto estava amigo de FHC Andrade Vieira foi um dos coordenadores de sua campanha. Ficou inimigo quando o seu Banco não teve a esperada retribuição pelo empenho, quase faliu e foi vendido barato para o Banco de Boston. Houve processos sobre o assunto, mas acabaram engavetados antes de chegar ao Supremo Tribunal Federal.

       Por esse exemplo fortuito, fica fácil entender como funciona o Sistema: empresas investem num político e esperam plena retribuição. Quando não vem, passam para outro ou denunciam as operações suspeitas do seu predileto anterior. Em muitas ocasiões investem nos políticos dos dois lados rivais, como do PSDB e do PT, para cobrar depois de quem vencer.

       Como o alvo atual é Dilma ou o PT, passa despercebido da opinião pública em geral que o Sistema é muito mais forte, presente e tem um futuro pela frente, com ou sem Dilma ou o PT. Vai além deles e de quaisquer outros partidos, pois funciona como um círculo vicioso acionado pelo imaginário capitalista e pela ânsia de mobilidade social.

       No imaginário capitalista, existe uma crença profunda de que só quem tem dinheiro consegue o reconhecimento e tem valor . Sem dinheiro, o individuo é quase nada perante a máquina da economia e da sociedade. Quanto mais dinheiro, mais reconhecimento. Isso gera um desespero, quase uma neurose , pela ascensão rápida. Quando o sujeito tem poder, o acesso ao dinheiro é mais "fácil", basta burlar um pouco as regras, pois parece absolutamente normal no seio do Sistema.

     Num País em crescimento, qualquer brecha para pular de uma classe social para outra do topo da pirâmide torna-se atraente para quem está imbuído da ambição, da convivência com poderosos empresários e está em posição de decidir lucros altos para essas empresas. Além disso, ainda que não se tenha feito a conta, Brasília seguramente tem em circulação um dos maiores números mundiais de lobistas de corporações privadas, querendo influir no Legislativo, no Judiciário e no Executivo.

      Os lobistas são uma peça fundamental do Sistema. Levam e trazem informações privilegiadas e o combustível necessário para fazer tudo andar : as maletas. Ficou famoso o caso dos Bancos que queriam mudar a lei da habitação e os critérios de financiamento do antigo BNH, logo no início do governo Collor. Alguns dos próprios donos de grandes bancos, vários com ramificações em Nova York e na Europa, teriam levado pessoalmente as maletas cheias de dinheiro, dólares, para membros do Judiciário e do Governo Federal da época. O anfitrião teria sido Paulo César Farias, o lobista mor e mentor na carreira política do atual presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha.

     A Lei foi corrigida a  favor dos bancos, os preços dos financiamentos imobiliários subiram astronomicamente e quem paga até hoje é o consumidor. Assim caminha o Sistema.

     Um paradoxo atual é que todo o movimento de manifestações contra a corrupção, visando primariamente ao PT e à queda da presidente Dilma, pode estar reforçando o núcleo político do Sistema que luta para sobreviver a qualquer mudança nacional, como tem sobrevivido.

     O escândalo da Petrobrás expôs, pela primeira vez na nossa História,  as empreiteiras mais poderosas do País, que formam o núcleo econômico e financeiro do Sistema. Outro pólo são os burocratas da Petrobrás, como Paulo Roberto Costa, figura modelar cuja carreira iniciou na empresa estatal em 1978, ganhou força e direção em 1995, e veio a público revelado como tomador de propinas em 2013/14. Esse e outros estão na cadeia, pelo menos até receberam o prêmio pela delação. Mas o pólo político, que envolve inúmeros partidos, inclusive três grandes como PSDB,  PMDB e PT ainda está relativamente preservado. Uma parte dele, sobretudo dos dois primeiros, tem sido até fortalecida à medida em que engrossa a campanha exclusivista contra o PT, como se não compusesse a principal, mais forte e mais antiga peça do Sistema.

      Com o apoio explicito da mídia conservadora, personagens como Eduardo Cunha, presidente da Câmara, e Renan Calheiros, do Senado, despontam como verdadeiras lideranças de oposição, como se quisessem a oportunidade de substituir Dilma na presidência ou mesmo alijar outros adversários de qualquer influência legítima no poder.  Há um sério risco de o País mudar mais uma vez para continuar até pior do que está, ficando completamente a serviço de uma "nova" força política e tudo voltar ao normal. O normal é o que todos os envolvidos querem de volta, a volta silenciosa e rotineira do Sistema.

segunda-feira, 16 de março de 2015

"Pise suavemente, pois você está pisando nos meus sonhos". 

                                                                              W.B.Yeats

quarta-feira, 11 de março de 2015

O DIA DO ÓDIO


   

                                                            Reinaldo Lobo*

 

         A idéia dos "Dois minutos de ódio" é uma das criações mais célebres de "1984", o livro de George Orwell, o inventor do totalitário "Big Brother". O autor colocava seu herói na situação de ser obrigado a participar de uma histeria organizada, na qual se elegia um inimigo de "Oceânia", sua terra imaginária, e todos se punham a dirigir contra ele, por um breve instante,  seu ódio, seus gritos,insultos e vitupérios obscenos. Aliviavam assim, por deslocamento,  suas próprias decepções, frustrações, desejos inconfessáveis e impulsos agressivos. Era uma forma de manipular as multidões. Sempre havia uma boa razão para a violência contra um objetivo selecionado.

       O manipulador em "1984' era o Estado, na forma do Grande Irmão, mas uma lição revelada nessa obra é que várias forças anônimas podem explorar esse controle das massas. A própria publicidade comercial já utilizou esse recurso. O cinema apresenta vários exemplos de catarse coletiva com os seus filmes sobre distopias, reinos imaginários terríficos e invasões de marcianos e de zumbis. Odiar um inimigo assim, e até matá-lo, torna-se "normal". Mas a invocação da participação direta da platéia, como no tempo dos gladiadores, foi uma elaboração artística de Orwell.

    A originalidade de "1984", que muitos apresentaram como uma versão do "Leviatã", de Thomas Hobbes, está mais em ser uma distopia auto-reflexiva, onde se denuncia o seu próprio método constitutivo. É a denúncia do totalitarismo real pela metáfora exacerbada produzida pela imaginação. O resultado mostra que a realidade chega a ser pior do que a ficção.

    A desumanização do ser humano, sua redução a uma peça de engrenagem política e sua submissão pelo medo, são as características principais desse processo e sua exposição é a sua própria denúncia. Detalhe: não importa que a iniciativa parta do Estado ou de qualquer outra organização.

   O estímulo ao ódio neste momento do Brasil  tem várias origens e , já que se fala tanto que é preciso assumir responsabilidades pela crise vivida, os meios de comunicação deveriam responsabilizar-se por uma boa parte dessa situação. O clima de ódio contra a presidente Dilma tem-se tornado um "evento" midiático de grandes proporções, desde pelo menos aquele episódio do ataque obsceno de parte da torcida no campo de futebol, às vésperas da Copa do Mundo.

    As TVs, as rádios , as revistas e os jornais --a "velha mídia", enfim-- não param de "espetaculizar" e ressaltar o papel de alvo da presidente. Não faltam os que comparam a sua situação com a do ex-presidente Collor, que renunciou após um movimento de rua que poderia levá-lo ao impeachment , e com certeza levaria.

     Um paradoxo da situação atual, já assinalado por muitos, é que os ataques a Dilma ganham força justamente no momento em que ela atendeu aos pedidos da oposição e de boa parte das classes médias, convocando o ministro Joaquim Levy, vindo da oposição , para executar um programa de correção de curso na economia, por meio dos ajustes fiscais.

     Bastaria esse gesto para acalmar os setores insatisfeitos das multidões e a imprensa conservadora, pois seria um reconhecimento dos erros do governo. Mas isso não é possível porque as multidões que batem panelas e xingam a presidente foram insufladas há tanto tempo que desejam vê-la  humilhada e, no final, derrotada politicamente. Quem expressa bem isso é um truculento líder da oposição, senador Aloísio Nunes Ferreira, ex- esquerdista e ex-caixa da ALN de Carlos Marighela, quando diz que é preciso ver "Dilma sangrar até o fim". Alega que não quer impeachment, mas insufla a população a reinvidicá-lo nas ruas.

     Além de tudo, com a alta do dólar, ameaças de mais impostos da "austeridade" por elas pedida, as classes médias vêem bloqueados seus sonhos de consumo, viagens e equiparação às camadas mais ricas. A frustração é inevitável.

       O dia 15 próximo, para o qual estão marcadas manifestações contra o governo, será um dia de ódio. Essa emoção é muito eficaz em política, pois é da própria estrutura do fenômeno político um certo grau de paranóia e de cisão entre, de um lado, os amigos e, do outro, os inimigos.As distorções de percepção provocadas pelo ódio, um sentimento que inunda a vida psíquica e anula o aparelho para pensar, podem ser manipuladas ao ponto de uma mentira passar por verdade e acusações abstratas ou virtuais virarem realidades concretas.

      Hannah Arendt, a célebre  pensadora, dizia que uma das virtudes de Maquiavel for ter compreendido que, em política, tudo se passa no campo das aparências.  O que parece, é.  O mundo é feito do que aparece e quem souber tirar melhor proveito disso ganha o prêmio, que é o poder.  Não importa quem a presidente Dilma verdadeiramente é, nem as suas intenções profundas.  A questão é como está sendo percebida pelas multidões. E isso é o que os grupos de extrema direita, da "nova direita" e da oposição querem manipular, ao organizarem as manifestações do dia 15.

    Ao contrário dos eventos de junho de 2013, este Dia do Ódio não será espontâneo, mas minuciosamente programado. A organização prévia não impede que boa parte da multidão, se é que haverá multidão, expresse sentimentos reais de repúdio e de agressão.

     O objetivo dos "minutos de ódio" em "1984" era transformar o ódio particular em ódio coletivo. Cada participante de uma manifestação tem seus motivos privados para odiar e, muitas vezes, nada tem a ver com Dilma e a política.  A personagem do livro de Orwell, Winston Smith, odiava ser impedido de manter relações sexuais com Júlia, a jovem colega atraente, mas dirigia toda sua hostilidade ao inimigo da "Eurásia".  Tal ódio particular, esclareceu Orwell, era o objetivo do puritanismo reinante em "Oceânia", terra de calúnias que se tornavam denúncias e de denúncias que eram abafadas ou distorcidas contra quem as fazia.

        Os bons sentimentos não fazem muito sucesso em política. Há exceções: Nelson Mandela, Gandhi, Martin Luther King  lideraram revoluções em nome do amor. Foram consagrados simbolicamente por isso, mas dois deles tiveram finais bem infelizes. O amor em política exige algo como a santidade e o martírio.
          Os motivos de quem vai protestar democraticamente no dia 15 podem ser legítimos, abstratos, virtuais ou psiquicamente particulares, podem até ser por "amor ao Brasil". Mas o efeito do evento será bem real e, sobretudo, destrutivo num momento de uma crise principalmente política. Será como jogar gasolina para apagar o fogo. As consequências são imprevisíveis. E não serão "dois minutos de ódio", mas o próprio Dia do Ódio.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O BURACO FORA DO LUGAR


               

                                                                     Reinaldo Lobo

 

       Direita e esquerda brasileiras estão vivendo um momento delicado. O centro também. É que todos os lados estão desconfortáveis com a presença de Dilma na presidência. Alguns prefeririam removê-la. Por motivos e métodos diferentes, claro. Mas ocorre que essas forças políticas, que não seguem sequer cegamente a "opinião pública", estão supondo que o problema se localiza  na sua permanência no Executivo.

       Os mais conservadores adorariam ver Joaquim Levy livre da presidente para executar sua política econômica. Querem deixar  o Chicago Boy solto a fim de corrigir a "escorregadinha" brasileira na área, como ele próprio disse. Outros, mais radicais à direita, dizem que o País está sem governo mesmo, por incompetência sabem de quem. Então, tanto faz tirar a titular e colocar o reserva. É a turma do impeachment.

     Esses esquecem quem colocou o Levy no cargo, pois certamente não foi só "o mercado". A decisão presidencial foi política, refletiu o que  as urnas e metade do país disseram. Uma decisão democrática. O ex-presidente FHC chamou a atitude de Dilma de uma "cambalhota", talvez para não ter que elogiar. Pois ele bem que gostaria de ver o Aécio escolher um Joaquim desses.

      Quanto à esquerda, dentro e fora do PT, está perplexa há muitas semanas. O cacique José Dirceu foi quem deixou mais claro o descontentamento com a tomada de posição surpreendente de Dilma e com as medidas econômicas decorrentes. Quanto à esquerda fora do PT, já fazia franca oposição e até se alinhava com a direita em algumas denúncias. Apenas reiterou as críticas.

     Ocorre que a realidade é mais forte do que as ideologias e está impondo uma complexidade na situação que torna muito perigosa a simples remoção de Dilma da presidência. É preciso encarar essa complexidade de frente.

    Primeiro, Dilma fez um gesto em direção à direita ao montar o seu ministério, ignorando as sugestões vindas da esquerda. A direita não morre de amores por ela, mas derrubá-la, simplesmente, seria abrir uma crise institucional, afetando outras instâncias democráticas. Provocaria também uma reação dos sindicatos e dos trabalhadores em geral. Seria uma profunda crise política, da democracia e da sociedade, somada à crise econômica.

    Dilma , de fato, não é um Jânio nem um Collor. Tem 1,5 milhão de militantes do mais organizado partido atrás dela, além de boa parte das classes trabalhadoras.

    Segundo, a crise é mais profunda, exige continuidade e soluções cautelosas. Algumas medidas são mistas: "neoliberais", mas conservando as conquistas trabalhistas, em paralelo. Todo cuidado é pouco.

       Os próprios conservadores, incluindo aí o seu herói da competência do momento, estão temerosos de um processo de austeridade muito brutal, pois sabem o que está  acontecendo na Europa.

       Uma boa parte da confusão política atual deve-se aos ecos recentes do discurso eleitoral, reforçado pela presença de um congresso composto por deputados e senadores retrógrados e oportunistas ( os "300 picaretas" mais a "vanguarda do atraso"). Ocorre que o discurso eleitoral foi pautado ideologicamente nos moldes dos anos 60, dos dois lados. A dicotomia direita-esquerda foi exaltada por ambos os lados da disputa.

      A retórica anti-comunista da oposição era "vintage",   ao ponto de até surgir uma nova direita que pedia o retorno dos militares ao poder. O velho slogan duplo, contra a corrupção e o comunismo, era repetido até por políticos sérios dos partidos oposicionistas. Revivemos um pouco a era da Guerra Fria.

    Quanto à esquerda que apoiou Dilma, gastou até à exaustão o discurso contra o neoliberalismo e as medidas de ajuste fiscal, sendo obrigada agora a engolir desse amargo remédio, se quiser continuar apoiando o governo da distribuição de renda e de crescimento com justiça social.

     A crise atual não se deve apenas aos erros do governo ou à fraqueza da oposição, como querem os mais afoitos. São os mesmos que questionaram a legitimidade da eleição de Dilma. Como disse o ex-ministro da ditadura, o professor Delfim Neto, insuspeito de esquerdismo, o povo não votou por ser idiota, mas idiotas são os que pensam assim. As pessoas votaram em Dilma porque a vida de grande parte da população melhorou muito nos doze anos de governo "lulo-petista".

   Os críticos mais contumazes do governo Lula costumam repetir que o seu sucesso se deveu a uma "sorte", em função da conjuntura econômica internacional favorável (preços das commodities, baixa do dólar, mercado da China, etc.). Ora, o mesmo pode ser dito, em sentido contrário, sobre o governo Dilma, que pegou uma maré de "azar" internacional, com as baixas gerais das commodities, recuperação da economia dos EUA, alta do dólar,etc.)

     A realidade econômica e social não pode ser ignorada em função dos argumentos marcados ideologicamente e das crenças, sob pena de não sairmos da crise neste 2015. A confusão atual é , em grande parte, efeito da perda da embocadura na análise, substituída pelo foco único da ideologia. Está na hora de mirarmos no buraco certo, colocado no seu devido lugar.