segunda-feira, 31 de julho de 2017

UMA OUTRA ESQUERDA

   
                                               
                                                                Reinaldo Lobo                                                               

       Existe uma esquerda fácil de se identificar. É a dos slogans, do entusiasmo militante, das palavras-de-ordem, da adesão cega a um lado, do maniqueísmo e até fanatismo, da falta de espírito crítico em relação aos seus próprios erros e do conforto burocrático. Costuma ser animada por valores éticos, pela busca da igualdade, justiça e liberdade, mas nem sempre sua ação se sustenta nos seus princípios ao longo da luta. É conciliatória e radical, muitas vezes contraditória nos seus fundamentos. A tentação do populismo é frequente. Pratica eventualmente um maquiavelismo barato ou, então, se fecha em algumas ideias simples e em posições extremas.
       Há, porém, uma outra esquerda mais difícil de localizar em meio à guerra ideológica e pouco reconhecida em seu valor inestimável. Esse grupo é tão esquerdista quanto o outro, mas não hesita em proclamar sua independência e dirigir um “fogo amigo” ao PT e a todos os partidos localizados nesse lado do espectro político.
     Sua visão é mais circunspecta e reflexiva, ainda que bastante crítica tanto em relação ao capitalismo quanto ao que chama de “socialismo de caserna”, dogmático e autoritário. Filia-se a uma ancestralidade mais libertária, respeita autores como o francês Merleau-Ponty, o neomarxista alemão Theodor Adorno e os epígonos da célebre Escola de Frankfurt, assim como os franceses Claude Lefort, André Gorz e, sobretudo, o greco-francês Cornelius Castoriadis, cujas teorias foram construídas, simultaneamente, nas lutas antitotalitária e anticapitalista.
     Para essa esquerda contemporânea não é apenas importante a diferença entre esquerda e direita, mas igualmente entre totalitarismo e democracia. Pode-se até arriscar dizer que se fala de uma geração intelectual “pós-totalitária”, que não ignora a monstruosidade do que se construiu em nome do socialismo no Leste Europeu e em outras partes do mundo, sem negar, contudo, avanços obtidos nas esferas sociais e políticas por muitos movimentos e governos que reivindicaram o rótulo de socialistas ou mesmo de comunistas.
     Essa posição singular é, como se vê, difícil. Obriga a navegar pela complexidade histórica atual e exige muita lucidez e sutileza nas suas análises. O que não falta, aliás, ao livro “Caminhos da Esquerda—Elementos para uma Reconstrução”, recém lançado pela Companhia das Letras, e ao seu autor, o filósofo Ruy Fausto, professor emérito da USP, também professor e doutorado pela Universidade de Paris I.
     Um livro raro na nossa Pindorama, que traça um diagnóstico duro sobre a trajetória dos governos Lula e Dilma sem perder de vista a brutal ofensiva da direita contra eles, inclusive a forma assimétrica das decisões da Lava Jato e do Judiciário, bem como o avanço direitista no mundo, sobretudo após a eleição de Trump nos Estados Unidos.
       Fausto é severo no diagnóstico geral quando diz, com razão, que um “trabalho de reconstrução” da esquerda, posta em xeque desde o evento simbólico da queda do Muro de Berlim, em 1989, “deve começar pela percepção de que, por diferentes razões e sob diferentes formas, vivemos nos últimos cem anos um período de alienação radical do projeto de esquerda em relação ao que ela representou na origem, e deveria continuar representando”.
      Uma objeção que geralmente parte da direita seria: “para salvar a esquerda, ” o autor estaria pondo entre parênteses a esquerda “realmente existente” e se refugiando numa outra, ”que só existe no seu espírito”. É a crítica sobre a falta de realismo em propor um projeto socialista depois do stalinismo, do Gulag, de Pol Pot e outros fenômenos aberrantes.
      Fausto apresenta uma resposta interessante a essa acusação frequente, ao fazer uma analogia com o destino do cristianismo sob o poder da Igreja, que teve “a Inquisição, as Cruzadas, o papa Bórgia, a noite de São Bartolomeu, o reacionarismo de uma fieira de papas, a atitude do papa Pio XII na Segunda Guerra Mundial, a homofobia, a oposição ao divórcio, o fanatismo nas diretrizes sobre a escola, enfim, uma longa história de erros e horrores do cristianismo realmente existente”. E pergunta: “Seria tão irrealista assim dizer que, apesar de tudo, o cristianismo verdadeiro é outra coisa? ”
       A esquerda não é, bem entendido, religião, mas a analogia é útil como ilustração – diz ele. Ora, houve sempre uma esquerda fora do poder de Estado e dos partidos. Mesmo dentro dos partidos e do Estado nem tudo foi sempre negativo—pense-se, diz ele, no “Front Populaire” francês dos anos 1930 ou no socialismo nórdico. Pensemos também nos movimentos sindicais de esquerda que empurraram o próprio capitalismo a fazer concessões aos trabalhadores, fornecendo condições menos desumanas de trabalho nos países mais civilizados. No plano da produção de ideias, então, nem se fale: a esquerda tem brilhado e, como diz Fausto, “para dar um exemplo, o pensamento clássico de Frankfurt não foi nenhuma brincadeira”.
      O autor não pretende substituir tudo o que foi feito ou existe na área da esquerda por algo inteiramente novo ou um plano utópico, do que não existe. Faz a crítica da corrupção em que o PT se envolveu, da sua aliança de classes típica de governos populistas com banqueiros, industriais e fazendeiros, mas não considera o projeto inicial do partido um caso perdido. Nem desdenha das conquistas em direitos humanos e sociais dos governos Lula e Dilma.
     Há que se fazer, contudo, uma profunda autocrítica, desintoxicando o PT do que ele chama de patologias da esquerda—o reformismo adesista, o populismo e o neototalitarismo. Se não fizer essa purgação ou desinfecção, esse partido não terá um futuro sério e cairá no grupo das aberrações que deformaram a esquerda ao ponto de, em alguns casos, se tornar irreconhecível, como, por exemplo, na social democracia, cuja mutação em neoliberal chega a ser risível.
      O que Fausto oferece em seu livro é muito mais do que resenhamos aqui, mas o principal é assinalar que, além da crítica, fornece elementos para a reconstrução de um projeto de esquerda que seja ao mesmo tempo democrático, anticapitalista, antipopulista, obviamente antitotalitário e com consciência ecológica.

     Uma excelente leitura para quem ainda se considera comprometido com uma ética humana de esquerda.

terça-feira, 20 de junho de 2017

FIOS QUE SEGURAM TEMER


 

                                                                 Reinaldo Lobo

 

     No romance “O Leopardo”, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, a personagem de um aristocrata e latifundiário comenta, em face de uma possível revolução republicana: “Se não nos envolvermos nisso, os outros implantam a república. Se quisermos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude. Fui claro? ”

     Esse tipo de cinismo das classes dominantes --retratado nessa obra clássica reeditada agora primorosamente no Brasil—é também uma tradição das nossas elites conservadoras. Muitos conhecem a frase do mineiro Antônio Carlos que antecedeu a Revolução de 30: ”Façamos a revolução antes que o povo a faça”.     

      Hoje, essa tradição se renova no apoio da nossa “oligarquia liberal” (latifundiários, industriais, managers de fundos de pensão, burocratas do Estado, políticos, tecnocratas e mesmo juízes e promotores) a duas atitudes dominantes na cena política e econômica:

As “reformas” implementadas pelo governo do melífluo e oportunista Michel Temer, que são, na verdade, medidas ultraconservadoras destinadas a proteger os interesses dominantes em nome da restauração da estabilidade econômica, atingida pela crise e pelos erros do “inimigo populista”.

 

A alardeada campanha anticorrupção do tipo “Mãos Limpas”, desencadeada por uma parte do Judiciário e pela mídia, apoiada pelas classes médias e a população em geral, cujo alvo, a corrupção, foi instituída historicamente por essas mesmas elites “liberais” e incrementada recentemente pelo empresariado das empreiteiras da indústria da construção, pelos burocratas estatais e por bancos públicos e privados.     


     O fio principal que ainda sustenta no poder o governo corrupto de Temer é o cinismo. De seus próprios ministros e do presidente, em primeiro lugar. Como tiveram inicialmente uma carta branca das classes dominantes para dar o golpe parlamentar que derrubou a presidente Dilma, os membros do atual governo não dão a menor importância para sua impopularidade e descrédito. Foram colocados lá -- à custa de muito dinheiro das mesmas propinas do empresariado denunciadas pela operação Lava Jato-- com uma única missão: realizar as “reformas” restauradoras da ordem e da hierarquia social tradicional e restabelecer a “confiança do Mercado”.
      O cinismo prevalecente afeta também a parte da classe média decepcionada com as mais recentes revelações da louvada Lava Jato, que parecia atingir só o odiado PT, mas trouxe à tona fatos escabrosos envolvendo o ex-candidato tucano Aécio Neves, o próprio Temer, cujo assessor foi apanhado com a mala cheia de dinheiro vivo e uma série de quase dois mil políticos. Muitos deles ajudaram na deposição do governo anterior em nome da luta anticorrupção e agora estão presos ou delatando seus pares.
      Se dependesse dessa fração da classe média, todos os políticos iriam para a cadeia, mas, constrangida por seu próprio engano em relação a seus heróis, não faz nada sobre isso nas ruas, como fez a partir de 2013.
      As bases de apoio do governo estão ameaçadas por pressões de vários lados, mas mesmo assim ele sobrevive com o argumento de que não há alternativa viável a ele no momento. E todos os setores conservadores engolem isso.
     É como se Temer dissesse: ”se me puserem na cadeia, que é o meu maior temor, quem vocês teriam com a minha desfaçatez de promover a compra dos cerca de 300 picaretas que conheço muito bem no Congresso? Liberei para eles emendas parlamentares de, no mínimo, seis milhões, além de outros benefícios menos publicáveis! ”
      O apoio sem graça do PSDB é mantido apenas a favor da “agenda das reformas”. Alguns de seus líderes mais cínicos querem trocar essa sustentação pela salvação da cabeça do Senador Aécio Neves, apanhado com a mão na cumbuca e ameaçado de ter a cabeça raspada em algum momento.
     No Supremo Tribunal Federal, sede hoje de decisões políticas, há uma divisão entre ministros que censuram os excessos da Operação Lava Jato e os que exigem o “cumprimento da Lei”. O apoio governamental é mínimo, portanto. Há uma certa paralisia da ação dos seus ministros, que engoliram o fiasco da absolvição do governo corrupto no TSE. Existe uma guerra não declarada entre a Procuradoria Geral da República, o Governo e alguns ministros do STF que querem apaziguar tudo, contendo a Lava Jato, em nome da “estabilidade”.
     Para os setores dominantes, a Lava Jato pode ter ido longe demais em sua sanha punitiva, deixando assim um fino fio de sustentação a Temer. Um fio muito frágil. A “oligarquia liberal” bem pode mudar de opinião a qualquer momento, assumindo o combate à corrupção como sua própria bandeira e procurando abrir caminho para o “novo”, que poderia significar o recurso às Forças Armadas ou forjar candidatos “anti-políticos” como Trump, Macron ou qualquer outro na moda.
     Vários setores da elite dirigente já aceitaram a “aliança populista” com Lula e o engoliram temporariamente graças ao êxito econômico do seu governo. Durante um bom tempo, Lula e o PT não eram os inimigos, pois acionaram um certo desenvolvimento, inclusive social, ampliando o mercado.
     Então,   por que não aceitariam Temer cujo slogan como vice-presidente era: “Meu gabinete sempre estará aberto aos empresários”? Hoje se sabe por quê e para quê.
     O governo não tem representatividade nem autoridade para muita coisa, mas possui a legitimidade conferida pelo cinismo dominante. Cinismo que mantém a equipe econômica do seu lado até onde lhe convier, pois é ela que sustenta o ideário neoliberal conservador.
    Os analistas “frios” da ciência econômica e política temem que todos esses polos de manutenção do poder abandonem de uma vez o governo, trazendo o caos constitucional e social, pois há dúvidas na linha de sucessão e nenhum nome capaz de manejar com facilidade o Congresso, um dos baixos, se não o mais baixo, em matéria de qualidade humana e política. O perigo estaria na hipótese impensável de o povo assumir o controle da situação.
    A frágil democracia brasileira continua nas mãos da “oligarquia liberal”, incapaz de uma hegemonia fundada em princípios e sempre ameaçada de decadência, como a aristocracia de Lampedusa. Igual ao diagnóstico do romance, está claro que o que temos de pior são as nossas elites.

      

segunda-feira, 5 de junho de 2017

AUTONOMIA OU INDIVIDUALISMO?

    

                                                                                          Reinaldo Lobo

         A ideologia neoliberal consagra o individualismo possessivo. O seu ideal de homem livre é o que cuida de si e de sua família, de preferência proprietário e capaz de “empreender”. Essa visão-de-mundo foi magnificamente resumida por Margareth Thatcher, ex-premiê britânica: “A sociedade não existe. Quando olho, vejo indivíduos e, no máximo, famílias”.
        No polo ideológico oposto, a vulgata bíblica marxista ressalta o coletivismo. Só existe a sociedade. Josef Stálin, autor do inacreditável texto “As Quatro Leis da Dialética”, definiu certa vez: “ Só temos a história coletiva. O indivíduo é uma ficção. ”
        Na verdade, é bem difícil pensar o indivíduo sem a sociedade. Mas também o contrário: a sociedade sem os indivíduos. Os seres humanos são animais sociais. Só isso garante sua sobrevivência.
        A ideia de uma liberdade sem peias, sem nenhum constrangimento ou continência, uma espécie de anarquismo dominado pelo princípio do prazer, onde o outro não exista como obstáculo nem referência, é uma ficção infantil. Essa não é a liberdade fundada na autonomia, mas nas fantasias mais primitivas, estimuladas pela sociedade de consumo para nunca serem realizadas de verdade.
       Vivemos numa sociedade anárquica da insatisfação permanente, justamente por negar a falta, a falha e a carência, dando a ilusão de uma possibilidade infinita de participação na riqueza e no poder. 
    Certa vez, um ultraconservador, o germano- americano Henry Kissinger, lamentou: “Muitas pessoas sofrem tanto por não participarem da afluência e dos benefícios do capitalismo, ao ponto do desespero, porque alimentam o sonho americano de que o esforço as conduzirá a se tornarem proprietárias de bens e de suas vidas. Nem sempre isso é possível”. Faltou dizer que, na maioria das vezes, é impossível, pelo menos por caminhos normais de trabalho e competição.
       A sociedade de consumo é como aquela mulher de suéter justo na tela do cinema, insinuando, mas não deixando ao alcance a beleza crua e o erotismo. Seduz, promete. É só a miragem estética, no dizer o filósofo alemão Theodor Adorno, mas não cumpre jamais.
       Há uma enorme confusão entre autonomia e sujeito isolado, racional,  da filosofia liberal e , sobretudo, da ideologia neoliberal. A autonomia -- como mostraram Castoriadis e até os filósofos clássicos--, é o sujeito dar-se suas próprias leis. No plano do indivíduo, isso significa estabelecer a própria legalidade das determinações do sujeito. 
      A psicanálise é um exemplo evidente, um modelo da possibilidade de alcançar a autonomia individual, quando o sujeito enfrenta as próprias determinações. Foi por isso que Castoriadis incluiu a psicanálise no que chamou de “projeto de autonomia”, que seria a disseminação da autonomia auto reflexiva e lúcida, ou, em outras palavras, a emancipação humana.
      No plano da sociedade, a autonomia não se reduz à liberdade individual, mas tem a ver com a existência e criação de instituições coletivas que favoreçam a autonomia e a responsabilidade de seus membros. Dito de uma maneira diferente: a autonomia pressupõe uma sociedade autônoma. A minha autonomia está imbricada e até depende da autonomia dos outros. É contrário do individualismo de um modo geral e do possessivo, em particular.
      Do mesmo modo, uma autonomia individual pressupõe uma educação para a liberdade coletiva, uma “Paideia”, como dizia Castoriadis. Esta seria o eixo central da autonomia social, por sua capacidade para criar sujeitos autônomos. O projeto de autonomia, segundo este ponto-de-vista, é o movimento histórico dos sujeitos para alcançar um auto instituição lúcida da sociedade, que é o sentido máximo da autonomia: dar-se as próprias leis. Mas é uma lei que significa autocriação da sociedade, que não reconhece fundamentos extra sociais.  Não depende de deuses, poderes acima dos homens, raça ou classe social superior. Depende apenas da própria sociedade.
      A sociedade da autonomia, portanto, não se dissolve num coletivismo estrito, socialista, ainda que implique na participação comunitária permanente. Também não se subordina à ideia de uma coleção de indivíduos proprietários ou despossuídos, distinguindo-se totalmente da democracia liberal clássica.
     O projeto de autonomia é uma atividade que não se detém, envolve a crítica das leis, o questionamento do sentido da sociedade, de suas significações imaginárias e da participação nas decisões coletivas. A ideia de autonomia é o oposto de todo totalitarismo. É a ruptura da heteronomia e da alienação. Constitui um esforço constante e incessante para “desalienar” os sujeitos. Tarefa a ser aplicada no sentido individual e coletivo.
     Uma sociedade autônoma é uma radicalização da democracia, isto é, do regime que permite a criação de novos direitos e instituições. Mas não é só isso: talvez seja a essência do que uma verdadeira democracia pode ser.



segunda-feira, 8 de maio de 2017

ARTIMANHAS DO PODER

     

                                                                  Reinaldo Lobo

     Freud formulou uma intrigante pergunta: como as pessoas interiorizam o poder? Quais as condições subjetivas para a aceitação das instituições, das regras, do comando do Estado e dos governos?
     Winnicott, outro psicanalista, ofereceu uma excelente resposta:  primeiro, é pela via da onipotência primitiva de todo ser humano, quando ainda é uma criancinha pequena. O bebê, sua majestade, sente controlar e dominar o mundo que “inventou“ e, ao mesmo tempo, encontrou ao seu redor. É um período de indiferenciação mágica e de sentimento irrefletido de poder. Cabe à mãe confirmar ou desmentir essa ilusão primária de poder absoluto. De preferência, uma boa mãe confirma e, depois, desilude gradualmente o seu bebê, impondo-lhe delicados limites.
      Aos poucos, tudo passa pela identificação com as figuras materna e paterna e, com frequência, a constituição de um “falso Eu” adaptativo, que torna o sujeito parcialmente integrado e possivelmente submisso à sociedade a que pertence. Um “falso Eu” é uma defesa sofisticada para evitar o sofrimento psíquico de se confrontar com o ambiente, escondendo assim um “verdadeiro Eu”, mais espontâneo e, às vezes, agressivo.
    Com a “falsificação de si mesmo”, para evitar perder amor e reconhecimento, adia-se o uso do núcleo mais verdadeiro, potencialmente perigoso para as relações interpessoais e sociais, para um dia, quem sabe, ser usado. Essa é uma saída exitosa e funcional. O preço é a submissão às leis do ambiente. Isso acompanha um certo grau de alienação e, às vezes, um sentimento de irrealidade.
    A falta de sentido junta-se a essa estranheza em relação ao mundo a que o sujeito pertence. Escritores como Kafka, Camus, Sartre, o filósofo Heidegger, Nietzsche, o teatrólogo Ionesco e até mesmo Homero, na Grécia Antiga, captaram o sentimento de absurdo que acomete seres humanos quanto ao seu pertencimento.
    Há várias saídas possíveis para essa situação de conflito entre sujeito e sociedade. Uma delas, é comportamento que foge do comum e adquire contornos antissociais. Seja pela via do heroísmo e da revolução, seja pelo caminho da delinquência. Uma outra, como vimos, é a adaptação submissa. Mas há também a rota da identificação mais ambiciosa com o poder, apropriando-se dele e dos seus métodos. O caminho de muitos políticos, corruptos ou não.
    Uma patologia particular de apropriação do poder, que evoca a onipotência primária do bebê, é o totalitarismo, a meu ver. Um colega psicanalista contemporâneo, Henrique Honigztejn, do Rio de Janeiro, chama de “onipotência secundária” esse fenômeno que faz o sujeito derivar para o nazismo ou outras formas de política totalitária.
     Estudando milhares de páginas dos “Diários” de Joseph Goebbels, o ministro da propaganda de Hitler, e a própria história do nazi fascismo, Honigztejn postula que, quando a relação mãe-bebê primitiva é falha e mal resolvida, surge nesses indivíduos uma espécie de onipotência compensatória que os leva até aos delírios de poder.  Seria interessante estudar também outras personagens históricas sob esse ângulo, como Stálin, Mao Tsé-tung e congêneres.
     A impressão é a de que se combinam nesses perfis de políticos a necessidade de reconhecimento, uma espécie de “prova de legitimidade”, a delinquência, a busca do “verdadeiro” sentido da vida, a ilusão onipotente desmedida, o senso de heroísmo e a submissão a crenças adquiridas. Estamos diante de uma patologia política particular.
    Na verdade, como diria Bion, estamos falando de personalidades com partes psicóticas adaptadas, com uma enorme fragilidade do Eu. Como se diz, egos frágeis e, por isso mesmo, perigosos.
     Mesmo que os casos citados sejam extremos, o gradiente de hipóteses combinatórias destes exemplos vale para qualquer vocação política e pode ser aplicado ao estudo do cotidiano das democracias e ao político comum. Não só existem casos de totalitários bem-sucedidos, mas também há os virtuais.
    Carl Schmitt, o estudioso da política, ele próprio um simpatizante do fascismo, viu um certo aspecto paranoico em toda a estrutura da vida política: é a divisão recorrente entre amigos e inimigos (amigos  versus inimigos), essência da prática partidária, inclusive nas democracias mais abertas.
    Ainda que existam políticos sérios e construtivos, que tiveram – pode-se supor-- mães razoavelmente sensíveis e suficientemente adequadas, também estes estão sujeitos às variáveis e aos potenciais que apontamos na relação com a sociedade.
    A corrupção proposta pelo fascínio do poder pode levar a uma interiorização derivada da onipotência e do resíduo de narcisismo de todos nós, em busca de alcançar objetivos pelos meios mais rápidos e a busca do prazer imediato.
    Existe uma contrapartida de toda patologia política vinda “de cima”, proposta pelo poder. É a adesão dos governados, que se identificam, às vezes, até com o agressor.
    Espera-se destes cidadãos comuns a submissão quase absoluta. Muitos perguntam: por que se vota em gente tão corrupta e reincidente no abuso de poder? Por que essa espécie de submissão voluntária aos poderosos, à espera de gratificações? De que tipo de gratificação profunda estamos falando?

   É que temos dentro de nós um potencial de onipotência e de corrupção para nos identificarmos com o que um político, corrupto ou não, tem – o desejo de poder. 

quinta-feira, 20 de abril de 2017

A GRANDE CATARSE

  
                                                                
                                                           Reinaldo Lobo

       Na tragédia grega, a catarse ocorre quando o espectador do teatro se identifica com os conflitos, a culpa e o destino terrível dos heróis e vivencia tudo isso de modo a expiar e a purgar intensamente suas próprias emoções, por um breve momento. No Brasil atual, os espectadores assistiram nos últimos dias à novela da corrupção como os gregos antigos experimentavam a tragédia, sem final feliz.
       Alguns estudiosos do teatro interpretaram o herói trágico como o lutador que se contrapõe ao mundo, a fim de impedir sua letargia. Sua destruição é inevitável, mas não lhe falta sentido. Sua época não estaria madura para o valor pelo qual luta, e cai, mas seu sacrifício abre caminho para um futuro melhor -- como mostraram Hebbel e do mesmo modo Hegel. A morte do herói deixa uma herança positiva.
       Por esse ângulo, não há mais heróis em nosso País. Nem herança positiva visível. As explosões catárticas provocadas pelas revelações expostas na semana passada pelo Ministério Público mostraram que o “sentido”  reivindicado por nossos políticos recobria apenas atos de corrupção de vários tipos. Não há esperança coletiva na corrupção.
      Foram desencadeadas 211 investigações envolvendo 98 políticos em Brasília, sendo 39 deputados de todos os principais partidos e diversos senadores importantes, mais três ex-presidentes da República, 9 governadores, um ministro do TCU, e uma lista de prefeitos e vereadores em todo o território nacional. Seu político predileto pode estar entre eles.
     Alguns inquéritos já estão avançados e mostram sinais evidentes de abuso de poder, malversação de dinheiro público e propinas num montante de 3.4 bilhões de dólares só nos últimos oito anos.
     Por mais polêmicas que as delações premiadas da Odebrecht possam causar, não há dúvida de que expuseram claramente o método de operar das empreiteiras junto aos governos e aos políticos, além dos seus esquemas de campanha e de caixa 2.
      Personagens tidos como exemplos de “ética na política” por certo período foram desmascarados agora. Líderes principais dos partidos mais importantes, como PSDB, PMDB e PT receberam dezenas de denúncias de crimes de peculato, favorecimento pessoal, tráfico de influência e crimes eleitorais.
      Foi uma experiência em escala nacional de catarse e de desidealização das figuras centrais que governaram o Brasil desde, pelo menos, a instauração da Nova República, em 1985, e a promulgação da Constituição pós-Ditadura, em 1988.
         Uma pequena digressão sobre catarse:
         Freud inaugurou a psicanálise utilizando o primitivo método catártico de Breuer e dos hipnotizadores, como forma de cura das neuroses. Consistia em deixar fluir as emoções, fantasias e a fala livre dos pacientes, seja sob hipnose, seja em estado de aparente vigília. Funcionava como descarga e alívio. Depressa, descobriu-se um fato surpreendente, a “dissociação da consciência”, que se torna clara a esse método ao mesmo tempo em que produz uma “ampliação da consciência”.
        Depois de discutir teorias discrepantes com Breuer, Freud logo descobriu que a dissociação da consciência é um fenômeno psicológico - não físico ou químico- e que estava ligado a conflitos emocionais ocultos dos pacientes, expelidos e reagidos na catarse. Daí, foi um passo para descobrir que todos temos atividade mental inconsciente, isto é, desconhecida de nós mesmos -- ideias, fantasias e emoções que não podem vir à tona, a não ser de forma indireta por sinais e sintomas.
        Um desses sintomas são a dissociação e a própria expressão intensa de emoções. Freud descobriu que elas têm um sentido.
        Estamos lembrando Freud e seus métodos apenas para dizer que é possível viver catarses coletivas que, se não forem devidamente conhecidas e interpretadas, de nada servirão, como a morte dos heróis sem legado futuro. Ou como nas novelas, que são falsas tragédias com final feliz, onde apenas os vilões caricaturais são enterrados.
        Corremos o risco, no Brasil de hoje, de mantermos uma dissociação da consciência e não enxergarmos mais fundo, em busca de um significado oculto. Não basta assistirmos passivos o desenrolar da tragédia política brasileira e o desnudamento do que temos denominado de Sistema Corrupto. Nunca se viu de forma tão clara como funciona o Sistema, mas é preciso ver o seu eixo constitutivo, que é o uso do Estado de forma autoritária pelo conluio entre os políticos e as empreiteiras privadas para evitar a concorrência. Os lobbies e os cartéis integram um esquema bem montado há décadas, como revelou o delator Emílio Odebrecht, dono da maior empreiteira.
       Talvez esteja no fundo da tragédia atual o autoritarismo da sociedade brasileira, girando em torno de uma elite antiquada e privilegiada que faz suas próprias regras e leis. É o que chamamos de “oligarquia liberal”, uma contradição entre os termos. Democracia não é isso.
         Não basta escandalizar-se, nem apenas sofrer as paixões do desnudamento da corrupção, mas é preciso localizar a raiz da promiscuidade político-institucional em que vivemos. Como sugeriu uma vez Sérgio Buarque de Holanda, no coração do homem cordial brasileiro estão ao mesmo tempo a submissão e a prepotência.
        Falando uma linguagem mais ainda psicanalítica, enquanto gozarmos com a tragédia alheia e não tomarmos consciência de que a corrupção é um assunto de todos nós, com o qual precisamos lidar aberta, pessoal e internamente, continuaremos dissociados, a idealizar heróis na forma de juízes, salvadores da pátria e políticos de ocasião.


quarta-feira, 19 de abril de 2017

 


        "O essencial do trabalho de Freud consistiu, talvez, na descoberta do elemento imaginário da 'psyché'-- no desvelamento das dimensões as mais profundas do que chamo de imaginação radical".
     
        Cornelius Castoriadis

    ("L'institution imaginaire de la société", pg. 381)

quarta-feira, 29 de março de 2017

O SISTEMA EM AÇÃO



                                                                Reinaldo Lobo

         O Brasil vai descobrindo, finalmente, a existência e a extensão do Sistema Corrupto. Várias provas foram fornecidas nos últimos dias. Ficamos sabendo que não se restringe a um esquema na Petrobrás, nos Correios ou qualquer ente isolado estatal, paraestatal ou privado. É uma verdadeira constelação de planetas e estrelas no meio de uma galáxia – a “oligarquia liberal” dominante.
         Soubemos, inclusive, que esse subsistema ilegal girando em nosso universo cultural e político é longevo e transgeracional. O patriarca da nossa maior empreiteira, o sênior Emilio Odebrecht, revelou em depoimento para a Operação Lava Jato que seu pai, avô de Marcelo, o neto detido, já pagava propina há décadas para operar junto ao Estado. Não é difícil deduzir que o mesmo processo acontece em outras gigantes do ramo.
         O Sistema existe estruturado desde, pelo menos, a Ditadura civil-militar que governou de 1964 a 1985, entrou pela Nova República, reina até agora pelas mãos do PMDB. Não nos enganemos: esse não é o único partido agente e beneficiário. Envolve todos os partidos, sem exceção. No governo de FHC, um jornalista, Paulo Francis, denunciou sua incrustação nas diretorias da Petrobrás, sem êxito. Acabou morrendo antes de dar as provas nem apresentar suas fontes de informação.
          Se não criaram, os militares foram os responsáveis pela consolidação do Sistema. Como se imaginavam nacionalistas, seus governos ditatoriais escolheram entregar a empreiteiras nacionais as obras do seu ufanismo sobre um “Brasil Grande”.
        Foi então que surgiram esses gigantescos conglomerados de “tocadores de obras” financiadas pelos bancos estatais. Participavam do esquema desde políticos como Paulo Maluf, militares como Mário Andreazza, até fundos de pensão e empresas privadas terceirizadas. Depois da Ditadura, já no período Sarney, o Sistema cresceu, “normalizou-se”, ficou colado nas diversas instituições do Estado. Foi quando se consagrou a expressão “mamar nas tetas do Estado”, dirigida como crítica tanto pelos liberais como pelos sociólogos marxistas.
        O governo FHC fez algo parecido com a invenção militar das empreiteiras locais, ao dar toda a força para fortalecer a concentração de um sistema bancário endógeno, criando grandes conglomerados de uma banca nacional, em detrimento da concorrência estrangeira. Hoje, esses monstros bancários monopolizam as decisões na esfera financeira e econômica, têm lucros exorbitantes, estratosféricos, agindo como verdadeiros cartéis. É esse controle da concorrência que impede a diminuição dos juros para o consumidor, mesmo quando o Banco Central derruba a taxa Selic.
        Nenhum político que quisesse se eleger estava isento de passar pelo filtro das empreiteiras, da rede bancária privada conivente, das indústrias e do agronegócio subsidiado. Os financiamentos de campanhas eleitorais contavam, como ainda contam, com a retribuição de favores dos partidos e políticos premiados.
        Os marxistas costumam dizer que o capitalismo é, por natureza, corrupto. Consideram essas acomodações sistêmicas apenas um efeito da corrupção essencial. Ora, não é dessa corrupção definida teoricamente que falamos. O subsistema da corrupção brasileira serve, sem dúvida, a uma oligarquia, mas tem sua especificidade histórica e suas peculiaridades.
       Muito já se escreveu sobre o patrimonialismo herdado da colonização portuguesa e o hábito de nossos políticos se considerarem donos do poder assim que o assumem. Vendem o poder como uma mercadoria que detêm.  Mas o mercado é restrito, passa por essa fusão dos interesses estatais com os privados, bem como por uma burocracia – escolhida muitas vezes pelos políticos e suas bancadas especiais: como a da Bala, do Boi e da Bíblia.
      Há ainda os gestores dos fundos de pensão, aparentemente regrados pelo Estado, mas que têm interesses e vida própria. Pelo menos um sociólogo, Chico de Oliveira, mostrou que o caso brasileiro não é de capitalismo “puro”, mas algo semelhante a um Ornitorrinco, aquele animal misto de ave e mamífero, raro, uma verdadeira exceção na escala evolutiva.
      O Sistema hoje parece ameaçado e em crise. Isso é “culpa do PT”. Ao entrar na cena política adquirindo poder, este introduziu o distributivismo e a participação popular, via Estado, nas benesses do consumo e da renda.
      Desequilibrou o Sistema, cuja única finalidade era beneficiar a “oligarquia liberal”, formada pela participação nas instituições e mantendo o  subsistema ilegal. Expôs sua contradição entre o funcionamento do crescimento das forças produtivas e o sistema de apropriação.
      A corrupção reinante mantinha o sistema capitalista em pleno funcionamento, até a entrada do caçula da corrupção, que trazia com ele, contudo, o vírus do distributivismo, chamado pelos ideólogos do Sistema de populismo.
      O atual governo do conglomerado PMDB-DEM-PSDB tem a missão de consertar o desequilíbrio, restaurando a exclusão das massas populares de qualquer participação. Para isso, é preciso primeiro “estancar a sangria” da Lava Jato e a perseguição aos seus membros genuínos, como sugeriu o mais claro e consciente de seus representantes, o senador Romero Jucá. A meta inicial era só pegar o PT, mas a Lava Jato fugiu do controle, uma vez que o Sistema considerava necessário também salvar “os outros”, como Aécio, Serra, Alckmin, Aloisio Nunes Ferreira, etc., cujos nomes foram revelados pelas delações das empreiteiras.
      Não está fácil. Os escândalos se sucedem. Um outro desequilíbrio ocorreu ao longo dos anos após a Ditadura, quando houve a independência da Polícia Federal e dos jovens Procuradores da República. Aparelhados para servir às instituições republicanas, os poderosos contavam com que eles se voltariam apenas contra os intrusos ou estranhos ao seu grupo. Mas a dinâmica do Judiciário, aliada à divulgação exacerbada pela própria mídia conservadora, impõe aos juízes que considerem as provas contra o Sistema que encontram no caminho.
      Essas provas estão ameaçando conter o furor antipopular do atual governo, ainda que este esteja inteiramente a serviço da oligarquia. Essa é hoje a principal contradição que faz com que até juízes do Supremo se comportem como verdadeiros militantes partidários, tentando sustentar a continuidade do Sistema Corrupto, pois está em jogo o próprio capitalismo, para que ele nunca acabe.