quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

UMA OUTRA MILITÂNCIA

                          

                                                             Reinaldo Lobo*

        Vários são veganos e naturalistas, como os antigos anarquistas. Andam de bicicleta e combatem a cultura do automóvel. Dizem que a era dos combustíveis fósseis acabou, lutam pela preservação das reservas florestais e ecológicas, pela humanização das cidades e a sustentabilidade. Não se limitam a praticar esportes e se manterem “fit”; sua energia é canalizada para causas sociais e culturais. Lembram um pouco os antigos hippies, alguns vivem fora do perímetro urbano, mas muitos trabalham nas cidades como a maioria das pessoas.
        Aos poucos, vai surgindo no Brasil uma geração preocupada em dar um uso vital e humano aos espaços públicos, como salvar praças, destiná-las às crianças, aos idosos e à convivência. Em lugar de muros, preferem pontes – para citar a sugestão do Papa Francisco. Em lugar dos congestionamentos de trânsito, da poluição do ar e da falta de mobilidade, preferem andar a pé ou de metrô, valorizando o transporte público. Lutam pela energia eólica, os mananciais e fontes alternativas. São os campeões da reciclagem e do reaproveitamento da água.
       Alguns críticos ainda repetem a tolice de que esses são os “ecochatos”. Não são. Preparam o futuro.
       As próprias crianças, educadas na época do pós-fumo, da condenação dos cigarros de tabaco e dentro de uma consciência levemente ecológica, vão exigindo condutas dos pais, como se os educassem e, devagar, engrossarão as fileiras dessa militância discreta e menos eufórica do ponto de vista ideológico.      
      A consciência de estarmos perdendo a camada da atmosfera em que respiramos e vivemos impõe uma mudança de comportamento. Isso vai além dos partidos políticos e das causas tradicionais – o que não significa que outras lutas perderam o sentido, como, por exemplo, a dos Direitos Humanos. Curiosamente, essa nova geração de militantes é também tolerante com a diversidade de gêneros, as diferenças de opiniões e intolerante com a corrupção da política tradicional. Calcula-se que existam cerca de dois milhões de militantes sociais desse tipo no País.
      Como a mudança se passa na esfera dos comportamentos, é uma política relativamente silenciosa. Não faz alarde. Produz eventos, maratonas, apelo à saúde e ao bem-estar das pessoas, o que implica em reivindicações e crítica do caráter destrutivo da economia de consumo.
      Uma dessas críticas consiste em apontar a superficialidade, a banalização e a robotização dos consumidores. Algumas intervenções dessa nova militância, como as atividades ao lar livre num país ensolarado são uma denúncia direta dos shopping centers espalhados pela febre do consumo, cuja iluminação artificial em pleno dia cria ambientes de desperdício, clausuras de aprisionamento com foco exclusivo na sedução das compras. Num país como o nosso, cheio de Sol em todos os quadrantes, chega a ser bizarro que tenhamos tantos shoppings escuros e fechados, gastando energia preciosa  durante o dia  em ambientes concentracionários.
       Nas grandes cidades, como São Paulo, Rio, Porto Alegre, Salvador, etc., as praças públicas deterioram, entregues às vezes ao uso do crack e à ocupação dos sem teto. Os carros passam com motoristas apressados e indiferentes, pois a civilização do automóvel ignora os espaços públicos de virtual convivência. É verdade que os grandes problemas sociais agravam a situação, mas a condescendência geral nos informa: enquanto as desigualdades não forem corrigidas, nada mudará. É uma meia verdade.
     Se nada for feito pela política e as autoridades, ficaremos esperando uma revolução geral, por enquanto utópica. As praças e as pessoas estarão do mesmo jeito. Geralmente, nada é feito. A própria esquerda criticou o prefeito Haddad de São Paulo por priorizar pedestres e bicicletas, enfrentado pela primeira vez a cultura do automóvel. Quanto à direita, estava no seu papel de detonar tudo o que viesse de uma política da esquerda, sobretudo do PT, uma vez que sua visão de mundo prioriza a eficiência, a produção, o lucro, o empreendedorismo e a rapidez de resultados.
       O novo prefeito de São Paulo, João Dória Jr., percebeu essa falha da direita em se restringir a uma visão conservadora e procura combinar espertamente o empreendedorismo com uma tentativa de dar uma face humana. Como é uma política contraditória, que começou negando a ousadia de Haddad, premiada e elogiada internacionalmente, sua maquiagem de São Paulo ainda não se definiu, esbarrando na atitude equivocada de pintar de cinza os muros onde havia verdadeiras obras de arte em grafites. São Paulo era considerada uma das cidades com os melhores grafites no mundo, junto com Barcelona e Nova York.
       A característica principal da outra militância surgida no País são as ações sociais e ecológicas concretas, sem fazer ideologia disso. A crítica está no gesto, não no discurso. Não se propõe a traçar programa eleitoral ou tomar o poder. Como é --digamos-- uma política de baixo para cima, questionando as autoridades, age por atitudes críticas específicas e tem a tolerância da mídia conservadora. Atua na esfera da sociedade civil, mas não é privatista, uma vez que combate por melhores usos do espaço público e pela solidariedade comunitária.
      Penso que essas ações, principalmente da juventude, ajudam a instaurar uma nova estrutura ética na organização da sociedade, que assim não se limitará a políticos de vários matizes, sobretudo os corruptos. Devagar, bem devagar, vai-se criando uma postura educativa positiva que pode, um dia, tornar-se hegemônica. O italiano Antônio Gramsci aprovaria.
      Seria muito triste e pouco inteligente se todos os que se acham progressistas se limitassem a julgar ingênua, inconsequente ou ideologicamente equivocada essa outra geração espontaneamente contestadora, acreditando -- aí sim, erradamente-- que a mudança só se faz com sindicatos, barricadas ou mimeógrafos, como no passado.

        

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

PARA QUE SERVE A POLÍTICA?



                                                              Reinaldo Lobo

         Muita gente responde facilmente a essa pergunta. Dizem: “serve para organizar, civilizar, manipular, enganar, governar o animal humano, roubar, mandar, representar o povo, buscar a felicidade geral, o bem comum, evitar a guerra direta, manter privilégios, administrar e expressar o desejo de poder e grandeza”. Há um pouco de verdade em cada um desses ângulos e é do senso comum considerar a política algo inevitável para conter os impulsos hobbesianos de combater os vizinhos. Será só isso?
        Inúmeros filósofos e sociólogos deram respostas à questão, mas ela permanece aberta. Quanto aos psicanalistas, são os mais embaraçados ao lidar com o assunto. Ou o ignoram olimpicamente ou, então, reduzem o problema a algumas referências a Freud e aos conflitos psíquicos. A política, sob essa ótica, seria uma simples amplificação de fantasias e desejos inconscientes dos indivíduos.
        Os que escreveram sobre as relações entre a psicanálise e a política limitaram-se geralmente às formulações isoladas de Freud ou às suas incursões nas áreas da filosofia da história, da sociedade e da antropologia, como “Mal-estar na Civilização”, “O Futuro de uma Ilusão”, “Moises e o Monoteísmo”. Muitos tiraram conclusões “pessimistas” ou mesmo “reacionárias” desses escritos, a respeito das implicações da psicanálise quanto aos projetos de transformação política e social.
        Os psicanalistas têm mostrado uma certa “preguiça” em refletir sobre isso e, quando o fazem, é de maneira um tanto apressada e negligente, reduzindo tudo à privacidade dos consultórios ou, em casos raros, confirmando aquelas “conclusões” conservadoras.
       Há um mito psicanalítico sobre a moderação, a paciência e a neutralidade que é escandalosamente ... político.
        Uma exceção foi o greco-francês Cornelius Castoriadis, simultaneamente filósofo e psicanalista, ao examinar essas relações entre a política e a psicanálise sem nenhum preconceito e com muita liberdade. Ele não ignorou obras importantes como “Totem e Tabu” nem as inúmeras formulações de Freud sobre a co-presença do individual e do social na análise, sem que uma face se subordine à outra.
         Castoriadis, se não respondeu à questão, fez pelo menos as perguntas certas, em lugar de se fixar em algumas opiniões esparsas de Freud e mesmo de outros autores, como Klein, Lacan e Bion. Perguntou sobre a significação da própria psicanálise, como teoria e como prática.  Sobre suas implicações internas e externas, interrogando se ela não teria nada a ver com o movimento emancipatório do Ocidente. Se o esforço de conhecer o inconsciente e de transformar o sujeito não tem nenhuma relação com a questão da liberdade e com as questões milenares da filosofia. Se a psicanálise teria sido possível fora das condições sociais e históricas que a tornaram possível na Europa. Se o conhecimento do inconsciente não teria nada a ensinar sobre a socialização dos indivíduos, portanto também sobre as instituições sociais e a política.
        Esse autor pouco conhecido no Brasil, falecido em 1997, indagava ainda por que a psicanálise como prática no campo individual seria automaticamente nula quando se passa para o campo coletivo. O que poderia haver na práxis psicanalítica capaz de ensinar algo sobre a conquista da autonomia humana?
        Essas perguntas raramente foram formuladas, em parte, pela ânsia dos psicanalistas de se afastarem das disciplinas humanas e se voltarem para um outro mito: o modelo da ciência positiva da natureza.
         Em mais de trinta anos de reflexão e pesquisa, Castoriadis postulou que a verdadeira política, aquela que se desenvolveu desde a Grécia antiga, tem algo intrínseco a ver com a psicanálise, no que se refere aos objetivos. Tomando o modelo da práxis e da criação psicanalíticas, ele sugeriu que o processo de passagem da dependência (heteronomia) para a autonomia (independência) está presente em ambas. Ou seja, o que interessa não são apenas interpretações sobre as instituições políticas, mas a correlação estrutural entre a própria disciplina psicanalítica e a natureza da política.
        A política é o que diz respeito ao poder em uma sociedade. O poder em uma sociedade  sempre terá regras a serem respeitadas, como “Não matarás”, e que concernem às decisões da coletividade para sobreviver. A liberdade não é algo espontâneo e utópico, do tipo “tudo pode”, mas decorre de decisões responsáveis sobre a própria coletividade – tem, pois, um fundamento ético.
      O objetivo da política, assim como o da psicanálise, não é o poder em si mesmo nem a felicidade humana, mas a liberdade.
       Ambas têm isso em comum: a liberdade como meta, o que implica em emancipação tanto individual como coletiva, isto é, os sujeitos se tornarem responsáveis pelo seu destino, decisões, regras, constituindo uma sociedade em que predomine autonomia e não dependência heteronômica.
       A verdadeira política deveria servir para a emancipação humana, efeito também de uma psicanálise bem-sucedida, cujo processo não acaba quando o paciente finaliza sua “cura”, mas que prossegue após, na medida em que o sujeito vem- a- ser sem descansar, pois o inconsciente não acaba, nem os riscos da regressão à heteronomia.   A democracia constituí-se assim: a liberdade é escolha, conflitos sucessivos, emancipação e responsabilidade.

        Na contribuição de Castoriadis, assim como penso, não existe liberdade “com” responsabilidade. Ela é a própria responsabilidade.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

BARBÁRIE LATENTE

                                  

                                                                    REINALDO LOBO

     O sistema atual chamado de democracia não é democrático de verdade. Vivemos em sociedades onde os cidadãos não têm a possibilidade efetiva de participar da legislação, do governo, da jurisdição e, enfim, da instituição da sociedade. Existem arremedos de participação. O resultado é a falta de confiança na Política e na Lei -- hoje maior do que nunca, como lembrou Zygmunt Bauman em uma de suas últimas entrevistas antes de falecer.
    “Todos são iguais perante a Lei, mas alguns são mais iguais do que outros”. Você já ouviu essa frase. Revela a natureza das democracias contemporâneas. De todas elas, não só do Brasil. Não se refere a uma falha legislativa localizada capaz de transformar bandidos em inocentes ou, ao contrário, culpar quem não cometeu algum crime. Não é uma brecha no sistema. É o próprio sistema. Expressa a essência das instituições jurídicas e do Estado nesses regimes em decadência.
     A desigualdade está na base da corrosão institucional, apesar da equidade formal. É a fonte da violência e da barbárie nas sociedades que se consideram “democracias liberais”. No Brasil atual, cujo grau de desigualdade social e de participação política precária é cada vez maior neste momento, tem havido explosões de violência e de criminalidade cíclicas. É possível postular um caráter sistêmico permanente, originário da mesma natureza e da mesma fonte. O que desestabiliza a chamada “paz social” é a própria base instável de uma democracia precária.
    Deve-se acrescentar à situação brasileira o fato de o País ser hoje uma sociedade de massas, como os Estados Unidos ou a Índia.  Há algumas décadas, os sociólogos se surpreendiam com a diferença entre a criminalidade brasileira e a norte-americana. Dizia-se: lá, existiam massacres aleatórios provocados por atiradores enlouquecidos que buscavam chamar a atenção e participar de forma desesperada; aqui, matava-se apenas por paixão ou por dinheiro. Estamos hoje assemelhados  aos EUA em crimes randômicos.
     A anomia, a falta de reconhecimento no trabalho e na vida, a existência precária, a carência de identidade e a dependência de decisões dos outros – tudo isso somado à miséria e à enorme desigualdade social faz lotar as prisões de gente pobre e infeliz. Ainda existem crimes de paixão e por ambição, claro, mas constituem apenas um desvio da curva. A regra tem-se tornado a configuração de formas brutais de violência.
     Dizia-se que o assassino enlouquecido, o serial-killer, as matanças coletivas e as guerras de gangues eram um fenômeno estrangeiro, alheio a um “povo pacífico e ordeiro”, como diz o clichê do discurso de juízes, políticos e autoridades em geral.
      As nossas prisões não estão repletas de seres humanos-- desesperados e embrutecidos por infâncias e famílias de um meio incapaz de dar continência e educação. Nada disso. São, como diz a linguagem jornalística-policial, “elementos” e “bandidos”. Nessa condição, podem ser mortos como mosquitos da dengue ou moscas varejeiras, privados de sua condição humana.
    A boa sociedade, os homens de bem, sentem-se aliviados quando esses “elementos” são assassinados pelo Estado ou por eles mesmos, numa guerra de gangues pela posse e distribuição das drogas.
    Um conjunto de fatores faz lotar nossos presídios infectos, inclusive a existência de uma absurda “guerra às drogas”, iniciada mundialmente lá atrás por um governante norte-americano, Richard Nixon, deposto por ser nada menos do que um delinquente. Outro ponto, especificamente brasileiro, é o desprezo da boa sociedade pelos Direitos Humanos.
     Apesar da conjunção de vários motivos para a existência da violência brasileira atual, existe um que postulamos hoje como central: a inexistência de representação legítima da própria população. O que parece ser apenas um defeito institucional localizado é, na verdade, a essência da instabilidade geral. Esse ponto provoca inércia do sistema democrático e ondas centrípetas de sequelas e efeitos colaterais. É o foco permanente de uma barbárie latente, pronta para explodir de tempos em tempos.
    Só há democracia no dia das eleições – e, mesmo assim, os candidatos são selecionados por partidos comprometidos com interesses os mais diversos. Não surpreende que existam representantes do “povo” eleitos pelo PCC, o grupo de traficantes e assassinos mais conhecido.
    No dia seguinte ao da eleição, o povo é privado de voz ativa e seus “representantes” – ligados muitas vezes a grupos econômicos e áreas de influência--, se apropriam das funções legislativas e executivas. E adeus, até as próximas eleições. Quanto aos juízes e promotores, são escolhidos por regras mais particulares, ditadas pela sua própria corporação.
     O quadro se agrava quando sabemos, pelas estatísticas dos economistas, que 8 pessoas no mundo detém riqueza equivalente a 3.6 bilhões de outros habitantes da Terra.
     Uma situação como essa não se resolve com maquiagem e reformas paliativas, mas supõe mudanças radicais nas instituições atuais. Nesse sentido, tem implícito um projeto que pode ser chamado de revolucionário, entendendo-se que revolução não significa massacres, banhos de sangue, o extermínio dos burocratas, a guilhotina ou a tomada do Palácio de Inverno. Representa a necessidade de mudanças de ordem política por iniciativas de baixo para cima, partindo da própria população, sobretudo dos mais lúcidos e dos que trabalham para sustentar a riqueza das minorias.

     Os regimes existentes no chamado mundo ocidental são erradamente denominados “democracias liberais”, mas constituem de fato “oligarquias liberais”—o que é uma contradição de termos, pois um sistema democrático não poderia nunca ser oligárquico, pois repousa por definição sobre a autonomia dos cidadãos.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A MAIORIA SILENCIADA

  

                                                              Reinaldo Lobo*

    Muitas pessoas têm preconceitos, talvez a maioria delas. Ideias politicamente incorretas sobre raça, gênero sexual, imigrantes, pobreza e democracia. Até há poucos anos, enunciar publicamente essas opiniões era uma vergonha. Poderia prejudicar alguém no trabalho ou nas relações sociais. A maioria se submetia a uma era de avanço dos direitos civis e humanos e ficava silenciosa. Mas se sentia, ao que tudo indica, injustamente silenciada.
     Com a crise econômica internacional, o fracasso da chamada globalização em promover a integração, a harmonia cultural e a universalização dos valores, vai surgindo aos poucos o retorno do reprimido. A catarse promovida nas eleições norte-americanas por Donald Trump tem acelerado o processo de virada à direita no mundo dos valores e dos costumes.
      Há alguns dias, um veterano jornalista ligado ao PSDB e ao Movimento Contra a Corrupção soltou esta pérola na sua rede social :’Homem que é homem não casa com homem”. Recebeu algumas “curtidas” de seus semelhantes. A figura criou coragem e veio a público. Saiu do armário. Assumiu sua homofobia, como se fizesse uma piada. 
     Algumas décadas atrás, seu comentário seria considerado perfeitamente natural, motivo de orgulho entre os pares. Mesmo entre jornalistas, profissionais considerados na vanguarda da opinião e dos valores, o machismo, o racismo, o conservadorismo em relação aos jovens, às drogas e às mulheres era quase o “normal”.
     Depois da revolução feminina e da entrada massiva das mulheres no mundo do trabalho, o quadro foi mudado e o estupro, por exemplo, entrou na lista das coisas muito feias. Antes, não constava.
     O senso comum, que a escritora e filósofa francesa Simone de Beauvoir chamava ironicamente de “sabedoria das nações”, prescrevia que as mulheres deveriam ser “belas, recatadas e do lar”. E ninguém sentia arrepios ou se escandalizava ao ouvir que “lugar de mulher é na cozinha” ou que “homem com homem dá lobisomem” e “mulher com mulher dá jacaré”.
      O silêncio obsequioso das maiorias deu-se em função da força das minorias em países avançados e com o respeito aos direitos humanos que se seguiu à sucessão de ditaduras e de governos autoritários na América Latina, Ásia e África, mas também na Europa e nos Estados Unidos. Os governos Nixon, Reagan, e Bush, nos EUA, Thatcher na Inglaterra, e o advento da AIDS foram sinais de uma virada conservadora, cujo ápice contra a modernização foi atingido neste momento.
       A onda de emergência dos particularismos antiglobalização, a começar pela ascensão dos cristãos evangélicos e dos muçulmanos radicais, expressa a catarse das maiorias silenciadas. Nas conversas de salão, nos púlpitos e nas arenas políticas vai deixando de ser vergonhoso mostrar-se um reacionário.
      Penso que aqueles massacres estudantis sucessivos por tiroteios nas escolas norte-americanas e o de mais de 70 pessoas por um neonazista na Noruega há uma década, não são outra coisa senão um sinal (um sintoma) da emersão de algo sinistro na cultura, agora traduzido, de forma mais benigna nas urnas e em muitas partes. Mesmo a radicalização entre direita e esquerda em muitos países, inclusive em tradicionais “democracias liberais” de caráter centrista, consiste, a meu ver, em uma liberação do que fora considerado lixo político e varrido para debaixo do tapete.
      Ainda que a cultura norte-americana -- incluindo aí o faroeste do porte de armas até para adolescentes e crianças-- seja um tanto específica, não se pode descartar o fato que se desenrolava desde as décadas de 60 e 70, na forma de uma notável ascensão dos negros e de todas as minorais a posições de igualdade.
      Os brancos conservadores norte-americanos “engoliram” essa ascensão por muito tempo, mesmo porque a ideologia dominante era liberal. Os próprios republicanos chegaram a fazer concessões notáveis, integrando uma “ala gay” no partido.
       Agora, com os excluídos e os ameaçados pela globalização manifestando sua ira em muitas áreas do mundo, o recalque se rompeu. Vieram à tona a violência e os valores mais regressivos que estavam sob o manto do silêncio e da continência. As pessoas perderam a vergonha de votar num Trump, contra a paz na Colômbia no plebiscito sobre um acordo com as FARC guerrilheiras, e pela retirada da Inglaterra do Mercado Comum Europeu, essa utopia derivada do projeto de paz perpétua de Kant.
        Há um odor de fascismo no ar, sem dúvida. A democracia e a liberdade são conceitos predominantemente racionais. O nacionalismo, o racismo, a xenofobia e o ódio ao outro pertencem à categoria de paixões baixas e primitivas. Têm características emocionais infantilizadas, mal elaboradas e brutais. Sua natureza irracional é evidente: não há lógica nem argumentos sustentáveis que os justifiquem. São puros impulsos e emoções.
        No Brasil, a onda de ódio que precedeu o impeachment da presidenta Dilma tinha esses traços. O “desrecalque” de preconceitos sufocados por uma década de “lulopetismo”, de desprezo pelos pobres, revelou, sobretudo, o medo da classe média de se proletarizar, sentindo-se excluída em benefício de uma “nova classe média” criada por Lula. Esse ódio reverbera até hoje.
       Ficou patente que os ricos e os pobres se beneficiaram e surfaram na onda de crescimento econômico da era lulista, mas as classes médias, pelo menos nos seus setores mais conservadores, ficaram espremidas, sem lugar na nova ordem “socialista”—que, de socialista, nem tinha nada.
    As massas silenciadas estão cada vez mais ruidosas, despudoradas até, reivindicando seu lugar no admirável mundo novo do século XXI, mesmo que , para isso, tenham de adotar a legitimação da violência política como seu desejo explícito.

     

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O CAPITAL DE TRUMP


                                                                      Reinaldo Lobo
    O mundo se pergunta boquiaberto de onde vem a força social e política que elegeu Donald Trump. Da classe média branca empobrecida, respondem alguns. Do “lumpen proletariado“, dizem outros. Da decepção dos mais velhos com a globalização, afirmam os sociólogos. Do medo da imigração que rouba empregos e do fracasso dos democratas em distribuir renda, insistem os economistas.
    Todos talvez tenham fragmentos de razão. O fenômeno de um arrivista chegar à presidência da maior democracia liberal do mundo, com uma linguagem confusa e inclinações fascistas, não é pouca coisa. Exige no mínimo vários ângulos de uma abordagem multidisciplinar. Mas é possível pensarmos, além disso, que os vários pedaços da realidade norte-americana não apareçam ainda como uma Gestalt mais acabada, isto é, um conjunto significativo que dê visão precisa do que está ocorrendo.
     Uma hipótese a ser considerada sobre a ascensão de Trump, assim como a respeito do Brexit, a saída da Grã-Bretanha da União Europeia, é que sejam um resultado da mudança qualitativa do Capital no século XXI, gestada nas últimas décadas do século passado.  Não é difícil de entender.
      Com a avassaladora globalização que destruiu fronteiras econômicas e barreiras culturais, com a expansão de monopólios transnacionais e a política neoliberal que vigorou em mais de 160 países do planeta nas últimas décadas do século XX, não mudou só a forma do capitalismo mundial. Mudou a sua própria composição. Sua natureza mais íntima.  Mudaram as relações de produção e as forças produtivas, deslocando seu eixo lógico. Mudou a estrutura econômica e social, com consequências inevitáveis na política.
      Nos tempos de constituição e de desenvolvimento do capitalismo mundial, em sua fase parcialmente globalizada, a sua contradição principal era entre o Capital e o Trabalho, tal como foi diagnosticada por Marx e vários outros economistas. As classes, as hierarquias, os grupos de pressão, os sindicatos, as lutas socais, a produção e a apropriação, giravam em torno desse núcleo lógico.
      Hoje o eixo mudou, após as crises sucessivas iniciadas lá por 1914, passando por 1929 e culminando em 2008, seguidas de reordenamentos, primeiro, monopolizantes, depois estatizantes, como no New Deal norte-americano e do Welfare State europeu, e mais tarde neoliberais, como nos períodos pós Reagan e Thatcher, que vem até recentemente.
       Se quisermos usar uma linguagem consagrada pelo marxismo, pode-se conjecturar que a contradição fundamental do capitalismo atual é a relação entre o crescimento econômico e o rendimento do capital. Um dos primeiros autores a notar essa relação contraditória entre renda e crescimento foi o filósofo e economista greco-francês Cornelius Castoriadis, para quem existia de longa data um mito do crescimento infinito da produção, do emprego e da tecnologia na sociedade capitalista, combinada com o consumo. Na relação com a concentração e aumento da renda, o crescimento perde, gerando um descompasso permanente e a exclusão de milhões de pessoas do processo econômico.
        Outro que fez o mesmo diagnóstico, neste caso de modo mais exaustivo e técnico, é o professor Thomas Piketty, da London School Of Economics e do MIT, hoje lecionando na École de Economie de Paris. Ele é o autor de “O Capital no Século XXI”, onde apresenta uma abundância de dados para demonstrar que a taxa de rendimento do capital supera em muito o crescimento econômico. Isso provoca uma grande concentração de renda, ao ponto de cerca de um por cento da humanidade reter o equivalente a praticamente todo o resto da riqueza mundial.
        O descompasso estrutural gera um circuito de desigualdade que, levado ao às suas últimas consequências, pode atrair os descontentes de todo o planeta para causas como as propostas por Trump ao eleitorado norte-americano de áreas falidas. As migrações, as crises cíclicas do Terceiro Mundo e a monopolização da economia em escala mundial são alguns dos efeitos extremos da crise do Capital. Os pequenos empresários do centro norte e meio leste, bem como os agricultores do meio oeste dos EUA, foram a massa de manobra do populismo de direita.
        O capitalismo é um regime que se alimenta das crises. Elas destroem mercados e abrem novas oportunidades. São conhecidos os inúmeros casos de superação das crises pela abertura de novos mercados. Uma outra forma de resolvê-las têm sido as guerras. Outra, as mudanças políticas.
       O valor principal do regime do Capital é econômico. O lucro e a renda. Os valores humanos estão em outro nível, mais baixo, de consideração. Todos sabem que o capitalismo é um regime de crises, mas nem todos têm consciência de que as crises não representam uma ameaça ao sistema, nem mesmo a sua inevitável decadência. Fazem parte de sua lógica interna e garantem sua sobrevivência. Essa é a “plasticidade” do capitalismo.
        Além de abrir ou fechar mercados, as crises cumprem a função de inovar dentro do sistema, de ocupar áreas e de destruir outras. Os bairros inteiros destruídos de algumas cidades norte-americanas, de que tanto falou Trump na campanha, comoveram o eleitorado branco empobrecido. São o resultado da globalização na área da indústria automobilística e da siderurgia.
       O medo que setores da Inglaterra têm da migração dentro da União Europeia tem o mesmo sentido sintomático de desespero diante dos resultados da internacionalização monopolista e da  concentração da renda. As populações de zonas saturadas ou deslocadas dos centros beneficiários do Capital são presas fáceis do nacionalismo e da xenofobia.

       A hora é, infelizmente, a do sucesso da direita e do extremismo fascista. 

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

A ARMA DA CRÍTICA

                                     

                                                              Reinaldo Lobo
          Os conservadores não apreciam a palavra crítica. Na melhor das hipóteses, aceitam-na acompanhada de um adjetivo: “construtiva”. Ora, não existe crítica construtiva, assim como não há uma destrutiva. Criticar é examinar as condições de possibilidade de uma situação ou de um fenômeno; é questionar, interrogar, refletir e interpretar.
         É verdade, dizia Stendhal, que um bom raciocínio ofende. Criticar é o contrário de resignar-se. Significa inquietação, pensamento com liberdade. É quase um sinônimo de pensar. “Pensar é dizer ‘não’”, mostrou o filósofo Gaston Bachelard no século passado. Sócrates, um dos primeiros grandes, foi condenado a se envenenar por ser um crítico do poder em seu tempo.
         Há algo de profundamente “negativo” na crítica. Nega o que está estabelecido, aceito ou a opacidade das aparências. Vê o que não pode ser visto facilmente. Rompe, às vezes, com o “senso comum”, mas não quer dizer “falar mal” de algo ou de alguém. Pode ser vista como um convite a destruir uma ordem social e política. Não é a própria destruição.
         A crítica acompanha -- é verdade-- muitas revoluções. Às vezes, está na origem delas. O maior filósofo do século XVIII, o alemão Immanuel Kant, foi um entusiasta da Revolução Francesa de 1789 e representou uma expressão intelectual desse movimento. Suas ideias de autonomia e igualdade identificavam-se com o lema revolucionário: “Liberté, Egalité, Fraternité”.
       Kant inaugurou toda uma filosofia moderna sobre a base da palavra crítica. Suas três perguntas básicas: “O que consigo saber? O que posso fazer? O que posso esperar? ”, constituem uma crítica do conhecimento, da ética e da história.  Dizia que aquele que provou uma vez da crítica fica enojado para sempre de todo palavreado dogmático. Era radicalmente um democrata e um defensor da liberdade de pensamento.
        Já Karl Marx, autor que inspiraria a maior revolução do século XX, na Rússia de 1917, postulava claramente na sua “Contribuição à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”, que “a arma da crítica não pode substituir, é claro, a crítica das armas”.
      A alusão direta à necessidade prática de uma revolução para mudar a sociedade, mesmo pelas armas, era uma crítica aos hegelianos de esquerda, que se limitavam a questionar as instituições no plano das ideias, sem trazer a filosofia para a terra, ao plano das coisas e da ação.
       No entanto, Marx não desvalorizava a luta com palavras. Foi jornalista por um bom tempo, escrevendo inúmeros artigos de análise do capitalismo, antes e depois de publicar o célebre “Manifesto Comunista”, de 1848 e, mais tarde, “O Capital”, em 1867. Este último tinha como subtítulo “Crítica da Economia Política”
       Tanto Kant quanto Marx disseram que o mundo, depois das grandes revoluções, nunca mais poderia ser o mesmo. Não seria mais possível pensar como se pensava antes. Efeito da crítica e de sua realização prática.
       Os conservadores diriam que, pelo menos, o comunismo preconizado pela revolução russa acabou. Sem dúvida, o comunismo pertence hoje ao passado. Mas, como sustentaram dois filósofos – digamos-- pós-comunistas, Claude Lefort e Cornelius Castoriadis, a questão do comunismo sobreviveu ao seu naufrágio: ela permanece no coração do nosso tempo.
      Estão aí, à luz do dia, os problemas da injustiça social, da desigualdade, da exploração, da concentração do Capital nas mãos de um por cento da população mundial, da escassez, das crises sucessivas do capitalismo, da anarquia do consumo desenfreado, da destruição da natureza em nome do lucro, da falta de fraternidade e de paz nas sociedades atuais.
      O pensamento conservador está certo ao fazer a sua crítica dos resultados da revolução comunista, cuja forte atração no século XX era menos inspirada nas promessas de felicidade social do que na oportunidade oferecida a uma esquerda pretensamente revolucionária de criar um Estado de tipo totalitário.
      Não foi possível reformar por dentro os regimes que reivindicavam o nome de comunistas e desabaram em sua maioria por inconsistência. Decepcionaram o assim chamado proletariado, a classe que assumiria o poder para “acabar com todas as classes”. Destruíram o sonho marxiano de uma sociedade em que se articulariam a liberdade e a igualdade, a democracia e a socialização dos meios de produção.
     O que os conservadores ainda não entenderam é que o fenômeno comunista não pode ser inteligível nem como um parêntese na história, uma espécie de aberração saída da “cabeça insana” de Marx, nem como um produto da necessidade – nasceu e se articulou da conjunção imprevisível de formas heterogêneas de organização, de ação e de pensamentos no mundo moderno, como disse Lefort.
   Para compreender o comunismo, assim como para apreender a complexidade do capitalismo, é preciso lançar um olhar abrangente sobre a sua realidade concreta, sobre os fatos intrincados – sociológicos, políticos, econômicos, jurídicos, morais, psíquicos – que lhe conferem sua especificidade. Não se pode esquecer também que o comunismo nasceu da crítica ao capitalismo, o que implica vários elementos de identificação inconscientes e involuntários. A própria emergência de uma classe dominante de burocratas e de dirigentes pode ser parte desse fenômeno.
     Estão enganados os que reduziram o comunismo à existência de um partido único ou mesmo ao poder de uma ideologia, explicando esses dois fatores à luz do efeito de sua decadência. A crítica precisa ser renovada também sobre esse aspecto.
     O capitalismo, por sua vez, parece eterno e indestrutível no mundo contemporâneo, apesar de terremotos sucessivos. Será eterno?
     A falta de alternativa aparente não elimina a crítica. Pode-se dizer que o capitalismo é um regime de crise permanente, tal o grau de instabilidade e de barbárie que incrementa. Não despareceram, a despeito do fim do comunismo, nenhum dos elementos contraditórios das sociedades regidas pelo Capital.
     Se a crítica das armas não é possível no momento, a arma da crítica não perdeu sua vigência. Lutar com palavras, como dizia o poeta Carlos Drummond de Andrade, parece ser “a luta mais vã/ no entanto, lutamos/ mal rompe a manhã”. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

CURIOSIDADE

  

                                                    Reinaldo Lobo

    Quando um jornalista perguntou ao célebre historiador inglês Arnold Toynbee por que se deu ao trabalho de escrever aos 80 anos um livro de mais de 1000 páginas sobre o antigo Egito, em lugar de estar gozando de sua aposentadoria, a resposta foi: “Curiosidade”.
    Essa inquietude mental de perguntar, pesquisar e procurar respostas é um elemento comum nas ciências, nas artes e na filosofia. A curiosidade está presente em todas elas. Há um caráter mais ou menos desinteressado nessa atitude, o que torna diferentes o desejo de saber e a simples fofoca. Quanto mais desinteressada, mais eficiente, livre e produtiva será uma investigação.
    Alguns psicanalistas falaram -- Melanie Klein entre eles-- na existência de um “instinto epistemofílico” que empurraria o ser humano, desde criancinha, para amar e buscar o conhecimento. É difícil pensar num instinto que tenha uma direção que levaria ao teorema de Pitágoras. Por definição, um instinto é apenas um impulso virtual, biologicamente determinado. Instinto é o contrário de pensar. Um instinto “do pensar” chega a parecer um contrassenso.
    No início da psicanálise, havia “instinto” para muitas coisas complexas que não eram muito bem conhecidas. O próprio Freud chama sua teoria dos instintos de “nossa mitologia”. Não há dúvida, porém, de que as crianças têm uma grande curiosidade sobre o mundo que estão descobrindo, um forte impulso para a integração de informações e para “ir para a frente “, atrás do próprio desenvolvimento.
    Foi Klein quem chamou a atenção pela primeira vez, e lamentou, a perda da curiosidade que a sociedade impõe àquela criancinha que olha fascinada para as próprias mãos, como se as estudasse. Ou que explora o seio da mãe como um território admirado e a ser conquistado. À medida em que crescem, as crianças submetem-se à autoridade dos pais e dos adultos em geral. Estes, às vezes embaraçados com as perguntas infantis, tendem a “satisfazer” sua curiosidade com respostas prontas, crenças religiosas e preconceitos.
   Exemplos como o de Toynbee costumam ser, infelizmente, raros. A proverbial curiosidade das crianças é sempre ameaçada pelas respostas dos pais ou dos adultos em geral, a começar pelos professores. As crianças consideram, até por sua dependência, que os adultos são portadores de um suposto saber. No fim das contas, é com eles que vão aprender o que é necessário para a vida em sociedade. Mas todos sabemos que os adultos são incapazes de dar explicações realmente satisfatórias a algumas demandas das crianças.
     Por exemplo, o conhecimento da sexualidade: as respostas costumam ser apenas destinadas a interromper as perguntas inquietantes das crianças, mas não chegam a explicar adequadamente o que leva as pessoas a fazerem amor ou a verdadeira origem dos bebês. A história das “sementinhas” inoculadas pelo papai na mamãe é uma caricatura de uma exposição fria de um processo científico ou a explanação da atividade dos cozinheiros numa aula gourmet. Às vezes, vem acompanhada de uma ressalva: papai faz isso na mamãe por amor. 
      Sejam as crianças enervantes, divertidas, grudentas ou mesmo “reflexivas”, surge nos adultos um desconforto pelas perguntas acachapantes, que leva à imposição da autoridade por meio da linguagem da “gente grande”. A linguagem delimita um território do que pode ser compreendido, assim como do que não pode ser ultrapassado.
     Uma vez circunscritos os limites, os pequenos tendem a seguir o curso da socialização até, pelo menos, à pré-adolescência e à rebeldia frequente da crise adolescente. Mas, mesmo aí, a sociedade foi internalizada com seus valores, tecnologias e recursos disponíveis para “matar a curiosidade”-- expressão ambígua que tem pelo menos dois significados: satisfazer as dúvidas e assassinar a atitude mental de inquirir.
       A curiosidade também tem pelo menos dois lados, um deles arrogante e destrutivo; o outro, criativo. Um é de fechamento, o outro de abertura para a imaginação.
      No mito de Édipo, dramatizado pela peça de Sófocles, há um herói que quer tudo saber, investigar até o fim quem matou o Rei num incidente na estrada. Deseja a verdade. O sábio Tirésias, como um analista, mostra que a curiosidade do herói poderá levá-lo a descobertas muito dolorosas. Édipo insiste e, no fim, descobre que matou seu próprio pai sem saber quem era e que casou com a mãe, cometendo parricídio e incesto. Sua arrogância em não parar de pesquisar jogou-o na desgraça. Ele decide “matar sua curiosidade” cegando-se para sempre.
     Essa interpretação do mito edípico, traçada em linhas gerais pelo psicanalista britânico Wilfred Bion, pode ser acrescida do comentário de que a atividade do conhecer, quando é marcada por uma gratuidade como em Toynbee, não é motivada inconscientemente apenas por culpa, mas por reparação e sublimação. Isso leva o ser humano a uma abertura para o outro: curiosidade por viajar, conhecer outras culturas, decifrar a personalidade do outro, ser tolerante com o diferente, pesquisar a cura de doenças e males da humanidade, etc.
    Admiramos os grandes criadores, cientistas, artistas e filósofos porque conseguiram, em grande parte, romper com as imposições que limitariam seus territórios e foram muito além em sua curiosidade. Saíram de uma atitude primária de voyeurs da cena primitiva, aprisionados pela curiosidade sobre o que se passa no quarto de dormir de papai e mamãe, para imaginar soluções sobre os problemas da humanidade.
    Amós Oz, o escritor israelense, diz que a curiosidade é um remédio contra o fanatismo, quando surge um legítimo interesse sobre o que o outro pensa, vive e sonha. A curiosidade abre a mente para o desconhecido e o novo, caminhos capazes de nos surpreender e de acionar nossa imaginação. Talvez até ao ponto de gerar uma cultura de paz, não de ódio.
   Hoje, as tecnologias estão criando novas gerações que recebem aparatos técnicos prontos, sem saber como se constituíram, mas não se pode esquecer que muitos desses jovens sonham com se tornar pesquisadores de novos aparelhos e querem saber como tudo isso funciona.
   A imaginação humana não é racional, certinha, e pode dar origem tanto a um Toynbee quanto a um Nero, que ficou curioso sobre “de onde veio” e abriu a barriga da mãe viva para “pesquisar”. Contudo, sempre haverá quem deseje matar a curiosidade sem destruí-la no mesmo ato.