quarta-feira, 3 de agosto de 2016

ESCOLA SEM PARTIDO


                                                                Reinaldo Lobo*


         Imagine seus filhos ou netos sendo obrigados a ler na escola “manuais de filosofia” de autoria do astrólogo Olavo de Carvalho, livros “de história” do professor Marco Antônio Villa, aquele que declarou não ter havido propriamente uma ditadura no Brasil, exceto “por um curto período”, ou, ainda, levados a estudar geografia política apenas com o ideólogo Demétrio Magnoli, que considera uma “formação de quadrilha” um protesto democrático assumido publicamente por respeitados historiadores.
        Para completar, imagine filhos ou netos obrigados a ter aulas de religião e leituras bíblicas das Igrejas evangélicas, além de rezar para expurgar o Capeta antes das aulas da manhã, da tarde e da noite.
       Se você concorda com esse cenário, gosta desse tipo de educação ou dos três exemplares de intelectuais citados, talvez fique tranquilo e julgue que seus filhos e netos estariam no melhor dos mundos possíveis. Pergunta inevitável: isso não seria escola partidária, doutrinária, monolítica e totalitária de direita?
        “Extirpar a mentalidade petista”, como quer o ilustre sociólogo Bolívar Lamounier, seja por decreto ou qualquer outro meio, inclusive o educacional, seria o protótipo do programa totalitário, pois não?
        Essa teoria da “escola partidária”, atribuída ao bode expiatório petista, é o pretexto idealizado para introduzir o ovo da serpente autoritária na nossa educação republicana, ainda leiga e democrática. Os que defendem essa teoria confundem pedagogia com doutrinação. Atribuem essa confusão aos adversários.
       Até prova em contrário, seria puro fascismo impor essa educação de pensamento único à nossa cultura pluralista, na qual os educadores podem até hoje expor livremente suas ideias e mesmo disputar qual tem a melhor delas, sem deter a hegemonia absoluta.
       O projeto da “Escola Sem Partido”, de autoria do senador Magno Malta, pastor de Igreja Evangélica envolvido em vários casos suspeitos de corrupção, é mais uma tentativa estúpida de burlar o Estado Laico. Esse senador faz parte do grupo que tem proposto mudar a constituição onde ela diz “todo poder emana do povo” para “todo poder emana de Deus”
      O mais grave é que tenha o beneplácito de muitos que se consideram sinceramente “liberais” ou da “direita civilizada”. Não deixa de ser um paradoxo curioso que liberais patrocinem uma proposta que ofende a ideia de livre concorrência (no caso, de ideias) e que reclamem que a esquerda tem vencido e conquistado o “mercado” no âmbito da universidade.
     Um deles, articulista da Folha e professor de Filosofia, Luís Felipe Pondé, vive reclamando que os estudantes só querem saber de Marx e de Foucault no currículo. Ele sabe    que nada é imposto pelas direções universitárias, pois temos escolas com inteira liberdade, até mesmo as de origem religiosa.
      Ora, com a plena autonomia reservada aos professores universitários, basta que esse professor ofereça aulas sobre John Gray, Cioran, Hobbes ou qualquer outro autor de sua preferência. E, depois, é só aguardar a afluência dos alunos. Pelo que se sabe, nada é imposto a eles, sobretudo nos cursos de Filosofia.
     Afinal, um liberal é ou não pela meritocracia? Popper costumava dizer que as ideias teóricas e científicas disputam pela sobrevivência, como acontece na natureza entre as espécies. As “menos falhadas” sobrevivem. Verdadeiro ou não, esse é um postulado genuinamente liberal. Sem ironia.
    Desconfio que a emergência desse projeto infeliz de limitar o direito de opinião dos professores, além de revelar que a estupidez humana não tem limites, não é só parte da onda conservadora que inclui, entre outras tentativas, as restrições ao casamento de pessoas do mesmo sexo. Mas vai além, tem um objetivo político que atende aos interesses do governo do interino Temer, preocupado com possíveis manifestações de massa reativas às suas medidas de “ajuste” econômico e social.
     São medidas repressivas e quem não espera uma possível resposta, em primeiro lugar, dos estudantes e intelectuais? Houve recentemente uma onda de protestos estudantis em São Paulo e no Rio contra as más condições do ensino, quase uma rebelião, com ocupações e gritos de “Abaixo o Golpe” e “Fora Temer”.
     A preocupação do novo governo de direita é com uma visível ressurreição do movimento estudantil em escala nacional, o que já vem ocorrendo desde 2013, naquelas manifestações que se iniciaram com protestos juvenis contra o preço das passagens do transporte público e que acabaram apropriadas por um movimento de massas de direita, incitado e engrossado pela mídia conservadora.
      Os articuladores da direita sempre acreditaram, ou fingiram acreditar, que todos os problemas sociais, culturais e políticos passam por uma estratégia de controle das mentes.  Essa é uma obsessão conservadora desde, pelo menos, a Guerra Fria. Falam de modo paranoico das “lavagens cerebrais”, dos “inocentes úteis”, da pedagogia da “doutrinação ideológica”, das “conversões”, das “infiltrações subversivas” e outras metáforas de origem militar e religiosa.
     Não espanta que estejam unindo hoje, como no fundamentalismo islâmico, política, força militar e Igreja. É no que acreditam como eficácia de manipulação, pois assistem ao sucesso exemplar, pragmático e financeiro, dos pastores sobre as almas desamparadas. Querem impor preventivamente um controle aos estudantes desse tipo.
     Os jovens não aprenderiam sobre a realidade política e social pela observação própria e por meio das suas famílias, mas estariam sujeitos aos malévolos “professores doutrinadores” – justamente, o que eles querem impor a todos.
     Acho que deveríamos, nós os pais e as mães, propor um projeto que proteja a democracia brasileira da estupidez fascista e do fundamentalismo religioso. São eles que falam, por exemplo, da “ideologia de gênero”, que inventaram para negar a existência de gays, travestis, transexuais, etc., como se não existissem na realidade. Só existem porque se fala deles e porque reivindicam direitos humanos! Fundamentalistas chamam de “ideologia de gênero” o que eles mesmos criaram e praticam.

      Deveríamos lutar para que existam os Olavo de Carvalho e Marco Antônio Villa, mas também os professores que dão aulas de Marx, de Foucault ou de qualquer autor malvisto pelos conservadores. Ainda que, pessoalmente, prefira que meus filhos e netos não apreciem Olavo de Carvalho nem o seus duplos, a escola democrática ainda é a melhor e deve sobreviver.

TERRORISMO



                                                         Reinaldo Lobo

       Os loucos e os fanáticos mobilizam as pessoas. São excelentes motivadores. Fascinam. Ocupam um espaço considerável na mídia, nas estatísticas e na criminologia. As pessoas saudáveis não são notícia, nem constituem um problema de saúde pública. Um homem-bomba talvez não seja necessariamente um psicótico ou psicopata, mas é um fanático. Não se pode dizer exatamente que seja são.
       O fanatismo é uma estreiteza mental. Uma forma de arrogância e de estupidez. Grupos inteiros podem ser atraídos para esses indivíduos, às vezes com características messiânicas. Estão estupidificados e rebaixados mentalmente pelo caráter coletivo da mobilização. São tomados por turbulências emocionais. Freud, Elias Canetti e Jean Paul Sartre mostraram o caráter fusional das multidões e massas encantadas pelo caráter contagioso da ação grupal. Giram em torno de promessas salvadoras, geralmente simplificações da vida política, religiosa e social. 
      O terrorismo é um fenômeno de muitas faces. Seria um erro reduzi-lo a uma manifestação patológica de alguns indivíduos enlouquecidos, ainda que seus agentes sejam desequilibrados na maioria dos casos. Envolve as condições históricas, manipulação política, estratégias e táticas de guerra, motivos sociais e econômicos.
     Um artigo recente publicado na revista francesa “Nouvel Observateur” lembrava que o terrorista utiliza a “estratégia da mosca”, isto é, age como um inseto que penetra na orelha de um elefante, a sociedade, tirando-lhe o equilíbrio e o sossego. 
    O terrorismo pretende ser uma guerra, mas difere da guerrilha clássica que visava a alvos militares e políticos específicos contra governos opressores, tentando ganhar o apoio da população civil. É diferente também das guerras convencionais, nas quais exércitos se confrontam e provocam milhares, às vezes milhões, de mortos.
     O número de mortos provocados pelo terrorismo é relativamente pequeno. O maior até agora foi em Nova York, em 2001, no atentado contra as Torres Gêmeas, quando morreram cerca de três mil pessoas. O que diferencia os ataques terroristas são os alvos -- pessoas inocentes da população civil--, o local --o interior de concentrações urbanas--, e o elemento surpresa – nunca se sabe quando e onde o terror vai eclodir.
      A principal arma do terrorismo é a própria barbárie, que enlouquece o “elefante”. Cidades inteiras ficam vulneráveis. Populações são aterrorizadas, governos precisam se justificar, a insegurança se generaliza. Levar a completa insegurança à civilização -- esta é a fórmula.
       Mao Tsé-tung, um mestre na arte clássica da guerrilha urbana e rural, dizia que um guerrilheiro deveria ser como um peixe no mar, invisível para o conjunto. E anônimo até desfechar um ataque. Se possível, deveria sobreviver após a ação. Esse conselho tem sido seguido pelos terroristas contemporâneos, com a diferença de que seus alvos são mais randômicos e aleatórios do que os da guerrilha. Além disso, o terror atual introduziu o “mártir”, o (a) suicida que explode junto com suas vítimas. Isso o torna mais eficiente e ameaçador. O fato de não se importar em sobreviver revela o caráter niilista do terrorismo atual.
       O anonimato do terrorista islâmico não é tão garantido, pois pode ser identificado quanto à sua origem árabe ou do Oriente Médio. No entanto, até esse detalhe vem se modificando, com a adesão de malucos não árabes a grupos como o Estado Islâmico, Al Qaeda e outros. Os muçulmanos tchetchenos, por exemplo, também passam por ocidentais sem risco de identificação. Ou seja, o fenômeno está longe de acabar e continua a se expandir.    
       Um fator predominante da permanência do terrorismo é a sociedade do espetáculo e da comunicação generalizada em que vivemos. Um evento desses precisa ser noticiado e comunicado para o mundo todo, pois o fanático visa não a convencer por persuasão o outro, mas a impor um fato como demonstração de seu ponto de vista “superior”, como “exemplo” para a humanidade e os seus próprios seguidores. O evento é uma corroboração de seu poder desestabilizador. Mas é também o meio de atormentar o “elefante” a ponto de desorganizar seus rumos e decisões.
       Muitos intérpretes veem o terrorismo como uma luta do arcaico contra o moderno. Outros completam o raciocínio, dizendo que é o conflito do particular contra a universalização imposta pela sociedade de consumo e a globalização. Isso parece ser parcialmente verdadeiro.
      Já o sociólogo Jean Baudrillard, comentando o Onze de Setembro de 2001, dizia que não havia nada mais moderno do que o novo terror, uma vez que agiu como uma espécie de Ong fora do Estado, utilizando-se da sofisticação tecnológica mais avançada, além de ter como agentes engenheiros e estudantes bastante modernos e articulados, que levavam vidas perfeitamente “ocidentais”.
       Penso que as duas visões podem ser verdadeiras. De fato, parece haver no terrorismo atual uma resistência à globalização e uma busca da manutenção das culturas singulares. O Estado Islâmico propõe a volta a um Califado do século XII. Mas esse é o paradoxo do terror:  usa exatamente os meios oferecidos pela contemporaneidade para combatê-la.

       Ainda não se sabe o melhor meio de derrotar imediatamente esse fenômeno assustador. Alguns acham que só a violência resolve.  No entanto, espero que não haja muita dúvida de que o caminho mais adequado para enfrentar a estupidez e a arrogância seja ampliar o pensamento, a imaginação, a curiosidade pelo outro, o diálogo possível e uma cultura de paz.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

XENOFOBIA

   

                                                           Reinaldo Lobo

        Se houve um mérito na vida violenta de Osama Bin Laden foi o de ter destruído o mito histórico da “globalização” em 11 de setembro de 2001. A ideia de uma livre circulação dos cidadãos, das culturas, dos valores, das mentalidades entre os países e de um fim definitivo do Estado-Nação, desabou no exato momento da queda das Torres Gêmeas, levando junto as crenças no universalismo e na paz perpétua.
        Ainda é possível pensar, como fazem certamente os marxistas ortodoxos e os liberais idem, em um livre trânsito das mercadorias e dos negócios. É verdade que as “fronteiras” mudaram relativamente na Europa e vários organismos internacionais de regulação da economia, como o Banco Mundial, o FMI, a OMC, a própria União Européia, enfraqueceram os Estados, assim como a existência de um capitalismo quase que inteiramente fundado nas grandes corporações mundiais tende a romper os limites das barreiras nacionais e regionais.
      Tudo isso não significa, entretanto, que os particularismos tenham desaparecido, apesar de mudanças estruturais na esfera econômica em larga escala, no comércio, no consumo e na produção. Nem tudo está relacionado apenas à economia e, às vezes, nem ao imaginário capitalista, num sentido estrito.  O Estado Islâmico, por exemplo, ressuscitou um imaginário feudal e pré-capitalista, que está enraizado na cultura do Oriente Médio.
     A resistência da Grã-Bretanha em permanecer no sistema monetário e econômico do Mercado Comum Europeu (a reação BREXIT) revela apenas um sinal tardio do paradoxo do mundo contemporâneo, onde crescem espantosamente os fenômenos da xenofobia e do racismo.
     O conflito revelado em 2001 no Onze de Setembro é a dicotomia entre, de um lado, o universalismo relativo aos seres humanos, que têm direito ao sonho de direitos para todos e do fim dos nacionalismos excludentes, do bairrismo, da xenofobia, do racismo, e, por outro lado, o universalismo pretendido pelas “culturas” singulares.
    Como diria um autor pouco conhecido entre nós, Cornelius Castoriadis, é a confrontação entre um universalismo relativo a “todos os homens”, como é postulado pelos Direitos Humanos e o liberalismo clássico, e o universalismo postulado pelas “significações imaginárias” criadas e instituídas por uma cultura concreta ou específica. Essas significações particulares, que não são apenas “valores” abstratos, conferem uma identidade real aos cidadãos dessas nações, regiões ou tribos em particular. São a sua “realidade” instituída, que consideram, em muitos casos, a única existente e que postulam muitas vezes como a “verdadeira” e a “universal”. Num certo sentido, são mesmo, pois são criações igualmente humanas.
     Se você convidar um árabe a deixar de ser árabe ou mesmo muçulmano, certamente dirá que deseja roubar-lhe a identidade e destruir seu legítimo direito de ser quem é. Se convidasse um russo a pertencer a uma união entre nacionalidades diferentes, como ocorreu na falecida União Soviética, mas que, para isso, deveria deixar de ser russo, ele poderia até submeter-se pela força, mas certamente não aceitaria o convite de bom grado.  Poucos duvidam que uma das causas da decadência da então “união das repúblicas soviéticas” foi a resistência de seus diversos povos a se submeterem a uma uniformização.
      A proposta de uma “globalização” a partir de interesses econômicos “comuns” (que também não são tão comuns assim) passa por cima desse conflito entre as culturas singulares e a universalização. Além disso, resta sempre a pergunta: globalização comandada por quem? Submetida a quais valores ou interesses?  
     Há, no sentido dessas perguntas, uma diferença fundamental entre a xenofobia européia em relação aos refugiados e imigrantes do Terceiro Mundo, originada pelo racismo e o temor de perda de privilégios, que conduziu psicologicamente uma maioria do povo inglês a votar pela saída da União Européia, e a resistência dos povos subdesenvolvidos à imposição pelo poder de uma “globalização” provinda de uma cultura dominante e colonizadora. 
     Essa diferença é explicativa, mas não justifica a xenofobia em nenhum dos casos. Tampouco justifica o uso da violência. Sabemos que xenofobia vem do conceito de “xenós” (estrangeiro) e “phóbos” (medo), ou seja, “medo do estrangeiro”. Define o medo, a rejeição, o estranhamento e/ou o ódio ao estrangeiro.
     Sua manifestação psíquica provém da tendência da mente humana, sobretudo de seu narcisismo e insegurança existencial, de odiar aquilo que não é ela mesma ou o que ameaça sua percepção de estabilidade. Como diria Caetano Veloso, “Narciso acha feio o que não é ele mesmo”. As manifestações xenófobas variam desde o desprezo mais ou menos explícito, o isolamento do outro, sua expulsão, até as agressões e o assassinato.
     Uma forma muito frequente de xenofobia é a que se exerce em função do racismo e não por que possam existir diferenças apenas de natureza econômica ou nacionalista. Em vários casos os fatores se combinam.
     Em alguns lugares, como nos Estados Unidos, o governo se declara anti- racista e anti-bairrista, mas sabe-se que existem subculturas racistas muito fortes no interior da sociedade norte-americana, até no nível do poder político. Mesmo com um presidente negro, o racismo prossegue e, pelo menos um candidato à sua sucessão, Donald Trump, não esconde sua rejeição a negros e não-brancos em geral, como os hispânicos. Na Rússia, ocorre algo parecido que vem desde a extinta União Soviética: oficialmente o governo era e é antirracista, mas é conhecido o estímulo de poderosos ao antissemitismo e, agora, também a rejeição aos muçulmanos.
     O paradoxo da xenofobia e do racismo é que, para afirmar uma “identidade” ou os “valores” singulares, sejam nacionais, grupais ou individuais, necessitam afrontar a esfera dos direitos humanos universais.
     Em outras palavras, a xenofobia reveste-se de violência e de ódio porque representa, já na saída ou na sua fonte, uma transgressão, às vezes de forma criminosa, das normas gerais e uma violação particular dos direitos do outro.
     Sua fraqueza está no fato de que agride tanto os direitos universais quanto os direitos presumidos de outra cultura. A sua força, contudo, está na persistência de sua existência ao longo da história e na dificuldade de erradicá-la.

    O sonho de acabar com a xenofobia só se poderia realizar se houvesse uma sociedade em que os cidadãos fossem verdadeiramente conscientes da autonomia do outro, eles próprios autônomos e capazes de autogerir humana e democraticamente a sua sociedade. Ainda estamos longe disso, mas o projeto existe potencialmente sob o nome de democracia e não deveria ser extinto. 

quarta-feira, 22 de junho de 2016

ÓDIO E HOMOFOBIA


                                                          Reinaldo Lobo

       Uma interpretação psicanalítica clássica bastante frequente sobre o ódio que muitas pessoas sentem em relação à homossexualidade afirma que elas têm um desejo homossexual latente, inconsciente. Projetam e identificam no outro o seu próprio impulso proibido, passam a rejeitar ou a temer defensivamente essa pessoa rotulada. Isso é verdade em muitos casos encontrados na clínica e na vida. Mas a explicação não esgota o assunto e exclui aspectos mais amplos.
       As raízes do ódio homofóbico parecem estar em duas fontes principais, uma individual e outra social. Tudo indica que uma reforça a outra. A primeira é bastante profunda: é a tendência fundamental da mente a rejeitar e, assim, odiar o que não é ela mesma. A segunda é uma lei quase férrea das instituições sociais para o seu “fechamento”, isto é, em torno de seus valores ou das significações imaginárias que sustentam e buscam impor a todos os seus membros.
     Há uma onipotência nos inícios da psique, no mais arcaico, que é constitutiva dos seres humanos e que permanece ativa ao longo de toda nossa vida, em maior ou menor escala nas várias pessoas. Essa onipotência não pode ser ameaçada por aquilo que lhe parece diferente ou alheio. A inclinação é rejeitar ou anexar como seu o que soa “estranho” ou “estrangeiro”.
     Quando surge esse “outro”, que pode ser um comportamento ou mesmo um ser humano semelhante cuja presença ameaça a nossa estabilidade perceptiva, então a reação pode variar da mais radical intolerância a uma readaptação necessária da própria percepção. Do ponto de vista psíquico e identitário, essa é a mesma base do racismo e da xenofobia. 
     A explicação disso é um pouco paradoxal, complexa, mas fácil de entender. “O ódio é mais velho que o amor”, dizia Freud. Isso é verdadeiro quando falamos do amor no sentido da relação habitual, como se diz tecnicamente em psicanálise, o “amor de objeto”. No entanto, o ódio não é mais velho do que um tipo de amor primitivo, originário do próprio “Eu”, que costuma ser chamado de modo inadequado de “narcisismo primário”. É o fechamento “representacional” “afetivo” e “desejante” em si mesma da cápsula psíquica original. Freud viu esse fechamento em si mesmo do sujeito humano. Usou o termo “autismo”, tomado de Bleuler, para designá-lo. Comparou esse estado primário autocentrado do ser humano, incluindo a função alimentadora da mãe, a um ovo de pássaro.
         Esse fechamento é o que se transforma para a mente, no dizer do filósofo e psicanalista Cornelius Castoriadis, na matriz do sentido. Sentido do pensar, das coisas, da vida. Explicando melhor, é aquilo que o núcleo da psique “compreenderá” ou tomará em “consideração” daí em diante, e para sempre, é esse estado tendente ao “unitário”, no qual “sujeito” e “objeto” são idênticos e desejos, representação e afetos são a mesma e única coisa. Desejo é, afinal, representação (posse psíquica) do desejado e, pois, afeto de prazer – que é a forma mais pura e mais poderosa de onipotência do pensamento. Esse é o sentido que a mente sempre buscará e que nunca poderá ser atingido no mundo real. Seus substitutos serão mágicos e místicos, crenças fanáticas e radicais.
          O ódio homofóbico parece ser, portanto, a reação de uma mente temporária ou permanentemente regredida, primitiva, investida “narcisicamente”, a uma ameaça contra a sua economia interna. Essa presença agride seu equilíbrio, muitas vezes precário, provocado pelo que é diferente, novo e difícil de ser pensado ou de se atribuir um sentido conhecido. A homossexualidade para um indivíduo cuja identidade está definida como heterossexual é uma ameaça à sua segurança, se não puder dar um sentido pensado à própria percepção do que vê, sente ou ouve. De certo modo, é uma espécie de queda da sua cidadela, constituída pela afirmação de sua identidade, tida como unívoca e certa.
           Assim como o ódio racista pode ser uma defesa contra a perda de parâmetros do sujeito e a sua simultânea afirmação da própria identidade, a hostilidade homofóbica pretende ser uma afirmação do indivíduo heterossexual. Não é feita pela via do pensamento e da reflexão, mas por meio de recursos primários e reativos. Nestas condições, geralmente falha e se torna violência explícita.
          A relação entre a fonte psíquica do ódio e a social é fácil de compreender. No caso do ódio homofóbico, como em vários outros, é o processo de socialização imposto à mente, por meio do qual é obrigada a aceitar a sociedade , seus valores dominantes e a “realidade”, desde que a sociedade forneça o  “sentido” do qual a psique necessita e demanda. A socialização se baseia na necessidade biológica, como a fome, mas também na de sentido. Ser socializado significa incorporar os valores, os mitos, as crenças, as ideologias de uma determinada organização social. Karl Manheinn, o sociólogo estudioso da ideologia, dizia que todo indivíduo possui dentro de sua mente, consciente ou não, um esqueleto representativo da sociedade em que vive.
        Há uma violência ética na socialização humana em que certos tipos de conduta são aceitos e outros não. Quando aparece uma forma “mutante” ou “aberrante” de conduta, ela é rejeitada até acabar, ou não, por ser incorporada ao corpo identitário da sociedade. Até há pouco tempo, o casamento entre pessoas do mesmo sexo era considerado “estrangeiro” ao corpo social e, em certa medida ainda é, mas já foi incorporado juridicamente em vários países e lugares. Foi um avanço resultante dos movimentos LGBT e de camadas mais esclarecidas e pensantes das respectivas sociedades.
         Por todas essas dimensões do fenômeno do ódio homofóbico -- que pode ser considerado uma patologia social do reconhecimento humano, uma espécie de inaceitação terrorista do outro e que contém uma tal violência ética que chega a ser uma ameaça à evolução social--, ele não pode ser reduzido a uma simples somatória de casos individuais de defesa em face de uma homossexualidade latente.
       A ideia de reduzir a homofobia a uma defesa individual tem o inconveniente de conter uma armadilha perigosa, pois aponta como a causa eficiente desse ódio a própria ... homossexualidade.
      Em outras palavras carregadas de carga moral, a culpa pela rejeição à homossexualidade estaria no desejo implícito nela mesma.
     Ora, a pergunta essencial é: quem decretou para as sociedades que o desejo por alguém do mesmo sexo seria, em si mesmo, perigoso? 

    Foram elas próprias as autoras do decreto e podem mudar, tornando-se mais tolerantes à diversidade. 

quarta-feira, 8 de junho de 2016

OS MUITOS FILHOS DE SAUL


                                                                                Reinaldo Lobo*
        A inquieta câmera cinematográfica nos coloca dentro do campo de concentração de Auschwitz, em 1944. Enfocando o rosto e as costas de Saul marcadas com um X, tendo silhuetas e ruídos aterradores como um pano de fundo levemente difuso, nós acompanhamos a personagem em sua atividade mecânica de morto-vivo dentro da fábrica da morte.
       O movimento da câmera faz com que sintamos a náusea e o horror ao acompanhar os gestos do judeu Saul Aüslander, identificados com ele em sua atividade como um dos membros do “Sonderkommando”, na sua rotina de executar as tarefas mais terríveis e sujas do campo, evitadas pelos alemães. A sua função era limpar as câmaras de gás, recolher as roupas e “processar” os corpos dos mortos. A equipe era selecionada entre os que chegavam nos comboios e, por saber o “segredo” da extinção de milhares de pessoas, seus próprios membros eram assassinados após alguns meses de uso.
       A técnica de filmagem de “O Filho de Saul”, fazendo-nos perambular dentro do campo, experimentando tudo pelos olhos e ouvidos da personagem na fase de maior matança nazista, lembra muito a adotada pelo grupo dinamarquês Dogma 95, dos diretores Lars von Trier e Thomas Vintenberg. Como eles, o diretor húngaro Lazlo Nemes conduz o espectador, pela mobilidade da filmagem, aos limites mais assustadores da condição humana. Ao ponto de chegar quase à desumanização e à condição robótica imposta pelo terror e a maldade. Não há o espetáculo obsceno dos detalhes da morte, mas existem os funestos e nítidos sinais dela.
        Digo “quase” porque Saul, imerso na brutal ausência de representação, ressuscita para o simbólico quando, no trabalho num dos crematórios, reconhece ou assume como seu filho morto um menino prestes a ser submetido a uma autópsia e depois cremado. A partir daí luta desesperadamente para enterrar clandestinamente o garoto numa cerimônia judaica, o Kadish. Sua busca interminável inclui achar um rabino entre os condenados à morte.
      A frenética e apavorante trajetória para realizar a consagração religiosa constitui a restauração do significado humano. Sair do estado de morto pela via simbólica.
        Há uma cena expressiva em que Saul é advertido por um outro “Sonderkommando” de que insistir em enterrar o menino seria o mesmo que ser apanhado e morto. Saul responde: “Já estamos todos mortos! ”
        A semelhança com os filmes de Lars Von Trier e Vintenberg não tira nada do brilho dessa obra extraordinária de 2015, primeiro longa-metragem do diretor Nemes. O filme tem uma força de denúncia não só capaz de obter os prêmios mais cobiçados em Cannes e a indicação ao Oscar de 2016, mas também de destaque entre todas as principais realizações sobre o Holocausto, como Kapó” (1961), do italiano Gillo Pontecorvo, o magnífico “Shoah” (1985), do francês Claude Lanzman e “A lista de Schindler” (1993), do norte-americano Steven Spielberg.
      Pode-se dizer que “O Filho de Saul” é o mais impactante e o mais original de todos os filmes sobre o assunto. Uma obra como essa acontece só de vez em quando. O filósofo Theodor Adorno disse uma vez que, depois do Holocausto, a poesia e a arte não seriam mais possíveis. O evento seria irrepresentável, como chama a atenção a crítica de cinema Ilana Feldman. Há, sem dúvida uma dimensão difícil de representar na grande tragédia histórica, mas o vaticínio retórico de Adorno é desmentido pela reflexividade da arte -- neste caso como nos exemplos dos filmes anteriores, ou de escritores como o italiano Primo Levi ou o espanhol Jorge Semprun.
       Depois de assistir a “O Filho de Saul” uma pergunta é inevitável: como é possível que ainda existam neonazistas e fascistas no planeta, ao ponto de quase vencerem as eleições na Áustria há alguns dias e de o neofascismo deter cerca de 40% das intenções de voto na França?
       Não é um fenômeno apenas europeu, como nos lembra reportagem recente da revista “Carta Capital”. Aparece até --- pasmem! — em Israel, onde o general Yair Golan, vice-chefe do Estado Maior, advertiu no dia israelense de lembrança do Holocausto (5 de maio) que vê em seu país sinais evidentes das mesmas “tendências revoltantes” da Alemanha dos anos 30.
       Neonazismo em Israel? Sim, é bem possível. A extrema direita ligada a Benjamin Netanyahu alimenta-se do militarismo e do temor extremo em relação aos palestinos e árabes. Também criou o seu “bode expiatório”, o fundamentalista islâmico, assim como os terroristas muçulmanos o criaram em relação à figura odiada do “sionista”.
      Não custa lembrar que já houve historicamente uma tendência fascista dentro do movimento judaico, antes e nos inícios da constituição do Estado de Israel, liderada pelo radical Jabotinsky e por Menahen Begin, cujas milícias faziam a saudação com braço erguido à moda mussolinista e hitlerista.
      Não é a simples ignorância histórica o que faz reviver o nazi-fascismo. A onda de direita que avassala o mundo revela, isto sim, a crise das significações imaginárias na sociedade contemporânea, afetadas pelo consumo e o espetáculo. O espetáculo a que nos referimos é a exibição da própria alienação. Podemos falar de uma espécie de cisão, de autoengano e de “emburrecimento” atuais.
      A estupidez nazista retorna pela superficialização da vida e pelo temor de sermos destruídos pelo outro, seja ele muçulmano, refugiado do mundo subdesenvolvido, de raça ou cultura diferente. 
     Existe hoje um mundo fragmentado, falsificado, pelo espetacular. O espetáculo é o sequestro da vida e a divisão do mundo em realidade e imagem. Há uma simplificação grosseira entre “eles e nós”. Existe um distanciamento do curso da realidade histórica. É como se vivêssemos num eterno presente de gozo ou de dor.
    A banalização ou o fetiche das imagens na mídia, inclusive da morte, leva a uma contemplação passiva e robotizante, onde os vivos podem parecer mortos e os mortos vivos. Não é por acaso que zumbis e “walking deads” povoem a cultura pop e o imaginário das massas.
     Muitos acreditam que o neonazismo é resultado direto de crises econômicas, como causas automáticas, ou como se vivêssemos situação idêntica aos anos 30. Isso é verdadeiro até certo ponto. Tem havido crises sucessivas em escala mundial, além de ameaças bélicas. Mas nossa época é diferente e passa por essa sociedade da insignificância, onde os prisioneiros das coisas e do consumo estão perdendo a vida nas ruas, num cotidiano vazio de sentido, nas prisões e mesmo sob o terrorismo. É como se existissem muitos ”filhos de Saul” a serem resgatados da anomia e da in--significância.
       Somos constrangidos até à perda do simbólico, pela ausência de mediação entre as coisas e o seu sentido. Estamos hoje também bombardeados por uma propaganda enganosa que faria inveja a Goebbels. Vários sinais indicam que há um caldo de cultura facilitador do ódio, do preconceito, da violência e da estupidez.

      O neonazismo oferece um falso conjunto de símbolos para quem perdeu as significações humanas, alienou-se passivamente ou está sob o domínio do medo.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

UM BRILHO FANÁTICO


                                                                Reinaldo Lobo*

      Se você votou nos tucanos, gosta de Miami e de bons vinhos, critica o governo Lula ou Dilma, tem uma renda acima da média brasileira, então está imediatamente rotulado: é um (a) “coxinha”. Logo, é alguém cheio de preconceitos, elitista e só vê corrupção política nos outros.
     Se votou em petistas, acha que a desigualdade social e a má distribuição de renda são alguns dos problemas mais graves do País, então você não escapa: é um (a) “petralha”. Logo, deve fazer vistas grossas para a corrupção política, a subversão e, talvez, seja até um suspeito de conivência “com tudo isso que está aí”
      Os estereótipos são um resultado da radicalização da cena social, da disputa política e do ódio de classes no Brasil. Os rótulos tornaram-se verdadeiros palavrões usados para ofender e paralisar o adversário numa discussão ou troca de mensagens eletrônicas. Falar mal de alguém pode incluir “não passa de um (a) petralha” ou, do outro lado, de “um (a) coxinha”.
    Há uma forte conotação moral, de acusação e de desprezo nesses comentários. Sem falar, é claro, na onda de fundamentalismo político-religioso que invadiu o país com a chegada do neopentecostalismo e dos cultos evangélicos. Quem for, digamos, liberal e apoiar a descriminalização da maconha ou do aborto será imediatamente condenado ao fogo dos infernos.
    O fanatismo é o fenômeno implícito na rotulação e nos xingamentos. Ninguém se pergunta, nessas horas, se um petista gosta de bons vinhos ou se um eleitor de tucanos pode ter preocupações sociais. Vale tudo para “destruir” o adversário que, a essa altura, já virou um inimigo.
     Como tenho dito aqui e em outros lugares, o fanatismo tem cura. Não me refiro a mudar as condições políticas, culturais ou sociais de um país, ainda que tenham um peso considerável no assunto. Falo do aspecto ético e psíquico.
      É possível ver uma diferença entre o discurso e a ação fanática. O terrorista, um modelo padrão, age. Os que apenas discutem falam, gesticulam, gritam, mas somente de forma radical. No entanto, o discurso fanático tem consequências, estimula o ódio, dá um péssimo exemplo e se difunde como ideologia mais ou menos dominante.
      É fácil reconhecer uma pessoa fanática. Tem, via de regra, um entusiasmo militante, um forte brilho no olhar, uma obstinação e uma persistência nos argumentos e crenças. Falta ao fanático a curiosidade pelo outro e a curiosidade em geral. Ele já sabe. Detém um saber próprio e superior, uma verdade que não precisa ser oferecida, mas imposta ao outro.
     O fanático não quer convencer, quer salvar a todos nós. Conhece o que a humanidade precisa, chega a ser um altruísta dedicado à espécie humana. Os terroristas das Torres Gêmeas, de Paris e da Bélgica queriam dar um exemplo ao mundo, como se só eles soubessem o que é a verdade e que ela seria aplicável a qualquer cultura.
       O fanático, como sabemos, é um puro e um moralista extremo. O mundo está errado, todos os problemas estão projetados fora. O outro precisa ser salvo de si mesmo, pois se contaminou com os erros e a imoralidade.
      Do ponto de vista psíquico, é fácil dizer que o fanático é um louco. Só que isso seria mais um xingamento apenas, passível de igual uso fanático. Todos nós estamos sujeitos a momentos esquizo-paranóides, isto é, quando estamos de algum modo ameaçados, perseguidos, divididos e despejamos no outro as culpas pelo que está acontecendo. Vemos isso nas crianças de modo fácil, nos casais que brigam e em nós mesmos, de vez em quando. Falta ao fanático livrar-se disso que, nele, já se tornou um sistema de funcionamento. Escapa-lhe a capacidade de se preocupar e deprimir pelos erros e falhas humanos, a que está sujeito como todo mundo.
      Para tentar curar um fanático mal-humorado e sério – pois ele é o protótipo da falta de humor e da seriedade--, é preciso colocar-se dentro do seu universo de discurso, ver as coisas de seu ponto de vista e questioná-las por dentro. Empatizar com ele não é fácil, mas necessário. Assim como não se diz a um louco que ele não é Napoleão, pois vai retrucar que você é o Almirante Nelson e quer derrota-lo em Waterloo, também não se provoca um fanático.
       Um bom exemplo é dado por um especialista no assunto, o escritor israelense Amós Oz, um guia para a discussão moral do fanatismo.  Ele conta que um amigo seu, um romancista chamado Sammy Michael, de esquerda como ele, pegou um táxi e durante o percurso o motorista estava proferindo o costumeiro discurso sobre como é “imprescindível para nós, judeus, que se matem todos os árabes. Sammy o escutava e, em vez de gritar “Que homem horrível você é. Você é um nazista, um fascista? ”, ele decidiu lidar com aquilo de modo diferente.
      Ele perguntou ao motorista: “E quem você acha que deveria matar os árabes?” O motorista não hesitou: “Quem você acha? Nós! Os judeus israelenses! Temos de fazer isso! Não há alternativa, veja só o que eles estão fazendo conosco todo dia! ”  Então Sammy perguntou: “Mas quem exatamente você acha que devia se encarregar da tarefa: A polícia? Ou o Exército? Ou talvez os bombeiros? Ou as equipes médicas? Quem deve realizar o trabalho? ” O motorista coçou a cabeça e disse: “Acho que devia ser dividido de maneira equitativa entre todos nós, cada um devia matar alguns deles”. O escritor Sammy, ainda jogando o jogo, disse: “O.K., suponha que você seja designado para algum bloco de residências em sua cidade, Haifa, e você bater de porta em porta, ou tocar a campainha e perguntar: ‘Perdão, senhor, ou com licença, senhora, por acaso é árabe? ’ E se a resposta for sim, você atira nele ou nela. Aí você termina o serviço em seu bloco e está pronto para ir para casa, mas assim que se vira você em algum lugar num quarto andar de seu bloco o choro de um bebê. Você volta para atirar no bebê? Sim ou não? ”, perguntou Sammy. Houve um momento de silêncio e então o motorista disse a Sammy Michael: “Sabe, você é um homem muito cruel”.
      Essa história, dirá Amós Oz, é muito significativa porque revela que existe alguma coisa na natureza de um fanático que é sentimental e ao mesmo tempo carece de imaginação. Se você ouvir alguém dizendo que um “petralha” ou um “coxinha” precisa ser morto, faça a experiência de injetar nessa pessoa alguma imaginação e, talvez, ela consiga conversar de modo menos estúpido.

     Dá alguma esperança, não é fácil nem rápido, mas, quem sabe?, seja possível ajudar um fanático abrindo-lhe a mente para a imaginação, a curiosidade e a indagação.

terça-feira, 17 de maio de 2016

MANHAS E ARTIMANHAS

       
                                                                                Reinaldo Lobo

         Invocar Maquiavel nesse contexto de “manhas e artimanhas” em que vivemos, segundo a expressão de Dilma Rousseff, pode parecer o mesmo que convocar o Diabo para apagar o fogo do inferno. Mas é preciso chamá-lo a depor.
        Esse autor incompreendido foi o primeiro grande cientista político da modernidade ocidental. Personagem intrigante e ambíguo, porém genial. Um extremo realista. Próprio para entender o imbróglio do Brasil atual.
       Era um republicano confesso que, aparentemente, fingia só dar conselhos a príncipes. No entanto, sabia do que falava. Segundo ele, às vezes um príncipe precisa imitar os animais. Quando a maneira de agir moral dos homens não é eficaz para vencer a luta política é necessário recorrer ao modo das feras. O governante precisa saber qual dos animais imitar.
      O conselho famoso de Maquiavel é que o líder se sairá melhor se aprender a imitar “tanto a raposa quanto o leão”, combinando os ideais morais de um ser humano corajoso e combativo com as artes bestiais da força e da fraude. Inspirado em imperadores romanos, nosso autor sugere que um bom governante, digno possuidor da “virtú”, deve ter as qualidades de “um ferocíssimo leão e de uma astutíssima raposa”, e por isso será “temido e respeitado por todos”. 
     Vem daí, provavelmente, a expressão “raposa” para se referir a um tipo de político experiente e esperto, às vezes um verdadeiro velhaco. Um Eduardo Cunha, por exemplo, mas também um Tancredo Neves e um Ulysses Guimarães, que, além das qualidades “animais”, tinham a coragem e a grandeza de bons seres humanos.
     Dilma padeceu da falta de algumas dessas qualidades. Tem coragem e persistência. Em alguns momentos parece até ter uma força leonina, telúrica e indomável. Mas faltaram-lhe a habilidade política, que lhe permitiria negociar, e a astúcia da raposa. O pouco de jogo, de esperteza, apareceu tarde demais e, aparentemente, não foi sequer de sua autoria.
     Confiar em José Eduardo Cardoso, de resto um brilhante advogado e professor de Direito, para as derradeiras cartadas políticas foi o mesmo que apostar no gesto de um Waldir Maranhão para sinalizar os vícios do impeachment.
    É verdade que a própria Dilma não deve ter esperado mais do que isso: uma sinalização para o mundo, o STF e a História de que o processo de impeachment foi “sujo, hipócrita e mentiroso”. Todos sabemos que estava sendo preparado há anos, desde que ela venceu a segunda eleição. Teve apoio dos jornais, TV e revistas, da mídia conservadora, dos blogs pagos por empresários, do uso de instrumentos jurídicos e de alguns juízes. Movimentos de massa capitalizados pela Fiesp e outras organizações patronais não escondiam o seu objetivo.
     Não é possível, contudo, que Dilma não percebesse para onde se dirigia a opinião pública, mesmo que a julgasse manipulada. Não se pode crer que se apoiasse apenas no seu “dispositivo petista”, com Cardoso, Jacques Wagner e Aloísio Mercadante, nem em pequenos partidos como o PC do B e nos movimentos sociais. Tampouco poderia contar só com o suporte das empresas que patrocinaram sua campanha ou com os ministros fisiológicos que teve que engolir na coalizão chamada de “base governista”.
      Tudo indica que Dilma não sabia mesmo o que fazer, em meio a tantas e astutas raposas. Recorreu ao ex-presidente Lula, mas depois das gravações do juiz Moro, das reações do Supremo e, principalmente, do verdadeiro chefe da República de Curitiba, o procurador Janot, tudo ficou mais difícil. O próprio recurso a Lula já foi um dos muitos erros ao enfrentar a trama da politização da Justiça.
       Entre as raposas, estava Michel Temer, que vinha conspirando há muito tempo, fazendo reuniões com empresários e políticos da oposição para armar o seu bote. A aliança de Temer com Eduardo Cunha, preparando a Câmara dos Deputados e, ao mesmo tempo, manobrando o PMDB para deixar o governo acelerou o processo de impeachment, que chegou a ficar em segundo plano por um bom tempo, quando a presidente tentou mudar os rumos da política econômica, ganhando um fôlego junto à “oligarquia liberal”. 
       Dilma está caindo porque não foi capaz de artimanhas, mas vítima delas. Sua força leonina diminuiu paralelamente à perda da base política. Sua derrota veio por perder a base para governar, mas isto ocorreu porque não teve recursos para articular um projeto de conquista do seu sócio majoritário, o PMDB, que se foi deslizando cada vez mais para direita. Quando se juntou a Renan Calheiros, outra fera capaz de trair, já era tarde. Não conseguiu impor uma divisão suficiente no PMDB capaz de neutralizar o vingativo Eduardo Cunha.
        Muitos analistas políticos afirmam que a grande falha de Dilma e de seus conselheiros foi hostilizar Cunha quando ele quis proteção na Comissão de Ética do Congresso para evitar a própria cassação. Isso é um engano. Dilma naufragou quando confiou na possibilidade de manipular, com os métodos de raposa de Lula, os vários partidos da base governista, sem um programa mínimo comum capaz de elevar o nível de dignidade da política.
        Os ultrarrealistas dizem que a matéria prima do Congresso e do Ministério não permitiria elevar qualquer nível. Pode ser. Mas houve uma oportunidade quando explodiu a insatisfação popular, em 2013, de ganhar apoio do povo para reformas institucionais, sociais e políticas. Dilma dirigiu-se diretamente à população quando falou em Constituinte independente, plebiscito e reforma do quadro partidário. A crise se avizinhava, poderia, inclusive, fazer uma reforma ministerial. Faltou ali a estatura e a grandeza de uma estadista. Faltou também não só o “instinto animal”, a manha, mas a ação leonina recomendada por Maquiavel ao bom político.
       Não enfrentou o PMDB, rendeu-se ao pior da base governista e à vontade de Michel Temer, que vetou qualquer mudança. O resultado é que, agora, o galinheiro está entregue à raposa mais traiçoeira do seu entorno.

       O governo Dilma morre de uma morte ruim, ainda que sua líder continue lutando. Não é a boa morte que os gregos supunham: lutando, mas deixando a glória e a grandeza como heranças.