A psicanálise universitária predominantemente teórica, com raras exceções, carece da dimensão da experiência humana. Falta-lhe a carne viva da clínica. Sobra intelectualização.
Já vi muito teórico pontificar sobre Freud, Lacan, Klein, Bion e Winnicott sem considerar ou fazer qualquer referência a um único caso sequer. É possível, mas limitado.
Também existe, é verdade,um empirismo clínico cego, vazio de qualquer pensamento.É uma prática randômica e pobre.Às vezes, surgem trabalhos cheios de citações, mas incoerentes e inconsistentes.
Desconfio que a psicanálise seja uma práxis criativa, a partir, portanto, da experiência efetiva e singular do consultório. Não é mimética ou reprodutora. É feita de matéria sensível. Uma poiésis.
Parece que Freud e os outros elencados acima pensavam assim.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
A AUTOCRÍTICA DAS ESQUERDAS
Reinaldo Lobo*
Existe um tipo de pensamento binário que
divide o mundo entre bons e maus, bonitos e feios, inteligentes e burros,
heróis e anti-heróis, dogmáticos e
relativistas, pobres e ricos, certos e errados,
isto ou aquilo. Essa simplificação é um dos hábitos mais arraigados
e ativos da nossa civilização. Até mesmo alguns dos intelectuais mais
sofisticados entre nós cometem esse vício do reducionismo. O artigo do
professor de filosofia Vladimir Safatle, da última sexta-feira na Folha de São
Paulo, é um exemplo de raciocínio baseado no modelo "ou isto ou
aquilo", em que pesem o brilho de linguagem e a inteligência de sempre.
Esse é um autor que prima por procurar ver
na realidade "o que ninguém mais viu". Isso pode ser um mérito quando
a intenção atinge seu objetivo. Muitas vezes, o pensador e publicista mais
articulado do partido de Luciana Genro acerta na mosca. Sua crítica às
concessões sucessivas do PT ao pólo mais conservador do governo de coalizão de
Dilma tem sido correta. Mas negar,
agora, a existência de uma onda conservadora não só no Brasil como na América
Latina e em outras partes do planeta, é o velho vício dessa dialética
simplificadora.
Sua explicação é cheia de clareza e
distinção : não é que exista uma onda forte conservadora, mas o que está ocorrendo
é a "desagregação" do "campo político das esquerdas". Por
que não podem existir ambas as realidades, simultaneamente, uma implicando a
outra?
A falta de força da "onda de esquerda"
-- mais além de sua própria desagregação-- não se deveu também a uma re-ação
coordenada dos conservadores diante do impulso das mudanças sociais implementadas
por governos populares na última década?
A resposta para esse viés interpretativo
radical pode ser encontrada na ambigüidade desse pensamento diante dos governos de esquerda que os
intelectuais classificam de "populistas", repetindo o rótulo aposto
pelas forças conservadoras.
O
desprezo pela política do Brasil real e o elitismo à francesa dos salões acadêmicos,
impõem um modelo analítico, selecionando "isto em lugar daquilo".
Creio que foi Darcy Ribeiro quem chamou a atenção de todos para esse
"udenismo de esquerda", incapaz de uma visão mais complexa.
É verdade que a esquerda ainda não tem uma
alternativa adequada à solução revolucionária clássica de ocupação do poder,
recaindo na velha proposta de "frente ampla" quando está na situação
de administrar economias capitalistas. A dicotomia "revolução versus
reforma" permanece predominante no
imaginário esquerdista. Optar pelo fantasma de uma revolução desejada é a opção
mais fácil. Inventar novas formas de ação e teorizar dialeticamente sobre isso
é que está difícil.
A autocrítica de fim-de-ano do ministro
Jacques Wagner, atual articulador político de Dilma, dizendo que o PT e o
governo cometeram erros e se "lambuzaram" com o poder, é uma prova
cabal da inexperiência da esquerda na condução da situação típica da virada de
século, quando o paradigma das revoluções clássicas, com barricadas, guerrilhas
e tomada de palácios, caiu em desuso.
Imitar revoluções antigas e mesmo novas,
como a cubana, revelou-se um caminho simplificador e equívoco. Os conservadores
já haviam aprendido tudo sobre a forma de se
prevenir contra elas. Restava a rota das eleições e de ocupar governos
democráticos do tipo liberal, preenchendo um espaço outrora reservado aos
sociais democratas e comunistas da chamada "linha russa", ultra
conciliadores nos países ocidentais.
Encostar-se cada vez mais à esquerda pode
ser uma solução cômoda e confortável, dando a autores radicais a ilusão de que
estão numa posição prescritiva superior. Safatle está correto em admitir que há
uma desagregação no campo das esquerdas, mas equivocado em se limitar a ver só
esse ângulo , replicando os mesmos argumentos da extrema esquerda e dos
conservadores. Em parte, isso significa deslizar da política para o campo
moral, perdendo a perspectiva das condições reais da política brasileira. Achar
"culpados" não vai resolver o problema político.
O sentido da autocrítica do ministro Wagner
pode ser duplo: primeiro, dar uma resposta conjuntural e tática às oposições,
apaziguando mais uma vez os conservadores e os setores das classes médias
revoltados com o governo, ao enfocar no PT a fonte dos "erros";
segundo, expressar a real perplexidade do governo petista por seus próprios
desacertos e admitir que há inexperiência e desagregação no campo da
esquerda.
Não seria necessário apontar as
dificuldades da esquerda em administrar o capitalismo e, ao mesmo tempo, buscar
mudanças. O próprio governo reconhece isso. Mas as nuances , os avanços e
recuos dessa experiência institucional, as lições da luta intensa com os
conservadores em ascensão na crise, o papel dos movimentos sociais, da mídia, e
a própria mutação interna da composição social do PT -- tudo isso se perde
quando a crítica se concentra na constatação de um fracasso ou na condenação
peremptória de um partido.
A tese simplória de atropelar as alianças
com setores das classes dominantes, propalada pela extrema esquerda em geral,
revela-se pobre, na falta de oferecer uma alternativa. Assim como não parece
ser suficiente a própria política de alianças -- como se dá no Brasil e na
Grécia, por exemplo, onde a direita econômica é chamada a "cooperar".
O ponto central ao qual dirigir a
atenção não é o clássico "bloco hegemônico gramsciano" -- no fundo,
uma política de alianças --, mas a necessidade de criação de novas estratégias,
novas formas de institucionalização e de
organização da sociedade, ainda que
dentro do capitalismo. Quer dizer : um olhar para a chamada sociedade civil e
sua reestruturação. Talvez uma busca não apenas de poder político, mas da
constituição de forças "debaixo para cima", envolvendo novas formas
de organização da população. A espontaneidade das manifestações de 2013, por
exemplo, pedia isso.
Achar alternativas para provocar a
mutação na sociedade real -- não como ela "deveria ser", mas partindo
do que se apresenta-- exige aprender com a experiência. O procedimento de
"ensaio e erro" do governo petista poderia servir como acúmulo de
aprendizado e não ser simplesmente descartado. Poderia significar enxergar nuances
e descobertas onde muitos só vêem a platitude de opções de curto alcance,
como: "imitar a extrema
esquerda" ou "imitar a direita conservadora"?
Poderia representar uma visão do que
escapou ou se perdeu no processo de governar o País . Mais do que isso, uma análise complexa do vasto material para o
uso de um instrumento fundamental de que a esquerda carece neste momento -- a
imaginação política.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
A GUERRA PELO PODER
Reinaldo Lobo*
Foi um norte-americano, Thomas Skidmore,
quem estudou o autoritarismo brasileiro a partir do esquema: "os que estão
dentro" e os que "são de fora". Esse cientista político viveu
vários anos no Brasil, acompanhou todo o período ditatorial e também o advento
da Nova República, e descobriu um sistema inteiro de poder implícito, informal,
quase invisível, mas muito operativo entre nós. A fórmula é interessante para
entender nossa atual - e grande- crise política.
Ao longo de nossa história desde, pelo
menos, o Império, Skidmore detectou um bloco interno da oligarquia dominante,
que impede solavancos e instabilidade no
seu domínio. E auxilia sua recuperação das crises.Esse grupo é representado de
forma variável por diferentes partidos e líderes. Na República Velha, antes de
1930, eram os governadores provinciais e presidentes nacionais sucessivos sob a
égide dos barões do café e fazendeiros, aos quais foram acrescidos, aos poucos,os
emergentes industriais e, claro, os banqueiros. O grupo dominante "de dentro" eram
os políticos mineiros e paulistas, a fórmula do "café com leite".
O gaúcho Getúlio Vargas, revolucionário de
30, veio "de fora" ao lado de gente como o convertido ao comunismo
Luiz Carlos Prestes. Ambos, além da burguesia e da pequena burguesia
ascendentes, trouxeram a questão do trabalho e dos trabalhadores.
Getúlio, que pertencia a um filão da
oligarquia rural, aliou-se a setores
"de dentro", mas surrupiou dos comunistas e socialistas a bandeira do
trabalho e criou o "trabalhismo", inspirado em parte no fascismo e
também na social democracia européia. Procurou conciliar o empresariado, então
ascendente, e a classe trabalhadora, mostrando um traço sociológico
característico do populismo. Populismo, aliás, que é uma forma de dominação e
não de transformação.
O trabalhismo foi apenas tolerado
pelos "de dentro" do núcleo
férreo da oligarquia dominante. A presença de Getúlio foi combatida com vigor
por várias frações oligárquicas, durante décadas. E todos conhecem a história
que culminou no "mar de lama"
criado pelos militares e Carlos Lacerda na República golpista do Galeão, com
processos investigativos que inspirariam os sumários IPMs da Ditadura Militar,
que foi o Estado Novo udenista.
Após a morte de Getúlio, o bloco dominante
"de dentro" , constituído politicamente pela UDN, o oportunista PSD
mineiro e vários partidos satélites, não parou de perseguir o caminho do golpe
contra qualquer resquício de trabalhismo. Até o liberal Juscelino Kubitschek,
ao aliar-se a João Goulart no caminho da presidência e aos militares nacionalistas
que impediram o cancelamento de sua posse, foi posto para fora do bloco dos "virtuosos"
conservadores brasileiros -- que nada tinham de virtuosos em suas ações entre
amigos no interior de seu núcleo.
O trabalhismo e a tomada de posição pelos
trabalhadores passaram a ser o sinal maldito que deixava "de fora"
das elites oligárquicas qualquer político ou partido. Por outro lado, os trabalhistas
do PTB e alguns do seus aliados circunstanciais, o populismo ademarista, os comunistas e
outros, cuidaram de formar seu próprio bloco. Chegaram ao poder com Jango em
meio a uma crise violenta, provocada pelo populista que se aliara aos poderosos
"de dentro", Jânio, e que tentou um golpe bonapartista, acima das
classes e das diferenças ideológicas. Queria-- megalomaniacamente, diga-se--
ser uma espécie de Nasser ou de Nehru, líderes autoritários
"neutralistas" na Guerra Fria. Jânio fracassou porque emitiu uma
mensagem ambígua para os "de dentro" e os "de fora" do
sistema dominante.
Quando Lula foi eleito em 2002, acenou
com concessões políticas e econômicas para os poderosos, a fim de passar por
dócil o seu "novo sindicalismo", uma versão pós-ditadura e
pós-modernista do trabalhismo. Lula começou combatendo o peleguismo getulista,
estava ,portanto, com autoridade para negociar não só com o patronato, mas com
as raposas políticas herdeiras do bloco anti-trabalhista, como os do DEM, do
PMDB e -- last but not...-- a nova face da UDN, o PSDB.
Lula tinha plena consciência de que
fariam de tudo para varrê-lo para fora do bloco de poder, assim como sua
sucessora, Dilma, pelos mesmos meios da desmoralização e dos IPMs. Agora, ao
modo da Nova República.
A caça a Lula e ao PT foi adiada uma década em função do sucesso do
modelo econômico duplo, de inclusão social e de crescimento econômico, que
deixou satisfeitos a burguesia, as multi, os ruralistas e os banqueiros. Somadas
às práticas "informais" rotineiras no sistema dos "de
dentro", adotadas pelo PT para ser aceito, sobreviver e fazer sua política
dupla de mudança e acomodação, o trabalhismo "lulopetista" (como o chamam seus inimigos) até que tem
durado bastante, com manobras cada vez mais conciliatórias.
O PT
aderiu, de várias formas, ao sistema que não o quer e adotou todos os métodos
de ação da rotina de relação incestuosa entre poder político e empresariado,
sobretudo desde a Ditadura Militar, que, neste sentido, prossegue na Nova
República.
A crise política, agravada por uma crise
econômica real e pelo terrorismo econômico do empresariado ameaçado pelas
investigações apoiadas por Dilma, que lhes tirou a "imunidade"
histórica, chegou ao seu ponto máximo, ao paroxismo. A onda conservadora
latino-americana (e norte-americana) que avança contra todos os governos
populares da última década empurra ainda mais o governo Dilma para a defensiva
na guerra de vida e de morte.
Nos
últimos dias, os combates se aguçaram, Dilma tenta as últimas táticas, chamou
Ciro Gomes, mais ativo e agressivo que seus ministros, para se aconselhar e
partiu para o ataque contra a tropa de choque de Eduardo Cunha e seu chefe no
PMDB, Temer. Não vai ser fácil, a imprensa cuida para não deixar de enfocar as
denúncias em Lula e pedir que a classe média participe nas ruas. Mas a
população parece enojada também com os métodos dos representantes do bloco
hegemônico dos "de dentro", que se tornaram públicos demais. A guerra
não é moral, mas política. Só que a classe média está perplexa com o que tem
descoberto. Pode estar dividida politicamente por isso.
O golpe, se consumado, virá por cima
partindo em bloco dos "de
dentro" da oligarquia neoliberal, incluída aí a mídia conservadora.Foi
como aconteceu no Paraguai, ainda que mais sorrateiramente e nas suas
proporções. Nossa oligarquia tem vergonha de seguir o "modelo" do
Paraguai -- que dominam, estão imitando e,ao mesmo tempo, desprezam.
Só não somos parecidos com o Paraguai por
termos um movimento social, sindicatos, militâncias e lideranças no Nordeste suficientemente fortes
e grandes para reagir a um golpe...paraguaio. Quem viver, verá.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
UM PAÍS DE DELATORES
REINALDO LOBO*
Delator, dedo-duro, traíra, informante,
alcagüete, silvério dos reis, colaborador, rato, "snitch" e
herói. Herói?!
Houve um tempo em que a delação era abjeta,
quase um crime dentro do crime, algo de causar vergonha ao seu autor. Era só motivo
de punição entre detentos, às vezes, por meio de rápida e simples
"execução". Além da condenação moral da sociedade, é claro.
Foi exageradamente banalizada na cena
brasileira atual, de denúncia da corrupção generalizada. Hoje impera um
clima de total falta de confiança,
inclusive nas instituições.Como confiar numa Justiça que não investiga quem for
da oposição? Como acreditar na imprensa que toma partido e pede ostensivamente
que se ignore o resultado das urnas? E numa Polícia Federal que tem alguém que
"vende" informações? O governo fez ou não acordo tácito com Eduardo
Cunha, aquele que sempre escapa?
Não se espera mais de nenhum setor uma
investigação normal, dentro das regras, mas deve haver inevitavelmente algo
"por debaixo dos panos". A
delação já passou de "natural", algo como um jogo necessário, a uma "ação positiva", quase um feito
a ser dignificado. Não é por acaso que se denomina "delação
premiada". A palavra é ambígua, designa uma troca de informações por menos tempo e
benefícios na pena, mas significa, ao mesmo tempo, um
"prêmio".
O traíra virou herói da "limpeza
moral" da nação. O "convertido" em cidadão exemplar. Um patriota!
O primeiro grande delator premiado, o
ex-deputado Roberto Jefferson, chegou a ser aplaudido nas ruas e restaurantes
pelos caçadores de cabeças e mesmo pela opinião pública em sintonia com a
imprensa. Não tinha importância que fora apanhado com a boca na botija nos
Correios, nem que fosse um ex-apresentador de programa "mundo cão" na
TV ("O Povo na TV"), onde houve até gente morrendo ao vivo no palco,
por humilhação e pânico. Era o herói da
hora no "Mensalão". Entregou nada menos do que a cabeça do ex-ministro José Dirceu, que Jefferson imaginava tê-lo cercado na operação dos
Correios.
O Brasil passa por um momento de
maccartismo moral. O quadro tem alguns
traços semelhantes com o que aconteceu nos EUA.
A desconfiança, o dedo-durismo e
uma certa paranóia são a tonalidade e o centro da atual crise política.
Para quem não se lembra, um senador fanático
anti-comunista, Joseph McCarthy , dos EUA, inaugurou um período de delação
premiada durante a Guerra Fria, que teve o seu auge mais ou menos entre 1947
até quase o final dos anos 50. Qualquer pessoa denunciada como comunista, ou
mesmo como simpatizante, poderia ser julgada
traidor da pátria. O FBI , a polícia federal norte-americana,
encarregou-se de procurar delatores, e de acusá-los para obter confissões. Procurou-os
no meio artístico, nas universidades e onde quer que se imaginasse haver
dissidentes. Isso se tornou um meio de vida e uma forma de fazer carreira para
muitos cidadãos medíocres nas áreas culturais. Houve muitos suicídios,
desemprego e humilhação pública de várias pessoas. O delator, ex-suspeito ou
não, não só escapava à prisão como subia na vida e era exaltado com alguém que estava prestando
serviços cívicos.
Aqui entre nós, temos atualmente a caça aos corruptos. Em nome da excelência
moral, verdadeiros corruptos virtuais ou consagrados apontam com muita
facilidade o dedo em direção aos outros. Basta uma suspeita e o nome aparece na
lista dos promotores de Justiça e, o que é muito grave, nas páginas da imprensa.
Até a pessoa limpar seu nome, já foi investigada, julgada e condenada pela
"opinião pública"
O fanatismo moral pode ser equacionado pela
psicanálise como uma espécie de ausência de ego e uma exclusiva predominância de superego
repressivo e impulsos primitivos (como ocorre naqueles jihadistas do terror e
nos pastores extremistas de almas). É uma fonte constante de ódio, violência e
medo. Também é uma raiz de inúmeras injustiças, muitas delas fatais. A crença
moralista vem colada com uma potência destrutiva sem igual.
A hipocrisia e a mentira fazem parte do
quadro. As meias-verdades exaladas pelos fanáticos, assim como as insinuações e
a malícia, criam uma espécie de circuito de afetos negativos, do qual faz parte
ainda a inveja. Muitos denunciantes da corrupção não participaram da festa e do
bolo do dinheiro e poder. Supõem em sua fantasia que foram excluídos, então
atacam quem estiver por perto ou se destacando na esfera pública. Queriam estar
lá, dividindo o butim.
Neste momento nacional, o senso de humor é
suspeito. Qualquer metáfora, ironia ou observação bem humorada pode ser mal
compreendida pelos paladinos da moral. De repente, o Brasil ficou cheio de
vestais, muitas delas...corruptas. A ética , para elas, não é uma questão de
escolhas, mas de limites estreitos e fixos. Não importa que sejam limites
arbitrários, contanto que sejam pertencentes ao seu próprio quadro de valores
-- geralmente simplista.
O maniqueísmo não tolera a complexidade nem
a análise compreensiva. Não suporta a ambigüidade das ações humanas. A negação
do que não é simples e bidimensional costuma acobertar áreas sinistras da mente
individual e, muitas vezes, das multidões uníssonas.
Não é de surpreender que pessoas com
trajetórias no mínimo duvidosas em suas vidas profissionais e pessoais --
carreiristas, malandros , oportunistas e mesmo corruptos explícitos--sejam os
primeiros a acusar ou a insinuar.
Foi
considerável o número de pessoas que saíram às ruas nas passeatas moralizadoras
na Avenida Paulista e no País inteiro, carregando faixas, cartazes, pedindo aos gritos o combate severo à
corrupção e , inclusive, a volta da
Ditadura. Entre elas, havia gente
mergulhada até o pescoço nos episódios mais escabrosos de
"malfeitos", como se diz . Algumas foram indiciadas logo após as manifestações, pois
recebiam ou forneciam propinas em seus
cargos ou empresas.
Vivemos uma triste época no País, onde os
canalhas não estão só nas manchetes das denúncias, mas se escondem também por
trás dos dedos em riste. A cultura do alcagüete-herói pode disseminar-se ao
ponto de servir como ideal do ego, exemplo para as novas gerações. Um modelo de
cidadania. Quem uma criança vai querer ser quando crescer: Silvério dos Reis?
sábado, 21 de novembro de 2015
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
ATENTADO EM MARIANA
Reinaldo Lobo*
Mariana, doce nome de mulher para uma cidade.
Linda e charmosa, por sinal.Um rio de nome doce. Um vale do Rio Doce. Não mereciam
a morte e a devastação por toneladas de lama. Lama que arrastou 60 bilhões de
rejeitos de mineração de ferro por mais de 500 km ao longo da quinta maior
bacia fluvial do País, destruindo tudo pela frente, inclusive vidas humanas e
animais.
Nossa "Fukushima", dizem as gazetas
do mundo. Mas, diferente do tsunami japonês, é impossível considerar a morte
trágica do Rio Doce e dos seus arredores um simples "acidente"
natural. Foi algo além disso, pois barragens que se rompem, depois de vários avisos
de risco, são obras de seres humanos. Mais exatamente da empresa Samarco,
resultado da sociedade entre a Vale do Rio Doce e a anglo -australiana BHP
Billiton.
Se no Japão um fenômeno natural provocou
brechas em estruturas de uma usina
nuclear, vazando substâncias mortíferas, no caso de Mariana foi, ao contrário,
a ruptura das duas barragens que provocou o desastre "natural",
espalhando os rejeitos de minério pelo vale, pelo rio e
atingindo até montanhas. Os biólogos e ecologistas estimam que levará décadas,
talvez centenas de anos, para recuperar o solo da região.
Quem já visitou a pequena cidade de
Mariana, cujas construções e igrejas
foram tombadas pelo patrimônio histórico, sabem do que falo quando me refiro ao
charme e beleza de suas ruas, morros e montanhas vizinhas. Mariana foi a
primeira vila e depois capital de Minas Gerais nos tempos coloniais. Predominam
as igrejas que remontam ao século XVII e as ruas estreitas de casas igualmente
antigas, envoltas numa paisagem verde que nunca se imagina cercada de tantos
interesses econômicos e da exploração sistemática de "commodities".
A maldição das riquezas minerais parece
seguir Mariana e a região do Vale do Rio Doce. Primeiro, foi o ouro extraído em
grandes quantidades pelo portugueses e, quando foi escasseando, a decadência da
cidade tornou-se inevitável. Mais tarde, pedras e minério de ferro começaram a ser
comercializados. A cobiça pelo ouro e, agora, pelo ferro, tem feito a
prosperidade e a desgraça da região.
O que houve em Mariana foi uma brutal
violação da natureza, conseqüência de uma super-exploração econômica. Não se
refere apenas à cidade, mas ao verde de uma paisagem que era, em alguns
trechos, deslumbrante. Ocorreu um atentado contra o equilíbrio ecológico e a
morte de várias espécies de animais. Diz André Ruschi, biólogo e pesquisador de
uma das mais antigas instituições de ciência ambiental no país, a Estação de
Biologia Marinha Augusto Ruschi: "Há
espécies animais e vegetais que podemos considerar extintas a partir de hoje
(dia das explosões das duas barragens)".
O rompimento das barragens coincidiu com
o período de reprodução de várias espécies de peixes e, além disso, muitos
tipos de vegetais que eram específicos da área atingida não mais nascerão lá e
em parte alguma.
Muita gente não faz idéia da delicadeza
do equilíbrio da natureza e intervém nela de modo abusivo. O Brasil já virou
cenário de destruição em vários pontos do Centro-Oeste, do Nordeste e na
Amazônia, mas agora foi atingido no coração de Minas Gerais. "É o maior
desastre ambiental da história do País" , comentou o cientista Ruschi.
A quantidade de lama despejada foi
calculada como o equivalente a 24 mil piscinas olímpicas, com a agravante de
ter espalhado material erosivo nos resíduos.
O mais curioso é que os políticos mineiros
e a grande imprensa procuraram, no início, minimizar o evento, praticamente
reduzindo-o a uma entre muitas catástrofes "naturais" que podem
ocorrer, ainda que "lamentável". Em primeiro lugar, a empresa
Samarco, responsável pelas barragens, procurou desviar a atenção para possíveis
tremores de terra de pequena escala que teriam ocorrido naquele dia. Inúmeros
cientistas descartaram essa possibilidade como causa provável.
Houve um político, Aécio Neves, que se
apressou em dizer :"Não é hora de buscar culpados". Se não era a
hora, quando? Quem vai punir os culpados por tamanha perda ambiental e pelas
vítimas humanas, que incluem mortos,
feridos e dezenas de "desaparecidos"?
Uma reação interessante foi a do
fotógrafo mineiro Sebastião Salgado, figura mundialmente conhecida pelas suas
brilhantes fotos de situações sociais e humanas. Criado na região, propôs que
se iniciem logo as obras de recuperação, levando um projeto para a presidência
da República. Nele, preconiza a responsabilização da Samarco, da Vale do Rio
Doce e da BHP Billiton, e o ressarcimento da região e da população na forma de
recuperação ecológica e investimentos reparadores.
Uma lição inevitável a ser extraída da
violação da doce Mariana e do assassinato do Rio Doce só pode ser a
conscientização política do nosso povo, no sentido de criar definitivamente uma
verdadeira resistência ambiental e uma agenda ecológica severa contra a
voracidade do Capital.
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
PAIXÃO DE FACEBOOK
Reinaldo Lobo*
Muitas pessoas se conhecem pelas redes
sociais, via internet ou telefone
celular. Algumas, não se sabe quantas, apaixonam-se, amam, traem os (as)
parceiros (as), têm algum sexo masturbatório, "relações sexuais", namoram, divorciam-se ou casam com alguém que viram
pela primeira vez ou reencontraram assim.
É preciso achar um "culpado"
por isso? Uma única causa determina essas situações? Parece que sim.
A "culpa" é da tecnologia, dizem os
afoitos! Ela aproximou de tal modo as imagens e a comunicação entre as pessoas,
que se tornou quase inevitável a
intimidade, a exposição mútua, a expressão de emoções e dos tons de cinza.
Amizades também se constroem a partir do virtual, mas essas não incomodam
tanto.
Há verdade nisso tudo, mas não toda e nem
a definitiva.
Quanto menos se entende como um aparelho
funciona, mais misterioso e mágico parece. A técnica por trás de um computador
ou de um celular só é conhecida por quem se dedicou ao assunto e, mesmo esses,
tendem a divinizá-la ou atribuir-lhe poderes demoníacos. Imaginem o impacto que
os primeiros humanos sofreram com a descoberta do fogo. Há toda uma história de
significados e até uma psicanálise em torno do fogo e de seus milagres
incríveis.
Com
as redes sociais e seu funcionamento acontece hoje a mesma coisa. Os
"experts", às vezes, as idolatram e enxergam nelas possibilidades
infinitas. Os moralistas, os religiosos e os ideólogos da modernidade as
demonizam e as acusam de incrementar os divórcios e a pornografia.
O "meio é a mensagem", dizia o
célebre Marshall McLulhan, radicalizando a importância dos meios de
comunicação. Isto é, os meios condicionam o conteúdo. Há um exagero na afirmação, ainda que se
baseie na idéia interessante de que a mídia é uma extensão do sujeito humano,
sobretudo do seu corpo. A frase do
teórico canadense implicava em criar um fetiche da técnica,
atribuindo-lhe um significado moral e estimulando a "tecnofobia".
O medo da tecnologia -- por exemplo, a
ojeriza ao computador ou ao telefone celular -- é uma doença contemporânea tão
alastrada quanto o seu contrário, a adesão cega. A tecnofobia se manifesta por
meio dos seus sintomas, inclusive o da condenação moral.
As crianças são automaticamente advertidas
por seu interesse lúdico, vigiadas e
admoestadas quanto ao seu uso, ainda que o único problema real seria o excesso,
o perigo de sedução dos pedófilos e o abuso. Quando não estão apenas
trabalhando, os adultos são suspeitos de perderem tempo em namoricos, flertes e
por seu vício pela pornografia.
É impossível falar da tecnofobia sem
lembrar a observação citada pelo falecido filósofo Gérard Lebrun , segundo a
qual nossa época parece ter invertido as perguntas de Kant sobre o que podemos
querer e o que devemos fazer, mas as substituiu pelas indagações "o que
precisamos temer?" e "o que devemos proibir?".
Vivemos num tempo de muitos medos, inclusive o medo da
tecnologia.
É verdade que o computador facilitou a
comunicação íntima e, ao mesmo tempo, a distância entre as pessoas. O advento da internet
possibilitou a criação das "salas de bate-papo". Foi criado um novo modo de intimidade, sempre
com o risco da exposição excessiva. É um tanto artificial, na verdade, mas não
deixa de ser uma forma interessante de expressão.
Reforça o narcisismo e o exibicionismo?
Não. Apenas os veicula. Quem quiser se exibir , pode. Quem tiver mais
recato, vergonha ou timidez-- que também
são um sentimentos narcísicos--, consegue
se preservar. Há também uma experiência de pertinência e de reconhecimento nos
processos de resposta do outro, como o "like" ou os comentários
favoráveis.
A paixão de Facebook é facilitada, mas não
provocada. E começa pela possibilidade de idealização que não depende só do que
é oferecido pelo meio. As pessoas
aparecem felizes, em fotos selecionadas, bonitas e ativas, narrando suas próprias vidas e histórias, mas
isso sempre foi assim no contato humano de superfície ou inicial.
Só o preconceito contra o "narcisismo
de vida", como se fosse "de morte" (expressões de André Green),
poderia colar na mídia, antropormoficamente, o que é constituído pela subjetividade humana.
O computador não é em si mesmo um objeto narcísico, mas pode ser assim utilizado,
quando sentido como uma extensão do próprio sujeito ou de seu corpo.
A imagem projetada na tela, vista pelo
outro, pode gerar uma proximidade e intimidade inicialmente artificiais, que
vão depender, em cada caso, do seu progresso e da sinceridade dos
participantes. Pessoas comuns, assim como as "celebridades", podem
estar juntas no Facebook, dando uma impressão de inclusão num meio especial,
seleto e agradável.
Os namoros de Facebook podem ser perigosos
quando os participantes acreditam de um
modo especial na Coisa Real. E, " acreditando", podem se
comportar "como se" ela existisse. São as vicissitudes do que os
psicanalistas chamam de "alucinação normal" ou "transformação em
alucinose", mas que prefiro denominar de ilusão -- como aquela que
o bebê vivencia, òbviamente sem o saber, ao criar o seio da mãe no próprio
momento de encontrá-lo efetivamente no mundo, ou como a que experimentamos
geralmente na esperança e no amor.
Os que censuram, reprovam e criticam a
paixão de Facebook tendem a crer -- como diz o inglês Adam Phillips-- que "existe
um Eu que , por definição, não é
enganoso".
Os amores no Facebook são promessas de
salvação, de beleza, busca de uma "segunda chance" e de surpresas. Às
vezes, conseguem ser mais do que promessas, promissores. Nesses casos (e sempre deve-se lembrar que
cada caso é um caso à parte), é porque a idealização foi substituída pela
experiência efetiva-- "presencial", como se diz--, sem cair no
demérito e no desprezo pela pessoa que foi inicialmente idealizada.
Alguns casamentos razoáveis surgiram de
situações assim, mas essas também não foram "culpa" -- nem mérito--
da mídia. Foram apenas o encontro da esperança de duas pessoas com alguma
capacidade de se preocupar e de amadurecer.
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