quarta-feira, 19 de abril de 2017
quarta-feira, 29 de março de 2017
O SISTEMA EM AÇÃO
Reinaldo Lobo
O Brasil vai descobrindo, finalmente,
a existência e a extensão do Sistema Corrupto. Várias provas foram fornecidas
nos últimos dias. Ficamos sabendo que não se restringe a um esquema na
Petrobrás, nos Correios ou qualquer ente isolado estatal, paraestatal ou
privado. É uma verdadeira constelação de planetas e estrelas no meio de uma
galáxia – a “oligarquia liberal” dominante.
Soubemos, inclusive, que esse
subsistema ilegal girando em nosso universo cultural e político é longevo e
transgeracional. O patriarca da nossa maior empreiteira, o sênior Emilio
Odebrecht, revelou em depoimento para a Operação Lava Jato que seu pai, avô de
Marcelo, o neto detido, já pagava propina há décadas para operar junto ao
Estado. Não é difícil deduzir que o mesmo processo acontece em outras gigantes
do ramo.
O Sistema existe estruturado desde,
pelo menos, a Ditadura civil-militar que governou de 1964 a 1985, entrou pela
Nova República, reina até agora pelas mãos do PMDB. Não nos enganemos: esse não
é o único partido agente e beneficiário. Envolve todos os partidos, sem
exceção. No governo de FHC, um jornalista, Paulo Francis, denunciou sua
incrustação nas diretorias da Petrobrás, sem êxito. Acabou morrendo antes de
dar as provas nem apresentar suas fontes de informação.
Se não criaram, os militares foram os
responsáveis pela consolidação do Sistema. Como se imaginavam nacionalistas,
seus governos ditatoriais escolheram entregar a empreiteiras nacionais as obras
do seu ufanismo sobre um “Brasil Grande”.
Foi então que surgiram esses
gigantescos conglomerados de “tocadores de obras” financiadas pelos bancos
estatais. Participavam do esquema desde políticos como Paulo Maluf, militares
como Mário Andreazza, até fundos de pensão e empresas privadas terceirizadas.
Depois da Ditadura, já no período Sarney, o Sistema cresceu, “normalizou-se”,
ficou colado nas diversas instituições do Estado. Foi quando se consagrou a
expressão “mamar nas tetas do Estado”, dirigida como crítica tanto pelos liberais
como pelos sociólogos marxistas.
O governo FHC fez algo parecido com a
invenção militar das empreiteiras locais, ao dar toda a força para fortalecer a
concentração de um sistema bancário endógeno, criando grandes conglomerados de
uma banca nacional, em detrimento da concorrência estrangeira. Hoje, esses
monstros bancários monopolizam as decisões na esfera financeira e econômica,
têm lucros exorbitantes, estratosféricos, agindo como verdadeiros cartéis. É
esse controle da concorrência que impede a diminuição dos juros para o
consumidor, mesmo quando o Banco Central derruba a taxa Selic.
Nenhum político que quisesse se eleger
estava isento de passar pelo filtro das empreiteiras, da rede bancária privada
conivente, das indústrias e do agronegócio subsidiado. Os financiamentos de
campanhas eleitorais contavam, como ainda contam, com a retribuição de favores
dos partidos e políticos premiados.
Os marxistas costumam dizer que o
capitalismo é, por natureza, corrupto. Consideram essas acomodações sistêmicas
apenas um efeito da corrupção essencial. Ora, não é dessa corrupção definida
teoricamente que falamos. O subsistema da corrupção brasileira serve, sem dúvida,
a uma oligarquia, mas tem sua especificidade histórica e suas peculiaridades.
Muito já se escreveu sobre o patrimonialismo
herdado da colonização portuguesa e o hábito de nossos políticos se
considerarem donos do poder assim que o assumem. Vendem o poder como uma
mercadoria que detêm. Mas o mercado é
restrito, passa por essa fusão dos interesses estatais com os privados, bem
como por uma burocracia – escolhida muitas vezes pelos políticos e suas
bancadas especiais: como a da Bala, do Boi e da Bíblia.
Há
ainda os gestores dos fundos de pensão, aparentemente regrados pelo Estado, mas
que têm interesses e vida própria. Pelo menos um sociólogo, Chico de Oliveira, mostrou
que o caso brasileiro não é de capitalismo “puro”, mas algo semelhante a um
Ornitorrinco, aquele animal misto de ave e mamífero, raro, uma verdadeira
exceção na escala evolutiva.
O Sistema hoje parece ameaçado e em
crise. Isso é “culpa do PT”. Ao entrar na cena política adquirindo poder, este
introduziu o distributivismo e a participação popular, via Estado, nas benesses
do consumo e da renda.
Desequilibrou o Sistema, cuja única finalidade
era beneficiar a “oligarquia liberal”, formada pela participação nas
instituições e mantendo o subsistema
ilegal. Expôs sua contradição entre o funcionamento do crescimento das forças
produtivas e o sistema de apropriação.
A
corrupção reinante mantinha o sistema capitalista em pleno funcionamento, até a
entrada do caçula da corrupção, que trazia com ele, contudo, o vírus do
distributivismo, chamado pelos ideólogos do Sistema de populismo.
O atual governo do conglomerado
PMDB-DEM-PSDB tem a missão de consertar o desequilíbrio, restaurando a exclusão
das massas populares de qualquer participação. Para isso, é preciso primeiro
“estancar a sangria” da Lava Jato e a perseguição aos seus membros genuínos,
como sugeriu o mais claro e consciente de seus representantes, o senador Romero
Jucá. A meta inicial era só pegar o PT, mas a Lava Jato fugiu do controle, uma
vez que o Sistema considerava necessário também salvar “os outros”, como Aécio,
Serra, Alckmin, Aloisio Nunes Ferreira, etc., cujos nomes foram revelados pelas
delações das empreiteiras.
Não está fácil. Os escândalos se sucedem.
Um outro desequilíbrio ocorreu ao longo dos anos após a Ditadura, quando houve
a independência da Polícia Federal e dos jovens Procuradores da República.
Aparelhados para servir às instituições republicanas, os poderosos contavam com
que eles se voltariam apenas contra os intrusos ou estranhos ao seu grupo. Mas
a dinâmica do Judiciário, aliada à divulgação exacerbada pela própria mídia
conservadora, impõe aos juízes que considerem as provas contra o Sistema que
encontram no caminho.
Essas provas estão ameaçando conter o furor
antipopular do atual governo, ainda que este esteja inteiramente a serviço da
oligarquia. Essa é hoje a principal contradição que faz com que até juízes do
Supremo se comportem como verdadeiros militantes partidários, tentando
sustentar a continuidade do Sistema Corrupto, pois está em jogo o próprio capitalismo,
para que ele nunca acabe.
quinta-feira, 9 de março de 2017
A ESTUPIDEZ GENERALIZADA
Reinaldo Lobo
Um belo
dia o francês Antoine, aos 25 anos, decidiu ser estúpido. Anuncia aos seus
amigos mais próximos que, dali em diante, iria investir na idiotice. Tinha suas
razões.
Ser inteligente, apreciar leituras, não
gostar da burocracia e de todos os seus disfarces, detestar ser manipulado e
explorado, odiar ser obrigado a estudar assuntos desinteressantes, ser capaz de
traduzir do aramaico, conhecer profundamente o cinema de Frank Capra e de Sam
Peckinpah, “não o levaram muito longe”. Na verdade, a quase lugar algum.
O seu plano perfeito foi o de se voltar
para o cultivo da idiotice como forma de sobrevivência. Depois de tentar o
alcoolismo e o suicídio, Antoine convenceu-se de que só a estupidez lhe
permitiria ser plenamente aceito pela sociedade em que vive – a contemporânea.
E o que pode ser, pergunta-se ele, mais
estúpido do que ganhar dinheiro, muito dinheiro, e gastar em bens de consumo
inúteis?
Esse é o resumo do sentido inicial de um
pequeno grande livro francês do jovem Martin Page, de 31 anos, possivelmente
com motivos autobiográficos: ”Como me tornei um estúpido”, traduzido pela
Editora Rocco em 2005 e relançado agora.
Um texto nada estúpido, por sinal. Dele,
disse o jornal “Le Monde” que se trata de “um romance coberto de razões e que
revela um escritor que domina seu estilo tão bem quanto seu humor fino e
sutil”.
A contundência de Page está em revelar o
“espírito do tempo” dominante na sociedade atual. Apesar de se autodenominar “pós-moderna” ou
de se situar para além da modernidade, parece imediatista, primitiva,
gananciosa, violenta, regressiva, de uma ética rasteira movida por “interesses
egoístas”. E conformista, quase de um conformismo generalizado.
As exceções são pessoas como Martin Page e
alguns outros que questionam a alienação dos cidadãos rotinizados do trabalho
para casa, a balada e a TV, com seu lazer consumista e a submissão
despolitizada. E, por que não, cretinizados?
Se a modernidade era o questionamento
permanente do que estava estabelecido, tanto em arte quanto em política ou
filosofia, essa inquietação praticamente começou a desaparecer a partir de
1950. Essa é uma data arbitrária, mas é por volta dessa época que o demônio
crítico que animava o Ocidente com seu sopro criador durante mais de dois
séculos, como dizia Cornelius Castoriadis, começou a perder força até quase
sumir hoje em dia.
Não é caso de se exigir das pessoas em
geral que leiam só bons livros, obras primas de gênios, mas pode-se dizer que o
culto atual do pragmatismo e da imediatez ajuda e imbecilizar. Ah, dirão, mas
as crianças leem e-mails e frequentam computadores, assistem a filmes e são
obrigadas a redigir na internet. Sem dúvida, mas não é do QI nem de habilidades
práticas de que se fala sobre a estupidez contemporânea. Citemos a ironia da
personagem bem construída de Antoine:
“Uma coisa que se pode admitir é que
frequentar grandes obras, servir-se do seu próprio espírito, ler livros de
gênios não asseguram a ninguém inteligência, mas tornam isso provável.
Naturalmente, há pessoas que terão lido Freud, Platão, que saberão fazer
trocadilhos com os “quarks” e ver a diferença entre os falcões-peregrinos e um
peneireiro, e que, todavia, serão rematados imbecis. Não obstante,
potencialmente, estando em contato com uma multidão de estímulos e deixando seu
espírito frequentar uma atmosfera enriquecedora, a inteligência encontra
terreno favorável para o seu desenvolvimento, exatamente como uma doença. Pois
a inteligência é uma doença”.
Ironia à parte, a inteligência é uma
doença de que deveríamos nos livrar?
A personagem tem certa razão em chamá-la de
doença, pois produz inquietações. Até mesmo stress, quando se volta para o
confronto com uma realidade estabelecida. “Pensar é dizer Não! ”, lembrava o
filósofo Gaston Bachelard. É um tipo de doença contagiosa, que leva, contudo,
ao progresso.
O que estamos enfrentando no mundo atual
é o contrário do progresso, ou, pelo menos a sua negação. Vejam o estado das
artes e da política, por exemplo. Patinam sem sair do lugar. Não se pode dizer
isso da tecnologia e da ciência, que avançam, mas em direção a quê? Qual a sua
qualidade humana? Teria razão Heidegger quando desconfiava da ciência, pois ela
imporia um déficit de Ser?
Há inteligência em toda parte, mas não
parece acompanhada de sensatez. Há intelectuais, operários inteligentes,
estrategistas do mercado que trabalham para reproduzir inteligentemente o
sistema em que vivemos. O sistema é que é burro, digamos assim? A era da
letargia do consumo e dos prazeres fugazes, dos laços rápidos e do whatsApp
induz à estupidez? Dizer sim é muito fácil, talvez a situação seja mais
complexa.
Para o personagem Antoine, a estupidez é
um grande refúgio e uma forma de se relacionar com os iguais na nossa vida
cotidiana. Nesse sentido, a inteligência seria mesmo uma doença, algo negativo
capaz de atrapalhar a convivência.
No plano da técnica e da economia, a
obsolescência rápida das máquinas, celulares e outras, mostra que a
inteligência produz progresso, mas também problemas. Se algo existe hoje como
um ser funcional, amanhã se torna um não-ser, inexistente. Será que desacelerar
em vários planos o progresso, não seria tornar a convivência um pouco mais
fácil e calma, aplainá-la, ainda que mais burra?
Nosso herói Antoine pensa e repensa esses
problemas do conformismo generalizado, apesar de almejar à estupidez. E diz,
citando o roteirista de “Nascido para Matar”, Michael Herr, que comenta em seu brilhante
livro sobre Stanley Kubrick :
“A estupidez das pessoas não deriva de sua
falta de inteligência, mas da sua falta de coragem.”
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
UMA OUTRA MILITÂNCIA
Reinaldo Lobo*
Vários são veganos e naturalistas, como
os antigos anarquistas. Andam de bicicleta e combatem a cultura do automóvel.
Dizem que a era dos combustíveis fósseis acabou, lutam pela preservação das
reservas florestais e ecológicas, pela humanização das cidades e a
sustentabilidade. Não se limitam a praticar esportes e se manterem “fit”; sua
energia é canalizada para causas sociais e culturais. Lembram um pouco os
antigos hippies, alguns vivem fora do perímetro urbano, mas muitos trabalham
nas cidades como a maioria das pessoas.
Aos poucos, vai surgindo no Brasil uma
geração preocupada em dar um uso vital e humano aos espaços públicos, como
salvar praças, destiná-las às crianças, aos idosos e à convivência. Em lugar de
muros, preferem pontes – para citar a sugestão do Papa Francisco. Em lugar dos
congestionamentos de trânsito, da poluição do ar e da falta de mobilidade,
preferem andar a pé ou de metrô, valorizando o transporte público. Lutam pela
energia eólica, os mananciais e fontes alternativas. São os campeões da
reciclagem e do reaproveitamento da água.
Alguns críticos ainda repetem a tolice
de que esses são os “ecochatos”. Não são. Preparam o futuro.
As próprias crianças, educadas na época
do pós-fumo, da condenação dos cigarros de tabaco e dentro de uma consciência
levemente ecológica, vão exigindo condutas dos pais, como se os educassem e,
devagar, engrossarão as fileiras dessa militância discreta e menos eufórica do
ponto de vista ideológico.
A consciência de estarmos perdendo a
camada da atmosfera em que respiramos e vivemos impõe uma mudança de
comportamento. Isso vai além dos partidos políticos e das causas tradicionais –
o que não significa que outras lutas perderam o sentido, como, por exemplo, a
dos Direitos Humanos. Curiosamente, essa nova geração de militantes é também
tolerante com a diversidade de gêneros, as diferenças de opiniões e intolerante
com a corrupção da política tradicional. Calcula-se que existam cerca de dois
milhões de militantes sociais desse tipo no País.
Como a mudança se passa na esfera dos
comportamentos, é uma política relativamente silenciosa. Não faz alarde. Produz
eventos, maratonas, apelo à saúde e ao bem-estar das pessoas, o que implica em
reivindicações e crítica do caráter destrutivo da economia de consumo.
Uma dessas críticas consiste em apontar a
superficialidade, a banalização e a robotização dos consumidores. Algumas
intervenções dessa nova militância, como as atividades ao lar livre num país
ensolarado são uma denúncia direta dos shopping centers espalhados pela febre
do consumo, cuja iluminação artificial em pleno dia cria ambientes de
desperdício, clausuras de aprisionamento com foco exclusivo na sedução das
compras. Num país como o nosso, cheio de Sol em todos os quadrantes, chega a
ser bizarro que tenhamos tantos shoppings escuros e fechados, gastando energia
preciosa durante o dia em ambientes concentracionários.
Nas grandes cidades, como São Paulo,
Rio, Porto Alegre, Salvador, etc., as praças públicas deterioram, entregues às
vezes ao uso do crack e à ocupação dos sem teto. Os carros passam com
motoristas apressados e indiferentes, pois a civilização do automóvel ignora os
espaços públicos de virtual convivência. É verdade que os grandes problemas sociais
agravam a situação, mas a condescendência geral nos informa: enquanto as
desigualdades não forem corrigidas, nada mudará. É uma meia verdade.
Se nada for feito pela política e as
autoridades, ficaremos esperando uma revolução geral, por enquanto utópica. As
praças e as pessoas estarão do mesmo jeito. Geralmente, nada é feito. A própria
esquerda criticou o prefeito Haddad de São Paulo por priorizar pedestres e
bicicletas, enfrentado pela primeira vez a cultura do automóvel. Quanto à
direita, estava no seu papel de detonar tudo o que viesse de uma política da
esquerda, sobretudo do PT, uma vez que sua visão de mundo prioriza a
eficiência, a produção, o lucro, o empreendedorismo e a rapidez de resultados.
O novo prefeito de São Paulo, João Dória
Jr., percebeu essa falha da direita em se restringir a uma visão conservadora e
procura combinar espertamente o empreendedorismo com uma tentativa de dar uma
face humana. Como é uma política contraditória, que começou negando a ousadia
de Haddad, premiada e elogiada internacionalmente, sua maquiagem de São Paulo ainda
não se definiu, esbarrando na atitude equivocada de pintar de cinza os muros
onde havia verdadeiras obras de arte em grafites. São Paulo era considerada uma
das cidades com os melhores grafites no mundo, junto com Barcelona e Nova York.
A característica principal da outra militância
surgida no País são as ações sociais e ecológicas concretas, sem fazer
ideologia disso. A crítica está no gesto, não no discurso. Não se propõe a
traçar programa eleitoral ou tomar o poder. Como é --digamos-- uma política de
baixo para cima, questionando as autoridades, age por atitudes críticas
específicas e tem a tolerância da mídia conservadora. Atua na esfera da
sociedade civil, mas não é privatista, uma vez que combate por melhores usos do
espaço público e pela solidariedade comunitária.
Penso que essas ações, principalmente da
juventude, ajudam a instaurar uma nova estrutura ética na organização da
sociedade, que assim não se limitará a políticos de vários matizes, sobretudo
os corruptos. Devagar, bem devagar, vai-se criando uma postura educativa
positiva que pode, um dia, tornar-se hegemônica. O italiano Antônio Gramsci
aprovaria.
Seria muito triste e pouco inteligente se
todos os que se acham progressistas se limitassem a julgar ingênua, inconsequente
ou ideologicamente equivocada essa outra geração espontaneamente contestadora,
acreditando -- aí sim, erradamente-- que a mudança só se faz com sindicatos,
barricadas ou mimeógrafos, como no passado.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
PARA QUE SERVE A POLÍTICA?
Reinaldo Lobo
Muita gente responde facilmente a essa
pergunta. Dizem: “serve para organizar, civilizar, manipular, enganar, governar
o animal humano, roubar, mandar, representar o povo, buscar a felicidade geral,
o bem comum, evitar a guerra direta, manter privilégios, administrar e
expressar o desejo de poder e grandeza”. Há um pouco de verdade em cada um
desses ângulos e é do senso comum considerar a política algo inevitável para
conter os impulsos hobbesianos de combater os vizinhos. Será só isso?
Inúmeros filósofos e sociólogos deram
respostas à questão, mas ela permanece aberta. Quanto aos psicanalistas, são os
mais embaraçados ao lidar com o assunto. Ou o ignoram olimpicamente ou, então,
reduzem o problema a algumas referências a Freud e aos conflitos psíquicos. A
política, sob essa ótica, seria uma simples amplificação de fantasias e desejos
inconscientes dos indivíduos.
Os que escreveram sobre as relações
entre a psicanálise e a política limitaram-se geralmente às formulações
isoladas de Freud ou às suas incursões nas áreas da filosofia da história, da
sociedade e da antropologia, como “Mal-estar na Civilização”, “O Futuro de uma
Ilusão”, “Moises e o Monoteísmo”. Muitos tiraram conclusões “pessimistas” ou
mesmo “reacionárias” desses escritos, a respeito das implicações da psicanálise
quanto aos projetos de transformação política e social.
Os psicanalistas têm mostrado uma certa
“preguiça” em refletir sobre isso e, quando o fazem, é de maneira um tanto
apressada e negligente, reduzindo tudo à privacidade dos consultórios ou, em
casos raros, confirmando aquelas “conclusões” conservadoras.
Há um mito psicanalítico sobre a
moderação, a paciência e a neutralidade que é escandalosamente ... político.
Uma exceção foi o greco-francês
Cornelius Castoriadis, simultaneamente filósofo e psicanalista, ao examinar
essas relações entre a política e a psicanálise sem nenhum preconceito e com
muita liberdade. Ele não ignorou obras importantes como “Totem e Tabu” nem as
inúmeras formulações de Freud sobre a co-presença do individual e do social na
análise, sem que uma face se subordine à outra.
Castoriadis, se não respondeu à
questão, fez pelo menos as perguntas certas, em lugar de se fixar em algumas
opiniões esparsas de Freud e mesmo de outros autores, como Klein, Lacan e Bion.
Perguntou sobre a significação da própria psicanálise, como teoria e como
prática. Sobre suas implicações internas
e externas, interrogando se ela não teria nada a ver com o movimento
emancipatório do Ocidente. Se o esforço de conhecer o inconsciente e de
transformar o sujeito não tem nenhuma relação com a questão da liberdade e com
as questões milenares da filosofia. Se a psicanálise teria sido possível fora
das condições sociais e históricas que a tornaram possível na Europa. Se o
conhecimento do inconsciente não teria nada a ensinar sobre a socialização dos
indivíduos, portanto também sobre as instituições sociais e a política.
Esse autor pouco conhecido no Brasil,
falecido em 1997, indagava ainda por que a psicanálise como prática no campo
individual seria automaticamente nula quando se passa para o campo coletivo. O
que poderia haver na práxis psicanalítica capaz de ensinar algo sobre a
conquista da autonomia humana?
Essas perguntas raramente foram
formuladas, em parte, pela ânsia dos psicanalistas de se afastarem das
disciplinas humanas e se voltarem para um outro mito: o modelo da ciência
positiva da natureza.
Em mais de trinta anos de reflexão e pesquisa,
Castoriadis postulou que a verdadeira política, aquela que se desenvolveu desde
a Grécia antiga, tem algo intrínseco a ver com a psicanálise, no que se refere
aos objetivos. Tomando o modelo da práxis e da criação psicanalíticas, ele
sugeriu que o processo de passagem da dependência (heteronomia) para a
autonomia (independência) está presente em ambas. Ou seja, o que interessa não
são apenas interpretações sobre as instituições políticas, mas a correlação
estrutural entre a própria disciplina psicanalítica e a natureza da política.
A política é o que diz respeito ao
poder em uma sociedade. O poder em uma sociedade sempre terá regras a serem respeitadas, como
“Não matarás”, e que concernem às decisões da coletividade para sobreviver. A
liberdade não é algo espontâneo e utópico, do tipo “tudo pode”, mas decorre de
decisões responsáveis sobre a própria coletividade – tem, pois, um fundamento
ético.
O objetivo da política, assim como o da
psicanálise, não é o poder em si mesmo nem a felicidade humana, mas a
liberdade.
Ambas têm isso em comum: a liberdade
como meta, o que implica em emancipação tanto individual como coletiva, isto é,
os sujeitos se tornarem responsáveis pelo seu destino, decisões, regras,
constituindo uma sociedade em que predomine autonomia e não dependência
heteronômica.
A verdadeira política deveria servir
para a emancipação humana, efeito também de uma psicanálise bem-sucedida, cujo
processo não acaba quando o paciente finaliza sua “cura”, mas que prossegue
após, na medida em que o sujeito vem- a- ser sem descansar, pois o inconsciente
não acaba, nem os riscos da regressão à heteronomia. A democracia constituí-se assim: a liberdade é escolha,
conflitos sucessivos, emancipação e responsabilidade.
Na contribuição de Castoriadis, assim
como penso, não existe liberdade “com” responsabilidade. Ela é a própria
responsabilidade.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
BARBÁRIE LATENTE
REINALDO LOBO
O sistema atual chamado de democracia não
é democrático de verdade. Vivemos em sociedades onde os cidadãos não têm a
possibilidade efetiva de participar da legislação, do governo, da jurisdição e,
enfim, da instituição da sociedade. Existem arremedos de participação. O
resultado é a falta de confiança na Política e na Lei -- hoje maior do que nunca,
como lembrou Zygmunt Bauman em uma de suas últimas entrevistas antes de
falecer.
“Todos são iguais perante a Lei, mas alguns
são mais iguais do que outros”. Você já ouviu essa frase. Revela a natureza das
democracias contemporâneas. De todas elas, não só do Brasil. Não se refere a
uma falha legislativa localizada capaz de transformar bandidos em inocentes ou,
ao contrário, culpar quem não cometeu algum crime. Não é uma brecha no sistema.
É o próprio sistema. Expressa a essência das instituições jurídicas e do Estado
nesses regimes em decadência.
A desigualdade está na base da corrosão
institucional, apesar da equidade formal. É a fonte da violência e da barbárie
nas sociedades que se consideram “democracias liberais”. No Brasil atual, cujo
grau de desigualdade social e de participação política precária é cada vez
maior neste momento, tem havido explosões de violência e de criminalidade
cíclicas. É possível postular um caráter sistêmico permanente, originário da
mesma natureza e da mesma fonte. O que desestabiliza a chamada “paz social” é a
própria base instável de uma democracia precária.
Deve-se acrescentar à situação brasileira o
fato de o País ser hoje uma sociedade de massas, como os Estados Unidos ou a
Índia. Há algumas décadas, os sociólogos
se surpreendiam com a diferença entre a criminalidade brasileira e a
norte-americana. Dizia-se: lá, existiam massacres aleatórios provocados por
atiradores enlouquecidos que buscavam chamar a atenção e participar de forma
desesperada; aqui, matava-se apenas por paixão ou por dinheiro. Estamos hoje
assemelhados aos EUA em crimes
randômicos.
A anomia, a falta de reconhecimento no
trabalho e na vida, a existência precária, a carência de identidade e a
dependência de decisões dos outros – tudo isso somado à miséria e à enorme
desigualdade social faz lotar as prisões de gente pobre e infeliz. Ainda
existem crimes de paixão e por ambição, claro, mas constituem apenas um desvio
da curva. A regra tem-se tornado a configuração de formas brutais de violência.
Dizia-se que o assassino enlouquecido, o
serial-killer, as matanças coletivas e as guerras de gangues eram um fenômeno
estrangeiro, alheio a um “povo pacífico e ordeiro”, como diz o clichê do
discurso de juízes, políticos e autoridades em geral.
As nossas prisões não estão repletas de
seres humanos-- desesperados e embrutecidos por infâncias e famílias de um meio
incapaz de dar continência e educação. Nada disso. São, como diz a linguagem
jornalística-policial, “elementos” e “bandidos”. Nessa condição, podem ser
mortos como mosquitos da dengue ou moscas varejeiras, privados de sua condição
humana.
A boa sociedade, os homens de bem,
sentem-se aliviados quando esses “elementos” são assassinados pelo Estado ou
por eles mesmos, numa guerra de gangues pela posse e distribuição das drogas.
Um conjunto de fatores faz lotar nossos
presídios infectos, inclusive a existência de uma absurda “guerra às drogas”,
iniciada mundialmente lá atrás por um governante norte-americano, Richard
Nixon, deposto por ser nada menos do que um delinquente. Outro ponto, especificamente
brasileiro, é o desprezo da boa sociedade pelos Direitos Humanos.
Apesar da conjunção de vários motivos para
a existência da violência brasileira atual, existe um que postulamos hoje como central:
a inexistência de representação legítima da própria população. O que parece ser
apenas um defeito institucional localizado é, na verdade, a essência da
instabilidade geral. Esse ponto provoca inércia do sistema democrático e ondas
centrípetas de sequelas e efeitos colaterais. É o foco permanente de uma
barbárie latente, pronta para explodir de tempos em tempos.
Só há democracia no dia das eleições – e,
mesmo assim, os candidatos são selecionados por partidos comprometidos com
interesses os mais diversos. Não surpreende que existam representantes do
“povo” eleitos pelo PCC, o grupo de traficantes e assassinos mais conhecido.
No dia seguinte ao da eleição, o povo é privado
de voz ativa e seus “representantes” – ligados muitas vezes a grupos econômicos
e áreas de influência--, se apropriam das funções legislativas e executivas. E
adeus, até as próximas eleições. Quanto aos juízes e promotores, são escolhidos
por regras mais particulares, ditadas pela sua própria corporação.
O quadro se agrava quando sabemos, pelas
estatísticas dos economistas, que 8 pessoas no mundo detém riqueza equivalente
a 3.6 bilhões de outros habitantes da Terra.
Uma situação como essa não se resolve com
maquiagem e reformas paliativas, mas supõe mudanças radicais nas instituições
atuais. Nesse sentido, tem implícito um projeto que pode ser chamado de
revolucionário, entendendo-se que revolução não significa massacres, banhos de
sangue, o extermínio dos burocratas, a guilhotina ou a tomada do Palácio de
Inverno. Representa a necessidade de mudanças de ordem política por iniciativas
de baixo para cima, partindo da própria população, sobretudo dos mais lúcidos e
dos que trabalham para sustentar a riqueza das minorias.
Os regimes existentes no chamado mundo
ocidental são erradamente denominados “democracias liberais”, mas constituem de fato
“oligarquias liberais”—o que é uma contradição de termos, pois um sistema democrático
não poderia nunca ser oligárquico, pois repousa por definição sobre a autonomia
dos cidadãos.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
A MAIORIA SILENCIADA
Reinaldo Lobo*
Muitas pessoas têm preconceitos, talvez a
maioria delas. Ideias politicamente incorretas sobre raça, gênero sexual, imigrantes,
pobreza e democracia. Até há poucos anos, enunciar publicamente essas opiniões
era uma vergonha. Poderia prejudicar alguém no trabalho ou nas relações
sociais. A maioria se submetia a uma era de avanço dos direitos civis e humanos
e ficava silenciosa. Mas se sentia, ao que tudo indica, injustamente
silenciada.
Com a crise econômica internacional, o
fracasso da chamada globalização em promover a integração, a harmonia cultural
e a universalização dos valores, vai surgindo aos poucos o retorno do reprimido.
A catarse promovida nas eleições norte-americanas por Donald Trump tem
acelerado o processo de virada à direita no mundo dos valores e dos costumes.
Há alguns dias, um veterano jornalista
ligado ao PSDB e ao Movimento Contra a Corrupção soltou esta pérola na sua rede
social :’Homem que é homem não casa com homem”. Recebeu algumas “curtidas” de
seus semelhantes. A figura criou coragem e veio a público. Saiu do armário.
Assumiu sua homofobia, como se fizesse uma piada.
Algumas décadas atrás, seu comentário
seria considerado perfeitamente natural, motivo de orgulho entre os pares.
Mesmo entre jornalistas, profissionais considerados na vanguarda da opinião e
dos valores, o machismo, o racismo, o conservadorismo em relação aos jovens, às
drogas e às mulheres era quase o “normal”.
Depois da revolução feminina e da entrada
massiva das mulheres no mundo do trabalho, o quadro foi mudado e o estupro, por
exemplo, entrou na lista das coisas muito feias. Antes, não constava.
O senso comum, que a escritora e filósofa
francesa Simone de Beauvoir chamava ironicamente de “sabedoria das nações”,
prescrevia que as mulheres deveriam ser “belas, recatadas e do lar”. E ninguém
sentia arrepios ou se escandalizava ao ouvir que “lugar de mulher é na cozinha”
ou que “homem com homem dá lobisomem” e “mulher com mulher dá jacaré”.
O silêncio obsequioso das maiorias deu-se
em função da força das minorias em países avançados e com o respeito aos
direitos humanos que se seguiu à sucessão de ditaduras e de governos
autoritários na América Latina, Ásia e África, mas também na Europa e nos
Estados Unidos. Os governos Nixon, Reagan, e Bush, nos EUA, Thatcher na
Inglaterra, e o advento da AIDS foram sinais de uma virada conservadora, cujo
ápice contra a modernização foi atingido neste momento.
A onda de emergência dos particularismos
antiglobalização, a começar pela ascensão dos cristãos evangélicos e dos
muçulmanos radicais, expressa a catarse das maiorias silenciadas. Nas conversas
de salão, nos púlpitos e nas arenas políticas vai deixando de ser vergonhoso
mostrar-se um reacionário.
Penso que aqueles massacres estudantis
sucessivos por tiroteios nas escolas norte-americanas e o de mais de 70 pessoas
por um neonazista na Noruega há uma década, não são outra coisa senão um sinal
(um sintoma) da emersão de algo sinistro na cultura, agora traduzido, de forma
mais benigna nas urnas e em muitas partes. Mesmo a radicalização entre direita
e esquerda em muitos países, inclusive em tradicionais “democracias liberais”
de caráter centrista, consiste, a meu ver, em uma liberação do que fora
considerado lixo político e varrido para debaixo do tapete.
Ainda que a cultura norte-americana --
incluindo aí o faroeste do porte de armas até para adolescentes e crianças--
seja um tanto específica, não se pode descartar o fato que se desenrolava desde
as décadas de 60 e 70, na forma de uma notável ascensão dos negros e de todas
as minorais a posições de igualdade.
Os brancos conservadores norte-americanos
“engoliram” essa ascensão por muito tempo, mesmo porque a ideologia dominante
era liberal. Os próprios republicanos chegaram a fazer concessões notáveis,
integrando uma “ala gay” no partido.
Agora, com os excluídos e os ameaçados pela
globalização manifestando sua ira em muitas áreas do mundo, o recalque se
rompeu. Vieram à tona a violência e os valores mais regressivos que estavam sob
o manto do silêncio e da continência. As pessoas perderam a vergonha de votar
num Trump, contra a paz na Colômbia no plebiscito sobre um acordo com as FARC
guerrilheiras, e pela retirada da Inglaterra do Mercado Comum Europeu, essa
utopia derivada do projeto de paz perpétua de Kant.
Há um odor de fascismo no ar, sem
dúvida. A democracia e a liberdade são conceitos predominantemente racionais. O
nacionalismo, o racismo, a xenofobia e o ódio ao outro pertencem à categoria de
paixões baixas e primitivas. Têm características emocionais infantilizadas, mal
elaboradas e brutais. Sua natureza irracional é evidente: não há lógica nem
argumentos sustentáveis que os justifiquem. São puros impulsos e emoções.
No Brasil, a onda de ódio que precedeu
o impeachment da presidenta Dilma tinha esses traços. O “desrecalque” de
preconceitos sufocados por uma década de “lulopetismo”, de desprezo pelos pobres,
revelou, sobretudo, o medo da classe média de se proletarizar, sentindo-se
excluída em benefício de uma “nova classe média” criada por Lula. Esse ódio
reverbera até hoje.
Ficou patente que os ricos e os pobres
se beneficiaram e surfaram na onda de crescimento econômico da era lulista, mas
as classes médias, pelo menos nos seus setores mais conservadores, ficaram
espremidas, sem lugar na nova ordem “socialista”—que, de socialista, nem tinha
nada.
As massas silenciadas estão cada vez mais
ruidosas, despudoradas até, reivindicando seu lugar no admirável mundo novo do
século XXI, mesmo que , para isso, tenham de adotar a legitimação da violência
política como seu desejo explícito.
Assinar:
Postagens (Atom)