quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O CINISMO PROTETOR

  

                                                       Reinaldo Lobo*

       O cinismo psíquico é uma defesa sofisticada, usada principalmente pelos adultos. Do que nos defendemos? Da realidade, ou melhor, da dor que ela provoca ou pode causar. Dizemos de algumas profissões como a de policial, de cirurgião, de juiz e de jornalista, que elas expõem seus praticantes a duras experiências da vida. Podem levar ao cinismo, que envolve uma certa indiferença cúmplice e uma anestesia diante da dor infligida ao outro.
     O Brasil é hoje um país com muitos cínicos nesse sentido, gente de quase todas as profissões.
     Uma grande parte do povo que foi às ruas a partir de 2013, pedindo a cabeça dos governantes, agora está paralisada, medrosa ou, sobretudo, cínica. Isso tem a função óbvia de não ver o próprio erro e de não reconhecer as consequências dos seus atos. O alcance de uma atitude política imediatista nos escapa com frequência e pode dar no que está acontecendo agora, no presente de recessão profunda e estagnação econômica.
    Além disso, pode revelar o que ninguém esperava—ou seja, que nossos aliados eram também corruptos, alguns até há mais tempo do que aqueles que imaginávamos.
    O cinismo protege também de ver a miséria, a destruição da natureza, as leis arbitrárias e regressivas, a perseguição às minorias, o fanatismo religioso a serviço do dinheiro, o massacre de jovens nas favelas, a inoperância do combate às drogas, a eliminação de direitos humanos e trabalhistas e a enxurrada de leis aprovadas em benefício de bilionários e aproveitadores dos recursos públicos.
      A irmã do cinismo é a hipocrisia, outro recurso pré-consciente e, às vezes, consciente, destinado a reassegurar uma pessoa ou um grupo.
     Não deixa de ser uma ironia bizarra sabermos que boa parte dos que ostentavam cartazes e gritavam contra a corrupção eram, eles próprios, notórios corruptos. Geddel Vieira Lima, por exemplo, estava na linha de frente das manifestações de camisas amarelas e, agora, tudo indica que é o dono daquelas malas com mais de 50 milhões de reais achadas em apartamento de sua propriedade. Assim como não deixa de ser ridículo, mas revelador, que personagens como o ator pornô Alexandre Frota esteja também à frente dos protestos moralistas contra a nudez em museus, ou, ainda, que se lance um olhar pedófilo recalcado sobre uma performance no MAM.
          O preconceito consiste em julgar um fato ou um fenômeno baseado em apenas informações parciais. É assim que um antissemita justifica sua generalização a partir de uma experiência com um judeu determinado ou por sua estranheza em relação a hábitos que não entende ou não conhece o suficiente.
         Essa extensão no julgamento é frequente igualmente na avaliação dos políticos, como defesa em relação à constatação de que aqueles nos quais votamos também prevaricaram: “Todos são iguais, devem ser punidos igualmente com a violência da Lei! ”.
        O cínico atribui a culpa ao outro e lava as mãos.  Pilatos pode ser considerado um dos pioneiros do cinismo comportamental. Interessante é o seu recurso à inação, que, na verdade, é um ato. Parece um gesto de complacência, neutralidade e de democracia, mas consiste numa tomada de posição. Pilatos escolheu o seu lado, romano, deixando para o povo a decisão que sua própria lei e seu pessoal executou.
         No Brasil atual, Pilatos encarnou na forma de uma parte do povo, que se recusa a agir contra a máfia que empalmou o poder na onda de ódio anti-petista. Aceitar que certos atores políticos são parte de um antigo Sistema Corrupto é dar aval ao petismo. O PT virou a Gení da atualidade. O ódio e o pseudomoralismo exacerbado de juízes e promotores estão levando a desastres como o suicídio daquele reitor da Universidade Federal do Paraná, que se jogou do alto do vão livre de um shopping.
        Agir saindo às ruas ou protestando contra o governo Temer seria reconhecer a precipitação, a parcialidade, o excesso, o erro, a ingenuidade política, mas, sobretudo, constituiria violar uma lei ideológica atacando um governo que, apesar de acusado de corrupto como o anterior, é conveniente para setores adeptos do capitalismo de resultados.
       Boa parte das nossas classes médias está surfando a onda do “todos são iguais, mas alguns são nossos iguais”. Há, para esses, alguns corruptos chiques que devem ser mais tolerados do que os sindicalistas “vulgares e deselegantes”. Daí o silêncio cínico.
       O cinismo a que nos referimos tem pouco ou nada a ver com o cinismo filosófico, aquela doutrina criada por Antístenes de Atenas (444-365 a.C.), que pregava uma vida simples e natural, uma felicidade desapegada de riquezas, artifícios e frivolidades e que tomava a vida dos cães como uma espécie de modelo ideal da simplicidade. A única ligação possível com o sentido original da palavra, hoje deformada, talvez seja a indiferença, comum ao desapego grego aos bens e riquezas vigentes e, hoje, o gesto de virar os olhos para lá diante da imoralidade evidente “dos iguais”, cheios de riquezas e de bens.

        O cinismo a que nos referimos é diferente da filosofia antiga, pois aplaca a consciência dos que não querem enxergar a corrupção, a riqueza ilegal e o abuso daqueles que amavam, toleravam, e até agora toleram. Muitos dos que votaram em Aécio Neves, por exemplo, só querem ouvir falar de outros corruptos e, apesar de prometerem não votar mais nele, lastimam sua decadência política: “um rapaz tão igual a nós, simpático e bem vestido”.
       O cinismo psíqu

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O CAPITAL NUNCA DORME



                                                               Reinaldo Lobo

                 Dormimos uma grande parte de nossas vidas, o que é, do ponto de vista da sociedade de consumo e do capital, um desperdício de tempo e dinheiro. “Time is Money”, diz o velho clichê norte-americano. Só faltava o capitalismo invadir o nosso sono e instrumentalizar nossos sonhos. Faltava, pois já não falta mais.
              A história desse processo de conquista da última fronteira pelo capital—o sono e o dormir—está contada num livrinho intrigante traduzido aqui na praça, denominado “Capitalismo Tardio e Os fins do Sono -- 24/7”, de Jonathan Crary, lançado por uma nova editora, a “Ubu”, criada em 2016.
              O autor, professor de estudos culturais na Universidade de Columbia desde 1989, conta que milhões de dólares estão sendo investidos em pesquisas privadas e militares para produzir um ser humano que não durma muito, ou, pelo menos, seja capaz de ficar insone por 24 horas por sete dias, daí o subtítulo 24/7.
            Para o Pentágono, esse tipo humano seria um soldado perfeito, tanto que foram designadas equipes de psicólogos e neurologistas para realizar e estudar experiências de abstinência de sono, inclusive o exame dos  presos “extraoficiais” torturados também dessa forma em Guantánamo.
            Para a sociedade de consumo, “a imensa parte de nossas vidas que passamos dormindo, libertos de um atoleiro de carências simuladas, subsiste uma das grandes afrontas humanas à voracidade do capitalismo”—o sono, escreve Crary.
           O autor sabe o que muitos de nós sabemos, isto é, o capitalismo cria “desejos” e “necessidades” artificiais aos quais estamos expostos e submetidos em nosso estado de vigília diurna. Também é conhecido o fato de que esses artifícios são destinados a provocar o consumo, nem sempre ao alcance de todos -- que vão desde um novo carro com maior potência e rapidez para estradas com limites de velocidade, até uma marca martelada pela publicidade ou um gadget eletrônico com recursos maiores do que usamos, ou um novo sabor de comida ou viagens para resorts turísticos que são verdadeiras ilhas de prazer construído e programado. Para isso, o consumidor precisa estar atento e desperto.
          Desde 2001, após o advento da maior onda de terrorismo internacional e a instauração de um “Estado de Exceção” nos EUA e vários outros países, a privação de sono tem sido uma prática de tortura aplicada a vítimas de “custódia extrajudicial” e a outros presos. Muitos desses “programas” para prisioneiros foram elaborados sob medida por psicólogos que, fazendo parte de equipes de consultoria de ciências do comportamento, procuravam explorar vulnerabilidades emocionais e físicas de cada detento.
         A privação do sono como forma de tortura é usada há muitos séculos, mas sua aplicação sistemática coincide historicamente com a disponibilidade de luz elétrica e a facilidade para amplificar o som de modo contínuo, diz Crary. A polícia política de Stálin, a NKVD, a usava rotineiramente em 1930, como parte de uma sequência de brutalidades e de violência gratuita que danifica irreparavelmente seres humanos. Sabe-se que, em experimentos, ratos morrem depois de três semanas de insônia. Em nós, humanos, é suficiente um período curto de alguns dias para tal prática induzir a psicose. Após algumas semanas, surgem danos neurológicos. A falta de sono produz um estado de extrema submissão e desamparo, tornando possível extrair informações relevantes da vítima, que confessará ou inventará qualquer coisa. O DOI-Codi, em São Paulo e no Rio, usava muito esse método durante a repressão à oposição à ditadura militar-civil de 1964-85.
          O que mudou no pós-11 de setembro foi a naturalidade com que a privação de sono e outras torturas passaram a vigorar, no combate ao radicalismo islamita. E isso serve de modo especial para as pesquisas sobre o sono no Departamento de Defesa dos EUA e em outras partes.
          Sabe-se que o Pentágono organizou uma equipe e investiu milhões de dólares na investigação sobre pássaros que migram, em função das estações, do Alasca até o México, entre eles o pardal da coroa branca, uma espécie que migra no outono para o sul e na primavera retorna para o norte. O detalhe é que o pardal da coroa branca tem a capacidade impressionante de permanecer acordado por até sete dias durante as migrações, o que permite que voem e naveguem de noite, e procurem por alimento de dia, sem descansar. Nos últimos seis anos, o Departamento de Defesa norte-americano gastou uma fortuna para estudar essas criaturas. Cientistas investigam a atividade cerebral desses pássaros durante a longa vigília, a fim de obter informações aplicáveis aos seres humanos e saber como as pessoas poderiam ficar sem dormir e funcionar com eficiência e produtividade. Se o objetivo inicial era conseguir o soldado que não durma, com a expansão da pesquisa por corporações privadas essa meta dirigiu-se ao mundo do trabalho e do consumo.
           Parece que o livro anuncia um admirável mundo novo, onde funcionaria uma distopia aterrorizante, onde o sono estaria abolido. Não é bem assim. Mas não há dúvida que o estudo dos pardais da coroa branca é apenas uma fração de um amplo esforço científico e militar para obter algum controle, mesmo que relativo, sobre o sono humano. Diversos laboratórios estão conduzindo hoje pesquisas avançadas e testes experimentais de técnicas de privação de sono, recorrendo a substâncias neuroquímicas, terapia genética e estimulação magnética transcraniana. A meta imediata é conseguir que alguém fique 24 horas sem dormir por sete dias.
        O autor se estende sobre questões filosóficas e políticas sérias a respeito do sono e do sonhar, lembrando inúmeros escritores, a começar por Freud, que associaram o dormir ao sonho, “esse guardião do sono” -- e o sonho a uma fonte de projetos para um futuro melhor da humanidade.
      Diante disso, é preciso ficarmos atentos, digamos acordados, para não ser possível que a sociedade humana se torne uma lúgubre e triste distopia de robôs sem alma.


terça-feira, 12 de setembro de 2017

O ESTADO EMOCIONAL DO PAÍS


                                                    
                                                                  Reinaldo Lobo

    Os brasileiros estão confusos com o espetáculo da crise brasileira na TV e nas redes sociais. Não é mais possível a simples polarização entre o Bem e o Mal, nem a busca de um único inimigo ao qual acusar. Não existe apenas uma Gení a servir de bode expiatório. Todos “são culpados” e não se sabe mais em quem confiar.
     A novela da Lava Jato, acompanhada em capítulos estudadamente vazados para a mídia a fim de ganhar “apoio da população”-- como disse o juiz Moro-- parece que não terá um final feliz. Ou, pelo menos, tudo indica que acabou em paradoxo e complexidade, mas os seus agentes ainda não perceberam. Moro ainda tem a chance de atingir um ponto de sua missão, Lula, principal alvo inicial da operação, mas até isso está difícil agora.
     Curiosamente, a oposição principal à operação parte hoje de quem fingia defendê-la e queria servir-se dela para seus objetivos políticos.  
     A onipresença da mídia na sociedade, a manipulação dos estados emocionais dos cidadãos pelo impacto das notícias e dos comentários, o partidarismo da nossa imprensa – tudo isso leva à crença de que teríamos um povo mais politizado e consciente, mas não é bem assim.
    Os brasileiros estão perdidos com as mensagens contraditórias emitidas pelo Judiciário, pelos partidos e pelos meios de comunicação. Os que saíram às ruas de camisas amarelas pedindo o fim da corrupção estão perplexos e paralisados. Viram mais tarde muitos dos corruptos notórios nas fotos de suas próprias passeatas.
   Como entender que a Rede Globo, principal geradora dessa novela e formadora de opinião no País, passe de uma uma posição a outra, por motivos pouco conhecidos do público?
    Quem é o sujeito da ação política por trás do comando do espetáculo? Essa é uma indagação sem resposta visível para o povo.
     Os segmentos mais populares, sem camisas amarelas, estão numa angustiante expectativa sobre quais direitos sociais terão depois das chamadas “reformas”, desencadeadas em curto espaço de tempo pelo governo pós-impeachment. Só os sindicatos e frações de movimentos sociais fazem manifestações ignoradas em grande parte pela mídia.
     Os jovens, estudantes e profissionais, estão divididos entre apoiar os trogloditas da direita, a turma do Bolsonaro, os “gestores” do tipo Dória ou a paralisia da esquerda desmoralizada pelas acusações de corrupção, dividida e relativamente impotente na ação.
      No ataque ao sistema corrupto, está acontecendo no País algo semelhante ao que fez o novo prefeito de São Paulo na dita Cracolândia: atacou um ponto como se fosse o único alvo e o crack se espalhou para muitos lugares da cidade, alguns inesperados. As pessoas não sabem se o crack foi eliminado ou se apenas se diversificou.
      Os que tinham como referência política um determinado partido -- para combater os principais focos de corrupção nacional, segundo sua visão--, perderam a referência ao ver o líder em quem votaram aparecer indigitado por graves denúncias.
     Antes, os inimigos eram Lula e Dilma, então como é possível que Aécio Neves e mesmo o “mal menor” apoiado taticamente, Temer, surjam como chefes de quadrilhas?
       A essa dificuldade de percepção contraditória chama-se, em psicologia, “dissonância cognitiva”. Essa mesma dissonância afeta a esquerda, quando se vê o principal partido originalmente contrário à corrupção, o PT, com vários líderes citados em listas de propinas e manobras pouco republicanas.
      Contra quem dirigir o ódio neste momento, uma vez que a situação de crise econômica, também difícil de compreender, induz a essa emoção forte e politicamente poderosa? Já não é tão fácil achar um culpado, inclusive, pela própria crise econômica.
      Como recuperar uma visão de mundo binária, capaz de operar de modo semelhante aos computadores: sim ou não, isto ou aquilo? Apesar desse maniqueísmo não ser desejável, ele oferece às pessoas algum solo onde se apoiar. Não é justificável, mas compreensível. Até esse “consolo” está faltando neste momento da vida do País.
       Quando a perplexidade parece diminuir um pouco, logo vem alguma  notícia perturbadora e com linguagem de dupla mensagem. A mídia não para de dizer, por exemplo, que as “reformas” do governo pós-impeachment são essenciais para salvar o País e acabar com a crise.
    O uso da palavra reforma é enganador nesse caso e passa uma mensagem dúbia. Primeiro, porque nada indica que são verdadeiras reformas, mas medidas de “austeridade”, restaurações, acertos e legislações liberais à moda antiga, quase anteriores à revolução de 1930 -- quando houve, aí sim, uma série de reformas que deram maior segurança aos cidadãos em geral e aos trabalhadores, em particular. E nada garante que as tais “reformas” atuais vão tirar o País da crise econômica e, menos ainda, da precária situação política. Apenas ameaçam lançar o ônus da crise para os mais pobres.
    Um ponto parece certo: as mudanças propostas afetam negativamente a vida dos trabalhadores, retirando garantias conquistadas por décadas de lutas sociais e políticas.

     Como é possível confiar nas diretrizes propostas por quem dirige a vida nacional se as próprias palavras usadas são ambíguas ou contraditórias? Certamente, os mais pobres são os que têm as maiores expectativas, mas são também os que mais desconfiam e temem o futuro.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

MEIA DEMOCRACIA


                                             
                                                                    Reinaldo Lobo*

         A democracia está sob ataque no mundo inteiro. A pretexto de suas falhas de representação, muitos ideólogos de diversos países encerraram o namoro democrático que vinha desde o fim dos regimes totalitários do Leste Europeu, em 1989.
        Associada ao capitalismo de livre mercado, a democracia liberal era a receita ideal apregoada em toda parte. Foi até imposta pela força das armas em alguns países do Oriente Médio.  
        Hoje, não é bem assim. O discurso liberal foi substituído por uma crítica dos limites da democracia e, ainda que mantida formalmente nas Américas, na Europa e em boa parte da Ásia e África, está sob suspeita de enfraquecer o espírito coletivo, promover o individualismo e a ineficiência. A lembrança de que a maioria das nações reivindicava até há pouco tempo a qualificação de democrática, vem sendo deixada para trás.
       Comparado com empresas privadas, o Estado Democrático é pintado como um resquício de burocracia que entrava o fluxo das decisões de mercado e um obstáculo à manutenção do capital internacional. É comum ouvirmos empresários declarando seu amor à China, onde há um capitalismo totalitário no qual imperaria, segundo eles, uma grande facilidade decisória, sem as amarras e meandros democráticos.
       O capitalismo chinês teria, por exemplo, o mérito de impor suas decisões  com mais rapidez e fluidez entre a ponta da produção e da comercialização, sem falar da repressão às reivindicações salariais e da submissão dos trabalhadores. A Rússia do autoritário Putin costuma receber elogios parecidos, por reunir restos centralizadores e a estabilidade do regime anterior combinados com a dinâmica do capital.
       O risco de abertura excessiva da democracia à criação de novos direitos e à participação popular constitui uma ameaça à “oligarquia liberal” que dá as regras e governa nos chamados países ocidentais. A preferência por Estados de Exceção é cada vez maior e talvez constitua a forma política e jurídica ideal a serviço da ideologia neoliberal. 
       Todo Estado é, num certo sentido, fechado em si mesmo. Forma um círculo de poder. É oligárquico. Dizia um célebre teórico da oposição entre democracia e totalitarismo, o sociólogo Raymond Aron, insuspeito de anarquismo ou de esquerdismo: “”Não se pode conceber um regime que, em algum sentido, não seja oligárquico”. Um outro autor, o clássico Robert Michels, de orientação mais à esquerda e estudioso dos partidos políticos, falava de uma “Lei de Ferro” da burocratização pela existência inevitável de oligarquias que empalmam o poder.  De fato, os que defendem a democracia como uma resistência ao avanço do poder sobre a sociedade, sabem perfeitamente que mesmo ela dá espaço às oligarquias dominadoras.
       No entanto, o que está ocorrendo no período histórico presente, cuja culminância foi a eleição de Trump para a presidência dos Estados Unidos, parece ser algo mais sério, na forma de uma ofensiva de direita que busca, no mínimo, obter a fórmula ideal da “meia democracia”. Imagina-se a situação em que o Estado seria aparentemente mínimo, mas sua ação ultra eficiente prescindiria da aprovação das maiorias e os representantes do povo estariam desconectados ainda mais do que hoje de suas bases, a fim de tomar as decisões convenientes ao livre mercado e ao capital internacional. Sua meta seria uma desconexão entre as instituições como o Judiciário, o Executivo e os Legislativos, de um lado, e a soberania popular, do outro.
        É como se a direita tivesse roubado alguns argumentos da esquerda marxista, para dizer, por exemplo, que os Direitos do Homem são os direitos egoístas do individualismo burguês e que, agora, é preciso reduzir a esfera de sua legitimidade em nome da eficácia da ação política e econômica.
       Vários autores perceberam esse deslocamento, como o filósofo italiano Giorgio Agamben, cujas análises procuram demonstrar que os estados de exceção tendem a se tornar permanentes, como se constituíssem a essência das democracias contemporâneas. Ou, sobretudo, como o francês Jacques Rancière, para quem está-se desenvolvendo um verdadeiro ódio à democracia na cultura atual, cujos críticos do sistema, de direita e de esquerda, reduziram o “homem democrático” seja ao “indivíduo egoísta” ou ao “consumidor ávido”, suprimindo a dimensão original da revolução democrática, germinada lá atrás, na Grécia, que é a emancipação e a plena cidadania.
        O discurso do elogio da democracia, presente nos tempos do totalitarismo no século XX, vem sendo substituído por narrativas sobre os seus riscos. Curiosamente, há uma coincidência entre as palavras e os fatos. Os golpes parlamentares de direita, como em Honduras, no Paraguai e no Brasil, assim como a crise da esquerda, ainda sem desfecho, da Venezuela, mostram aqui em nossa América Latina que o fogo é disparado não pelos militares, mas pelos políticos e os membros do Judiciário.
        A democracia corre o risco de morrer pelas mãos dos que mais deveriam defendê-la, promovendo a sua institucionalização.
       A ilusão de que a democracia é o regime mais compatível com o capitalismo leva muitos a acreditarem que basta o seu funcionamento conjugado para que sua sobrevivência esteja garantida.

      Ao contrário, pode-se pensar que a maior ameaça contemporânea a esse regime venha justamente desse binômio, uma vez que o capital se conjuga apenas com sua própria lógica de reprodução e de crescimento. O sonho do crescimento sustentável e constante pode ser também a lenta agonia da democracia.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

UMA OUTRA ESQUERDA

   
                                               
                                                                Reinaldo Lobo                                                               

       Existe uma esquerda fácil de se identificar. É a dos slogans, do entusiasmo militante, das palavras-de-ordem, da adesão cega a um lado, do maniqueísmo e até fanatismo, da falta de espírito crítico em relação aos seus próprios erros e do conforto burocrático. Costuma ser animada por valores éticos, pela busca da igualdade, justiça e liberdade, mas nem sempre sua ação se sustenta nos seus princípios ao longo da luta. É conciliatória e radical, muitas vezes contraditória nos seus fundamentos. A tentação do populismo é frequente. Pratica eventualmente um maquiavelismo barato ou, então, se fecha em algumas ideias simples e em posições extremas.
       Há, porém, uma outra esquerda mais difícil de localizar em meio à guerra ideológica e pouco reconhecida em seu valor inestimável. Esse grupo é tão esquerdista quanto o outro, mas não hesita em proclamar sua independência e dirigir um “fogo amigo” ao PT e a todos os partidos localizados nesse lado do espectro político.
     Sua visão é mais circunspecta e reflexiva, ainda que bastante crítica tanto em relação ao capitalismo quanto ao que chama de “socialismo de caserna”, dogmático e autoritário. Filia-se a uma ancestralidade mais libertária, respeita autores como o francês Merleau-Ponty, o neomarxista alemão Theodor Adorno e os epígonos da célebre Escola de Frankfurt, assim como os franceses Claude Lefort, André Gorz e, sobretudo, o greco-francês Cornelius Castoriadis, cujas teorias foram construídas, simultaneamente, nas lutas antitotalitária e anticapitalista.
     Para essa esquerda contemporânea não é apenas importante a diferença entre esquerda e direita, mas igualmente entre totalitarismo e democracia. Pode-se até arriscar dizer que se fala de uma geração intelectual “pós-totalitária”, que não ignora a monstruosidade do que se construiu em nome do socialismo no Leste Europeu e em outras partes do mundo, sem negar, contudo, avanços obtidos nas esferas sociais e políticas por muitos movimentos e governos que reivindicaram o rótulo de socialistas ou mesmo de comunistas.
     Essa posição singular é, como se vê, difícil. Obriga a navegar pela complexidade histórica atual e exige muita lucidez e sutileza nas suas análises. O que não falta, aliás, ao livro “Caminhos da Esquerda—Elementos para uma Reconstrução”, recém lançado pela Companhia das Letras, e ao seu autor, o filósofo Ruy Fausto, professor emérito da USP, também professor e doutorado pela Universidade de Paris I.
     Um livro raro na nossa Pindorama, que traça um diagnóstico duro sobre a trajetória dos governos Lula e Dilma sem perder de vista a brutal ofensiva da direita contra eles, inclusive a forma assimétrica das decisões da Lava Jato e do Judiciário, bem como o avanço direitista no mundo, sobretudo após a eleição de Trump nos Estados Unidos.
       Fausto é severo no diagnóstico geral quando diz, com razão, que um “trabalho de reconstrução” da esquerda, posta em xeque desde o evento simbólico da queda do Muro de Berlim, em 1989, “deve começar pela percepção de que, por diferentes razões e sob diferentes formas, vivemos nos últimos cem anos um período de alienação radical do projeto de esquerda em relação ao que ela representou na origem, e deveria continuar representando”.
      Uma objeção que geralmente parte da direita seria: “para salvar a esquerda, ” o autor estaria pondo entre parênteses a esquerda “realmente existente” e se refugiando numa outra, ”que só existe no seu espírito”. É a crítica sobre a falta de realismo em propor um projeto socialista depois do stalinismo, do Gulag, de Pol Pot e outros fenômenos aberrantes.
      Fausto apresenta uma resposta interessante a essa acusação frequente, ao fazer uma analogia com o destino do cristianismo sob o poder da Igreja, que teve “a Inquisição, as Cruzadas, o papa Bórgia, a noite de São Bartolomeu, o reacionarismo de uma fieira de papas, a atitude do papa Pio XII na Segunda Guerra Mundial, a homofobia, a oposição ao divórcio, o fanatismo nas diretrizes sobre a escola, enfim, uma longa história de erros e horrores do cristianismo realmente existente”. E pergunta: “Seria tão irrealista assim dizer que, apesar de tudo, o cristianismo verdadeiro é outra coisa? ”
       A esquerda não é, bem entendido, religião, mas a analogia é útil como ilustração – diz ele. Ora, houve sempre uma esquerda fora do poder de Estado e dos partidos. Mesmo dentro dos partidos e do Estado nem tudo foi sempre negativo—pense-se, diz ele, no “Front Populaire” francês dos anos 1930 ou no socialismo nórdico. Pensemos também nos movimentos sindicais de esquerda que empurraram o próprio capitalismo a fazer concessões aos trabalhadores, fornecendo condições menos desumanas de trabalho nos países mais civilizados. No plano da produção de ideias, então, nem se fale: a esquerda tem brilhado e, como diz Fausto, “para dar um exemplo, o pensamento clássico de Frankfurt não foi nenhuma brincadeira”.
      O autor não pretende substituir tudo o que foi feito ou existe na área da esquerda por algo inteiramente novo ou um plano utópico, do que não existe. Faz a crítica da corrupção em que o PT se envolveu, da sua aliança de classes típica de governos populistas com banqueiros, industriais e fazendeiros, mas não considera o projeto inicial do partido um caso perdido. Nem desdenha das conquistas em direitos humanos e sociais dos governos Lula e Dilma.
     Há que se fazer, contudo, uma profunda autocrítica, desintoxicando o PT do que ele chama de patologias da esquerda—o reformismo adesista, o populismo e o neototalitarismo. Se não fizer essa purgação ou desinfecção, esse partido não terá um futuro sério e cairá no grupo das aberrações que deformaram a esquerda ao ponto de, em alguns casos, se tornar irreconhecível, como, por exemplo, na social democracia, cuja mutação em neoliberal chega a ser risível.
      O que Fausto oferece em seu livro é muito mais do que resenhamos aqui, mas o principal é assinalar que, além da crítica, fornece elementos para a reconstrução de um projeto de esquerda que seja ao mesmo tempo democrático, anticapitalista, antipopulista, obviamente antitotalitário e com consciência ecológica.

     Uma excelente leitura para quem ainda se considera comprometido com uma ética humana de esquerda.

terça-feira, 20 de junho de 2017

FIOS QUE SEGURAM TEMER


 

                                                                 Reinaldo Lobo

 

     No romance “O Leopardo”, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, a personagem de um aristocrata e latifundiário comenta, em face de uma possível revolução republicana: “Se não nos envolvermos nisso, os outros implantam a república. Se quisermos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude. Fui claro? ”

     Esse tipo de cinismo das classes dominantes --retratado nessa obra clássica reeditada agora primorosamente no Brasil—é também uma tradição das nossas elites conservadoras. Muitos conhecem a frase do mineiro Antônio Carlos que antecedeu a Revolução de 30: ”Façamos a revolução antes que o povo a faça”.     

      Hoje, essa tradição se renova no apoio da nossa “oligarquia liberal” (latifundiários, industriais, managers de fundos de pensão, burocratas do Estado, políticos, tecnocratas e mesmo juízes e promotores) a duas atitudes dominantes na cena política e econômica:

As “reformas” implementadas pelo governo do melífluo e oportunista Michel Temer, que são, na verdade, medidas ultraconservadoras destinadas a proteger os interesses dominantes em nome da restauração da estabilidade econômica, atingida pela crise e pelos erros do “inimigo populista”.

 

A alardeada campanha anticorrupção do tipo “Mãos Limpas”, desencadeada por uma parte do Judiciário e pela mídia, apoiada pelas classes médias e a população em geral, cujo alvo, a corrupção, foi instituída historicamente por essas mesmas elites “liberais” e incrementada recentemente pelo empresariado das empreiteiras da indústria da construção, pelos burocratas estatais e por bancos públicos e privados.     


     O fio principal que ainda sustenta no poder o governo corrupto de Temer é o cinismo. De seus próprios ministros e do presidente, em primeiro lugar. Como tiveram inicialmente uma carta branca das classes dominantes para dar o golpe parlamentar que derrubou a presidente Dilma, os membros do atual governo não dão a menor importância para sua impopularidade e descrédito. Foram colocados lá -- à custa de muito dinheiro das mesmas propinas do empresariado denunciadas pela operação Lava Jato-- com uma única missão: realizar as “reformas” restauradoras da ordem e da hierarquia social tradicional e restabelecer a “confiança do Mercado”.
      O cinismo prevalecente afeta também a parte da classe média decepcionada com as mais recentes revelações da louvada Lava Jato, que parecia atingir só o odiado PT, mas trouxe à tona fatos escabrosos envolvendo o ex-candidato tucano Aécio Neves, o próprio Temer, cujo assessor foi apanhado com a mala cheia de dinheiro vivo e uma série de quase dois mil políticos. Muitos deles ajudaram na deposição do governo anterior em nome da luta anticorrupção e agora estão presos ou delatando seus pares.
      Se dependesse dessa fração da classe média, todos os políticos iriam para a cadeia, mas, constrangida por seu próprio engano em relação a seus heróis, não faz nada sobre isso nas ruas, como fez a partir de 2013.
      As bases de apoio do governo estão ameaçadas por pressões de vários lados, mas mesmo assim ele sobrevive com o argumento de que não há alternativa viável a ele no momento. E todos os setores conservadores engolem isso.
     É como se Temer dissesse: ”se me puserem na cadeia, que é o meu maior temor, quem vocês teriam com a minha desfaçatez de promover a compra dos cerca de 300 picaretas que conheço muito bem no Congresso? Liberei para eles emendas parlamentares de, no mínimo, seis milhões, além de outros benefícios menos publicáveis! ”
      O apoio sem graça do PSDB é mantido apenas a favor da “agenda das reformas”. Alguns de seus líderes mais cínicos querem trocar essa sustentação pela salvação da cabeça do Senador Aécio Neves, apanhado com a mão na cumbuca e ameaçado de ter a cabeça raspada em algum momento.
     No Supremo Tribunal Federal, sede hoje de decisões políticas, há uma divisão entre ministros que censuram os excessos da Operação Lava Jato e os que exigem o “cumprimento da Lei”. O apoio governamental é mínimo, portanto. Há uma certa paralisia da ação dos seus ministros, que engoliram o fiasco da absolvição do governo corrupto no TSE. Existe uma guerra não declarada entre a Procuradoria Geral da República, o Governo e alguns ministros do STF que querem apaziguar tudo, contendo a Lava Jato, em nome da “estabilidade”.
     Para os setores dominantes, a Lava Jato pode ter ido longe demais em sua sanha punitiva, deixando assim um fino fio de sustentação a Temer. Um fio muito frágil. A “oligarquia liberal” bem pode mudar de opinião a qualquer momento, assumindo o combate à corrupção como sua própria bandeira e procurando abrir caminho para o “novo”, que poderia significar o recurso às Forças Armadas ou forjar candidatos “anti-políticos” como Trump, Macron ou qualquer outro na moda.
     Vários setores da elite dirigente já aceitaram a “aliança populista” com Lula e o engoliram temporariamente graças ao êxito econômico do seu governo. Durante um bom tempo, Lula e o PT não eram os inimigos, pois acionaram um certo desenvolvimento, inclusive social, ampliando o mercado.
     Então,   por que não aceitariam Temer cujo slogan como vice-presidente era: “Meu gabinete sempre estará aberto aos empresários”? Hoje se sabe por quê e para quê.
     O governo não tem representatividade nem autoridade para muita coisa, mas possui a legitimidade conferida pelo cinismo dominante. Cinismo que mantém a equipe econômica do seu lado até onde lhe convier, pois é ela que sustenta o ideário neoliberal conservador.
    Os analistas “frios” da ciência econômica e política temem que todos esses polos de manutenção do poder abandonem de uma vez o governo, trazendo o caos constitucional e social, pois há dúvidas na linha de sucessão e nenhum nome capaz de manejar com facilidade o Congresso, um dos baixos, se não o mais baixo, em matéria de qualidade humana e política. O perigo estaria na hipótese impensável de o povo assumir o controle da situação.
    A frágil democracia brasileira continua nas mãos da “oligarquia liberal”, incapaz de uma hegemonia fundada em princípios e sempre ameaçada de decadência, como a aristocracia de Lampedusa. Igual ao diagnóstico do romance, está claro que o que temos de pior são as nossas elites.

      

segunda-feira, 5 de junho de 2017

AUTONOMIA OU INDIVIDUALISMO?

    

                                                                                          Reinaldo Lobo

         A ideologia neoliberal consagra o individualismo possessivo. O seu ideal de homem livre é o que cuida de si e de sua família, de preferência proprietário e capaz de “empreender”. Essa visão-de-mundo foi magnificamente resumida por Margareth Thatcher, ex-premiê britânica: “A sociedade não existe. Quando olho, vejo indivíduos e, no máximo, famílias”.
        No polo ideológico oposto, a vulgata bíblica marxista ressalta o coletivismo. Só existe a sociedade. Josef Stálin, autor do inacreditável texto “As Quatro Leis da Dialética”, definiu certa vez: “ Só temos a história coletiva. O indivíduo é uma ficção. ”
        Na verdade, é bem difícil pensar o indivíduo sem a sociedade. Mas também o contrário: a sociedade sem os indivíduos. Os seres humanos são animais sociais. Só isso garante sua sobrevivência.
        A ideia de uma liberdade sem peias, sem nenhum constrangimento ou continência, uma espécie de anarquismo dominado pelo princípio do prazer, onde o outro não exista como obstáculo nem referência, é uma ficção infantil. Essa não é a liberdade fundada na autonomia, mas nas fantasias mais primitivas, estimuladas pela sociedade de consumo para nunca serem realizadas de verdade.
       Vivemos numa sociedade anárquica da insatisfação permanente, justamente por negar a falta, a falha e a carência, dando a ilusão de uma possibilidade infinita de participação na riqueza e no poder. 
    Certa vez, um ultraconservador, o germano- americano Henry Kissinger, lamentou: “Muitas pessoas sofrem tanto por não participarem da afluência e dos benefícios do capitalismo, ao ponto do desespero, porque alimentam o sonho americano de que o esforço as conduzirá a se tornarem proprietárias de bens e de suas vidas. Nem sempre isso é possível”. Faltou dizer que, na maioria das vezes, é impossível, pelo menos por caminhos normais de trabalho e competição.
       A sociedade de consumo é como aquela mulher de suéter justo na tela do cinema, insinuando, mas não deixando ao alcance a beleza crua e o erotismo. Seduz, promete. É só a miragem estética, no dizer o filósofo alemão Theodor Adorno, mas não cumpre jamais.
       Há uma enorme confusão entre autonomia e sujeito isolado, racional,  da filosofia liberal e , sobretudo, da ideologia neoliberal. A autonomia -- como mostraram Castoriadis e até os filósofos clássicos--, é o sujeito dar-se suas próprias leis. No plano do indivíduo, isso significa estabelecer a própria legalidade das determinações do sujeito. 
      A psicanálise é um exemplo evidente, um modelo da possibilidade de alcançar a autonomia individual, quando o sujeito enfrenta as próprias determinações. Foi por isso que Castoriadis incluiu a psicanálise no que chamou de “projeto de autonomia”, que seria a disseminação da autonomia auto reflexiva e lúcida, ou, em outras palavras, a emancipação humana.
      No plano da sociedade, a autonomia não se reduz à liberdade individual, mas tem a ver com a existência e criação de instituições coletivas que favoreçam a autonomia e a responsabilidade de seus membros. Dito de uma maneira diferente: a autonomia pressupõe uma sociedade autônoma. A minha autonomia está imbricada e até depende da autonomia dos outros. É contrário do individualismo de um modo geral e do possessivo, em particular.
      Do mesmo modo, uma autonomia individual pressupõe uma educação para a liberdade coletiva, uma “Paideia”, como dizia Castoriadis. Esta seria o eixo central da autonomia social, por sua capacidade para criar sujeitos autônomos. O projeto de autonomia, segundo este ponto-de-vista, é o movimento histórico dos sujeitos para alcançar um auto instituição lúcida da sociedade, que é o sentido máximo da autonomia: dar-se as próprias leis. Mas é uma lei que significa autocriação da sociedade, que não reconhece fundamentos extra sociais.  Não depende de deuses, poderes acima dos homens, raça ou classe social superior. Depende apenas da própria sociedade.
      A sociedade da autonomia, portanto, não se dissolve num coletivismo estrito, socialista, ainda que implique na participação comunitária permanente. Também não se subordina à ideia de uma coleção de indivíduos proprietários ou despossuídos, distinguindo-se totalmente da democracia liberal clássica.
     O projeto de autonomia é uma atividade que não se detém, envolve a crítica das leis, o questionamento do sentido da sociedade, de suas significações imaginárias e da participação nas decisões coletivas. A ideia de autonomia é o oposto de todo totalitarismo. É a ruptura da heteronomia e da alienação. Constitui um esforço constante e incessante para “desalienar” os sujeitos. Tarefa a ser aplicada no sentido individual e coletivo.
     Uma sociedade autônoma é uma radicalização da democracia, isto é, do regime que permite a criação de novos direitos e instituições. Mas não é só isso: talvez seja a essência do que uma verdadeira democracia pode ser.