segunda-feira, 29 de julho de 2013
ARTE E IMAGINAÇÃO
"Não será o temor da loucura que nos forçará a hastear a meio pau a bandeira da imaginação". André Breton, um dos principais autores dos manifestos surrealistas.
domingo, 28 de julho de 2013
A CLASSE MÉDIA QUER IR PARA MIAMI
A classe média brasileira, a tradicional, está triste e amargurada. Sim, classes sociais têm sentimentos. E a chamada “classe B” cultiva mais emoções do que as outras. É aquela que lê romance, vê novelas às escondidas e sonha com seus filhos se tornarem educados e ricos. Além de amargurada, essa classe ambígua e contraditória está revoltada e põe a culpa na era Lula- Dilma.
Uma parte dela -- seus filhos diletos e até alguns senhores e senhoras--, foi às ruas nos idos de junho, protestar e gritar contra a corrupção, os políticos e os minúsculos partidos de esquerda que iniciaram e/ou participaram das manifestações iniciais contra as tarifas no transporte.
É preciso ser gentil com a classe B, pois ela tem dois lados que não se entendem muito bem. Uma face é meio sinistra, pede a pena de morte, quer que crianças cooptadas pelo crime vão para a cadeia, apoia ditaduras, marcha com Deus contra a liberdade, joga todo o peso da corrupção na esfera pública e ignora sua própria corrupção na vida privada, em que repassa pontos da carteira de motorista para parentes e serviçais, suborna funcionários públicos quando pode, etc. A outra face é modernizadora e moderna, gosta dos progressos da ciência, quer o País desenvolvido, acreditou que decolaríamos nos últimos dez anos para o Primeiro Mundo (ainda que preferisse que os janotas do PSDB dirigissem o processo), quer que seus filhos estudem nos EUA e falem inglês, propõe a democracia como forma de governo e se escandaliza um pouco com a tortura, a brutalidade e defende a liberação do aborto e, meio relutante, aceita a igualdade proposta pelo chamado casamento gay ( “Melhor casar do que abrasar”, dizia Paulo, o apóstolo mais careta de Cristo).
É preciso ser muito gentil com a classe B, pois ela assistiu nos últimos dez anos à entrada dos pobres em cena e no mercado.Ficou chocada. E, pior, eles entraram com o apelido de “nova classe média” ou com o nome “técnico” e falso de classes médias “C e D”. Em algumas pesquisas “científicas” surgiu até uma classe média “E”, seja lá o que isso significa.
Não se criam classes sociais pelo nível de renda. Isso foi uma interpretação abusiva de empresas de pesquisa e agências de publicidade. Uma classe social é definida, como o é a classe média tradicional, pela sua posição em relação aos meios de produção da sociedade, assim como pelo seu papel nas relações econômicas produtivas. O equívoco sociológico foi
ignorado pelo governo Lula pelo seu potencial de publicidade: os pobres diminuíram e surgiu uma “nova classe média”! Vai que cola! E colou!
Nada muito grave, já que os novos 40 milhões de pessoas com renda básica inflaram um mercado interno que animou a economia ao ponto de aumentar em quase 92 % a renda dos mais pobres e em mais de 16% a riqueza das classes dominantes, os mais ricos, diminuindo, de fato a desigualdade no País. E ao ponto de o governo Lula ter tido o maior índice de aprovação de todos os tempos, além de ter enfrentado a “marola” de 2008 com alguma real facilidade. Houve um breve período de círculo virtuoso na economia: o mercado interno inchado sustentou os solavancos do externo e não só os pobres evoluíram, mas também o emprego de carteira assinada, na esteira do crescimento geral.
A classe média tradicional ou “classe B” é altamente insegura e contraditória justamente pela sua posição no esquema produtivo da sociedade. Ela está espremida entre a chamada classe dominante, a classe “A”-- a detentora dos meios de produção, das fábricas, do agronegócio, dos bancos, das ações majoritárias das grandes corporações, dos lucros e da maior renda – e o proletariado ou verdadeira classe “C” – a classe trabalhadora que pega no pesado e que produz, em última instância, as riquezas nacionais e internacionais.
Nossa classe média teme algumas coisas, mas acima de tudo tem medo da proletarização. Isso significaria jogá-la na vala comum dos trabalhadores braçais e do “Zé povinho”. Ela aspira a um consumo de classe A e a posses e privilégios (carrões, lanchas, viagens) acima de sua própria condição. A publicidade se vale disso para vender-lhe sonhos. Quando há um mínimo movimento na sociedade ou na economia que ameace seus pequenos privilégios, ela começa a se fechar em valores tradicionais que a tornam de face mais sinistra. Ela teve que suportar nos últimos anos “aquela gente” meio “diferente” nos aeroportos, de sandália de dedo tomando avião, empregadas domésticas pegando voo para visitar a família no Nordeste, etc. E ainda assiste ao cinismo da classe política que ajudou a eleger, ganhando salários altos que ela teme perder a qualquer momento e desviando dinheiro público para fins privados, isto é, roubando. O desamparo da “classe B” e seu desespero vão às alturas.
Muitos membros da classe média, os mais modernos, aceitaram Dilma no lugar de Lula, com a condição de que ela fosse uma técnica, uma gestora de boa escolaridade,. lutadora contra a corrupção. A própria Dilma compreendeu isso e apaziguou os eleitores de Serra e Alckmin, após sua vitória, prometendo não confrontar a imprensa de oposição, manter o crescimento econômico, e tirando ministros do governo anterior suspeitos de “malfeitos”.Por um período, Dilma conquistou os corações dessa fatia média da população.
Muitos desses membros da classe média, inclusive, não hesitam em lastimar que o próprio PT tenha deixado de ser um partido modernizador para aderir aos métodos dos “outros partidos”. É um paradoxo, pois eles sempre evitaram votar no PT e elegeram gente dos “outros partidos”. Foi a grande classe média tradicional que elegeu Collor contra Lula em 1989. E, outro paradoxo, Collor fez exatamente o que acusava ser a intenção de Lula: filou a poupança da classe média como sua primeira medida. Traída, não perdoou Collor: seus filhos pintaram-se de verde e amarelo no rosto e foram às ruas.
A classe média quer dinheiro e poder, mas também quer esperança e modernidade. Despreza o atraso dos caciques políticos do tipo Sarney e mesmo do falecido ACM, de Collor e do Renan Calheiros (cria de Collor). Esse é o lado positivo da classe média. Agora está ressentida e sente-se traída por Dilma, que julgava “diferente de Lula” e põe nela a culpa que atribuía a toda a classe política. É a lógica meio estranha do preconceito. Reconquistar a confiança da classe média vai depender do manejo da atual crise econômica, que bateu nos BRICs, não tenham dúvidas. Essa classe luta desesperadamente para ter segurança. Se o PT cometer o erro de apenas hostilizá-la, contrapondo-lhe o apoio dos mais pobres, estará deixando-a mais insegura. Aliás, o PT já virou em parte, há algum tempo, um partido de classe média, sobretudo de funcionários públicos. Deve saber que a “classe B” precisa de carinho, de muito carinho. Além de poder ir a Miami, é claro.
*Reinaldo Lobo é psicanalista, Doutor em Filosofia pela USP e jornalista.
HANNAH ARENDT, UM FILME SURPREENDENTE.
O filme "Hannah Arendt", dirigido pela alemã Margarete Von Trotta, com a talentosa veterana Barbara Sukowa no papel principal, é uma preciosidade. Não tanto como obra cinematográfica, bastante correta, nada excepcional, mas surpreendente. Um excelente relato histórico e um grande estímulo ao pensar. É instigante ao dar vida a um momento decisivo de Hannah Arendt na aventura do pensamento e da história contemporânea. O momento dramático em que ela formula sua reflexão sobre o "mal radical"(Kant)a partir de um evento histórico inédito: o julgamento do nazista Eichmann, o chefete de Auchwitz, realizado em Jerusalém após seu sequestro pelo Mossad em Buenos Aires, na virada dos anos 50 e no início dos anos 60. O filme revela o impacto negativo nos meios liberais norte-americanos e judaicos, inclusive em Israel, de uma série de artigos de Arendt, professora de teoria política ,e judia, na revista New Yorker sobre o julgamento de Eichmann. Hoje, depois que sua teoria da "banalidade do mal" é bastante conhecida, o tamanho do impacto e do enorme mal-entendido a respeito parecem exagerados. Mas o filme nos mostra minuciosamente como a polêmica fazia sentido naquele contexto histórico, quando o mundo ainda recolhia informações sobre o tamanho do Holocausto e se indignava com as revelações da extensão do genocídio totalitário. Nesse clima, fica ainda mais notável a coragem da filósofa. A questão central reside na ambiguidade de toda ação política, que costuma ser eliminada pelas ideologias e pela simplificação do tipo amigos versus inimigos -- segundo o conservador Carl Schmidt, essa dicotomia simplificadora faz parte da própria natureza do campo da ação política. Arendt é acusada de defender Eichmann e até de denegrir líderes judeus, por sua análise "fria" tanto do julgamento quanto de alguns fatos do período agudo de execução de seis milhões de judeus na Europa pelo nazismo. A filósofa cometeu o crime de , primeiro, tentar "compreender" (Verstand) os fenômenos, descrevendo-os em sua facticidade bruta e penetrando no seu sentido. Fiel ao pensar filosófico que aprendeu com Heidegger, ela cometeu o segundo crime: percebeu que a natureza do totalitarismo consiste em destruir o Sentido das palavras e das experiências, banalizando-o ao extremo para que todo o mal seja possível. Até mesmo um filósofo do calibre de Isahiah Berlin não compreendeu isso e criticou Arendt por ter "caído" no conto de fadas de Eichmann, que se teria apresentado medíocre, comum e meio idiota no julgamento a fim de se safar de uma condenação. Berlin insistiu: Eichmann foi um entusiasmado revolucionário nazista desde que o movimento se instalou, acreditava na ideologia de Hitler e queria levá-la à ação. Não seria , pois, um mero burocrata que alegava cumprir ordens. Ao perceber além dessas aparências óbvias,Arendt notou a natureza da alegação do medíocre burocrata Eichmann de que, no seu departamento, cumpria ordens, obedecia à hierarquia e ao seu "führer", mas ela percebeu sua adesão estúpida a essa crença. Ele considerava que atendia a uma exigência administrativa ao organizar as tarefas do assassinato de milhões de pessoas no "seu departamento". Arendt desvendou o mistério de uma ordem totalitária: destruir o pensamento, impedir de pensar, rotinizar e banalizar as ações, afim de que tudo seja "non sense". Ou seja, retirar o sentido emocional e mesmo racional da vida humana, banalizar as ações de destruição, destituindo-as de significado. E isso valia tanto para os carrascos quanto para as vítimas. Ao lembrar da condição das mulheres no campo de detenção na França, onde esteve por um período não muito longo, ela descreve a progressiva desistência delas de se cuidarem, de usarem a energia para pensar ou lutar. Depois, aplicou essa percepção à condição dos líderes judaicos nos guetos e nos campos, alguns deles "colaboradores" dos nazistas por não poderem pensar e não terem meios de resistir à rotinização da morte. A ideologia, inclusive a sionista, e a paixão política cegaram a compreensão de muitos contemporâneos de Arendt sobre sua ideia, com raras exceções, como sua cética amiga Mary McCarthy, escritora de talento e conhecedora da genialidade de Hannah. Até mesmo um filósofo como Hans Jonas, o epígono da Escola de Frankfurt no campo da ética, não foi capaz que compreender que não se tratava de uma questão de "oportunidade estratégica" para atacar o nazismo e defender as vítimas -- o que Arendt fez com brilho e nenhuma evasiva, sobretudo por dirigir seu olhar para a essência do método totalitário: a destruição do Sentido. Aliás, a ação de coação contra Arendt, a pressão ideológica, emocional e os "actings" dramáticos para que cedesse às "evidências" e conveniências politicas, teve um quê de totalitarismo, forçando-a a não pensar. A própria Arendt comenta que, no afã de calá-la, seus críticos nem perceberam o paradoxo final do seu trabalho: o "mal radical" não é profundo, mas banal. O discurso dela aos alunos curiosos e sedentos de explicações e aos professores que queriam demiti-la da New School, de N. York, não deixa a menor dúvida de que ela cumpriu a trágica tarefa socrática do filósofo, a do compromisso com o desvelamento da verdade.
quarta-feira, 24 de julho de 2013
PARA ENCARAR A REALIDADE POLÍTICA ATUAL
"É preciso ter o pessimismo da inteligência e o otimismo da vontade e da ação". Antônio Gramsci, filósofo e político,nos seus escritos no cárcere fascista.
quinta-feira, 18 de julho de 2013
QUAL O SEU MODELO DE PSICANALISAR?
Já se tornou lugar comum e, o que é pior, moda entre os psicanalistas de formação inglesa (falo das sociedades brasileiras de linhagem "britânica") repetirem que, como sugeriu o francês André Green, está na hora de repensar o "modelo mãe-bebê" e talvez substituí-lo por um "novo" modelo -- o "modelo sonho".
Como assim, "substituir" ou mesmo adotar um "novo" modelo? O modelo-sonho já existe há muito tempo, diz respeito à principal obra dos inícios da psicanálise, "A interpretação dos sonhos" e foi mantido tanto na Primeira quanto na Segunda tópicas. Nem mesmo Green, autor da ideia, sugere que se trata de um "novo" modelo interpretativo. O que ele diz é que o modelo mãe-bebê, de origem kleiniana, está um tanto saturado, já deu o que tinha para dar. O que ele propõe é um retorno a Freud!
Os nossos ingleses precipitam-se em dois sentidos : 1. ao aceitar sem mais, sem arrazoado cuidadoso, o diagnóstico de Green, segundo o qual o modelo mãe-bebê saturou; na verdade, o que ele fazia com notável senso de ironia e humor,era a crítica dos modelos kleinianos, que teriam levado a uma espiritualização e a uma dessexualização da psicanálise (malgrado a intenção e a obra literal da própria Klein); 2. parecem acreditar que o modelo sonho foi uma descoberta bioniana e não um retorno do próprio Bion a Freud. Este é o equívoco maior. No afã de atestar a originalidade absoluta e a legitimidade da obra bioniana, retraduzem a obra freudiana (para muitos deles "superada"), inclusive atribuindo prioridade autoral a Bion de vários conceitos e pensamentos já contidos em Freud com todas as letras! É o caso do "modelo-sonho".
Digam-me uma única obra técnica ou caso clínico de Freud em que ele não utilize , primária ou subsidiariamente, o modelo-sonho, inclusive no que diz respeito à associação livre, à escuta no enquadre, à atenção flutuante e à atribuição de sentido às defesas e aos mecanismos evasivos análogos aos mecanismos metafóricos e metonímicos do sonho. Isto, sem falar nas obras teóricas e até na sua Metapsicologia!
Com relação à obra de Green, está acontecendo algo semelhante ao que Alice, a do País das Maravilhas, chamava de palavras-valise, nas quais cabem vários sentidos, às vezes, contraditórios. A obra de Green tornou-se uma espécie de obra-valise. Até por ser muito rica e por ele ter assumido explicitamente (sobretudo na introdução ao seu "La Pensée Clinique")a adesão a uma epistemologia complexa, cada um tira o que quiser dessa produção multifacetada. Tem Green para todos os gostos: um winnicottiano, um bioniano, um ex-lacaniano,um Green eclético, outro hegeliano(do trabalho do negativo) e,obviamente, um freudiano -- o que ele sempre dizia que era.
Lembro-me de uma palestra de Green, pronunciada na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, lá pelo final dos anos 80 (ou será início dos 90?). Ele abriu da seguinte maneira: "O que há de novo em Psicanálise é Freud!"
domingo, 14 de julho de 2013
FREUD OBSOLETO?
Gosto da questão de Lacan: como dizer que Freud é obsoleto se nós ainda não o entendemos?
sexta-feira, 12 de julho de 2013
NOSSOS COMENTARISTAS POLÍTICOS
É impressionante como nossos melhores comentaristas políticos escrevem apenas para os colegas, para os que pensam igual a eles e para aqueles que esperam deles o seu bom mocismo. E como continuam a fingir que acreditam em duendes. Como querem fazer parte da campanha de desmoralização de Dilma, eles "acham" que existem "trapalhadas" da presidenta onde há luta política, sobretudo na base do governo. E luta política até violenta. Para quem não lembra, fizeram isso com João Goulart em 64, pintando o ex-presidente como mal assessorado e incompetente. Hoje, sabemos tudo o que houve-- até intervenção da esquadra naval norte-americana fazia parte do esquema golpista. O problema é que nossos comentaristas fazem parte dessa luta. Uma parte fortemente interessada e expressiva. Estão em plena campanha proto-eleitoral para defenestrar a presidenta. Como diz Leonardo Boff, as oposições, incluídos aí nossos melhores comentaristas, querem obter pelo desgaste, a confusão e a mentira o que não conseguiram pela via democrática. Quem se lembra da história e dos métodos do sistema, deve se preparar para defender Dilma. João Goulart era "manipulado" pelos comunistas e os corruptos, Dilma por Lula e esses monstros petistas, todos, é claro, igualados na corrupção e na subversão. Já vimos esse filme, mas ocorre que nossos melhores comentaristas só ouvem luminares como Serra(fonte principal da Folha!) e acreditam que não há condições para um novo golpe militar. Não há mesmo. Só que , com o congresso que temos, é possível até um golpe paraguaio.
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