quinta-feira, 1 de outubro de 2015

ONDE ESTÁ A SAÍDA?



                                                                           Reinaldo Lobo*
         As pessoas estão mais preocupadas com a bunda da Kim Kardashian do que com as brutalidades do Estado Islâmico, afirma a escritora e feminista norte-americana Camille Paglia, o furacão pensante que veio  pela nona vez ao Brasil e deu uma interessante entrevista ao suplemento "Aliás", do Estadão.
        Crítica feroz da alienação da sociedade contemporânea, a autora de "Personas Sexuais", "Vadias" e outros ensaios tão brilhantes quanto polêmicos, Camille Paglia fala como uma metralhadora. Dispara. 
      Seu estilo lembra muito  o daquele filósofo leninista lacaniano, Slavoj Zizek, de origem eslovena,  cujos diagnósticos sobre a contemporaneidade são tão peremptórios e incisivos quanto os dela. Ambos, cada um a seu modo, descrevem as mazelas da modernidade com alguma precisão e muito pessimismo, mas têm dificuldades de apresentar soluções. Diz ela: "Estamos caminhando para a morte, ou melhor, para o suicídio da civilização ocidental.[...] Sinto que a classe média próspera está numa bolha em relação à instabilidade internacional, do terrorismo ".
       A ênfase de Paglia é na critica à tecnologia eletrônica e à realidade virtual, que estariam facilitando por demais a vida da classe média dos países desenvolvidos. Diz ainda mais:
      "As pessoas não querem dificuldades, não querem se sentir deprimidas.E deixam de fazer reflexões importantíssimas. Precisamos reaprender a contemplar a arte para sobrevivermos na era da vertigem. As crianças , principalmente, merecem ser salvas do redemoinho de imagens que hoje fazem a realidade, com suas tarefas e preocupações, parecer uma coisa fútil e menor".
     A caracterização de uma Era da Vertigem pode ser correta. É um dos nomes da época em que vivemos --pós-modernidade, modernidade líquida, sociedade do espetáculo, capitalismo avançado, modernidade singular, etc. A expressão descreve bem a velocidade e a torrente de imagens no meio das quais estamos mergulhados. Somos atravessados por informações e figuras veiculadas por mídias cada vez mais rápidas e perecíveis. Uma figura substitui ou se converte em outra, um novo meio técnico é inventado a cada dia. A imagem de um menino sírio morto numa praia turca "viralizou-se" de tal maneira no mundo inteiro que acolher os refugiados da guerra civil na Síria se tornou ... moda.
    A sociedade da Vertigem funciona assim. Não dá para dizer que estamos numa nova estrutura social diferente do capitalismo, uma vez que permanecemos submetidos ao consumo irrefreável e ao mito do crescimento econômico interminável. Mas existe, sem dúvida, algo que poderíamos chamar de "pós-industrial" nessa era vertiginosa.  Não é mais uma sociedade puramente industrial, onde predominavam as fábricas com aquelas colunas de chaminés fumegantes e o sistema taylorista de trabalho das linhas de produção. Hoje existem empresas que começam a funcionar automatizadas diariamente, apenas com a inserção de um cartão com chip,. Só que continuam essencialmente desiguais os métodos de apropriação dos meios de produção, da renda, da distribuição do capital e das classes sociais.
     Houve algo como uma inversão do esquema da sociedade, onde o saber e a informatização tornaram-se a nova infra-estrutura. Como lembrou o filósofo Michel Serres, a ciência entrou diretamente para o rol da produção e da reprodução do capital.
     Camille Paglia não está especificamente interessada na descrição sócio-econômica dessa nova estrutura, mas em seus efeitos na cultura, que está fragmentada e à deriva. Dirige-se ao público privilegiado da próspera classe média dos países desenvolvidos e adverte com seu prognóstico: esse universo está-se tornando autista e vai-se auto-destruir.
     O remédio que aponta é fraco. Propõe a reflexão como antídoto para essas elites culturais, como se pudessem se interessar por repensar o próprio meio em que afundam. Acha que a única solução é pela arte, isto é, uma nova forma de pensar a arte que poderia nos levar a todos a uma espécie de purificação perceptiva e estética. Essa solução é compreensível numa intelectual que se dedica a ensinar cultura e literatura numa universidade norte-americana. E  que, apesar de gostar da sensualidade brasileira e desta nossa parte do mundo, ainda não parece ter compreendido que o sistema capitalista é ligado à miséria dos outros, não apenas a uma classe média próspera e desenvolvida.
     Sua solução da salvação pela arte é tão simples e ingênua, a meu ver, quanto a fórmula de Slavoj Zizek para resolver as contradições da sociedade ocidental : voltar ao comunismo, por meio de uma mudança do tipo leninista-stalinista. Quem leva isso a sério?

     Fato é que ainda não temos a saída visível para essa sociedade que caminha, é verdade, por sendas perigosas e produz o aumento da alienação, ao lado de invenções tecnológicas extraordinárias. Como dizia um filósofo alemão do século XIX, se tudo o que é sólido desmancha no ar, também é legítimo esperar que o incremento sem igual das forças produtivas leve à criação de um novo mundo. 

terça-feira, 15 de setembro de 2015

" O mundo--não somente o nosso-- está fragmentado.
Contudo, não cai em pedaços. Refletir sobre isso me parece uma das primeiras tarefas da filosofia hoje".

Cornelius Castoriadis
(Paris- 1989)

FUTILIDADE

                                          

                                                      Reinaldo Lobo*

            O novo filme em cartaz de Woody Allen, "O Homem Irracional", é sobre  alguém que tem o sentimento de que sua vida não tem sentido. Perdeu o significado ("meaningless") ou nunca teve. Uma pessoa sente que sua vida é sem espontaneidade, surpresas, alegria genuína, esperança e criatividade. Há algo de falso  nela, mas não sabe bem o quê, nem a razão.
            A personagem chega a um ponto crítico em que não é mais possível o auto-engano, a mentira ou o disfarce. O desespero se instala. É como se essa pessoa não existisse "realmente". Há um enorme vazio, um tédio e a sensação de que tudo é fútil. Parece que perdeu tudo, exceto a lucidez. Surge a dúvida: a única saída seria o suicídio?
          Ocorre, então, uma virada espetacular, provocada por uma contingência fortuita, como em quase todos os filmes de Allen. O professor, cuja história é narrada por uma aluna predileta,  descobre um meio de recobrar alguma alegria de viver, mas é uma tentativa forçada, igualmente falsa e artificial. Uma saída eufórica, excitada. Algo que se chama, em psiquiatria, de hipo-maníaca. De novo, o acaso vai operar e um acidente contingencial põe fim a essa tentativa.
          Há um dilema ético no filme, também recorrente nessa filmografia. A questão é do tipo "crime e castigo". Aliás, Dostoievsky é citado explicitamente.  Existe igualmente um fino humor nas aventuras do professor de filosofia perdido e de sua aluna apaixonada e empolgada, mas não ao ponto de perder um saudável ceticismo, o seu senso ético e uma inteligência sagaz.
        Esse dilema moral e o humor não são, porém,  os pontos que gostaria de destacar nesta obra brilhante de Allen, pois afinal são ângulos freqüentes em muitas de suas outras, assim como o jogo do acaso e do destino, presente de forma genial em "Match Point" em " Blue Jasmine".
       Chamo a atenção para o sentimento de futilidade existencial e para o sentimento de irrealidade da personagem central, o professor de filosofia atrapalhado. Do ponto de vista psicanalítico, o filme descreve de forma inteligente e sutil uma grave distorção do Eu, que é uma formação defensiva global da personalidade do tipo "como se" ou "Falso Si Mesmo (Self)".
      Não há na história um "diagnóstico" nem um tratamento "clínico", mas o assunto está lá, e bem expresso.   Também não é surpresa haver psicanálise num filme de Allen e o modo como a ilustra é muito claro e bem feito.
       A sutileza e a precisão do diretor do filme não é acidental, uma vez que toda a sua obra, com raras exceções, tem uma qualidade auto-reflexiva e de apreensão dos fenômenos psíquicos inspirada pela psicanálise.
     Allen mostra a psicanálise de um ponto de vista...psicanalítico. Já contou inúmeras vezes em entrevistas que fez análise pessoal por trinta anos. Piadas à parte, disse ainda que , apesar de tanta análise com os melhores profissionais "freudianos" de Nova York, precisou do cinema -- da sua arte-- para tocar em alguns pontos intocados de sua própria análise.
     Não ouso dizer que o filme "O Homem Irracional" é autobiográfico, porque não sei se é. Não há como ter certeza, pois nós, espectadores, não tivemos acesso à análise pessoal de Allen. Não será que todos são autobiográficos? Além disso, esse detalhe é quase irrelevante. Seria ainda mais irrelevante se ele mesmo não tivesse tocado no assunto de que alguns pontos de sua análise pessoal permaneceram intocados, o que é muito comum em muitas análises clássicas.
      O interessante nesse filme é como capta esteticamente e expressa um detalhe particular da condição humana. O fenômeno do sentimento de futilidade decorrente da existência de um "falso self" é muito específico. Escapa à escuta e à sensibilidade de muitos analistas, acostumados com os diagnósticos de neurose, psicose, "border lines", etc. Além disso, é preciso dizer que futilidade, aqui, não se refere, como diz o senso comum, à "superficialidade social"  de algumas pessoas, ainda que essa possa ser   uma conseqüência freqüente do "falso self". 
      A futilidade em questão é -- "tecnicamente", digamos -- um sinal da presença de um "falso si mesmo" e o fracasso da defesa armada para esconder um "verdadeiro si mesmo", cindido, recolhido e ignorado pela própria pessoa. O falso self ajuda alguém a se adaptar ao meio ambiente, quando está dividido entre um núcleo verdadeiro, silencioso, e uma área visível explícita, relativamente adaptada..
     Não é um teatro consciente que um ser humano monta, mas uma operação inconsciente destinada a  proteger uma intimidade desconhecida das ameaças ambientais e poder  funcionar na vida.  A criança pequena teme mostrar-se inteiramente à mãe ou aos pais e,para isso, esconde seu núcleo mais verdadeiro, a fim de garantir a proteção e o amor parentais. O "verdadeiro self" fica guardado para ser -- um dia-- vivido e utilizado. Muitas vezes, forma-se uma camada de intelectualização e um estilo de vida para proteger cuidadosamente a área mais secreta e autêntica de um ser humano.
      A personagem do professor-filósofo de Woody Allen funcionava muito bem na vida de superfície e na área intelectual. Era um acadêmico bem sucedido com trabalhos publicados, prêmios, histórias de aventuras e lendas. Seu carisma dando aulas era elogiado e seu desempenho, tido como brilhante. No entanto, faltava-lhe uma consistência existencial, falta sentida na crise só por ele mesmo, mas que acaba afetando todos ao seu redor. Seu brilho era "fake", em relação a um núcleo que poderia ser vivo e criativo na transgressão.
     Quando se fala de "falso" e "verdadeiro", aqui, não significa atribuir nenhuma conotação de valor. Mas pode aproximar-se do que chamamos de "inautêntico" e "autêntico". O "verdadeiro self" é o que vem de dentro, do mais intimo do ser humano. Muitas vezes, a autenticidade só aparece na crise de identidade ou na transgressão. E nada melhor do que a arte para desvelar o que há de transgressivo e verdadeiro no ser humano.

     Vejam esse filme, vale a pena. Pode despertar o mais estranho, secreto e revelador dentro de todos nós.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

A DOR DA CRISE

                             
                                                         Reinaldo Lobo*

         O custo de uma crise econômica não se mede em cifras, números ou diagnósticos econômicos. Por mais que o empresariado e os governos apresentem as crises como fatos inevitáveis, quase naturais,  dos quais todos parecem vítimas de uma estranha "racionalidade" do sistema financeiro e industrial, o seu cálculo deve ser avaliado em sofrimento humano.
      Uma crise impõe às pessoas dor mental e física. A banalização das tormentas provocadas pelos ciclos do capitalismo esconde uma face sinistra, que é a incidência da insegurança e precariedade sobre os seres humanos. Depressão, suicídios , doenças psicossomáticas, impotência sexual e perda de sentido na vida -- são algumas das conseqüências mais freqüentes dos períodos de recessão.
     Durante a devastadora crise argentina de 2001/2002, quando ocorreram inúmeros suicídios, saques e violência,  uma psicanalista já falecida,Silvia Bleichmar, bastante conhecida  e respeitada na época, propôs num artigo de jornal que  as autoridades parassem de falar apenas em PIB, Índices de Preços, Taxas de Juros, e considerassem a elaboração de  uma espécie de ISH,  Índice de Sofrimento Humano . A idéia é sugestiva.
      Fala-se da crise como se fosse uma fatalidade, algo como um  terremoto que se abate  de tempos em tempos sobre todos nós. Sabemos que as crises econômicas não são um acidente, mas o resultado de um sistema econômico existente e o efeito de políticas públicas. Implicam em escolhas, decorrem também de erros dos governantes e do caminho selecionado para conduzir uma sociedade.
    A cruel política de "austeridade" que está sendo imposta ao Brasil neste momento não é algo "racional", mas uma estratégia de conseqüências destrutivas, sobretudo, para as pessoas.
   O capitalismo orienta-se pela lógica do Capital, mas na crise os seres humanos perdem muito mais do que dinheiro. Perdem a segurança, muitas vezes dissolve-se  a estrutura familiar, perdem a dignidade e até a identidade. Desabam certos mecanismos de defesa justificadores que fazem os trabalhadores terem resiliência ou tolerância ao sofrimento implícito no processo produtivo. A racionalização, a negação, as compensações de lazer, as válvulas de escape para a humilhação cotidiana e o stress -- tudo isso cai por terra e o que aparece na vida psíquica é  o medo, em alguns casos desespero, a violência e os "actings outs" (atuações fora de conflitos internos).




     Perder o emprego é humilhante. Para qualquer trabalhador, seja da classe  média ou operário, significa uma ameaça à sua dignidade pessoal e ao seu reconhecimento público como cidadão.  Ao ocupar um lugar na cadeia produtiva ninguém pretende "servir ao patrão", mas está em busca de uma "realização pessoal" e também do reconhecimento pessoal na intimidade dos mais próximos, da família, bem como da sociedade.
    Há toda uma psicopatologia do trabalho, tão bem estudada por autores como o francês Christophe Dejours, assim como existem as doenças decorrentes da perda do trabalho. São freqüentes os casos, inclusive entre executivos, de homens e mulheres que chegam aos consultórios médicos e psiquiátricos com sintomatologias difusas, que não entendem --como alheamento, perda de identidade e distúrbios sexuais--, desencadeadas depois que "saíram do mercado".
    Ao perderem o emprego de uma empresa com a qual estavam acostumadas ou se identificavam, as pessoas não deixam apenas de ganhar  dinheiro ou  de "vestir a camisa" do seu time de atividade. Em muitos casos em que há algum grau de desequilíbrio que fora disfarçado pela própria atividade, essas pessoas são levadas a uma perturbação  esquizóide,  paranóide ou de desrealização. Em outros casos, homens passam a se sentir "castrados".Há situações nas quais a identidade dos indivíduos está tão colada ao papel que ocupa no trabalho que, ao serem postos para fora (mesmo em eventual demissão coletiva por crise), sentem que perderam a própria individualidade.  Simplesmente passam a sentir que não são nada. Ninguém. E se "defendem" com mais mecanismos patológicos e sintomas.
    As crises econômicas destinam-se não à destruição de riquezas, mas á sua redistribuição. Em cada crise existem sempre alguns que ganham mais em detrimento de outros. Como lembra o sociólogo Zygmunt Bauman, estudioso da modernidade, após a crise de 2008 nos EUA, após a lenta recuperação da economia produziu-se  um PIB adicional, do qual 93% dele beneficiaram somente 1% da população.
    O ápice da crise não é um sintoma, mas a própria doença do sistema econômico  em ação. O capitalismo precisa de crises periódicas para poder funcionar , abrindo constantemente novas "áreas virgens" de mercado. Na fase de implantação do grande capital monopolista, as guerras mundiais cumpriram esse papel de reordenação dos mercados.  Hoje, o capital financeiro e de serviços recicla-se como se fora uma "revolução permanente", destruindo muitos recursos e criando novos.Estimula o mito do crescimento infinito e do consumo irrefreável. Tudo fica rapidamente obsoleto e os objetos se renovam.    

     Só que , no meio disso tudo, estão os seres humanos. 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

SOCIALISMO PARA BILIONÁRIOS



                                                               Reinaldo Lobo*
           Conselho de auto-ajuda de George Bernard Shaw em seu livro "Socialismo Para Milionários" (hoje, bilionários) : não desperdicem dinheiro fazendo benemerência, mesmo que seja uma vantagem junto ao imposto de renda. Ele será mal aplicado, destinado a uns poucos, às vezes desviado. Se tiver um dinheiro queimando no bolso e quiser "jogar fora", aplique pelo menos em educação, cujo alcance e reprodução será maior. Mas, o ideal mesmo, seria usar a verba para mudar progressivamente a infra-estrutura econômica e social do capitalismo, transformando-o em socialismo, distribuindo automaticamente a renda entre todos, limitando os lucros dos ricos, criando impostos decentes e gerando riquezas menos concentradas nas mãos de alguns privilegiados.
        É de duvidar que os muito ricos seguiram os seus conselhos, exceto talvez aqueles que gostaram da idéia  preferencial de investir em educação. Na maioria dos casos, os bilionários (cerca de um por cento da população mundial, segundo o economista francês Thomas Piketty) estão acumulando cada vez mais capital às expensas, às vezes, de um crescimento bem lento das  próprias economias de seus países e mesmo em plena crise ou recessão.  Justificam sua situação afirmando que, ao enriquecerem, estão criando postos de trabalho. O que é meia verdade, pois também estão criando consumidores de seus produtos e ampliando o escopo do acúmulo de capital.
      A ironia de grandes escritores como Shaw -- teatrólogo e humorista irlandês, um dos inspiradores do Partido Trabalhista britânico, da primeira metade do século XX-- deu origem a personagens curiosos e paradoxais, como o do poeta Fernando Pessoa,  o "Banqueiro Anarquista" :  um sujeito cínico capaz de sofismar ao ponto de provar que, mesmo sendo dono de banco, comerciante e açambarcador, representa o modelo exemplar da política anarquista e libertária. Respeita ,sobretudo, a "liberdade alheia" e, por isso, não ajuda a ninguém, para que todos  possam realizar sozinhos suas próprias potencialidades. Algo assim com o "banqueiro petista", que nunca lucrou tanto na vida, mas compreende e defende em teoria a causa dos pobres.
     Já Oscar Wilde, igualmente irlandês como Shaw, disserta com a elegância e o humor habituais em "A Alma do Homem sob o Socialismo" sobre  a crença de que a individualidade humana correria risco sob um regime socialista e , conclui que sim, correria perigo --  mas também poderia ser despida do seu egoísmo,   enriquecida, preservada e tornada mais livre para criar. O principal é livrar o indivíduo da escravidão de trabalhar para o enriquecimento de outro, dizia o autor de "O Retrato de Dorian Gray".
     No Brasil atual, não chegamos ao socialismo e, no entanto, já ouvimos algumas pessoas admitirem que a era Lula procurou diminuir a fome e a miséria, apesar de fazê-lo da "forma errada" e até de modo a preservar privilégios. Admitem, porém, que avançamos. É alguma coisa. Apesar do ódio generalizado da classe média contra a ascensão dos sem terra, dos sem comida, dos sem geladeira nova, dos  sem teto e dos sem letras, quem sabe alguns gatos pingados já aperfeiçoaram um pouco a própria alma?
     A tendência dos muito ricos, contudo, é "naturalizar" a sua situação. É "normal" que existam pessoas desmedidamente ricas e outras extremamente pobres. O único problema seria a dificuldade de resolver  a condição dos muito pobres.   A ordem natural das coisas, segundo essa ideologia, é que haja diferença de classes -- e não se questione nunca isso, pois é a "realidade". A questão da justiça fica reduzida às leis existentes -- fazer o quê, se as leis consagram a propriedade privada e a "livre" concorrência? Que vença o melhor...
    George Bernard Shaw sugere que a questão da justiça social seja colocada assim, com uma metáfora: "Quando um homem quer matar um tigre, chama a isto de "esporte". Quando o tigre quer matá-lo, o homem dá a isto o nome de "ferocidade". A distinção entre crime e justiça não é maior". Se os trabalhadores sem terra querem um pedaço do quinhão das grandes propriedades rurais, são criminosos; se os grandes latifundiários conquistaram seu quinhão pela violência, grilagem ou a matança de índios, mas detém o papel  que lhes garante a posse, então eles estão com a justiça do seu lado.
    A filantropia dos bilionários é, segundo Shaw, apenas uma forma de dispensar os governos de cumprirem o seu dever, isto é, prover educação, saúde e trabalho ao povo. Gente como Bill Gates, uma das maiores fortunas do planeta, compensa  privilégios enviando computadores usados para a África e fazendo contribuições para entidades assistenciais latino-americanas e asiáticas. Neste caso, o indivíduo foi pressionado pelo imposto de renda e pelas agências fiscalizadoras de seu país a não concentrar tudo num monopólio internacional. Ele merece ser rico, por ter tido a intuição genial de formar uma empresa de informática criativa? Talvez. Mas deveria concentrar o poder econômico e tecnológico exclusivos em escala mundial? Certamente, não. Monopólio não é "livre concorrência", como prega a ideologia oficial.

    Para que os bilionários aprendessem algo sobre o socialismo seria necessário, primeiro, que não fossem idolatrados como faraós e a diferença social não estivesse "naturalizada" na mente das pessoas. Em segundo lugar, seria preciso que a filosofia dos caçadores de tigres não prevalecesse e os pobres não fossem apenas chamados de invejosos, vagabundos ou de criminosos potenciais.
Aquele que diz a verdade cedo ou tarde será descoberto.

Oscar Wilde

terça-feira, 11 de agosto de 2015

UM LIVRO INQUIETANTE

   
                                                                             Reinaldo Lobo*
       Que tempo é esse em que vivemos? Quando começou, quais as suas linhas de ruptura e quando desandou? É um tempo planetário , global, ou fragmentário? Obedece a uma lógica dialética marxiana ou constitui um acidente histórico? Pura contingência?
       Que sociedade é essa,  em  estado de guerra civil permanente e  belicismo internacional, que parece ter um fio condutor unindo tudo:  extermínio colonial, campos de concentração, crises econômicas, escassez, a destruição da natureza, o colapso urbano, a ameaça de hecatombe nuclear , desemprego em massa, o sofrimento no trabalho, a exploração humana para a produção incessante de mercadorias, o medo crescente do futuro -- tudo isso ao lado da criação de tecnologias cada vez mais avançadas de administração da vida?
     O diagnóstico do filósofo Paulo Arantes, autor de "O Novo Tempo do Mundo" (Boitempo Editorial, 2015) é severo e peremptório -- essa é a natureza da sociedade moderna, que obedece a um ritmo e a uma temporalidade próprias. Uma sociedade que emergiu com o capitalismo, vive em regime permanente de crise e de destruição e que se alimenta disso.
      O texto de Arantes não é muito fácil para quem não está familiarizado. Autor de obras anteriores como "Hegel: a Ordem do Tempo" e "Extinção", seu procedimento dialético está contido no próprio discurso, marcado por uma considerável erudição e referências precisas. Já foi definido como um processo de pensamento em cascata, como se as palavras se derramassem em cachoeira. Às vezes, uma nota de rodapé é tão significativa quanto os longos parágrafos, cifrados por uma ironia fina e crítica. Certa vez, Bento Prado Jr. definiu o estilo de sua prosa como tendo sempre "algo de críptico, de elíptico  e de alusivo, que desnorteia o leitor", assinalando o que também dissemos acima, isto é, que o estilo é "expressão da matéria" de que trata.  Vale a pena o esforço de leitura.
      O prefaciador da obra, Marildo Menegat,  aponta que os escritos de Arantes  podem ser pensados como "uma das formas possíveis da teoria crítica, quando o mundo já não se apresenta em linhas bem armadas de encadeamentos progressivos quase óbvios". Sem dúvida, seu pensamento pertence à linhagem da teoria crítica, inspirada em autores da chamada escola frankfurtiana-- talvez tocado, salvo engano,  mais por Walter Benjamin do que Theodor Adorno ou Max Horkheimer. Tem, contudo, algo em comum com todos: o interesse pela negatividade, o proverbial laivo de pessimismo , a influência hegeliano-marxiana e a recorrência de uma problemática crítica encontrada no "jovem Marx".
      Há, contudo, algo de muito singular nos textos de Arantes, notável pelo menos desde o "Sentimento da Dialética", o "Ressentimento da Dialética" e o "Fio da Meada" --  é o seu traço 'brasileiro', de força literária , e também o seu encontro destemido e firme com a 'prática". Isso o torna muito diferente de autores mais teoricistas e abstratos, como o outrora estudioso de Marx, José Arthur Giannotti. Além disso, penso que há um fio de Ariadne em toda a sua obra:   a questão da temporalidade como ponto de partida e de chegada. Arantes busca e persegue a linha e a natureza do tempo como o processo que dá sentido e tecido à História.
       As entrevistas contidas neste livro inquietante  também mostram o lado militante de Arantes,  seu diálogo com grupos de teatro, seu respeito pelos movimentos sociais, seu confronto com os fatos de junho de 2013.  Revelam outra diferença em relação  aos frankfurtianos clássicos, que pareciam limitar-se à  espera passiva da negação da negação e a comprazer-se com o pessimismo, a melancolia e o exercício da  crítica literária e musical. Ao capitalismo nascido na promessa de felicidade e liberdade e tornado barbárie, boa parte do pensamento frankfurtiano ainda hoje limita-se a contrapor o desânimo diante da barbárie. Só enxerga a desesperança e não vê saída além dela.
       Arantes vai além: detecta esperança no "Occupy Wall Street", no "Podemos", no Syriza, na juventude que vai às ruas pelo Passe Livre, em rebeliões como a Primavera Árabe e em eclosões episódicas de negatividade anti-capitalista.
      Um outro interesse desta obra densa é o de ser um contraponto eficaz ao "pensiero debole" (Gianni Vattimo), que concebe uma superação da modernidade por uma suposta "pós-modernidade", onde os contrários se reconciliariam no bojo do status quo, na complacência em face da barbárie e na qual a liberdade iria imperar, finalmente, na forma de expressão cultural. Fruto do cinismo neoliberal, a ideologia da "pós-modernidade" esconde o quadro de conflitos, de violência e mascara uma época do capitalismo em que se tornaram inevitáveis as expectativas decrescentes.

       O quadro da contemporaneidade é, sem dúvida,  assustador. É a era das distopias. Nas telas dos cinemas, zumbis e dráculas. No mundo do trabalho, opressão e insegurança mal disfarçadas. Na sociedade, crises sucessivas e guerras  intermináveis.  Tudo parte de um tempo global de natureza ora bélica, ora de doença social crônica. Nas ruas, seres humanos ameaçados de extinção, isto é, em vias de se tornarem menos do que zumbis e dráculas. Ao mesmo tempo, porém, uma sociedade onde as pessoas nunca se casaram tanto, independente do gênero, onde a comunicação estendeu-se em escala planetária e a juventude busca avidamente livros e sinais de um novo tempo. Que sociedade é essa? Que destino terá?