quarta-feira, 12 de agosto de 2015

terça-feira, 11 de agosto de 2015

UM LIVRO INQUIETANTE

   
                                                                             Reinaldo Lobo*
       Que tempo é esse em que vivemos? Quando começou, quais as suas linhas de ruptura e quando desandou? É um tempo planetário , global, ou fragmentário? Obedece a uma lógica dialética marxiana ou constitui um acidente histórico? Pura contingência?
       Que sociedade é essa,  em  estado de guerra civil permanente e  belicismo internacional, que parece ter um fio condutor unindo tudo:  extermínio colonial, campos de concentração, crises econômicas, escassez, a destruição da natureza, o colapso urbano, a ameaça de hecatombe nuclear , desemprego em massa, o sofrimento no trabalho, a exploração humana para a produção incessante de mercadorias, o medo crescente do futuro -- tudo isso ao lado da criação de tecnologias cada vez mais avançadas de administração da vida?
     O diagnóstico do filósofo Paulo Arantes, autor de "O Novo Tempo do Mundo" (Boitempo Editorial, 2015) é severo e peremptório -- essa é a natureza da sociedade moderna, que obedece a um ritmo e a uma temporalidade próprias. Uma sociedade que emergiu com o capitalismo, vive em regime permanente de crise e de destruição e que se alimenta disso.
      O texto de Arantes não é muito fácil para quem não está familiarizado. Autor de obras anteriores como "Hegel: a Ordem do Tempo" e "Extinção", seu procedimento dialético está contido no próprio discurso, marcado por uma considerável erudição e referências precisas. Já foi definido como um processo de pensamento em cascata, como se as palavras se derramassem em cachoeira. Às vezes, uma nota de rodapé é tão significativa quanto os longos parágrafos, cifrados por uma ironia fina e crítica. Certa vez, Bento Prado Jr. definiu o estilo de sua prosa como tendo sempre "algo de críptico, de elíptico  e de alusivo, que desnorteia o leitor", assinalando o que também dissemos acima, isto é, que o estilo é "expressão da matéria" de que trata.  Vale a pena o esforço de leitura.
      O prefaciador da obra, Marildo Menegat,  aponta que os escritos de Arantes  podem ser pensados como "uma das formas possíveis da teoria crítica, quando o mundo já não se apresenta em linhas bem armadas de encadeamentos progressivos quase óbvios". Sem dúvida, seu pensamento pertence à linhagem da teoria crítica, inspirada em autores da chamada escola frankfurtiana-- talvez tocado, salvo engano,  mais por Walter Benjamin do que Theodor Adorno ou Max Horkheimer. Tem, contudo, algo em comum com todos: o interesse pela negatividade, o proverbial laivo de pessimismo , a influência hegeliano-marxiana e a recorrência de uma problemática crítica encontrada no "jovem Marx".
      Há, contudo, algo de muito singular nos textos de Arantes, notável pelo menos desde o "Sentimento da Dialética", o "Ressentimento da Dialética" e o "Fio da Meada" --  é o seu traço 'brasileiro', de força literária , e também o seu encontro destemido e firme com a 'prática". Isso o torna muito diferente de autores mais teoricistas e abstratos, como o outrora estudioso de Marx, José Arthur Giannotti. Além disso, penso que há um fio de Ariadne em toda a sua obra:   a questão da temporalidade como ponto de partida e de chegada. Arantes busca e persegue a linha e a natureza do tempo como o processo que dá sentido e tecido à História.
       As entrevistas contidas neste livro inquietante  também mostram o lado militante de Arantes,  seu diálogo com grupos de teatro, seu respeito pelos movimentos sociais, seu confronto com os fatos de junho de 2013.  Revelam outra diferença em relação  aos frankfurtianos clássicos, que pareciam limitar-se à  espera passiva da negação da negação e a comprazer-se com o pessimismo, a melancolia e o exercício da  crítica literária e musical. Ao capitalismo nascido na promessa de felicidade e liberdade e tornado barbárie, boa parte do pensamento frankfurtiano ainda hoje limita-se a contrapor o desânimo diante da barbárie. Só enxerga a desesperança e não vê saída além dela.
       Arantes vai além: detecta esperança no "Occupy Wall Street", no "Podemos", no Syriza, na juventude que vai às ruas pelo Passe Livre, em rebeliões como a Primavera Árabe e em eclosões episódicas de negatividade anti-capitalista.
      Um outro interesse desta obra densa é o de ser um contraponto eficaz ao "pensiero debole" (Gianni Vattimo), que concebe uma superação da modernidade por uma suposta "pós-modernidade", onde os contrários se reconciliariam no bojo do status quo, na complacência em face da barbárie e na qual a liberdade iria imperar, finalmente, na forma de expressão cultural. Fruto do cinismo neoliberal, a ideologia da "pós-modernidade" esconde o quadro de conflitos, de violência e mascara uma época do capitalismo em que se tornaram inevitáveis as expectativas decrescentes.

       O quadro da contemporaneidade é, sem dúvida,  assustador. É a era das distopias. Nas telas dos cinemas, zumbis e dráculas. No mundo do trabalho, opressão e insegurança mal disfarçadas. Na sociedade, crises sucessivas e guerras  intermináveis.  Tudo parte de um tempo global de natureza ora bélica, ora de doença social crônica. Nas ruas, seres humanos ameaçados de extinção, isto é, em vias de se tornarem menos do que zumbis e dráculas. Ao mesmo tempo, porém, uma sociedade onde as pessoas nunca se casaram tanto, independente do gênero, onde a comunicação estendeu-se em escala planetária e a juventude busca avidamente livros e sinais de um novo tempo. Que sociedade é essa? Que destino terá?

quinta-feira, 16 de julho de 2015

PODER SIMBÓLICO

   Muitas pessoas inteligentes não entendem por que multidões seguem essas igrejas evangélicas --meio fajutas para os esclarecidos. Uma boa resposta é a de Pierre Bourdieu, sociólogo francês que escreveu livros inteiros de pesquisas sobre esse assunto e muitos outros:
" O poder simbólico é esse poder invisível, o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem.
"Poder quase mágico, que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica), só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário".

GOVERNO ESQUIZOFRÊNICO?

                                  

                                                               Reinaldo Lobo*
               A metáfora da esquizofrenia tem sido usada e abusada para descrever o atual governo brasileiro. É um equívoco e um diagnóstico apressado. Em primeiro lugar, é preciso perguntar: o que se define hoje  como o governo brasileiro. Há vários, com identidades independentes. Mas há um laço de sobrevivência política que os une.
             Na esquizofrenia -- a doença mental -- existe uma cisão de personalidade de um único indivíduo. Suas partes -- é verdade-- agem isoladas umas das outras e se ignoram mutuamente . Com Brasília, não é bem assim. Há vários elementos distintos , cada um agindo de modo mais ou menos  desorganizado do seu lado.  Cada um trabalhando como se tivesse identidade, autonomia e direção própria , porém contrária aos outros.  Cada um na sua, como se diz. E uns contra os outros, só até certo ponto. No fundo, há um fio de união.
           Há um governo que se imagina de esquerda -- bem moderada, diga-se-- , relativamente acuado e sob pressão dos adversários. É representado pela figura presidencial e alguns poucos ministros de sua confiança, como José Eduardo Cardoso e Aloísio Mercadante. Na base aliada, conta com o PCdoB, e com alguns membros do PDT, do PSB e pouquíssimos independentes do PMDB. É pouco, para uma base que reúne cerca de 22 partidos.
        Um outro é de direita, encarnado por amplos setores do PMDB, sintetizados em  figuras como Kátia Abreu, da Agricultura, sem excluir o vice presidente Michel Temer. Acrescente-se aliados do PP, PR e outras legendas mais ou menos fisiológicas.  A direita se amplia até toda a base governista, onde estão personagens de alta respeitabilidade como os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha,  e do Senado, Renan Calheiros.
       Há mais um governo, terceirizado do tucanismo, figurado pelo ministro Joaquim Levy, com uma ideologia  de ultra direita na área econômica. A grande polêmica é a carta branca dada pela presidente Dilma a este governo à parte, que age com desenvoltura, desmentindo completamente a idéia de um "governo voltado para os trabalhadores" propagada e articulada pelo PT.
        Ainda há um resquício de uma virtual representação do lulismo agindo nos bastidores, apoiado nos remanescentes do PT.
       Talvez seja melhor perguntar: qual dos governos governa o Brasil hoje?
        Dilma está vivendo o drama da esquerda que optou pelo caminho democrático e deixou para trás o velho processo de radicalização revolucionária. Não oferece o socialismo, mas uma coligação de partidos e orientações ideológicas em direção a graduais avanços de  distribuição de renda.  Estão errados -- ou só de ma fé-- os que acenam com o espantalho de Cuba ou do bolivarianismo da  Venezuela. Isso é a maior bobagem que circula na imprensa brasileira. O pior é que alguns saudosistas  do socialismo real ou da opção guerrilheira entraram também nessa história.
         É preciso dizer com todas as letras de uma vez por todas: Dilma entregou a hegemonia para a direita, não por ingenuidade, mas por estratégia. Ampliou o pacto de coalizão com o empresariado , os banqueiros e os latifundiários.
        Em parte, foi para sobreviver politicamente sem a retaguarda paternal de Lula, após uma vitória apertada nas urnas e a pressão das classes médias e de vários setores populares, inclusive  trabalhadores levados pela onda de moralismo e fervor evangélico que assola o país.
       Por outro lado, em grande parte a presidente Dilma vive o "dilema grego" que afeta toda a esquerda que veio de setores mais radicais pela via democrática e teve que adotar governos de coalizão com as classes dirigentes. Por não saber agir num ambiente tipicamente negociador, oportunista, em busca de sucessivas soluções de compromisso com as forças do capitalismo mundial e nacional -- e sem um forte programa alternativo estratégico--,  essa esquerda exagera na dose da aliança e da concessão, perdendo  a mão  sobre o processo político.
     O drama de José Dirceu foi exemplar : perdeu a mão na dose de compromisso, escorregando na ilusão de imitar o "pragmatismo" da direita. Acabou por virar uma figura de lobista, maltratado até injustamente pela mídia. .Atuou na mesma "zona cinzenta da política" de que falava um ilustre filósofo tucano. Só que, ao contrário dos vários  espertos tucanos que meteram à vontade o bico na cumbuca, foi apanhado numa armadilha sem a proteção da mídia conservadora. Restou-lhe a condição de "consultor".
       A direita nacional, composta por quase todos os partidos existentes, é como aquela velha dona de bordel que conhece cada uma das fraquezas de  suas profissionais e de seus fregueses. E as explora todas com eficiência. Eduardo Cunha é a personagem símbolo dessa direita esperta. É uma dessas donas do bordel. Na verdade, a sua turma está governando mais do que os outros vários "governos", pois tem obtido cinicamente , na calada da noite, mais resultados regressivos e conservadores do que a oposição tucana bem falante e inepta.
       A direita governa o País e mantém Dilma na defensiva. Há um pacto de governabilidade envolvendo todos os partidos, inclusive a oposição -- com hegemonia da direita, sobretudo dos banqueiros. A oposição finge se opor, de olho nas eleições futuras, mas  não tem nada de louca ou de esquizofrênica . Louco é quem rasga dinheiro.


Reinaldo Lobo é psicanalista e articulista,. Tem um blog: imaginarioradical.blogspot.com


quarta-feira, 1 de julho de 2015

A GUERRA RELIGIOSA

     
                                                                   Reinaldo Lobo*

        A mãe de um preso de alta periculosidade ligado do PCC contou em entrevista na TV que deu ao filho de presente o Novo Testamento e  o seguinte conselho:
      -- Decore trechos da Bíblia, aproveite enquanto está na cadeia, converta-se, saia mais cedo por bom comportamento e, aqui fora, funde uma Igreja Evangélica e você ficará rico muito mais depressa do que pelo tráfico.
       Essa senhora de visão falava a sério, não estava brincando ou ironizando. Um "convertido" tem um grande valor no "negócio da fé" e sua retórica é muito mais convincente.
      Tornar-se um pastor é um ato de empreendedorismo-- um tanto cínico e oportunista, é verdade, mas de grande futuro. O mercado cresce, as igrejas têm isenção de impostos e os seus pastores e bispos também.
      A Teologia da Prosperidade que move a pregação evangélica é harmônica com o capitalismo, dá-lhe um suplemento de alma, manipula multidões em busca de recompensa ou retribuição  pela doação do dízimo -- não no céu, mas na terra. Distribui milagres e encena curas espetaculares, próprias para a  histeria em massa.e perfeitas na televisão.
      A julgar pelos números divulgados recentemente, com 14 mil igrejas pentecostais novas no País em menos de um ano, o Brasil seria um dos países mais evangélicos do mundo. Mas a situação não é tão simples assim.
     Ocorre que as igrejas evangélicas, com apoio nas suas mídias, são fábricas de criar clientes. Abrem novas frentes evangelizadoras e vão ocupando espaços outrora pertencentes hegemonicamente à Igreja Católica. Não recolhem um mercado já existente, ainda que a fé sempre seja virtualmente existente em toda parte,  mas doutrinam os seus novos públicos. Na verdade, criam um público novo onde se instalam e vão-se espalhando pelos mais distantes grotões nacionais.
     Alguns antropólogos e sociólogos sustentam que essas igrejas são mais modernizadoras, pois utilizam sem pudor meios tecnológicos e eletrônicos para promover uma teologia condizente com a sociedade de consumo. Também socializariam membros de comunidades pobres e primitivas oferecendo-lhes valores diferentes de religiões mais"primitivas", como a umbanda e o candomblé. Aliás, esse é o discurso de alguns pastores mais espertos que jogam seu público contra a "magia negra", ou seja, os credos oriundos da tradição negra e africana, ao mesmo tempo em que usam recursos de prestidigitação em que imitam fora do contexto rituais dessas religiões.
     Tenho minhas dúvidas de que as denominações evangélicas sejam modernizadoras, no sentido de fazerem prevalecer o simbólico em relação à concretude das ações e da troca primitiva de bem estar por dinheiro. Ao contrário, parecem apropriar-se da linguagem alheia -- como no caso gritante da Universal do Reino de Deus, com seu Templo de Salomão do Velho Testamento, que veste seus pastores como se fossem rabinos do judaísmo. E, além de usarem linguagem dos outros cultos, propõem uma espécie de despojamento simbólico das tradições de séculos e dos significados contextuais de cada religião. Promovem assim uma espécie de alienação regressiva e uma ostensiva mistificação.
      Se na tradição católica, por exemplo, cada gesto de um ritual remete ao simbólico e à representação, dirigindo-se ao  pensamento humano, o que essas religiões propõem é o esvaziamento dos símbolos de seus significados. O seu valor passa a ser meramente utilitário. Derramam-se os conteúdos para fins quase teatrais visando uma troca comercial. O Templo de Salomão da Universal chega a ser kitsch porque é falso. É a cópia da cópia da cópia... Lembra um pouco o universo de Las Vegas, onde tudo parece, mas não é.
      A guerra por territórios das igrejas evangélicas tem também uma função ideológica e política mais ostensiva. Não só porque seus pastores não fazem a menor cerimônia em ocupar cargos públicos, chegando alguns deles até mesmo a figurar nas listas de presos por corrupção. Mas, sobretudo, porque cumprem, desde os tempos da Ditadura Civil -Militar, a missão, apoiada até pela CIA, de deslocar da cena a Igreja Católica que fez a opção pelos pobres.
      Há informações seguras de historiadores segundo os quais algumas denominações religiosas lideradas por anti-comunistas fanáticos foram escaladas, desde os anos 70, pelas classes dominantes e patrocinadas para iniciar o combate às pastorais operárias católicas e para conquistar setores das classes médias.
     Essas denominações incluiriam  desde a seita coreana do Reverendo Moon --que não teve nenhum sucesso em se implantar no Brasil, ainda que tenha recebido um bom dinheiro de seus padrinhos norte-americanos-- até as igrejas pentecostais que imitavam na TV os pastores-vendedores dos Estados Unidos. Estas tiveram e continuam a ter sucesso, mesmo ainda existindo uma maioria de católicos nominais no País. Pequenos empresários passaram, inclusive, a freqüentar essas igrejas, pois com as oscilações econômicas, entram em concordata e  desespero, formando verdadeiras falanges virtuais proto-fascistas.
     O conflito com outras denominações religiosas tem se radicalizado ao ponto de os fanáticos evangélicos hoje influírem no Congresso Nacional, onde o presidente da Câmara , Eduardo Cunha é um protótipo desses oportunistas eleitorais que se fazem passar por "fundamentalistas cristãos".

    O problema é que, ao organizarem falanges do fundamentalismo, chegam a provocar a violência, como houve no Rio de Janeiro contra membros do Candomblé. Esses líderes fajutos não se limitam apenas a fazer negócios e a levar o dinheiro dos crentes, mas constituem um sério perigo social, político e mesmo bélico. Querem levar a guerra às ruas e seus chefes ao poder. 

quarta-feira, 17 de junho de 2015

ÓDIO À DEMOCRACIA

   

                                                       Reinaldo Lobo*

      Certa vez, o coronel Erasmo Dias, ícone da Ditadura e símbolo do anti-comunismo, foi visitar a Rússia nos tempos do regime soviético. Muitos ficaram surpresos, primeiro, por ele aceitar o convite russo e, depois, pelos seus comentários na volta da viagem. O coronel do Exército, secretário de Segurança Pública de SP, repressor das manifestações estudantis, invasor violento da PUC, caçador fracassado de guerrilheiros no Vale do Ribeira, torturador confesso, terror dos comunistas, fez rasgados elogios  à antiga URSS e ao seu sistema de poder:
      "Lá não tem greves, impera a ordem, há disciplina, os trabalhadores não se rebelam, os governantes são obedecidos e a  violação da Lei é punida com o máximo rigor. Acho um exemplo para os ocidentais".
     Se era ironia, foi involuntária. O coronel pouco sutil pareceu mesmo encantado com o poder comunista, mais pelos seus defeitos totalitários do que por suas possíveis qualidades.
     O que ele detestava mesmo  era a democracia, suas incertezas e suas inseguranças.
     As classes dirigentes brasileiras, das quais o coronel era um representante extremado, parecem ter uma relação, no mínimo, ambivalente com o regime democrático, isto é, de amor e de ódio. Parece haver sobretudo uma paixão pela ordem, de preferência com "progresso" econômico. É  uma nostalgia da noção autoritária que Oliveira Vianna e outros atribuíam às necessidades impostas pelo "caráter" do povo brasileiro. Não é por acaso que nossa História apresenta uma constante de autoritarismo pontilhada por alguns momentos de democracia.
     Daí o paradoxo de termos também, ao lado do elogio à democracia e da crítica verbal do totalitarismo na mídia, o freqüente recurso à força, ao Estado de Sítio e de exceção, além da sobrevivência, hoje, de instrumentos da Ditadura como a PM, o pau de arara e as várias formas de delação, inclusive a "premiada", típicas de regimes "fortes".
     Se alguém imaginava que, terminada a Ditadura, teríamos uma democracia plena, acertou em parte. Temos agora quase três décadas de regime democrático no País, sempre claudicante, com limites e problemas óbvios, mas com instituições relativamente sólidas.
     Existe no ar, contudo, uma espécie de tentação totalitária entre as classes dirigentes e mesmo as classes médias, com a emergência de uma Nova Direita que se misturou às manifestações populares de 2013. Somada aos resíduos da Ditadura que permanecem nos hábitos e até em determinados itens da legislação --como as medidas provisórias e um congresso de perfil ultra- conservador nos segmentos religiosos fundamentalistas--, essa tentação pode materializar-se em perigo real e imediato.
      A ideologia instituída e as pregações são  democráticas, mas as realidades, inclusive a derivada da crise econômica, pressionam as classes dirigentes na direção daquilo que Giorgio Agamben diagnosticou como o lado não formulado juridicamente no Ocidente, que é o estado de exceção.
    É como se democracia brasileira exigisse um "suplemento de força", pois, em si mesma , não garantiria sequer a sua própria continuidade como ordem democrática.
       As próprias práticas jurídicas levadas a cabo pelo ex-ministro do Supremo, Joaquim Barbosa, revelam esse ânimo beligerante de transcender o âmbito da Lei para usar "mão forte" contra a suposta ação de corruptos, resgatando até um velho recurso  alemão usado em Nuremberg, em 1945, para imputar os nazistas -- o conceito judicial do "domínio do fato"-- com fins políticos. O mesmo vale para o juiz Sérgio Moro, atual herói da ação exemplar no julgamento da "operação Lava Jato". É como se os caminhos legais de uma democracia "frágil" precisassem ser complementados por uma interpretação particular da Lei, por juristas de visão politizada e  relativamente autoritária.
       No quadro mundial, a situação não é muito diferente, ainda que existam especificidades. Um conhecido filósofo francês , Jacques Rancière, publicou um pequeno livro instigante-- "La Haine de la Democratie"-- em que discute a questão, lembrando que ainda ontem os discursos oficiais opunham as virtudes da democracia ao horror totalitário, ao mesmo tempo em que revolucionários recusavam sua aparência em nome de uma democracia real a vir no futuro.
      Os tempos mudaram. Enquanto certos governos se esforçam em exportar a democracia pela força das armas, os intelectuais europeus e norte-americanos -- alguns de esquerda e outros "novos conservadores" -- não param de detectar sem cessar os sintomas funestos do "individualismo democrático" e os estragos do "igualitarismo" destrutivo dos valores coletivos, forjando um novo totalitarismo e conduzindo a humanidade ao suicídio.
     Essa mutação ideológica, diz Rancière, não se explica só pelo quadro de crise econômica nem pela administração mundial da riqueza. Remonta ao escândalo primordial que sempre representou um "governo do povo" e será preciso reexaminar as ligações complexas entre democracia, representação, república e política. Dessa maneira é que se tornará possível enfrentar o ódio atual à democracia e resgatar o amor por trás das declarações de amor a ela. Significa revelar a potência subversiva sempre nova  e sempre ameaçada da idéia de democracia.

       

quarta-feira, 3 de junho de 2015

BRASIL PARA ESTUDANTES



                                                               Reinaldo Lobo*

       Seria altamente recomendável que todo estudante de Ciência Política do planeta fizesse um estágio no Brasil. Treinaria melhor do que em qualquer outro lugar a pesquisa científica em meio à maior confusão real de uma política imaginária. Entenderia também um pouco de estética e saberia o significado das palavras surrealismo e realismo mágico. E, finalmente, cairia na real.
     Aprenderia por que nossa opinião pública acha "natural", por cinismo e cansaço, ter uma personagem como Eduardo Cunha ditando as regras na Câmara dos Deputados, mudando a constituição, passando por cima de cláusulas pétreas e realizando "hábeis" manobras de última hora para aprovar leis que só facilitam o corporativismo dos políticos, a corrupção e os maus costumes.O sujeito chegou a propor pensão especial para as esposas dos parlamentares, passagens de graça e outras mordomias, sem que a imprensa "falada e escrita" deixasse de elogiá-lo como um "político habilidoso" ou de silenciar, abafando os fatos. E, isso,  justamente num momento em que há uma onda moralista em todo o País.
       Nosso estudante virtual de Ciência Política, se fosse esperto, descobriria que Eduardo Cunha virou herói da mídia e das classes dirigentes nacionais porque tem duas funções específicas e temporárias : (1.) atazanar a vida da presidente Dilma e  (2.) fazer o serviço sujo que os líderes e representantes das classes dirigentes não podem ou temem fazer.
       Seria difícil entender como é que  um membro do partido (PMDB) que integra a coligação da base governista se tornou um oposicionista ao governo, mas tudo se esclareceria se verificasse que os deputados e senadores brasileiros não respeitam necessariamente seus partidos e alianças, exceto quando convém. Isso ocorre não só porque o eleitorado escolhe pessoas, não partidos -- o que é uma verdade. Mas a razão principal é que cada deputado ou senador representa um bloco de interesses como se fossem lobistas de empresas e não parlamentares. É a turma do balcão de negócios.
        Quanto ao deputado Cunha, símbolo do momento brasileiro atual, mereceria um estudo à parte. Faz um jogo triplo: defende, no plano mais imediato, o "baixo clero" -- os deputados mais irrisórios e medíocres do Congresso, que o elegeram para o cargo em troca de dinheiro e promessas de mordomias.  Em segundo lugar, joga para a oposição de direita, sua função primordial, que consiste em fazer passar uma legislação que tire direitos dos trabalhadores e favoreça o empresariado. Em terceiro, chantageia o governo, que cede cargos e vantagens para o seu grupo , afim de não dissolver demais a base governista.
        Um cientista político vindo da Europa, onde existe parlamentarismo, teria dificuldade de entender essas contradições, que formam a essência de um presidencialismo de coalizão-- isto é, de trocas e cambalachos por debaixo do pano, sem acordo político explícito entre partidos. Já era complicado nos tempos de Sarney, Itamar,Collor e  FHC, mas o quadro se  agrava hoje, quando o governo inclui até pontos-de-vista da oposição na sua gestão.
        É quase impossível  compreender por  que um governo como o da presidente Dilma, eleito pela esquerda e com um programa social distributivista, chamou uma espécie de gestor de mercado, Joaquim Levy, para exercer os ajustes fiscais e cortes no orçamento, inaugurando a "austeridade" e a revisão das leis trabalhistas. Até mesmo a Direita Nacional se pergunta o que faz o tecnocrata Levy num governo "de esquerda".
       A complexa dialética do governo Dilma é inexplicável até certo ponto; no entanto, algo faz sentido quando se pensa na fraqueza interna da coalizão que o sustenta e no recuo presidencial diante de sua própria fragilidade eleitoral. O PT ganhou a eleição para a presidência, é verdade, mas quase não levou. Foi tamanha a pressão do eleitorado oposicionista-- cuja dificuldade de fazer o luto pela derrota temos assinalado aqui há muito tempo--, que Dilma foi encurralada e forçada a fazer grandes concessões. O anti-comunismo artificial e as denúncias de corrupção armaram um clima de derrota para os vitoriosos.  Mal comparando, diante da ameaça de um golpe "legal", como aquele do Paraguai, Dilma foi obrigada a adotar uma atitude semelhante à que João Goulart  se rendeu em 1961, quando os militares queriam sua cabeça. Ele recuou aceitando uma solução de compromisso  parlamentarista, aceitando um político submisso às classes dirigentes, Tancredo Neves, na função de primeiro ministro.
      Hoje, esse papel está dividido entre Michel Temer, Eduardo Cunha, Renan Calheiros e o próprio Joaquim Levy, que faz o trabalho "técnico" para as classe dominantes. O governo foi "terceirizado" para a fina flor do Sistema Corrupto, por um lado, e , por outro, para a própria oposição de centro direita.
      Confuso? Opaco? Sem dúvida. O estudante de ciência política precisaria saber que o Brasil é assim . O que vigora no final é o acordo pelo alto, entre os figurões do poder e do dinheiro.
     A mídia dos grupos dominantes se encarrega de enaltecer quem interessa,  de esconder a corrupção dos poderosos de sempre e de enfraquecer quem pode ameaçar o Sistema. Aliás, para a imprensa dominante não existem classes sociais no País, apenas frações de mercado. E o Norte e Nordeste não existem: se inauguram uma grande montadora de automóveis e um estaleiro em Pernambuco, que lança dois navios enormes de fabricação nacional, a grande  imprensa paulista e carioca limita-se a lamentar a crise econômica "sem precedentes". O Nordeste mudou, mas continua invisível. O Brasil está mudando, mas ninguém quer notar.
      Como se vê , o Brasil é um vasto campo a ser melhor decifrado pela pesquisa,  não só em muitas teses.  Daria vários compêndios de Ciência Política.