segunda-feira, 6 de novembro de 2017

A CRISE SEM FIM

                       

                                                                      Reinaldo Lobo

   Um traço das sociedades contemporâneas é a crença de que o crescimento ilimitado da produção, das forças produtivas e do consumo infinito é, de fato, a finalidade central da vida humana. O resto seria a cultura, a arte, as religiões, as identificações pessoais, os afetos, os sonhos, a esperança, a solidariedade, o reconhecimento e muitas outras inutilidades.
     Essa “ideia” do crescimento sem fim é o que Cornelius Castoriadis chamava de significação imaginária social. A ela correspondem novas atitudes, valores e normas, uma nova definição da realidade e do ser, uma seleção do que conta e daquilo que não conta.
     Os cientistas e os filósofos de plantão determinam uma nova virada para o pensamento e o conhecimento: não há limites para os poderes e as possibilidades da Razão em seu casamento com o capitalismo. Essa significação imaginária se refere também à “aplicação da ciência à indústria”, como dizia o racionalista Marx--o que implicaria em constantes transformações tecnológicas. Nesse ponto, os neoliberais e os marxistas se encontram, isto é, na crença do “progresso permanente”.
     O fato de a natureza estar sendo destruída sistematicamente e de haver crises constantes ou cíclicas na sociedade, com grandes prejuízos humanos e materiais, passam a ser “normais” sob esse ponto de vista da produção e do consumo infinitos. Já não há limites para a progressão do conhecimento, dizem os cientistas em paralelo com os ideólogos. É como se a Razão, de crise em crise, de forma fragmentária e irregular, progredisse em direção a uma Verdade Absoluta que nunca é atingida. Assinalou Castoriadis: “a ideia da expansão ilimitada do domínio racional (“pseudo domínio”, “pseudo racional”) fala de um totalitarismo imanente ao imaginário capitalista”.
      Essa visão-de-mundo capitalista, que se imagina científica e racional, tem destruído sistematicamente os valores, a arte e a cultura, hoje diminuídas a reflexos do “mercado”. Também têm sido detonadas as identificações pessoais pelo rebaixamento das instituições e da política. É como se os sujeitos apresentassem um superego “frouxo”, sem marcos e referências no imaginário social.
      A predominância da significação imaginária do capitalismo produz várias características e efeitos particulares na sociedade atual e nos seus indivíduos. Um deles, é o conformismo generalizado: sua origem é a diminuição da participação dos cidadãos na vida pública. As instituições políticas cumprem a função de afastá-los dos assuntos públicos, convencendo-os da inutilidade de sua participação. É minúscula a parte da sociedade que governa e decide sobre seus sucessores—é a chamada “oligarquia liberal”. Em face da significação hegemônica capitalista desaparece o conteúdo de toda oposição verdadeira entre “direita” e “esquerda”. Tudo isso produz um sujeito conformista e privatizado, que recusa responsabilidade social e política, virado de costas para as questões de toda a comunidade e preso cada vez mais na esfera privada, isto é, na sua família e em algumas relações pessoais. Isso é o que se pode chamar de privatização e despolitização da vida.
         Na democracia contemporânea, quando uma pessoa vota, sua atitude é cínica; não crê no programa que lhe é apresentado, mas considera que o candidato escolhido entre vários é apenas um mal menor em comparação com o governante anterior.
         Na sociedade atual, o indivíduo deixou de ser um cidadão e um produtor na acepção da palavra e se tornou um consumidor. Seu objetivo está em grande medida na aquisição de mais bens, mais diversão, mais sensações, mais turismo. Está passivo e envolvido por uma inundação de ofertas propostas pela mídia.  O sujeito é o espectador da exposição das mercadorias e do espetáculo da alienação.
         O contorno da sociedade é capitalista, e sua meta principal é o consumo desenfreado, além da acumulação do capital. Isso leva a uma operação destrutiva dos laços e da vida social, à privatização do sujeito e ao seu conformismo. Castoriadis chama a essa operação de “avanço da maré de insignificância” em uma “sociedade de lobbies e de hobbies”.
         Do ponto de vista psicanalítico, essa fase desestruturante do espaço social gera uma “crise do processo identificatório”. Isso acontece porque a significação imaginária do capitalismo, entregue a si mesma, entra em crise-- em um tipo de espiral auto-desestabilizante-- e, com ela, as instituições.
       O resultado é, então, ninguém mais saber a sua função na sociedade, qual o sentido da vida social e a sua participação nela. Fica confuso o que se espera de um homem, de uma mulher, de um professor, de um operário, de um profissional. Essa crise identificatória acelerou-se desde os anos 80, com o triunfo do neoliberalismo em 160 países do mundo. Só restam traços remotos dos “tipos antropológicos” anteriores, da década de 70 para trás.
       Não se pode falar de um sujeito no sentido pleno quando as pessoas são levadas a não pensar, não refletir sobre si e sobre a sociedade. Para existirem sujeitos é preciso que os indivíduos possam falar de um “nós” coletivo e possam instituir um campo de conhecimento reflexivo, uma lucidez e responsabilidade pela sociedade a que pertencem.
       A dúvida atual é se as chamadas democracias liberais têm como produzir esses indivíduos autônomos e em quantidade suficiente para restaurar a esfera pública e uma liberdade digna desse nome.





    

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

UMA DEMOCRACIA DE TORCEDORES

                            
                                                             Reinaldo Lobo

    O governo brasileiro continua a produzir pacotes de maldades, atendendo as camadas mais privilegiadas da sociedade. A última foi a portaria do Ministério da Agricultura facilitando o trabalho escravo no campo, velha reivindicação dos “ruralistas”. A medida viola os direitos humanos, mas o cinismo de Michel Temer deixa claro que tudo não passa de uma manobra para atrair votos no Congresso a fim de livrá-lo da deposição e da cadeia.
     Estamos assistindo paralisados a um caso único de governo que não se importa com a impopularidade e só age para preservar interesses particulares. É o mais impopular da nossa História desde que existem as pesquisas de opinião. O mais cínico também. As decisões partem de uma constatação negativa: “já que possuímos maioria comprada no Congresso igualmente impopular, não temos nada a perder em adotar medidas contra a população mais pobre e os trabalhadores em geral”. É a “positividade do negativo” para os mais poderosos do País.
      A mídia – os jornais, as revistas, a TV, as redes sociais dirigidas, a publicidade política—têm parte na formação do que o linguista Noam Chomsky chama de “consenso” na opinião pública. Só que, no nosso Brasil, é um consenso negativo: “não há nada a ser feito; não temos nada com isso, pois são todos corruptos; não há solução para a crise política; a economia anda sem os políticos; a Justiça também está comprometida; só um milagre em 2018 poderia salvar-nos”.
       O consenso formado pela mídia era o de que havia uma única causa para os problemas nacionais: a presença do PT no poder. Removido o PT e neutralizada a candidatura de Lula, o que resta? O vazio e o consenso negativo, no qual se apóia Michel Temer.
       Não há modelos positivos em que se apoiar, porque, de fato, o Sistema Corrupto corroeu tudo e a Lava Jato, cujas origens no judiciário são anti-políticas, acabou por atingir potencialmente todas as esferas da área institucional -- inclusive os juízes, atualmente ultrapolitizados. 
    As revistas nacionais insistem que estamos num beco sem saída, eliminando a possibilidade de organização na esfera da sociedade civil e de manifestações populares. Como são conservadores em sua maioria, as revistas e os jornais evitam estimular qualquer pressão de baixo para cima que possa desestabilizar a “lei e a ordem”.
    Não por acaso, o governo Temer tenta aliar-se à mídia conservadora, adotando o slogan da bandeira, Ordem e Progresso, para dizer de que lado está, apesar de corrupto.
    Estabilidade, leis de contenção das reivindicações populares e “austeridade” – são as palavras-de-ordem atuais
     A mídia ocupa um papel dominante na política. Por isso mesmo, um papel perigoso. Rege o espetáculo político, determina quem presta e quem deve ser desprezado, às vezes julga e condena, seleciona os eventos a serem percebidos pelo público e os que devem ser ignorados.
    A seletividade não é resultado de qualquer censura, mas a própria imprensa, que hoje envolve o audiovisual e todo tipo de comunicação rápida, dá forma aos “fatos”. A morte de trabalhadores sem-terra, muitas delas em massacres, ocupa um espaço muito menor do que as brigas pelo poder entre notórios corruptos ou mesmo do que a novela das delações de corrupção. Denúncias contra Lula e o PT ocupam manchetes, enquanto as delações contra conservadores são minimizadas.
    Não se trata de má fé explícita, mas de percepção seletiva, automática e inconsciente. É o trabalho da ideologia, que determina a percepção sem que as pessoas saibam. Mas, muitas vezes, assume a forma de decisão consciente e proposital.
    Cito novamente Chomsky: “Considerando o papel que a mídia ocupa na política contemporânea, somos obrigados a perguntar: em que tipo de mundo e de sociedade queremos viver e, sobretudo, em que espécie de democracia estamos pensando quando desejamos que essa sociedade seja democrática? ”
     Essas observações do filósofo e linguista não valem apenas para o poder na sociedade norte-americana, onde o atual presidente utiliza a mentira e as “fake news” para governar. O fato mais importante é que Trump não inventou as “fake news”, mas elas são o resultado da disseminação dos novos meios de comunicação e da própria imprensa relativista e tendenciosa.
     A “pós verdade” hoje se confunde de modo grave com a própria notícia “regular” da mídia, pela falta de transparência quase generalizada. Se, por um lado, ficou difícil para qualquer governante esconder certos fatos, uma vez que as técnicas contemporâneas permitem até uma notável invasão de privacidade, também é possível, por outro, mascarar, inventar e armar situações onde as aparências podem ser tomadas como “verdades”.
     Aqui no Brasil, onde temos uma democracia de espectadores de TV, de consumidores e de torcedores que assistem às brigas de que o povo não participa, o consenso negativo foi criado para paralisar ações que não se dirijam apenas aos alvos selecionados e que deixem a chamada opinião pública incapaz de se tornar um movimento efetivo de cidadãos.



quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O CINISMO PROTETOR

  

                                                       Reinaldo Lobo*

       O cinismo psíquico é uma defesa sofisticada, usada principalmente pelos adultos. Do que nos defendemos? Da realidade, ou melhor, da dor que ela provoca ou pode causar. Dizemos de algumas profissões como a de policial, de cirurgião, de juiz e de jornalista, que elas expõem seus praticantes a duras experiências da vida. Podem levar ao cinismo, que envolve uma certa indiferença cúmplice e uma anestesia diante da dor infligida ao outro.
     O Brasil é hoje um país com muitos cínicos nesse sentido, gente de quase todas as profissões.
     Uma grande parte do povo que foi às ruas a partir de 2013, pedindo a cabeça dos governantes, agora está paralisada, medrosa ou, sobretudo, cínica. Isso tem a função óbvia de não ver o próprio erro e de não reconhecer as consequências dos seus atos. O alcance de uma atitude política imediatista nos escapa com frequência e pode dar no que está acontecendo agora, no presente de recessão profunda e estagnação econômica.
    Além disso, pode revelar o que ninguém esperava—ou seja, que nossos aliados eram também corruptos, alguns até há mais tempo do que aqueles que imaginávamos.
    O cinismo protege também de ver a miséria, a destruição da natureza, as leis arbitrárias e regressivas, a perseguição às minorias, o fanatismo religioso a serviço do dinheiro, o massacre de jovens nas favelas, a inoperância do combate às drogas, a eliminação de direitos humanos e trabalhistas e a enxurrada de leis aprovadas em benefício de bilionários e aproveitadores dos recursos públicos.
      A irmã do cinismo é a hipocrisia, outro recurso pré-consciente e, às vezes, consciente, destinado a reassegurar uma pessoa ou um grupo.
     Não deixa de ser uma ironia bizarra sabermos que boa parte dos que ostentavam cartazes e gritavam contra a corrupção eram, eles próprios, notórios corruptos. Geddel Vieira Lima, por exemplo, estava na linha de frente das manifestações de camisas amarelas e, agora, tudo indica que é o dono daquelas malas com mais de 50 milhões de reais achadas em apartamento de sua propriedade. Assim como não deixa de ser ridículo, mas revelador, que personagens como o ator pornô Alexandre Frota esteja também à frente dos protestos moralistas contra a nudez em museus, ou, ainda, que se lance um olhar pedófilo recalcado sobre uma performance no MAM.
          O preconceito consiste em julgar um fato ou um fenômeno baseado em apenas informações parciais. É assim que um antissemita justifica sua generalização a partir de uma experiência com um judeu determinado ou por sua estranheza em relação a hábitos que não entende ou não conhece o suficiente.
         Essa extensão no julgamento é frequente igualmente na avaliação dos políticos, como defesa em relação à constatação de que aqueles nos quais votamos também prevaricaram: “Todos são iguais, devem ser punidos igualmente com a violência da Lei! ”.
        O cínico atribui a culpa ao outro e lava as mãos.  Pilatos pode ser considerado um dos pioneiros do cinismo comportamental. Interessante é o seu recurso à inação, que, na verdade, é um ato. Parece um gesto de complacência, neutralidade e de democracia, mas consiste numa tomada de posição. Pilatos escolheu o seu lado, romano, deixando para o povo a decisão que sua própria lei e seu pessoal executou.
         No Brasil atual, Pilatos encarnou na forma de uma parte do povo, que se recusa a agir contra a máfia que empalmou o poder na onda de ódio anti-petista. Aceitar que certos atores políticos são parte de um antigo Sistema Corrupto é dar aval ao petismo. O PT virou a Gení da atualidade. O ódio e o pseudomoralismo exacerbado de juízes e promotores estão levando a desastres como o suicídio daquele reitor da Universidade Federal do Paraná, que se jogou do alto do vão livre de um shopping.
        Agir saindo às ruas ou protestando contra o governo Temer seria reconhecer a precipitação, a parcialidade, o excesso, o erro, a ingenuidade política, mas, sobretudo, constituiria violar uma lei ideológica atacando um governo que, apesar de acusado de corrupto como o anterior, é conveniente para setores adeptos do capitalismo de resultados.
       Boa parte das nossas classes médias está surfando a onda do “todos são iguais, mas alguns são nossos iguais”. Há, para esses, alguns corruptos chiques que devem ser mais tolerados do que os sindicalistas “vulgares e deselegantes”. Daí o silêncio cínico.
       O cinismo a que nos referimos tem pouco ou nada a ver com o cinismo filosófico, aquela doutrina criada por Antístenes de Atenas (444-365 a.C.), que pregava uma vida simples e natural, uma felicidade desapegada de riquezas, artifícios e frivolidades e que tomava a vida dos cães como uma espécie de modelo ideal da simplicidade. A única ligação possível com o sentido original da palavra, hoje deformada, talvez seja a indiferença, comum ao desapego grego aos bens e riquezas vigentes e, hoje, o gesto de virar os olhos para lá diante da imoralidade evidente “dos iguais”, cheios de riquezas e de bens.

        O cinismo a que nos referimos é diferente da filosofia antiga, pois aplaca a consciência dos que não querem enxergar a corrupção, a riqueza ilegal e o abuso daqueles que amavam, toleravam, e até agora toleram. Muitos dos que votaram em Aécio Neves, por exemplo, só querem ouvir falar de outros corruptos e, apesar de prometerem não votar mais nele, lastimam sua decadência política: “um rapaz tão igual a nós, simpático e bem vestido”.
       O cinismo psíqu

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O CAPITAL NUNCA DORME



                                                               Reinaldo Lobo

                 Dormimos uma grande parte de nossas vidas, o que é, do ponto de vista da sociedade de consumo e do capital, um desperdício de tempo e dinheiro. “Time is Money”, diz o velho clichê norte-americano. Só faltava o capitalismo invadir o nosso sono e instrumentalizar nossos sonhos. Faltava, pois já não falta mais.
              A história desse processo de conquista da última fronteira pelo capital—o sono e o dormir—está contada num livrinho intrigante traduzido aqui na praça, denominado “Capitalismo Tardio e Os fins do Sono -- 24/7”, de Jonathan Crary, lançado por uma nova editora, a “Ubu”, criada em 2016.
              O autor, professor de estudos culturais na Universidade de Columbia desde 1989, conta que milhões de dólares estão sendo investidos em pesquisas privadas e militares para produzir um ser humano que não durma muito, ou, pelo menos, seja capaz de ficar insone por 24 horas por sete dias, daí o subtítulo 24/7.
            Para o Pentágono, esse tipo humano seria um soldado perfeito, tanto que foram designadas equipes de psicólogos e neurologistas para realizar e estudar experiências de abstinência de sono, inclusive o exame dos  presos “extraoficiais” torturados também dessa forma em Guantánamo.
            Para a sociedade de consumo, “a imensa parte de nossas vidas que passamos dormindo, libertos de um atoleiro de carências simuladas, subsiste uma das grandes afrontas humanas à voracidade do capitalismo”—o sono, escreve Crary.
           O autor sabe o que muitos de nós sabemos, isto é, o capitalismo cria “desejos” e “necessidades” artificiais aos quais estamos expostos e submetidos em nosso estado de vigília diurna. Também é conhecido o fato de que esses artifícios são destinados a provocar o consumo, nem sempre ao alcance de todos -- que vão desde um novo carro com maior potência e rapidez para estradas com limites de velocidade, até uma marca martelada pela publicidade ou um gadget eletrônico com recursos maiores do que usamos, ou um novo sabor de comida ou viagens para resorts turísticos que são verdadeiras ilhas de prazer construído e programado. Para isso, o consumidor precisa estar atento e desperto.
          Desde 2001, após o advento da maior onda de terrorismo internacional e a instauração de um “Estado de Exceção” nos EUA e vários outros países, a privação de sono tem sido uma prática de tortura aplicada a vítimas de “custódia extrajudicial” e a outros presos. Muitos desses “programas” para prisioneiros foram elaborados sob medida por psicólogos que, fazendo parte de equipes de consultoria de ciências do comportamento, procuravam explorar vulnerabilidades emocionais e físicas de cada detento.
         A privação do sono como forma de tortura é usada há muitos séculos, mas sua aplicação sistemática coincide historicamente com a disponibilidade de luz elétrica e a facilidade para amplificar o som de modo contínuo, diz Crary. A polícia política de Stálin, a NKVD, a usava rotineiramente em 1930, como parte de uma sequência de brutalidades e de violência gratuita que danifica irreparavelmente seres humanos. Sabe-se que, em experimentos, ratos morrem depois de três semanas de insônia. Em nós, humanos, é suficiente um período curto de alguns dias para tal prática induzir a psicose. Após algumas semanas, surgem danos neurológicos. A falta de sono produz um estado de extrema submissão e desamparo, tornando possível extrair informações relevantes da vítima, que confessará ou inventará qualquer coisa. O DOI-Codi, em São Paulo e no Rio, usava muito esse método durante a repressão à oposição à ditadura militar-civil de 1964-85.
          O que mudou no pós-11 de setembro foi a naturalidade com que a privação de sono e outras torturas passaram a vigorar, no combate ao radicalismo islamita. E isso serve de modo especial para as pesquisas sobre o sono no Departamento de Defesa dos EUA e em outras partes.
          Sabe-se que o Pentágono organizou uma equipe e investiu milhões de dólares na investigação sobre pássaros que migram, em função das estações, do Alasca até o México, entre eles o pardal da coroa branca, uma espécie que migra no outono para o sul e na primavera retorna para o norte. O detalhe é que o pardal da coroa branca tem a capacidade impressionante de permanecer acordado por até sete dias durante as migrações, o que permite que voem e naveguem de noite, e procurem por alimento de dia, sem descansar. Nos últimos seis anos, o Departamento de Defesa norte-americano gastou uma fortuna para estudar essas criaturas. Cientistas investigam a atividade cerebral desses pássaros durante a longa vigília, a fim de obter informações aplicáveis aos seres humanos e saber como as pessoas poderiam ficar sem dormir e funcionar com eficiência e produtividade. Se o objetivo inicial era conseguir o soldado que não durma, com a expansão da pesquisa por corporações privadas essa meta dirigiu-se ao mundo do trabalho e do consumo.
           Parece que o livro anuncia um admirável mundo novo, onde funcionaria uma distopia aterrorizante, onde o sono estaria abolido. Não é bem assim. Mas não há dúvida que o estudo dos pardais da coroa branca é apenas uma fração de um amplo esforço científico e militar para obter algum controle, mesmo que relativo, sobre o sono humano. Diversos laboratórios estão conduzindo hoje pesquisas avançadas e testes experimentais de técnicas de privação de sono, recorrendo a substâncias neuroquímicas, terapia genética e estimulação magnética transcraniana. A meta imediata é conseguir que alguém fique 24 horas sem dormir por sete dias.
        O autor se estende sobre questões filosóficas e políticas sérias a respeito do sono e do sonhar, lembrando inúmeros escritores, a começar por Freud, que associaram o dormir ao sonho, “esse guardião do sono” -- e o sonho a uma fonte de projetos para um futuro melhor da humanidade.
      Diante disso, é preciso ficarmos atentos, digamos acordados, para não ser possível que a sociedade humana se torne uma lúgubre e triste distopia de robôs sem alma.


terça-feira, 12 de setembro de 2017

O ESTADO EMOCIONAL DO PAÍS


                                                    
                                                                  Reinaldo Lobo

    Os brasileiros estão confusos com o espetáculo da crise brasileira na TV e nas redes sociais. Não é mais possível a simples polarização entre o Bem e o Mal, nem a busca de um único inimigo ao qual acusar. Não existe apenas uma Gení a servir de bode expiatório. Todos “são culpados” e não se sabe mais em quem confiar.
     A novela da Lava Jato, acompanhada em capítulos estudadamente vazados para a mídia a fim de ganhar “apoio da população”-- como disse o juiz Moro-- parece que não terá um final feliz. Ou, pelo menos, tudo indica que acabou em paradoxo e complexidade, mas os seus agentes ainda não perceberam. Moro ainda tem a chance de atingir um ponto de sua missão, Lula, principal alvo inicial da operação, mas até isso está difícil agora.
     Curiosamente, a oposição principal à operação parte hoje de quem fingia defendê-la e queria servir-se dela para seus objetivos políticos.  
     A onipresença da mídia na sociedade, a manipulação dos estados emocionais dos cidadãos pelo impacto das notícias e dos comentários, o partidarismo da nossa imprensa – tudo isso leva à crença de que teríamos um povo mais politizado e consciente, mas não é bem assim.
    Os brasileiros estão perdidos com as mensagens contraditórias emitidas pelo Judiciário, pelos partidos e pelos meios de comunicação. Os que saíram às ruas de camisas amarelas pedindo o fim da corrupção estão perplexos e paralisados. Viram mais tarde muitos dos corruptos notórios nas fotos de suas próprias passeatas.
   Como entender que a Rede Globo, principal geradora dessa novela e formadora de opinião no País, passe de uma uma posição a outra, por motivos pouco conhecidos do público?
    Quem é o sujeito da ação política por trás do comando do espetáculo? Essa é uma indagação sem resposta visível para o povo.
     Os segmentos mais populares, sem camisas amarelas, estão numa angustiante expectativa sobre quais direitos sociais terão depois das chamadas “reformas”, desencadeadas em curto espaço de tempo pelo governo pós-impeachment. Só os sindicatos e frações de movimentos sociais fazem manifestações ignoradas em grande parte pela mídia.
     Os jovens, estudantes e profissionais, estão divididos entre apoiar os trogloditas da direita, a turma do Bolsonaro, os “gestores” do tipo Dória ou a paralisia da esquerda desmoralizada pelas acusações de corrupção, dividida e relativamente impotente na ação.
      No ataque ao sistema corrupto, está acontecendo no País algo semelhante ao que fez o novo prefeito de São Paulo na dita Cracolândia: atacou um ponto como se fosse o único alvo e o crack se espalhou para muitos lugares da cidade, alguns inesperados. As pessoas não sabem se o crack foi eliminado ou se apenas se diversificou.
      Os que tinham como referência política um determinado partido -- para combater os principais focos de corrupção nacional, segundo sua visão--, perderam a referência ao ver o líder em quem votaram aparecer indigitado por graves denúncias.
     Antes, os inimigos eram Lula e Dilma, então como é possível que Aécio Neves e mesmo o “mal menor” apoiado taticamente, Temer, surjam como chefes de quadrilhas?
       A essa dificuldade de percepção contraditória chama-se, em psicologia, “dissonância cognitiva”. Essa mesma dissonância afeta a esquerda, quando se vê o principal partido originalmente contrário à corrupção, o PT, com vários líderes citados em listas de propinas e manobras pouco republicanas.
      Contra quem dirigir o ódio neste momento, uma vez que a situação de crise econômica, também difícil de compreender, induz a essa emoção forte e politicamente poderosa? Já não é tão fácil achar um culpado, inclusive, pela própria crise econômica.
      Como recuperar uma visão de mundo binária, capaz de operar de modo semelhante aos computadores: sim ou não, isto ou aquilo? Apesar desse maniqueísmo não ser desejável, ele oferece às pessoas algum solo onde se apoiar. Não é justificável, mas compreensível. Até esse “consolo” está faltando neste momento da vida do País.
       Quando a perplexidade parece diminuir um pouco, logo vem alguma  notícia perturbadora e com linguagem de dupla mensagem. A mídia não para de dizer, por exemplo, que as “reformas” do governo pós-impeachment são essenciais para salvar o País e acabar com a crise.
    O uso da palavra reforma é enganador nesse caso e passa uma mensagem dúbia. Primeiro, porque nada indica que são verdadeiras reformas, mas medidas de “austeridade”, restaurações, acertos e legislações liberais à moda antiga, quase anteriores à revolução de 1930 -- quando houve, aí sim, uma série de reformas que deram maior segurança aos cidadãos em geral e aos trabalhadores, em particular. E nada garante que as tais “reformas” atuais vão tirar o País da crise econômica e, menos ainda, da precária situação política. Apenas ameaçam lançar o ônus da crise para os mais pobres.
    Um ponto parece certo: as mudanças propostas afetam negativamente a vida dos trabalhadores, retirando garantias conquistadas por décadas de lutas sociais e políticas.

     Como é possível confiar nas diretrizes propostas por quem dirige a vida nacional se as próprias palavras usadas são ambíguas ou contraditórias? Certamente, os mais pobres são os que têm as maiores expectativas, mas são também os que mais desconfiam e temem o futuro.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

MEIA DEMOCRACIA


                                             
                                                                    Reinaldo Lobo*

         A democracia está sob ataque no mundo inteiro. A pretexto de suas falhas de representação, muitos ideólogos de diversos países encerraram o namoro democrático que vinha desde o fim dos regimes totalitários do Leste Europeu, em 1989.
        Associada ao capitalismo de livre mercado, a democracia liberal era a receita ideal apregoada em toda parte. Foi até imposta pela força das armas em alguns países do Oriente Médio.  
        Hoje, não é bem assim. O discurso liberal foi substituído por uma crítica dos limites da democracia e, ainda que mantida formalmente nas Américas, na Europa e em boa parte da Ásia e África, está sob suspeita de enfraquecer o espírito coletivo, promover o individualismo e a ineficiência. A lembrança de que a maioria das nações reivindicava até há pouco tempo a qualificação de democrática, vem sendo deixada para trás.
       Comparado com empresas privadas, o Estado Democrático é pintado como um resquício de burocracia que entrava o fluxo das decisões de mercado e um obstáculo à manutenção do capital internacional. É comum ouvirmos empresários declarando seu amor à China, onde há um capitalismo totalitário no qual imperaria, segundo eles, uma grande facilidade decisória, sem as amarras e meandros democráticos.
       O capitalismo chinês teria, por exemplo, o mérito de impor suas decisões  com mais rapidez e fluidez entre a ponta da produção e da comercialização, sem falar da repressão às reivindicações salariais e da submissão dos trabalhadores. A Rússia do autoritário Putin costuma receber elogios parecidos, por reunir restos centralizadores e a estabilidade do regime anterior combinados com a dinâmica do capital.
       O risco de abertura excessiva da democracia à criação de novos direitos e à participação popular constitui uma ameaça à “oligarquia liberal” que dá as regras e governa nos chamados países ocidentais. A preferência por Estados de Exceção é cada vez maior e talvez constitua a forma política e jurídica ideal a serviço da ideologia neoliberal. 
       Todo Estado é, num certo sentido, fechado em si mesmo. Forma um círculo de poder. É oligárquico. Dizia um célebre teórico da oposição entre democracia e totalitarismo, o sociólogo Raymond Aron, insuspeito de anarquismo ou de esquerdismo: “”Não se pode conceber um regime que, em algum sentido, não seja oligárquico”. Um outro autor, o clássico Robert Michels, de orientação mais à esquerda e estudioso dos partidos políticos, falava de uma “Lei de Ferro” da burocratização pela existência inevitável de oligarquias que empalmam o poder.  De fato, os que defendem a democracia como uma resistência ao avanço do poder sobre a sociedade, sabem perfeitamente que mesmo ela dá espaço às oligarquias dominadoras.
       No entanto, o que está ocorrendo no período histórico presente, cuja culminância foi a eleição de Trump para a presidência dos Estados Unidos, parece ser algo mais sério, na forma de uma ofensiva de direita que busca, no mínimo, obter a fórmula ideal da “meia democracia”. Imagina-se a situação em que o Estado seria aparentemente mínimo, mas sua ação ultra eficiente prescindiria da aprovação das maiorias e os representantes do povo estariam desconectados ainda mais do que hoje de suas bases, a fim de tomar as decisões convenientes ao livre mercado e ao capital internacional. Sua meta seria uma desconexão entre as instituições como o Judiciário, o Executivo e os Legislativos, de um lado, e a soberania popular, do outro.
        É como se a direita tivesse roubado alguns argumentos da esquerda marxista, para dizer, por exemplo, que os Direitos do Homem são os direitos egoístas do individualismo burguês e que, agora, é preciso reduzir a esfera de sua legitimidade em nome da eficácia da ação política e econômica.
       Vários autores perceberam esse deslocamento, como o filósofo italiano Giorgio Agamben, cujas análises procuram demonstrar que os estados de exceção tendem a se tornar permanentes, como se constituíssem a essência das democracias contemporâneas. Ou, sobretudo, como o francês Jacques Rancière, para quem está-se desenvolvendo um verdadeiro ódio à democracia na cultura atual, cujos críticos do sistema, de direita e de esquerda, reduziram o “homem democrático” seja ao “indivíduo egoísta” ou ao “consumidor ávido”, suprimindo a dimensão original da revolução democrática, germinada lá atrás, na Grécia, que é a emancipação e a plena cidadania.
        O discurso do elogio da democracia, presente nos tempos do totalitarismo no século XX, vem sendo substituído por narrativas sobre os seus riscos. Curiosamente, há uma coincidência entre as palavras e os fatos. Os golpes parlamentares de direita, como em Honduras, no Paraguai e no Brasil, assim como a crise da esquerda, ainda sem desfecho, da Venezuela, mostram aqui em nossa América Latina que o fogo é disparado não pelos militares, mas pelos políticos e os membros do Judiciário.
        A democracia corre o risco de morrer pelas mãos dos que mais deveriam defendê-la, promovendo a sua institucionalização.
       A ilusão de que a democracia é o regime mais compatível com o capitalismo leva muitos a acreditarem que basta o seu funcionamento conjugado para que sua sobrevivência esteja garantida.

      Ao contrário, pode-se pensar que a maior ameaça contemporânea a esse regime venha justamente desse binômio, uma vez que o capital se conjuga apenas com sua própria lógica de reprodução e de crescimento. O sonho do crescimento sustentável e constante pode ser também a lenta agonia da democracia.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

UMA OUTRA ESQUERDA

   
                                               
                                                                Reinaldo Lobo                                                               

       Existe uma esquerda fácil de se identificar. É a dos slogans, do entusiasmo militante, das palavras-de-ordem, da adesão cega a um lado, do maniqueísmo e até fanatismo, da falta de espírito crítico em relação aos seus próprios erros e do conforto burocrático. Costuma ser animada por valores éticos, pela busca da igualdade, justiça e liberdade, mas nem sempre sua ação se sustenta nos seus princípios ao longo da luta. É conciliatória e radical, muitas vezes contraditória nos seus fundamentos. A tentação do populismo é frequente. Pratica eventualmente um maquiavelismo barato ou, então, se fecha em algumas ideias simples e em posições extremas.
       Há, porém, uma outra esquerda mais difícil de localizar em meio à guerra ideológica e pouco reconhecida em seu valor inestimável. Esse grupo é tão esquerdista quanto o outro, mas não hesita em proclamar sua independência e dirigir um “fogo amigo” ao PT e a todos os partidos localizados nesse lado do espectro político.
     Sua visão é mais circunspecta e reflexiva, ainda que bastante crítica tanto em relação ao capitalismo quanto ao que chama de “socialismo de caserna”, dogmático e autoritário. Filia-se a uma ancestralidade mais libertária, respeita autores como o francês Merleau-Ponty, o neomarxista alemão Theodor Adorno e os epígonos da célebre Escola de Frankfurt, assim como os franceses Claude Lefort, André Gorz e, sobretudo, o greco-francês Cornelius Castoriadis, cujas teorias foram construídas, simultaneamente, nas lutas antitotalitária e anticapitalista.
     Para essa esquerda contemporânea não é apenas importante a diferença entre esquerda e direita, mas igualmente entre totalitarismo e democracia. Pode-se até arriscar dizer que se fala de uma geração intelectual “pós-totalitária”, que não ignora a monstruosidade do que se construiu em nome do socialismo no Leste Europeu e em outras partes do mundo, sem negar, contudo, avanços obtidos nas esferas sociais e políticas por muitos movimentos e governos que reivindicaram o rótulo de socialistas ou mesmo de comunistas.
     Essa posição singular é, como se vê, difícil. Obriga a navegar pela complexidade histórica atual e exige muita lucidez e sutileza nas suas análises. O que não falta, aliás, ao livro “Caminhos da Esquerda—Elementos para uma Reconstrução”, recém lançado pela Companhia das Letras, e ao seu autor, o filósofo Ruy Fausto, professor emérito da USP, também professor e doutorado pela Universidade de Paris I.
     Um livro raro na nossa Pindorama, que traça um diagnóstico duro sobre a trajetória dos governos Lula e Dilma sem perder de vista a brutal ofensiva da direita contra eles, inclusive a forma assimétrica das decisões da Lava Jato e do Judiciário, bem como o avanço direitista no mundo, sobretudo após a eleição de Trump nos Estados Unidos.
       Fausto é severo no diagnóstico geral quando diz, com razão, que um “trabalho de reconstrução” da esquerda, posta em xeque desde o evento simbólico da queda do Muro de Berlim, em 1989, “deve começar pela percepção de que, por diferentes razões e sob diferentes formas, vivemos nos últimos cem anos um período de alienação radical do projeto de esquerda em relação ao que ela representou na origem, e deveria continuar representando”.
      Uma objeção que geralmente parte da direita seria: “para salvar a esquerda, ” o autor estaria pondo entre parênteses a esquerda “realmente existente” e se refugiando numa outra, ”que só existe no seu espírito”. É a crítica sobre a falta de realismo em propor um projeto socialista depois do stalinismo, do Gulag, de Pol Pot e outros fenômenos aberrantes.
      Fausto apresenta uma resposta interessante a essa acusação frequente, ao fazer uma analogia com o destino do cristianismo sob o poder da Igreja, que teve “a Inquisição, as Cruzadas, o papa Bórgia, a noite de São Bartolomeu, o reacionarismo de uma fieira de papas, a atitude do papa Pio XII na Segunda Guerra Mundial, a homofobia, a oposição ao divórcio, o fanatismo nas diretrizes sobre a escola, enfim, uma longa história de erros e horrores do cristianismo realmente existente”. E pergunta: “Seria tão irrealista assim dizer que, apesar de tudo, o cristianismo verdadeiro é outra coisa? ”
       A esquerda não é, bem entendido, religião, mas a analogia é útil como ilustração – diz ele. Ora, houve sempre uma esquerda fora do poder de Estado e dos partidos. Mesmo dentro dos partidos e do Estado nem tudo foi sempre negativo—pense-se, diz ele, no “Front Populaire” francês dos anos 1930 ou no socialismo nórdico. Pensemos também nos movimentos sindicais de esquerda que empurraram o próprio capitalismo a fazer concessões aos trabalhadores, fornecendo condições menos desumanas de trabalho nos países mais civilizados. No plano da produção de ideias, então, nem se fale: a esquerda tem brilhado e, como diz Fausto, “para dar um exemplo, o pensamento clássico de Frankfurt não foi nenhuma brincadeira”.
      O autor não pretende substituir tudo o que foi feito ou existe na área da esquerda por algo inteiramente novo ou um plano utópico, do que não existe. Faz a crítica da corrupção em que o PT se envolveu, da sua aliança de classes típica de governos populistas com banqueiros, industriais e fazendeiros, mas não considera o projeto inicial do partido um caso perdido. Nem desdenha das conquistas em direitos humanos e sociais dos governos Lula e Dilma.
     Há que se fazer, contudo, uma profunda autocrítica, desintoxicando o PT do que ele chama de patologias da esquerda—o reformismo adesista, o populismo e o neototalitarismo. Se não fizer essa purgação ou desinfecção, esse partido não terá um futuro sério e cairá no grupo das aberrações que deformaram a esquerda ao ponto de, em alguns casos, se tornar irreconhecível, como, por exemplo, na social democracia, cuja mutação em neoliberal chega a ser risível.
      O que Fausto oferece em seu livro é muito mais do que resenhamos aqui, mas o principal é assinalar que, além da crítica, fornece elementos para a reconstrução de um projeto de esquerda que seja ao mesmo tempo democrático, anticapitalista, antipopulista, obviamente antitotalitário e com consciência ecológica.

     Uma excelente leitura para quem ainda se considera comprometido com uma ética humana de esquerda.