Aquele que diz a verdade cedo ou tarde será descoberto.
Oscar Wilde
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
terça-feira, 11 de agosto de 2015
UM LIVRO INQUIETANTE
Reinaldo Lobo*
Que
tempo é esse em que vivemos? Quando começou, quais as suas linhas de ruptura e
quando desandou? É um tempo planetário , global, ou fragmentário? Obedece a uma
lógica dialética marxiana ou constitui um acidente histórico? Pura
contingência?
Que
sociedade é essa, em estado de guerra civil permanente e belicismo internacional, que parece ter um
fio condutor unindo tudo: extermínio
colonial, campos de concentração, crises econômicas, escassez, a destruição da
natureza, o colapso urbano, a ameaça de hecatombe nuclear , desemprego em
massa, o sofrimento no trabalho, a exploração humana para a produção incessante
de mercadorias, o medo crescente do futuro -- tudo isso ao lado da criação de
tecnologias cada vez mais avançadas de administração da vida?
O diagnóstico do filósofo Paulo Arantes,
autor de "O Novo Tempo do Mundo" (Boitempo Editorial, 2015) é severo
e peremptório -- essa é a natureza da sociedade moderna, que obedece a um ritmo
e a uma temporalidade próprias. Uma sociedade que emergiu com o capitalismo,
vive em regime permanente de crise e de destruição e que se alimenta disso.
O texto de Arantes não é muito fácil para
quem não está familiarizado. Autor de obras anteriores como "Hegel: a
Ordem do Tempo" e "Extinção", seu procedimento dialético está
contido no próprio discurso, marcado por uma considerável erudição e
referências precisas. Já foi definido como um processo de pensamento em
cascata, como se as palavras se derramassem em cachoeira. Às vezes, uma nota de
rodapé é tão significativa quanto os longos parágrafos, cifrados por uma ironia
fina e crítica. Certa vez, Bento Prado Jr. definiu o estilo de sua prosa como
tendo sempre "algo de críptico, de elíptico e de alusivo, que desnorteia o leitor",
assinalando o que também dissemos acima, isto é, que o estilo é "expressão
da matéria" de que trata. Vale a
pena o esforço de leitura.
O prefaciador da obra, Marildo
Menegat, aponta que os escritos de
Arantes podem ser pensados como
"uma das formas possíveis da teoria crítica, quando o mundo já não se
apresenta em linhas bem armadas de encadeamentos progressivos quase
óbvios". Sem dúvida, seu pensamento pertence à linhagem da teoria crítica,
inspirada em autores da chamada escola frankfurtiana-- talvez tocado, salvo
engano, mais por Walter Benjamin do que
Theodor Adorno ou Max Horkheimer. Tem, contudo, algo em comum com todos: o
interesse pela negatividade, o proverbial laivo de pessimismo , a influência
hegeliano-marxiana e a recorrência de uma problemática crítica encontrada no "jovem
Marx".
Há, contudo, algo de muito singular nos
textos de Arantes, notável pelo menos desde o "Sentimento da
Dialética", o "Ressentimento da Dialética" e o "Fio da
Meada" -- é o seu traço
'brasileiro', de força literária , e também o seu encontro destemido e firme
com a 'prática". Isso o torna muito diferente de autores mais teoricistas
e abstratos, como o outrora estudioso de Marx, José Arthur Giannotti. Além
disso, penso que há um fio de Ariadne em toda a sua obra: a questão
da temporalidade como ponto de partida e de chegada. Arantes busca e persegue a
linha e a natureza do tempo como o processo que dá sentido e tecido à História.
As entrevistas contidas neste livro
inquietante também mostram o lado
militante de Arantes, seu diálogo com
grupos de teatro, seu respeito pelos movimentos sociais, seu confronto com os
fatos de junho de 2013. Revelam outra diferença
em relação aos frankfurtianos clássicos,
que pareciam limitar-se à espera passiva
da negação da negação e a comprazer-se com o pessimismo, a melancolia e o
exercício da crítica literária e
musical. Ao capitalismo nascido na promessa de felicidade e liberdade e tornado
barbárie, boa parte do pensamento frankfurtiano ainda hoje limita-se a
contrapor o desânimo diante da barbárie. Só enxerga a desesperança e não vê
saída além dela.
Arantes vai além: detecta esperança no "Occupy
Wall Street", no "Podemos", no Syriza, na juventude que vai às
ruas pelo Passe Livre, em rebeliões como a Primavera Árabe e em eclosões
episódicas de negatividade anti-capitalista.
Um outro interesse desta obra densa é o
de ser um contraponto eficaz ao "pensiero debole" (Gianni Vattimo),
que concebe uma superação da modernidade por uma suposta
"pós-modernidade", onde os contrários se reconciliariam no bojo do
status quo, na complacência em face da barbárie e na qual a liberdade iria
imperar, finalmente, na forma de expressão cultural. Fruto do cinismo
neoliberal, a ideologia da "pós-modernidade" esconde o quadro de
conflitos, de violência e mascara uma época do capitalismo em que se tornaram
inevitáveis as expectativas decrescentes.
O quadro da contemporaneidade é, sem
dúvida, assustador. É a era das
distopias. Nas telas dos cinemas, zumbis e dráculas. No mundo do trabalho,
opressão e insegurança mal disfarçadas. Na sociedade, crises sucessivas e
guerras intermináveis. Tudo parte de um tempo global de natureza ora
bélica, ora de doença social crônica. Nas ruas, seres humanos ameaçados de
extinção, isto é, em vias de se tornarem menos do que zumbis e dráculas. Ao
mesmo tempo, porém, uma sociedade onde as pessoas nunca se casaram tanto,
independente do gênero, onde a comunicação estendeu-se em escala planetária e a
juventude busca avidamente livros e sinais de um novo tempo. Que sociedade é essa?
Que destino terá?
quinta-feira, 16 de julho de 2015
PODER SIMBÓLICO
Muitas pessoas inteligentes não entendem por que multidões seguem essas igrejas evangélicas --meio fajutas para os esclarecidos. Uma boa resposta é a de Pierre Bourdieu, sociólogo francês que escreveu livros inteiros de pesquisas sobre esse assunto e muitos outros:
" O poder simbólico é esse poder invisível, o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem.
"Poder quase mágico, que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica), só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário".
" O poder simbólico é esse poder invisível, o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem.
"Poder quase mágico, que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica), só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário".
GOVERNO ESQUIZOFRÊNICO?
Reinaldo Lobo*
A metáfora da esquizofrenia tem
sido usada e abusada para descrever o atual governo brasileiro. É um equívoco e
um diagnóstico apressado. Em primeiro lugar, é preciso perguntar: o que se
define hoje como o governo brasileiro.
Há vários, com identidades independentes. Mas há um laço de sobrevivência
política que os une.
Na esquizofrenia -- a doença
mental -- existe uma cisão de personalidade de um único indivíduo. Suas partes
-- é verdade-- agem isoladas umas das outras e se ignoram mutuamente . Com
Brasília, não é bem assim. Há vários elementos distintos , cada um agindo de
modo mais ou menos desorganizado do seu
lado. Cada um trabalhando como se
tivesse identidade, autonomia e direção própria , porém contrária aos outros. Cada um na sua, como se diz. E uns contra os
outros, só até certo ponto. No fundo, há um fio de união.
Há um governo que se imagina de
esquerda -- bem moderada, diga-se-- , relativamente acuado e sob pressão dos
adversários. É representado pela figura presidencial e alguns poucos ministros
de sua confiança, como José Eduardo Cardoso e Aloísio Mercadante. Na base
aliada, conta com o PCdoB, e com alguns membros do PDT, do PSB e pouquíssimos
independentes do PMDB. É pouco, para uma base que reúne cerca de 22 partidos.
Um outro é de direita, encarnado por amplos
setores do PMDB, sintetizados em figuras
como Kátia Abreu, da Agricultura, sem excluir o vice presidente Michel Temer.
Acrescente-se aliados do PP, PR e outras legendas mais ou menos fisiológicas. A direita se amplia até toda a base
governista, onde estão personagens de alta respeitabilidade como os presidentes
da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado,
Renan Calheiros.
Há mais um governo, terceirizado do
tucanismo, figurado pelo ministro Joaquim Levy, com uma ideologia de ultra direita na área econômica. A grande
polêmica é a carta branca dada pela presidente Dilma a este governo à parte,
que age com desenvoltura, desmentindo completamente a idéia de um "governo
voltado para os trabalhadores" propagada e articulada pelo PT.
Ainda há um resquício de uma virtual
representação do lulismo agindo nos bastidores, apoiado nos remanescentes do
PT.
Talvez
seja melhor perguntar: qual dos governos governa o Brasil hoje?
Dilma está vivendo o drama da esquerda que
optou pelo caminho democrático e deixou para trás o velho processo de
radicalização revolucionária. Não oferece o socialismo, mas uma coligação de
partidos e orientações ideológicas em direção a graduais avanços de distribuição de renda. Estão errados -- ou só de ma fé-- os que
acenam com o espantalho de Cuba ou do bolivarianismo da Venezuela. Isso é a maior bobagem que circula
na imprensa brasileira. O pior é que alguns saudosistas do socialismo real ou da opção guerrilheira
entraram também nessa história.
É preciso dizer com todas as letras de
uma vez por todas: Dilma entregou a hegemonia para a direita, não por
ingenuidade, mas por estratégia. Ampliou o pacto de coalizão com o empresariado
, os banqueiros e os latifundiários.
Em parte, foi para sobreviver politicamente sem
a retaguarda paternal de Lula, após uma vitória apertada nas urnas e a pressão
das classes médias e de vários setores populares, inclusive trabalhadores levados pela onda de moralismo
e fervor evangélico que assola o país.
Por outro lado, em grande parte a
presidente Dilma vive o "dilema grego" que afeta toda a esquerda que
veio de setores mais radicais pela via democrática e teve que adotar governos
de coalizão com as classes dirigentes. Por não saber agir num ambiente
tipicamente negociador, oportunista, em busca de sucessivas soluções de
compromisso com as forças do capitalismo mundial e nacional -- e sem um forte
programa alternativo estratégico--, essa
esquerda exagera na dose da aliança e da concessão, perdendo a mão sobre o processo político.
O
drama de José Dirceu foi exemplar : perdeu a mão na dose de compromisso,
escorregando na ilusão de imitar o "pragmatismo" da direita. Acabou
por virar uma figura de lobista, maltratado até injustamente pela mídia. .Atuou
na mesma "zona cinzenta da política" de que falava um ilustre
filósofo tucano. Só que, ao contrário dos vários espertos tucanos que meteram à vontade o bico
na cumbuca, foi apanhado numa armadilha sem a proteção da mídia conservadora.
Restou-lhe a condição de "consultor".
A direita nacional, composta por quase
todos os partidos existentes, é como aquela velha dona de bordel que conhece
cada uma das fraquezas de suas
profissionais e de seus fregueses. E as explora todas com eficiência. Eduardo
Cunha é a personagem símbolo dessa direita esperta. É uma dessas donas do
bordel. Na verdade, a sua turma está governando mais do que os outros vários
"governos", pois tem obtido cinicamente , na calada da noite, mais
resultados regressivos e conservadores do que a oposição tucana bem falante e inepta.
A
direita governa o País e mantém Dilma na defensiva. Há um pacto de
governabilidade envolvendo todos os partidos, inclusive a oposição -- com
hegemonia da direita, sobretudo dos banqueiros. A oposição finge se opor, de
olho nas eleições futuras, mas não tem
nada de louca ou de esquizofrênica . Louco é quem rasga dinheiro.
Reinaldo Lobo é psicanalista
e articulista,. Tem um blog: imaginarioradical.blogspot.com
quarta-feira, 1 de julho de 2015
A GUERRA RELIGIOSA
Reinaldo Lobo*
A mãe de um preso de alta
periculosidade ligado do PCC contou em entrevista na TV que deu ao filho de presente
o Novo Testamento e o seguinte conselho:
-- Decore trechos da Bíblia, aproveite
enquanto está na cadeia, converta-se, saia mais cedo por bom comportamento e,
aqui fora, funde uma Igreja Evangélica e você ficará rico muito mais depressa
do que pelo tráfico.
Essa senhora de visão falava a sério,
não estava brincando ou ironizando. Um "convertido" tem um grande
valor no "negócio da fé" e sua retórica é muito mais convincente.
Tornar-se um pastor é um ato de
empreendedorismo-- um tanto cínico e oportunista, é verdade, mas de grande
futuro. O mercado cresce, as igrejas têm isenção de impostos e os seus pastores
e bispos também.
A Teologia da Prosperidade que move a
pregação evangélica é harmônica com o capitalismo, dá-lhe um suplemento de
alma, manipula multidões em busca de recompensa ou retribuição pela doação do dízimo -- não no céu, mas na
terra. Distribui milagres e encena curas espetaculares, próprias para a histeria em massa.e perfeitas na televisão.
A julgar pelos números divulgados
recentemente, com 14 mil igrejas pentecostais novas no País em menos de um ano,
o Brasil seria um dos países mais evangélicos do mundo. Mas a situação não é
tão simples assim.
Ocorre que as igrejas evangélicas, com
apoio nas suas mídias, são fábricas de criar clientes. Abrem novas frentes
evangelizadoras e vão ocupando espaços outrora pertencentes hegemonicamente à
Igreja Católica. Não recolhem um mercado já existente, ainda que a fé sempre
seja virtualmente existente em toda parte,
mas doutrinam os seus novos públicos. Na verdade, criam um público novo
onde se instalam e vão-se espalhando pelos mais distantes grotões nacionais.
Alguns antropólogos e sociólogos sustentam
que essas igrejas são mais modernizadoras, pois utilizam sem pudor meios
tecnológicos e eletrônicos para promover uma teologia condizente com a
sociedade de consumo. Também socializariam membros de comunidades pobres e
primitivas oferecendo-lhes valores diferentes de religiões
mais"primitivas", como a umbanda e o candomblé. Aliás, esse é o
discurso de alguns pastores mais espertos que jogam seu público contra a
"magia negra", ou seja, os credos oriundos da tradição negra e
africana, ao mesmo tempo em que usam recursos de prestidigitação em que imitam
fora do contexto rituais dessas religiões.
Tenho minhas dúvidas de que as
denominações evangélicas sejam modernizadoras, no sentido de fazerem prevalecer
o simbólico em relação à concretude das ações e da troca primitiva de bem estar
por dinheiro. Ao contrário, parecem apropriar-se da linguagem alheia -- como no
caso gritante da Universal do Reino de Deus, com seu Templo de Salomão do Velho
Testamento, que veste seus pastores como se fossem rabinos do judaísmo. E, além
de usarem linguagem dos outros cultos, propõem uma espécie de despojamento
simbólico das tradições de séculos e dos significados contextuais de cada
religião. Promovem assim uma espécie de alienação regressiva e uma ostensiva
mistificação.
Se na tradição católica, por exemplo,
cada gesto de um ritual remete ao simbólico e à representação, dirigindo-se
ao pensamento humano, o que essas
religiões propõem é o esvaziamento dos símbolos de seus significados. O seu
valor passa a ser meramente utilitário. Derramam-se os conteúdos para fins
quase teatrais visando uma troca comercial. O Templo de Salomão da Universal
chega a ser kitsch porque é falso. É a cópia da cópia da cópia... Lembra um
pouco o universo de Las Vegas, onde tudo parece, mas não é.
A
guerra por territórios das igrejas evangélicas tem também uma função ideológica
e política mais ostensiva. Não só porque seus pastores não fazem a menor
cerimônia em ocupar cargos públicos, chegando alguns deles até mesmo a figurar
nas listas de presos por corrupção. Mas, sobretudo, porque cumprem, desde os
tempos da Ditadura Civil -Militar, a missão, apoiada até pela CIA, de
deslocar da cena a Igreja Católica que fez a opção pelos pobres.
Há informações seguras de historiadores
segundo os quais algumas denominações religiosas lideradas por anti-comunistas
fanáticos foram escaladas, desde os anos 70, pelas classes dominantes e
patrocinadas para iniciar o combate às pastorais operárias católicas e para conquistar
setores das classes médias.
Essas denominações incluiriam desde a seita coreana do Reverendo Moon --que
não teve nenhum sucesso em se implantar no Brasil, ainda que tenha recebido um
bom dinheiro de seus padrinhos norte-americanos-- até as igrejas pentecostais
que imitavam na TV os pastores-vendedores dos Estados Unidos. Estas tiveram e
continuam a ter sucesso, mesmo ainda existindo uma maioria de católicos
nominais no País. Pequenos empresários passaram, inclusive, a freqüentar essas
igrejas, pois com as oscilações econômicas, entram em concordata e desespero, formando verdadeiras falanges
virtuais proto-fascistas.
O conflito com outras denominações
religiosas tem se radicalizado ao ponto de os fanáticos evangélicos hoje
influírem no Congresso Nacional, onde o presidente da Câmara , Eduardo Cunha é
um protótipo desses oportunistas eleitorais que se fazem passar por
"fundamentalistas cristãos".
O problema é que, ao organizarem falanges
do fundamentalismo, chegam a provocar a violência, como houve no Rio de Janeiro
contra membros do Candomblé. Esses líderes fajutos não se limitam apenas a
fazer negócios e a levar o dinheiro dos crentes, mas constituem um sério perigo
social, político e mesmo bélico. Querem levar a guerra às ruas e seus chefes ao
poder.
quarta-feira, 17 de junho de 2015
ÓDIO À DEMOCRACIA
Reinaldo Lobo*
Certa vez, o coronel Erasmo Dias, ícone
da Ditadura e símbolo do anti-comunismo, foi visitar a Rússia nos tempos do
regime soviético. Muitos ficaram surpresos, primeiro, por ele aceitar o convite
russo e, depois, pelos seus comentários na volta da viagem. O coronel do
Exército, secretário de Segurança Pública de SP, repressor das manifestações estudantis,
invasor violento da PUC, caçador fracassado de guerrilheiros no Vale do Ribeira,
torturador confesso, terror dos comunistas, fez rasgados elogios à antiga URSS e ao seu sistema de poder:
"Lá não tem greves, impera a ordem,
há disciplina, os trabalhadores não se rebelam, os governantes são obedecidos e
a violação da Lei é punida com o máximo
rigor. Acho um exemplo para os ocidentais".
Se era ironia, foi involuntária. O coronel
pouco sutil pareceu mesmo encantado com o poder comunista, mais pelos seus
defeitos totalitários do que por suas possíveis qualidades.
O que ele detestava mesmo era a democracia, suas incertezas e suas
inseguranças.
As
classes dirigentes brasileiras, das quais o coronel era um representante
extremado, parecem ter uma relação, no mínimo, ambivalente com o regime
democrático, isto é, de amor e de ódio. Parece haver sobretudo uma paixão pela
ordem, de preferência com "progresso" econômico. É uma nostalgia da noção autoritária que
Oliveira Vianna e outros atribuíam às necessidades impostas pelo
"caráter" do povo brasileiro. Não é por acaso que nossa História
apresenta uma constante de autoritarismo pontilhada por alguns momentos de
democracia.
Daí o paradoxo de termos também, ao lado
do elogio à democracia e da crítica verbal do totalitarismo na mídia, o
freqüente recurso à força, ao Estado de Sítio e de exceção, além da
sobrevivência, hoje, de instrumentos da Ditadura como a PM, o pau de arara e as
várias formas de delação, inclusive a "premiada", típicas de regimes
"fortes".
Se alguém imaginava que, terminada a
Ditadura, teríamos uma democracia plena, acertou em parte. Temos agora quase
três décadas de regime democrático no País, sempre claudicante, com limites e
problemas óbvios, mas com instituições relativamente sólidas.
Existe no ar, contudo, uma espécie de
tentação totalitária entre as classes dirigentes e mesmo as classes médias, com
a emergência de uma Nova Direita que se misturou às manifestações populares de
2013. Somada aos resíduos da Ditadura que permanecem nos hábitos e até em
determinados itens da legislação --como as medidas provisórias e um congresso
de perfil ultra- conservador nos segmentos religiosos fundamentalistas--, essa
tentação pode materializar-se em perigo real e imediato.
A ideologia instituída e as pregações
são democráticas, mas as realidades,
inclusive a derivada da crise econômica, pressionam as classes dirigentes na
direção daquilo que Giorgio Agamben diagnosticou como o lado não formulado
juridicamente no Ocidente, que é o estado de exceção.
É como se democracia brasileira exigisse um
"suplemento de força", pois, em si mesma , não garantiria sequer a
sua própria continuidade como ordem democrática.
As próprias práticas jurídicas levadas a
cabo pelo ex-ministro do Supremo, Joaquim Barbosa, revelam esse ânimo
beligerante de transcender o âmbito da Lei para usar "mão forte"
contra a suposta ação de corruptos, resgatando até um velho recurso alemão usado em Nuremberg, em 1945, para
imputar os nazistas -- o conceito judicial do "domínio do fato"-- com
fins políticos. O mesmo vale para o juiz Sérgio Moro, atual herói da ação
exemplar no julgamento da "operação Lava Jato". É como se os caminhos
legais de uma democracia "frágil" precisassem ser complementados por
uma interpretação particular da Lei, por juristas de visão politizada e relativamente autoritária.
No quadro mundial, a situação não é
muito diferente, ainda que existam especificidades. Um conhecido filósofo
francês , Jacques Rancière, publicou um pequeno livro instigante-- "La
Haine de la Democratie"-- em que discute a questão, lembrando que ainda
ontem os discursos oficiais opunham as virtudes da democracia ao horror
totalitário, ao mesmo tempo em que revolucionários recusavam sua aparência em
nome de uma democracia real a vir no futuro.
Os tempos mudaram. Enquanto certos
governos se esforçam em exportar a democracia pela força das armas, os
intelectuais europeus e norte-americanos -- alguns de esquerda e outros
"novos conservadores" -- não param de detectar sem cessar os sintomas
funestos do "individualismo democrático" e os estragos do
"igualitarismo" destrutivo dos valores coletivos, forjando um novo
totalitarismo e conduzindo a humanidade ao suicídio.
Essa mutação ideológica, diz Rancière, não
se explica só pelo quadro de crise econômica nem pela administração mundial da
riqueza. Remonta ao escândalo primordial que sempre representou um
"governo do povo" e será preciso reexaminar as ligações complexas
entre democracia, representação, república e política. Dessa maneira é que se
tornará possível enfrentar o ódio atual à democracia e resgatar o amor por trás
das declarações de amor a ela. Significa revelar a potência subversiva sempre
nova e sempre ameaçada da idéia de
democracia.
quarta-feira, 3 de junho de 2015
BRASIL PARA ESTUDANTES
Reinaldo Lobo*
Seria altamente recomendável que todo
estudante de Ciência Política do planeta fizesse um estágio no Brasil.
Treinaria melhor do que em qualquer outro lugar a pesquisa científica em meio à
maior confusão real de uma política imaginária. Entenderia também um pouco de
estética e saberia o significado das palavras surrealismo e realismo mágico. E,
finalmente, cairia na real.
Aprenderia por que nossa opinião pública
acha "natural", por cinismo e cansaço, ter uma personagem como
Eduardo Cunha ditando as regras na Câmara dos Deputados, mudando a
constituição, passando por cima de cláusulas pétreas e realizando
"hábeis" manobras de última hora para aprovar leis que só facilitam o
corporativismo dos políticos, a corrupção e os maus costumes.O sujeito chegou a
propor pensão especial para as esposas dos parlamentares, passagens de graça e
outras mordomias, sem que a imprensa "falada e escrita" deixasse de
elogiá-lo como um "político habilidoso" ou de silenciar, abafando os
fatos. E, isso, justamente num momento
em que há uma onda moralista em todo o País.
Nosso estudante virtual de Ciência
Política, se fosse esperto, descobriria que Eduardo Cunha virou herói da mídia
e das classes dirigentes nacionais porque tem duas funções específicas e
temporárias : (1.) atazanar a vida da presidente Dilma e (2.) fazer o serviço sujo que os líderes e
representantes das classes dirigentes não podem ou temem fazer.
Seria difícil entender como é que um membro do partido (PMDB) que integra a
coligação da base governista se tornou um oposicionista ao governo, mas tudo se
esclareceria se verificasse que os deputados e senadores brasileiros não
respeitam necessariamente seus partidos e alianças, exceto quando convém. Isso
ocorre não só porque o eleitorado escolhe pessoas, não partidos -- o que é uma
verdade. Mas a razão principal é que cada deputado ou senador representa um
bloco de interesses como se fossem lobistas de empresas e não parlamentares. É
a turma do balcão de negócios.
Quanto ao deputado Cunha, símbolo do
momento brasileiro atual, mereceria um estudo à parte. Faz um jogo triplo:
defende, no plano mais imediato, o "baixo clero" -- os deputados mais
irrisórios e medíocres do Congresso, que o elegeram para o cargo em troca de
dinheiro e promessas de mordomias. Em
segundo lugar, joga para a oposição de direita, sua função primordial, que
consiste em fazer passar uma legislação que tire direitos dos trabalhadores e
favoreça o empresariado. Em terceiro, chantageia o governo, que cede cargos e
vantagens para o seu grupo , afim de não dissolver demais a base governista.
Um cientista político vindo da Europa,
onde existe parlamentarismo, teria dificuldade de entender essas contradições,
que formam a essência de um presidencialismo de coalizão-- isto é, de trocas e
cambalachos por debaixo do pano, sem acordo político explícito entre partidos.
Já era complicado nos tempos de Sarney, Itamar,Collor e FHC, mas o quadro se agrava hoje, quando o governo inclui até
pontos-de-vista da oposição na sua gestão.
É quase impossível compreender por que um governo como o da presidente Dilma,
eleito pela esquerda e com um programa social distributivista, chamou uma
espécie de gestor de mercado, Joaquim Levy, para exercer os ajustes fiscais e cortes no
orçamento, inaugurando a "austeridade" e a revisão das leis
trabalhistas. Até mesmo a Direita Nacional se pergunta o que faz o tecnocrata
Levy num governo "de esquerda".
A complexa dialética do governo Dilma é
inexplicável até certo ponto; no entanto, algo faz sentido quando se pensa na
fraqueza interna da coalizão que o sustenta e no recuo presidencial diante de
sua própria fragilidade eleitoral. O PT ganhou a eleição para a presidência, é
verdade, mas quase não levou. Foi tamanha a pressão do eleitorado oposicionista--
cuja dificuldade de fazer o luto pela derrota temos assinalado aqui há muito
tempo--, que Dilma foi encurralada e forçada a fazer grandes concessões. O
anti-comunismo artificial e as denúncias de corrupção armaram um clima de
derrota para os vitoriosos. Mal
comparando, diante da ameaça de um golpe "legal", como aquele do
Paraguai, Dilma foi obrigada a adotar uma atitude semelhante à que João
Goulart se rendeu em 1961, quando os
militares queriam sua cabeça. Ele recuou aceitando uma solução de
compromisso parlamentarista, aceitando
um político submisso às classes dirigentes, Tancredo Neves, na função de
primeiro ministro.
Hoje, esse papel está dividido entre
Michel Temer, Eduardo Cunha, Renan Calheiros e o próprio Joaquim Levy, que faz
o trabalho "técnico" para as classe dominantes. O governo foi
"terceirizado" para a fina flor do Sistema Corrupto, por um lado, e ,
por outro, para a própria oposição de centro direita.
Confuso? Opaco? Sem dúvida. O estudante
de ciência política precisaria saber que o Brasil é assim . O que vigora no
final é o acordo pelo alto, entre os figurões do poder e do dinheiro.
A mídia dos grupos dominantes se encarrega de
enaltecer quem interessa, de esconder a
corrupção dos poderosos de sempre e de enfraquecer quem pode ameaçar o Sistema.
Aliás, para a imprensa dominante não existem classes sociais no País, apenas
frações de mercado. E o Norte e Nordeste não existem: se inauguram uma grande
montadora de automóveis e um estaleiro em Pernambuco, que lança dois navios
enormes de fabricação nacional, a grande imprensa paulista e carioca limita-se a
lamentar a crise econômica "sem precedentes". O Nordeste mudou, mas
continua invisível. O Brasil está mudando, mas ninguém quer notar.
Como se vê , o Brasil é um vasto campo a
ser melhor decifrado pela pesquisa, não
só em muitas teses. Daria vários
compêndios de Ciência Política.
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