terça-feira, 20 de maio de 2014

CINEMA: REALIDADE, ILUSÃO.


                                                                                                             Reinaldo Lobo*

 

     A sessão de cinema está começando e aparece na tela o letreiro: "Isto é uma obra de ficção. As personagens deste filme são fictícias. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência".

     Por que esse aviso é necessário? Existem, é claro, problemas legais; alguém pode se sentir representado na história e ofender-se ao ponto de processar os roteiristas, os produtores e o diretor da obra cinematográfica. A frase é necessária, em parte, para proteger legalmente todos os que investiram no filme. Mas não é só isso. Indica também a linha demarcatória teórica entre o objeto subjetivo e o objeto objetivamente percebido na realidade compartilhada.

     O cinema pressupõe, portanto, algum grau de ilusão. Estamos no preâmbulo da transicionalidade. Situamo-nos, por enquanto, naquele território intermediário que sustenta a verossimilhança e a crença. São bastante conhecidos, por exemplo, os casos daquelas pessoas que ficam aquém da linha demarcatória e chegam a atacar atores na rua porque odeiam suas personagens nas novelas da TV. Algumas dessas pessoas deslizaram para uma crença tão forte que constitui uma alucinação.

    Ilusão não é, para nós, uma percepção distorcida de um objeto real nem tem o sentido comum atribuído pela fé perceptiva de erro, engano, imagem distorcida (ilusão de ótica), armadilha, trapaça (iludir alguém) ou de visão parcial de algo. Ilusão constitui, em nossa perspectiva conceitual, o efeito de criação decorrente da relação do sujeito com o objeto subjetivo(1). Quando essa relação não transita para o objeto não-eu e para  o brincar, temos a patologia.

   Esta é uma idéia, como todos sabem, proveniente da obra de Winnicott e bastante especificada em "O Brincar e a Realidade" como um pressuposto básico dos  fenômenos transicionais e do aparecimento  do objeto transicional. Logo no início, o bebê cria e encontra um objeto -- o seio. O objeto subjetivo é, primeiro, uma criação do bebê.

   Winnicott sugeria que ele era um autor para ser usado. Pois o estou usando para entender um pouco o cinema. Por isso, tomo a ilusão como ponto de partida e como base da crença na "realidade" do que se passa na tela. Quando psicanalistas falam de um filme tendem a prestar a atenção no conteúdo das cenas e no seu significado. Muitas vezes, psicanalisam uma personagem como se fosse um paciente. Em outras, aplicam o método psicanalítico para compreender toda a obra cinematográfica ou a sua temática. Não é uma crítica. Às vezes, isso é interessante e importante. 

    Há, contudo, um outro ângulo para ver um filme, que é desconstruir o próprio cinema e o que ele provoca em nós, espectadores e cinéfilos. O cinema é uma composição de fotogramas postos em sucessão,  o que produz uma ilusão de movimento. O cinema é filho da fotografia, só que posta em ação pela  dinâmica da rapidez da sucessão de imagens e, depois, da edição.

    Antes disso, uma história foi escrita , um roteiro, e alguém se dispôs a dirigir tudo isso, talvez em meio a  inúmeras reuniões  com produtores, atores, maquiadores, cenógrafos, diretor de fotografia e, eventualmente, de efeitos especiais. Tudo isso para produzir algo requintado próximo de um sonho, mas baseado no ponto inicial de ilusão. A ilusão cria uma abertura, uma expectância de um objeto por vir. O que surge desses elementos como produto final é uma espécie de brincar para adultos e crianças.

    O filme passa numa tela como num sonho -- cenas justapostas que acabam formando uma história. Os olhos acompanham quase como no sono REM (Revolutionnary Eyes Mouvement), seguindo as cenas de alto a baixo, da esquerda para a direita ou vice-versa. Freqüentemente, pacientes dizem no divã os seguintes lapsos: "Ontem, vi um sonho, quer dizer, um filme..." ou, então, "Esta noite tive um filme, quer dizer, um sonho...".

    O cinema se esforça para realizar não algo totalmente verdadeiro, mas verossímil. Nem o documentário se apresenta como a "realidade", mas como uma visão dela. Muitas vezes nem precisa ser tão verossímil, como nas histórias de "Harry Potter", o "Senhor dos Anéis" e outras. Basta que se entre na brincadeira.

    Um filme, nós bem o sabemos, está naquela terceira área da experiência, que não é interna nem externa. Situa-se no espaço que os objetos culturais ocupam -- o espaço potencial entre a realidade e a fantasia.

    Para o cinema existir, é necessário que haja primordialmente "um sujeito suposto crer", como também diz Slavoj Zizek (em "Como Ler Lacan", pg. 40), que seria para os lacanianos o traço constitutivo da ordem simbólica.  Esse sujeito, do nosso ponto de vista, é o da ilusão no sentido de Winnicott, pois é condição de possibilidade da transicionalidade e , portanto, de toda possibilidade de simbolização.

                              UMA LACUNA NA TEORIA DA SUBLIMAÇÂO

   Winnicott sugere no "Brincar e a Realidade" que havia um branco na teoria da sublimação de Freud e na sua concepção do lugar dos objetos culturais. A sublimação é apresentada apenas como um deslocamento no alvo do instinto. Um derivativo e uma compensação para a insatisfação pulsional. Em lugar de apenas perguntar sobre a excitação subjacente e o conteúdo das fantasias derivadas do impulso presentes nos produtos culturais, Winnicott faz a pergunta fundamental : onde está localizada a experiência cultural?

   Ele a responde  encontrando, primeiro, as etapas constitutivas do espaço em que se situam o bebê e o ambiente e onde se  dá a  experiência; depois,  discernindo os ritmos e as temporalidades em que esta localização ocorre. Diz ele:

   "Nos estudos psicanalíticos, o tema do brincar já foi intimamente e em demasia vinculado à masturbação e às variadas experiências sensuais. É verdade que quando nos defrontamos com a masturbação, sempre pensamos: qual é a fantasia? E é também verdade que, observando o brincar, tendemos a ficar imaginando qual é a excitação física que está vinculada ao tipo de brincadeira a que assistimos. Mas o brincar precisa ser estudado  como um tema  em si mesmo, suplementar  ao conceito de sublimação do instinto"( pg. 60).

   Quando a excitação aumenta e se torna predominante, diz Winnicott, acaba a brincadeira. Se a excitação física  do envolvimento instintual se torna evidente,então o brincar se interrompe ou, pelo menos, se estraga, diz ele em "Brincar: Seu estatuto teorético na situação clínica" ("Intern. Journal of Psycho-anal"(pg. 49). Isto separa o cinema como experiência cultural e como pornografia, por exemplo. Se o objetivo é masturbatório ou excitante, não estamos mais na área intermediária. Estamos no terreno da fuga para o real ou para a concretude alucinatória. Também se pode pensar em uma passagem ao ato e o bloqueio do simbólico. Acabou a área de repouso representada pela transicionalidade ou a criatividade contidas no brincar ou no objeto propriamente cultural, cujo orgasmo proporcionado é o do ego.

    Um filme como Matrix, aparentemente de ficção científica, em que foi dita a frase celebrizada intelectualmente por Slavoj Zizek  -- "Bem-vindos ao deserto do Real"-- remete-nos a uma experiência ao mesmo tempo verossímil e falsa. Verossímil, porque  o mundo da eletrônica computacional torna quase possível uma "realidade virtual" como a de Neo e de seus companheiros. Falsa, porque sabemos que é apenas um filme.

    No entanto, a impressão e a vivência de que estamos mergulhados nesse mundo transcendente e  traumático,  espelham e nos fazem sentir, em parte, nossa alienação e robotização contemporâneos.Saímos aliviados do cinema quando constatamos que era apenas um filme. Digo que era um filme aparentemente de ficção e futurologia por isso mesmo: ele fala do nosso presente. Estamos, talvez, à espera de um novo Neo que possa nos salvar.

    Quanto à realidade virtual, não pode ser confundida com espaço potencial, que é vivo, é área de jogo vital. O cinema é o jogo entre a subjetividade e a objetivação. É vida. A realidade virtual lembra o ascetismo da sociedade contemporânea: é preciso  sacrifício na academia, malhando,comer alimento sem gordura, beber  leite sem lactose e sem proteína, frutas desidratadas, tomar café descafeinado. Não é café , mas tem gosto e cheiro de café.    É a forma sem o conteúdo.  A forma sem o núcleo duro do real, como dizem os lacanianos. O ser sem a sua substância.

   Muitos interpretaram Neo como um novo Cristo, um Messias, o que, aliás, o próprio roteiro do filme sugere. Mas isso não é o mais importante. Como não é importante, a meu ver, distinguir o que é real e o que é imaginário em relação à vida atual, com base na ciência ou no avanços tecnológicos, o que seria capaz de dar um sentido realista à história contada.

   A função de um filme como Matrix é semelhante à dos mitos dos nossos ancestrais gregos e dos romances de aventura que começaram com a saga do cavaleiro da Triste Figura, D. Quixote de La Mancha. Além do enorme poder simbólico que possuem, transportam-nos  para o registro intermediário que nos faz descansar da luta infinita do Princípio do Prazer com o  P. de Realidade. Uma área de repouso, sem dúvida, mas tão precária quanto o brincar, pois ameaça permanentemente romper a linha entre o objeto subjetivo e a realidade compartilhada objetivamente percebida. 

    Winnicott demonstrou com certa clareza que não temos jamais a realidade 100% objetivamente percebida. André Bazin, o mais famoso crítico de cinema  da primeira até a segunda metade do século passado, autor da primeira grande teoria sobre o cinema, concordaria com ele. Depois de centenas de entrevistas com cineastas como Orson Welles, Chaplin,Antonioni, Howard Hawks, Roberto Rossellini, Alfred Hitchcock,  Carl Dreyer, Buñuel e muitos outros, o francês Bazin, fundador do célebre "Cahiers du Cinéma", disse que o cinema pertence a uma fronteira entre a realidade e a fantasia, usa a mentira para dizer verdades e as imagens para criar novas realidades.

    Fellini , num último documentário em vida  sobre sua obra, declarou: "Sou um mentiroso. Invento mentiras e espero que o espectador acredite nelas. E o mais curioso é que o efeito é fascinante. Todos acreditam".

    Winnicott demonstrou ainda que o Princípio de Realidade é um insulto. Fugimos dele como do Diabo de "O Exorcista" ou do maluco de "O Iluminado".Ao contrário da psicanálise clássica, Winnicott não via a onipotência narcísica primordial como necessariamente negativa e nem considerava a frustração pela realidade como um bem positivo a ser conquistado, até porque a frustração e a desilusão são inevitáveis. Ele situava esses fenômeno como parte de um jogo intermitente de resgate da onipotência ao longo da vida, pois a psique considera o principio de realidade um insulto e tenta ganhar terreno intermitentemente contra ele. A frustração humana não deve ser vista como um valor especial nem como instrumento privilegiado. A reconciliação com o princípio de realidade nunca se dá de forma rasa e absoluta, mas no plano da experiência, quando esta vem envolta em criação e, portanto, de um colorido que resulta na capacidade de espontaneidade e de estar vivo.

   No cinema,  há uma identificação onipotente do espectador com as cenas, gratificando até mesmo pulsões de curiosidade e voyeurismo sobre a cena primária. Mas há também um convite da cultura para que essa gratificação fique no registro imagético. "É só um filme".  Esse campo relacional entre o indivíduo que vê e o filme que se oferece é o jogo transicional. As identificações e os sonhos se dão dentro desse campo de colorido lúdico.

    Lembra um pouco a situação analítica entre o indivíduo que traz sua força identificatória e convive com um outro que se oferece como tela transferencial  e contra-transferencial para suas projeções e seus sonhos. Se saírem da linha demarcatória desse campo a cena pode virar passagem ao ato, concretização, excitação ou mesmo violência e pornografia.

    O cinema, como a transferência, pressupõe um certo grau de ilusão. Se fosse uma alucinação , depois de uma sessão de um  bom ou mau filme o espectador seria transportado para a ela e lá ficaria aprisionado. Não retornaria para a realidade cotidiana. A ilusão é , portanto, bem diferente da alucinação.

                     

                     AS LACUNAS NA TRANSICIONALIDADE

 

   Há dois furos , contudo, na teoria da transicionalidade de Winnicott.. Um deles é que Winnicott não explica como se passa de uma experiência particular com o objeto transicional, a posse não eu, para a experiência mais amplamente comum, como diz Adam Phillips (pg. 166-167). Em outras palavras, como se passa de um ursinho pessoal para o prazer de ler Guimarães Rosa.

   Uma das razões dessa dificuldade, penso eu, decorre do segundo furo: é que a teoria da sublimação e a da transicionalidade foram apenas acopladas em Winnicott, mas não resolvidas. Ele pensou a passagem do bebê para o objeto transicional nas condições restritas do ambiente-mãe, mas não investigou o que toda a cultura , no seu conjunto, exige de sacrifício do bebê para que seja capaz de absorver linguagem, valores e domesticar-se de acordo com os moldes representacionais dessa sociedade determinada. A mãe é também a História e a Linguagem. Uma parte da sublimação é feita por imposição de uma estrutura  lingüística que, por sua vez, é ela própria sublimada. Uma criança nasce dentro dessas condições de possibilidade e é como se fosse  exigido dela: seja capaz de sublimar pela via da linguagem e dos símbolos dados, além de transitar pela brincadeira até à cultura. A cultura espera algo dessa criança e não é pouco.

    Pode-se até dizer que, ainda bem, existem as artes, os jogos e algo como o cinema. Pois a imposição sobre o humano não é fácil.  Há um caminho alternativo , diz Winnicott, que é dar colorido à vida.

   Lembro-me que , quando bem jovem e estudante , eu matava às vezes as aulas para ir ao cinema, nas matinês, no ginásio, ou à noite, no curso noturno do colegial.No escuro do cinema, fixado na tela colorida ou em branco e preto, aprendi a modular emoções , a sofrer com o mocinho, a balear os bandidos, a amar a garota linda e a ter esperança no futuro.

  O cinema brinca , com freqüência, com sua própria natureza. Há filmes reflexivos sobre o próprio cinema, sobretudo na chamada modernidade tardia, com os herdeiros da "nouvelle vague" ou com os filmes de Woody Allen, onde uma personagem sai da tela para conversar com a fã cinéfila ou os atores se dirigem diretamente aos espectadores, convidando-os a dar palpite na história.Essa metalinguagem nos lembra sempre da linha demarcatória entre o objeto subjetivo e o objeto objetivamente percebido.

  Boa parte da nossa sensibilidade foi moldada pelo cinema. Mesmo quando os filmes de Hollywood eram tendenciosos  , como aqueles que nos influenciaram a odiar os nazistas ou a ver os japoneses como traiçoeiros e cruéis. Mas até nesses filmes B de propaganda havia algo de humano sobre a coragem e a dor da violência e da guerra.

Depois disso, surgiram filmes mais sofisticados, mostrando áreas mais complexas dos seres humanos, como os de Truffaut, Godard ou Ingmar Bergman  , que nos introduziam na psicanálise e revelavam plenamente uma estética capaz de constituir a Sétima Arte.

  Nunca me arrependi de ter matado aquelas aulas.

 

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

 

(1) "O Brincar e a Realidade, D.W.Winnicot", Imago Editora Ltda., 1975.

(2) "A Clínica da Ilusão e sua Epistemologia", Reinaldo Lobo, Rabisco, n°1, vol.3, maio de 2013.

(3) "Como ler Lacan", Slavoj Zizek. Ed. Zahar, 2010.

(4) "Winnicott", Adam Phillips, Ed .Idéias e Letras, 2006.

   

 

 

domingo, 18 de maio de 2014

UMA QUESTÃO DE LINGUAGEM


  
                                                                                             Reinaldo Lobo*

 

      A expressão "o brasileiro" costuma freqüentar inúmeras conversas entre nós, brasileiros. Dizem : "o  'brasileiro' é isso ou aquilo...assim ou assado..."  

   "O brasileiro" quem, cara pálida? Esse clichê passa, às vezes, despercebido no meio de uma discussão. Muitos não notam que, dita por brasileiros, a fala pressupõe uma estranha distância , como se falasse de um outro ser ou, quem sabe, de um estrangeiro. Implica também, geralmente, numa posição de superioridade em relação a esse ente no qual se projetam várias qualidades negativas: " o 'brasileiro' é preguiçoso, corrupto, ignorante, desorganizado..."

    A expressão muitas vezes significa racismo e preconceito. Parte da ótica das civilizações "superiores". Pretende encarnar valores e referências atribuídos a outras culturas. É como se o colonizador aqui chegasse , visse os nativos e alguns dos seus comportamentos e reduzisse tudo à declaração : lá está "o brasileiro", com seus hábitos estranhos.

   "O brasileiro" quem, cara pálida? Refere-se ao paulista, ao carioca, ao nordestino, ao pobre, ao rico, ao honesto , ao picareta? A generalização é cômoda para quem a promove e a quem desresponsabiliza por pertencer ao País onde vivemos nós, os brasileiros, no plural.

   Como é possível falar dos paulistas e dos paulistanos, por exemplo, que são descendentes de uma mistura de portugueses, africanos, italianos, árabes, judeus, alemães, russos, poloneses e índios? Se examinarmos um pouco haverá até mais origens desse povo que habita São Paulo. Em outros Estados também é um pouco dessa maneira. Ziraldo, o humorista, costuma dizer brincando que só existem três povos no Brasil : o povo mineiro, o baiano e o gaúcho. O resto, diz ele, são brasileiros.

   Bom humor à parte, o mais importante é assinalar que a expressão "o brasileiro" contém uma operação implícita de natureza psicológica e ética. Sua estrutura, além de pertencer à gramática de nossa língua, é a base da discriminação. Ou seja, o preconceito é também um dispositivo lingüístico.

  Há, portanto, uma semântica que exige a decodificação de certos termos. Existe um sistema preconceituoso de dar nomes e rótulos.

 Fica fácil detectar isso quando se ouve alguém dizer : "o 'nordestino' é isto ou aquilo..." Podem imaginar de que parte de alguém do "sul maravilha".Paulistas aludem, às vezes, ao "baiano" , velho apelido para os trabalhadores da construção civil que reuniam baianos, alagoanos , pernambucanos, cearenses e até paulistas , e que formavam, dos anos 60 em diante, a mão de obra que serviu de esteio para a edificação das cidades da região, sobretudo a capital."Baiano" vira todo nordestino.

   A operação psicológica é simples , maciça e grosseira. Consiste em projetar no outro, inclusive como bode expiatório, todas as características negativas que se encontram, virtual ou explicitamente, em quem faz a declaração. É como lembrou o filósofo Spinoza (século XVII) muito antes, portanto, de Freud: "O que Pedro diz sobre Paulo revela mais sobre Pedro do que sobre Paulo".

    Constrói-se um estereótipo, projeta-se nele tudo o que há de ruim e se passa a ter medo e/ou ódio desse ente criado. Algo assim  como o monstro do Dr. Frankenstein, uma invenção na qual se depositava a função de representar o que há de mais primitivo, infantil e bruto no ser humano. E ,depois,  os "civilizados" passavam a caçá-lo como um monstro.

   É possível que o objeto-alvo corresponda, em certos casos,  ao que foi atribuído a ele, mas isso não justifica, em absoluto, o ataque feito originalmente por quem declara o desprezo. Se alguém diz "negro é bandido" e encontra algum negro que realmente seja bandido, isto não significa que o autor da frase não tenha , dentro dele, um bandido em potencial. Nem que esteja certo ao fazer uma generalização.

    O aspecto ético do dispositivo de linguagem é evidente. Constitui uma separação de valores "positivos" de quem fala daqueles "negativos" atribuídos ao outro. É uma "ética do desprezo", do não-reconhecimento, da alegada superioridade social e/ou racial daqueles a quem que um ex-governador de São Paulo, Cláudio Lembo, chamou, num momento feliz, de "minoria branca".

     Essa  "minoria branca" ainda não se apercebeu das mudanças profundas da sociedade brasileira nas últimas décadas. Não se deu conta de que vivemos, para o melhor e o pior, em uma heterogênea sociedade de massas. O tempo das elites racistas já passou. Somos, mal comparando, algo entre a Índia e os Estados Unidos. Mas com características singulares.

    A convivência e a integração são fenômenos inevitáveis, ainda que alguns setores resistam e tentem manter nichos de privilégios semelhantes aos do Brasil Colônia. Os "sinhozinhos" e "sinhás" refugiados nos bairros chiques das nossas grandes cidades terão de aprender a viver junto, a assistir aos "rolêzinhos" nos shoppings, às manifestações de rua contra o aumento do ônibus e do trem, e a procurar entender esse outro obscuro que emerge das periferias.

    Uma forma semelhante de operação psicológica e moral ocorre hoje , também, nas discussões políticas brasileiras.  Vejamos a palavra "corrupto". Ora, no debate, "corrupto" sempre é o outro, nunca quem fala. Muitas vezes temos visto personagens como comerciantes ou taxistas que esbravejam com eloqüência contra a "corrupção política", depositando todos os males nacionais no colo da classe política e, em seguida, esse comerciante específico rouba no preço ou o taxista rouba no troco. Não faltam empresários sonegadores que protestam contra a "corrupção do Estado", etc.

   Há, porém, uma forma insidiosa de debate político entre nós que se supera nos truques com as palavras. . É  o julgamento de intenções. Atribui-se um propósito ou uma intenção ao outro, baseando-se em alguns sinais interpretáveis, em seguida condena-se o réu e se desqualifica seus argumentos.

   Por exemplo: se alguém defende o governo porque considera que, nas últimas décadas, foram os atuais líderes os que mais cumpriram o que prometeram ou os que mais fizeram pelas maiorias pobres do país, então deve haver "algo por trás", a intenção dessa pessoa só poder ser a de obter algum benefício governamental ou, quem sabe,  cargos e privilégios.

    O argumento não interessa. O que importa é a intenção.

    Se alguém critica o fato de ter havido uma ditadura de 21 anos não é porque se trata de uma pessoa democrática, mas porque quer esconder sua adesão à ditadura de Cuba ou da antiga URSS.

    Não custa lembrar que foi Stálin, o ditador da antiga URSS, quem inaugurou os processos por intenções. Nos chamados "Processos de Moscou", entre 1936 e 38, dezenas de aliados e membros do seu partido foram julgados, condenados e fuzilados porque tiveram alguma discordância ou fizeram crítica pontual ao funcionamento das instituições. Isto era um sinal "evidente" de que tinham a "intenção" de aliar-se ao trotskismo e ao nazismo, colocados assim no mesmo pé.

     Faça um exercício. Quando ouvir alguém dizendo "o 'brasileiro' é isso ou aquilo" ou ,então, usando as palavras como forma de desprezar ou julgar o  outro, pergunte: "De quem está falando, cara pálida? Quem é o sujeito psicológico da oração?"

 

 

 

 *Reinaldo Lobo é psicanalista e jornalista. Tem uma página no Facebook: www.facebook.com/reinaldolobopsi. E também um blog: imaginarioradical.blogspot.com

O DISCRETO CHARME DA DIREITA LIBERAL


                        

 

                                                                                 Reinaldo Lobo*

 

 

       Alguns ideólogos que freqüentam  a nossa imprensa estão em entusiástica campanha para tornar charmosos os "liberais" brasileiros, acusados pela esquerda de "direitistas". Ninguém no Brasil gosta de ser chamado "de direita". Esses formadores de opinião explicam que isso decorre de uma conspiração insidiosa dos esquerdistas, que se apresentam como depositários da virtude, da democracia  e da generosidade.

      Como sempre, os intelectuais que representam a fina flor do "liberalismo" brasileiro argumentam por teorias conspiratórias, como a da operação para seqüestrar as mentes dos jovens ou da infiltração sorrateira da campanha subliminar comunista. Ideologicamente, esses luminares estão ainda na Guerra Fria, os seus argumentos são muito antigos, mas a forma de apresentação é mais "moderna", ou melhor , "pós-moderna". Alegam que a esquerda é quem está "atrasada", pois o mundo mudou filosoficamente em direção ao neoliberalismo. Vamos por partes.

      A teoria da conspiração mental transformaria "o assassino Che Guevara" em ícone da juventude até hoje e a esquerda deteria o monopólio do charme. Tudo passaria pela propaganda pura e simples e pela infiltração de intelectuais gramscianos na educação, na mídia e na cultura em geral. Em outras palavras, tudo são truques psicológicos de "maquiavélicos" estrategistas marxistas. Por esse raciocínio, tudo passa pelo  espiritual, nada pela história nem pela matéria.

     O método de reflexão desses ideólogos neocons é abstrato, não examina a sociedade nem o sentido dos fatos ao longo do tempo. As palavras em questão -- "direita" e "liberais"-- não afastam os jovens e os brasileiros em geral por acaso.

    Ninguém quer ser de direita porque há uma vergonha de longa data associada à palavra, pelo menos entre nós. A nossa Direita tem sido campeã de violações de Direitos Humanos e da disseminação dos mais flagrantes preconceitos, como o social, o racial e o sexual. E a chamada Direita Liberal, que proclama defender a democracia e a liberdade de imprensa, foi a co-autora do Golpe de 64, que promoveu a censura e obscurantismo.

    A nossa Direita, inclusive a Liberal, segurou a chibata e defendeu a escravidão. A oligarquia "liberal" que governa a economia, a grande mídia, a TV, a imprensa escrita e que dita as regras da sociabilidade no País, é herdeira direta das famílias que se proclamavam "liberais" no século XIX,mas tinham escravos na cozinha e na fazenda. Mesmo no século XVII, quando surgiram os primeiros "liberais', muitos deles eram senhores de escravos.

    A palavra "direita" , assim como o termo mais ambíguo, "liberal", têm significado diferente em outros países. Nos EUA, ser  liberal significa ser de esquerda ou , no mínimo, pertencer à esquerda do Partido Democrata. Os conservadores norte-americanos se autodenominam, logicamente, conservadores. Em geral, são republicanos e defendem , como os "liberais" brasileiros, "a menor intervenção possível do Estado" na economia.

  Já na França a direita tem uma origem nobre na Revolução Francesa. Era formada pelos parlamentares que se sentavam à direita da Assembléia republicana, sobretudo os girondinos, e que se diferenciavam dos que se situavam à esquerda, os radicais jacobinos e os igualitaristas, que defendiam a plebe ou os cidadãos mais pobres.

  A direita francesa era conservadora, moderada quanto à participação popular nas decisões e quanto aos princípios ideológicos republicanos. A esquerda jacobina teve tudo a ver com a radicalização da Revolução, mas ambos os lados estiveram envolvidos com o Terror e a guilhotina. Quase dois séculos depois, o general De Gaulle não hesitava em assumir o título de  "direita nacional", herdeira da tradição conservadora, e um sociólogo como Raymond Aron, de alto nível intelectual, não se vexava quando ía a um debate na TV e o apresentavam como um pensador "de direita". Hoje, há uma extrema-direita, com já houve os "pieds noirs" militares que não queriam a independência da sua colônia argelina, mas nem por isso a palavra "direita" perdeu uma certa respeitabilidade política na França, como sinônimo de "conservador".

   No Brasil fica fácil entender porque "liberais" e "direitistas" não têm charme. Representam historicamente os privilégios e até a tortura. Muitos dos principais governadores e prefeitos biônicos durante a Ditadura Civil-Militar eram notórios empresários "liberais".

    Por ser ambígua e ter significados distintos na linguagem e no senso comum, a palavra "liberal" é a mais enganadora. Costuma-se chamar de "liberal" quem tem costumes avançados, quem possui mentalidade aberta e livre. Mas, entre nós, os "liberais" são os mais conservadores quanto aos costumes, ainda que alguns dos seus ideólogos neguem isso, e os portadores de mais preconceitos sociais e raciais. Perguntem a qualquer um deles se deixaria sua filha casar ou sequer namorar um negro pobre.

    Os "liberais" confundem-se com os ricos e com a defesa da propriedade privada. A pobreza é vista como um estorvo a ser vencido pela geração de empregos em uma sociedade "livre" de direitos sociais e de taxas do Estado para captar recursos contra a ...pobreza.

   Alguns dos nossos "liberais" admiram a China Comunista : lá não há direitos trabalhistas suficientes para atrapalhar a produtividade em grande escala e quase não há greves (recentemente houve a primeira em duas décadas). Lá é quase o paraíso do mercado livre ! Pois os nossos charmosos "liberais" -- alguns deles até a favor do aborto, pois esta prática "não deve ser controlada pelo Estado" (privatização do aborto)-- pararam de criticar a China desde que ela introduziu espaços de livre mercado na economia. Não tem tanta importância, para eles, que a China seja um país violador de Direitos Humanos, pois estes são do âmbito do liberalismo político, coisa do passado. Nossos modernos "liberais" só se interessam pela eficiência e a acumulação.

     Outro truque com palavras dos neocons consiste em dizer que a diferença entre Direita e Esquerda não existe mais. Afinal, o mundo todo é capitalista! Borrar e confundir a diferença é conveniente para esconder a Direita, mas é mais possível entre nós porque há uma indeterminação dos partidos políticos. Existe uma enorme dificuldade de localizar os partidos, os próprios políticos e até mesmo os comentadores "liberais" em meio ao amplo espectro de siglas inócuas, ocupado e disfarçado pela ...Direita. Ela está quase sempre no poder, possui o dinheiro e manipula a cena ao ponto de deter a hegemonia sob a aparência de um "centrão" fisiológico e oportunista. Coopta até a esquerda com o seu charme e elegância. São inúmeros os políticos atuais que transitaram para a "centro direita" do arco íris que esconde uma cor só, a do  capital.

    Estão errados os ideólogos da direita que dizem que os jovens não são atraídos para ela. Uma parte da juventude é constituída pelos que desejam ardentemente ser "playboys" ou, então, casar com eles. O seu charme está sobretudo em uma parte do corpo humano bastante conhecida: o bolso.

 

 

* Reinaldo Lobo é psicanalista e jornalista. Tem uma página pública no Facebook: www.facebok.com/reinaldolobopsi. E tem um blog: imaginarioradical.blogspot.com

quinta-feira, 27 de março de 2014

AVISO DE INCÊNDIO


                                    

                                                                               Reinaldo Lobo*

     Peço licença ao leitor para falar, desta vez, na primeira pessoa e de uma preferência pessoal. Gosto muito da obra do poeta mexicano Octávio Paz, que por sinal recomendo a todos. Não indico apenas a obra poética. Sugiro também os seus ensaios literários e políticos. Não foi por acaso que os críticos o colocaram entre os maiores autores do século XX. Nem foi acidental o Prêmio Nobel, em 1990, pelo conjunto da obra.  Gosto inclusive de algumas de suas idéias de filosofia política e é delas que pretendo falar.

     O autor das magníficas análises culturais de "O Labirinto da Solidão" descobriu no âmago das duas correntes ideológicas predominantes no século passado, o socialismo e o liberalismo, um solo comum que tenho percorrido igualmente sem medo e sem nenhuma vergonha. Alguns autores já haviam entrevisto esse território a ser descoberto e semeado, mas não tiveram a coragem de ir adiante. Outros, mais afoitos, o enxergaram de forma distorcida e o condenaram à esterilidade.

    Foi o caso, por exemplo, do célebre teórico ultra-conservador da política,Carl Schmitt, para muitos um precursor e justificador do totalitarismo fascista. Defensor de uma espécie de teologia política, implícita em sua obra mais conhecida "O conceito do político" (cujas três versões são de 1927,32 e 33), Schmitt percebeu que tanto o socialismo marxista quanto o liberalismo reduziam o fenômeno político ao fator econômico, empobrecendo-o e esvaziando sua  especificidade. Mas o que escapou a Schmitt -- um anti-progressista e um pessimista-- é que, apesar desse reducionismo, ambas as correntes eram descendentes diretas do Iluminismo e que, portanto, tinham dimensões mais amplas. Octávio Paz percebeu esse detalhe e o explorou de forma criativa.

    O socialismo e o liberalismo pertencem a um amplo movimento anti-religioso e laico simbolicamente marcado pela Revolução Francesa de 1789. Até as expressões "esquerda" e "direita" vêm dessa fonte.  Ambos elaboraram uma concepção da História que prometia para a humanidade um progresso que a levaria do fanatismo para a liberdade e a maturidade intelectual, do dogma para a crítica, da superstição à iluminação, das trevas para a luz.

    Ambos estão a serviço de uma crença ativa -- como diria outro teórico político, Léo Strauss. Acreditam no progresso linear ou mesmo heterogêneo com possibilidades infinitas, capaz de superar limites da natureza, de provocar mudanças constantes, de gerar maior liberdade humana e uma mais feliz existência natural do homem neste mundo.

    Desculpem-me os pós-modernistas, os pessimistas habituais, os neoconservadores e proto-fascistas, mas essas esperanças desencadeadas por essas duas correntes modernas ainda não perderam o vigor civilizatório. Mesmo que muitas das promessas do liberalismo e do marxismo tenham sido frustradas,  reveladas em grande parte fictícias na segunda metade do século XX e seus fundamentos criticados por filósofos e historiadores, ainda não apareceram  alternativas vindas de outras fontes.

    O próprio nazifascismo nunca passou de uma sinistra caricatura ou de um "arremedo do socialismo", como dizia Walter Benjamin. A Terceira Via  formulada nos anos 80 e 90 por Anthony Giddens, o ideólogo  de Bill Clinton e de Tony Blair, foi um arremedo misto de liberalismo clássico, do "laissez faire" e da social-democracia.  

     As duas fórmulas de terceira via, o fascismo e o neoliberalismo recente, nunca passaram de corruptelas. Foram uma espécie de  negativo de fotografias com imagens distorcidas daquelas correntes históricas da modernidade. O arremedo ideológico sempre inverte a imagem daquilo que é substancial e que pertence ao original. O que era progressista virou conservador.

     Caso apareçam alternativas criativas para o mundo contemporâneo terão de vir dessas mesmas fontes originais da modernidade, como, aliás, mostrou o nosso Octávio Paz na maioria dos seus ensaios.

     Da segunda metade ao final do século XX, surgiram até alguns raros pensamentos nessa direção, como o do próprio Paz e de autores como Hannah Arendt, Cornelius Castoriadis e Claude Lefort, que apontam para uma convergência  entre as duas maiores influências do pensamento político derivadas do Iluminismo. Juntar liberalismo e socialismo é como criar um oximoro, palavras inconciliáveis, mas só na aparência, dizia Octávio Paz.

     O significado dessa convergência seria ultrapassar tanto o socialismo quanto o liberalismo na sua forma mais ideológica, isto é, eliminar o reducionismo econômico de ambas as propostas e levá-las a um pensamento mais complexo. A uma nova visão teórica pela ótica da complexidade das sociedades humanas. A uma perspectiva segundo a qual o destino humano não seja exclusivamente determinado pela economia  mas inspirado pela política. Isso significa adotar uma Outra Política, como diria um amigo próximo de Paz, o filósofo, psicanalista e revolucionário grego Castoriadis. Seria uma renovação radical da política.

     As democracias atuais estão pedindo essa renovação. Estão mergulhadas na indiferença das populações e nos surtos de violência recentes. A noção de representação política está tão desgastada no mundo inteiro que chega a ser ridícula a cena dos espetáculos periódicos chamados de eleições, promovidos pelos ditos representantes e governantes, quase meros lobistas e empregados das empresas privadas e públicas, dos fundos de investimentos e das grandes corporações.

     Não só na Europa e nos EUA mas no mundo todo há uma demanda de democracia mais direta, maior participação popular nas decisões e na gestão pública. As recentes ocupações de cidades e as rebeliões de países inteiros têm demonstrado que são decorrentes de uma crise geral do capitalismo e também do socialismo do tipo totalitário. A violência tem convivido com a democracia de forma endêmica em áreas antes neutralizadas pela estabilidade política e social, como a Europa. Os nossos "Black Blocs" são uma pequena amostra desse novo "charme" político, sintoma de uma turbulência ainda maior por vir. Sua violência tira um pouco o sistema vigente da letargia , assusta os poderosos. No entanto, é estúpida na forma e sem conteúdo.

     A criminalidade das grandes e até pequenas cidades mostra hoje igualmente a face de uma vida brutalizada. A barbárie bate à porta em suas formas mais aleatórias e  grosseiras. O capitalismo atual é uma refinada barbárie.

     Não é necessariamente o caso de  "conciliar" socialismo e liberalismo, mas atravessar essas duas grandes tradições políticas da modernidade e renová-las. É preciso radicalizar a democracia. Este é o desafio para o nosso tempo. Como disse Octávio Paz, em seu texto "A Outra Voz", parece que "nossos dias são propícios a uma iniciativa dessa envergadura" e em algumas obras contemporâneas, como a de Castoriadis, já existe um começo de resposta.

      Há sinais de incêndio em todas as partes. O mal estar está generalizado. Nem todos levam o assunto a sério. A questão é política. A mudança em direção a uma civilização melhor só pode ocorrer, como sugeria o poeta, se houver sobretudo uma convergência entre liberdade e fraternidade.

*Reinaldo Lobo é  psicanalista e jornalista, psicólogo e doutor em Filosofia pela USP. Tem um blog: imaginarioradical.blogspot.com

OS "CÃES DE GUARDA" CONTRA-ATACAM


 
 
                       
                                                                                                            Reinaldo Lobo*
       Eles estão em toda parte. Como gafanhotos vorazes, ocupam espaços na cultura, nas ciências humanas, na imprensa, na TV, no rádio, nas universidades em geral, entre os chamados "formadores de opinião". São os "neoconservadores" à brasileira, cuja missão é desconstruir o que consideram o pensamento "politicamente correto" de esquerda. Infiltram-se nas brechas e interstícios de vários setores culturais e do poder porque é isso o  que imaginam que a esquerda faz. Seu truque secreto é usar o que pensam ser-- depois de uma leitura ligeira de Gramsci-- o método ou a estratégia esquerdista para manter a hegemonia e o mando na sociedade civil e no Estado. Esse é um dos seus grandes equívocos.
       Os "neocons", como alguns gostam de ser chamados, reúnem desde filósofos (Denis Rosenfield, Luiz Felipe Pondé), sociólogos e geógrafos (Demétrio Magnoli), historiadores (Marco Antonio Villa), artistas, roqueiros (como o conhecido Lobão), adeptos da geopolítica pós-militarista (como ocorre com um apresentador da Rede Globo, William Waack), humoristas do "infoentretenimento" (Danilo Gentile, Jô Soares)  até ensaístas de ocasião (Arnaldo Jabor) e jornalistas da imprensa mais conservadora do País (como Reinaldo Azevedo). Jô Soares uma vez chamou Jabor de "comunista de direita". Essas personagens têm, obviamente, qualificações e talentos diferentes entre si, mas é possível traçar um fio comum -- o repúdio às políticas distributivistas e desenvolvimentistas do PT e de quaisquer outros grupos mais socializantes. O máximo que aceitam é a social-democracia à maneira tucana, aliada aos "liberais" dos Democratas (ex- ditadura civil-militar) e com uma base de centro direita.
     O neoconservadorismo, como muitos sabem, é uma visão política do mundo inaugurada nos Estados Unidos. Essa corrente ideológica surgiu logo após a Segunda Guerra Mundial, quando surgiu a Guerra Fria. Desenvolveu-se entre ex-comunistas que passaram da crítica à  burocracia soviética e aos horrores do stalinismo para uma posição de direita. Nasceu num meio de jornalistas trotskistas, ao redor da revista "Commentary". Dois dos seus primeiros  intelectuais convertidos foram Irving Kristol e James Burnham, este último autor de um best-seller intitulado "A Revolução dos Gerentes", onde defendia a tese de que as sociedades capitalista e comunista tendiam a se tornar uma coisa só, sob uma administração tecnoburocrática e gerencial. Essa mesma teoria foi defendida na França por Raymond Aron, um franco conservador. Foi a raiz da ideologia da "terceira via", que ressurgiria recentemente na Inglaterra com Anthony Giddens e o primeiro ministro Tony Blair. Mas os neocons dos EUA não hesitavam em aderir ao "modo de produção menos ruim", o capitalismo no sentido estrito. Não é preciso dizer que o auge de seu prestígio foi sob os governos de Reagan e Bush (pai e filho).
     Os neocons brasileiros, diferentes dos norte-americanos, são mais sutis na defesa do capitalismo. Preferem apresentar-se como os verdadeiros transformadores e democratas, a partir de uma crítica pretensamente demolidora das ideologias em geral e do socialismo petista em particular. A sua ideologia consiste em se declararem anti-ideológicos. E os seus procedimentos argumentativos são de dois tipos.
   O primeiro, é a teoria do aparelhamento do Estado, pois o Partido tenderia a se confundir com o poder estatal, como na URSS, sem se considerar que todos os partidos no Brasil colocam, sem exceção, os seus aliados e militantes nos cargos mais importantes. Como o regime do PT e do País está longe de ser uma URSS, esse argumento se liquefaz. Fazem parte da base do governo e da burocracia estatal mais de dez outros partidos e estamos numa democracia.  Os atuais membros petistas do governo sempre disputaram eleições livres e  assim se mantiveram em uma parte do poder coligado.
    O segundo procedimento dos neocons deriva do fato de muitos deles terem migrado da esquerda para a direita, talvez por motivos até semelhantes aos norte-americanos -- "o peso da realidade" da vitória do capitalismo na Guerra Fria e os horrores do stalinismo. Concedamos que seja assim. O seu truque consiste, porém,  em inverter os argumentos da esquerda contra ela própria. Assim, tivemos há pouco um artigo do colunista da Folha, R. Azevedo, em que inventa um "racismo de segunda ordem" a ser atribuído a qualquer petista que criticar as decisões erradas do ministro do STF, Joaquim Barbosa. Todos sabem que a luta contra o racismo é uma bandeira histórica da esquerda. O próprio Barbosa já foi chamado pela direita de ministro da "cota de Lula".  Nada melhor para os propósitos ideológicos do colunista Azevedo do que "informar", invertendo o racismo da elite, dizendo à população que "racistas" são Lula e o PT. É como a crítica ao programa de cotas-- estimularia o "racismo ao contrário", dos negros contra os brancos e criaria uma "elite privilegiada".
    Essas figuras decidiram que a melhor defesa do sistema elitista,  escondendo suas mazelas, é partir para o ataque. São os falsos rebeldes que desejam destruir os "mitos" da esquerda para impor seus próprios mitos, como a "captura das mentes" e a "infiltração".
    O truque é simples, mas tem funcionado e se repete. Um outro articulista, Jabor, só se refere aos adversários como a "velha esquerda", como se ele fizesse parte da nova, a moderna e vanguardista. É bem conhecida a relação de Jabor com a "social-democracia" tucana. E sua luta para se tornar Ministro da Cultura numa pretendida volta dos tucanos ao poder. Há algo de mais velho na praça do que a social- democracia?
    Uma característica dos neocons é a de se mostrarem os defensores da modernidade (capitalista, é claro). Ou como a encarnação da pós-modernidade. Todos falam do "atraso" da esquerda e de seu ultrapassamento. Mas as  ideologias dos "novos conservadores" , em alguns casos, lembram demais a Velha Direita  de Joseph de Maistre , da Action Française e das falanges de Mussolini.
    Autores um pouco mais sofisticados, como Luis Felipe Pondé, reproduzem aqui no Brasil as idéias do filósofo pessimista inglês John Gray, para quem não existe progresso real na história e a "natureza humana" predatória e violenta só se coaduna com regimes de "alta competição"-- como se o capitalismo atual, de monopólios, fosse competitivo! Essa pequena teoria "hobbesiana", evidentemente distorcida, vale para tudo: o capital, o combate ao crime, etc. O paradoxo de Gray -- ele defende a modernidade, mas sustenta ao mesmo tempo que ela não tem sentido, pois é a maior ilusão vinda do Iluminismo e da noção de progresso.Em seu livro "Straw Dogs (Cachorros de Palha): Thoughts on Human and other Animals", Gray diz  que, de Platão à Cristandade, do Iluminismo a Nietzsche, a tradição ocidental tem sido baseada em crenças arrogantes e errôneas sobre os seres humanos e o seu lugar no mundo. Quer retirar o "privilégio" concedido por essa tradição ao homem em relação aos animais e à sua própria animalidade. Filosofias como o liberalismo e o marxismo pensariam a humanidade como uma espécie cujo destino é transcender seus limites naturais. Gray argumenta que essa crença na diferença humana é uma ilusão perigosa.  Propõe investigar a vida do homem "da forma como ela se parece", uma vez que o "humanismo foi finalmente abandonado" ( pelo pós-modernismo). Ele pensa ter perturbado nossas mais profundas crenças, mas nada mais faz, na melhor das hipóteses, do que propor uma natureza humana ao modo do século XVIII ou, na pior das hipóteses, à maneira do ultra-conservadorismo pessimista do fascismo. Sua teoria quer-se moderna  ou até pós, mas é mais antiga do que andar para a frente.
    O filósofo Pondé importa até os cacoetes e ironias de autores como Gray. A frase mais espirituosa do brasileiro é também uma contradição em termos --  "O Viagra fez mais pela humanidade do que 200 anos de marxismo". Ora, para quem vê o progresso como ilusão, cabe a pergunta--o Viagra não é progresso? Tecnológico, é verdade, mas progresso? Saibam que o Viagra é perfeitamente compatível com o marxismo e até com o liberalismo. A incompatibilidade só pode ser uma brincadeirinha de mau gosto do filósofo da PUC.
    Pessimismo sempre foi uma marca registrada do conservadorismo. É regressivo. Seu corolário é a anti-utopia e o conformismo. Mas essa turma tem prestígio e muitos ganham bem para cumprir a função que outrora Paul Nizan,  escritor de esquerda vítima do fascismo, chamou de "cães de guarda" do sistema.
  
 
 

O GOLPE DO MEDO


                                        
                                                                         Reinaldo Lobo*

         O golpe de Estado de 1964 foi o resultado do medo. Acabou instaurando uma ditadura que trouxe ainda mais medo. A insegurança e a instabilidade da democracia então existente levou suas classes dirigentes ao temor diante do "perigo revolucionário" e a quase implorar pela entrada dos militares na cena política. A nossa Ditadura não foi só militar, mas teve a cumplicidade nacional de muitos civis e apoio internacional.

       Os Estados Unidos tinham medo de que mais um país da América Latina, além de Cuba, fizesse uma revolução e saísse do seu quintal de influência. O governo de John Kennedy temia que uma nação do tamanho do Brasil fosse ciscar na área de influência da União Soviética, o arquiinimigo de então. Por isso,  preparou, financiou e estimulou uma "contra-revolução preventiva" aqui entre nós, com a atuação ostensiva da CIA e da embaixada norte-americana.

    Hoje, temos até as gravações com a voz de Kennedy articulando o golpe que daria início ao modelo exemplar de uma sucessão de regimes violentos na Argentina, no Chile, no Peru, no Uruguai e em vários outros países latino-americanos.

       O medo. O escritor Albert Camus definiu certa vez o século XX como o Século do Medo. Temor de regimes totalitários como o nazismo e o stalinismo, medo de a Guerra Fria virar um confronto armado  total, a Terceira Guerra Mundial. Medo, sobretudo, da Bomba Atômica. 

     As novas gerações fazem apenas uma vaga idéia do que foi essa época. O terror que provocaram, primeiro, os resultados da Segunda Guerra Mundial, cujo desfecho incluiu a destruição da Europa, o Holocausto e as  duas devastadoras bombas atômicas despejadas sobre o Japão, com suas seqüelas de câncer e deformidades genéticas pairando sobre a humanidade. E depois, com o aperfeiçoamento das armas e  a corrida nuclear, o mundo ficou sob a ameaça iminente de uma nova guerra.

    A terra foi dividida em duas esferas. No meio, os países em desenvolvimento, alguns saídos de séculos de colonialismo e reivindicando uma identidade, servindo de peões para as duas grandes potências.

     Com a radicalização global, qualquer democracia ocidental que propusesse reformas econômicas e sociais fora do modelo estrito norte-americano, era visto rapidamente  como passível de transitar para o comunismo. Foi o caso do Brasil, sob o governo João Goulart, que havia sido engolido pelas classes dominantes como uma solução de compromisso provisória, após as várias crises que se seguiram à morte de Getúlio Vargas e à renúncia de Janio Quadros. O maior crime deste último foi ensaiar o que chamou de política externa independente. Independente de  quem ? Dos EUA.e ,presumivelmente, também da URSS.

     Os norte-americanos, que estiveram num beco sem saída, um empate na Coréia de 1954 a 56, estavam dispostos a articular uma estratégia de contenção do avanço revolucionário no mundo,  tido como seu domínio após a II Guerra. Na Ásia, onde a China despontara em 49.  Na África, que conheceu várias revoluções anti-coloniais que liquidaram os impérios Inglês e Francês.  Na América Latina, em que surgiu o governo reformista de Jacobo Arbenz na Guatemala, em 54, esmagado por forças financiadas pela CIA e até com intervenção de "consultores" militares dos EUA,  que depois iriam para o Vietnã. Houve ainda os "bogotazos" na Colômbia,.rebeliões populares anárquicas contra as autoridades. Além do advento, é claro, da Revolução Cubana, cuja aura romântica e o fato de ocorrer à margem dos partidos comunistas tradicionais incendiou a imaginação de jovens de todo o continente latino-americano, identificados com os "barbudos" de Sierra Maestra.

       No plano da política interna, o golpe de 64 foi a expressão da paranóia anti-comunista inoculada nas classes médias brasileiras, com medo de perder suas conquistas e propriedades. As "marchas da família" exprimiram esse receio e foram -- sabe-se hoje-- patrocinadas pela CIA  através de órgãos civis como o IPES(Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais) e o IBAD(Instituto Brasileiro de Ação Democrática), que atuavam desde o movimento estudantil até em entidades empresariais e sindicatos patronais. Também  ofereciam recursos à imprensa e à TV.  Quanto às Forças Armadas, tinham a ideologia da "guerra subversiva" iminente e treinavam oficiais e soldados na escola de anti-guerrilha do Panamá, orientada e financiada pelos norte-americanos.

       A situação econômica e social, a inflação e a desorganização da sociedade civil levaram a um confronto entre correntes políticas inconciliáveis na época -- os conservadores e udenistas, excluídos do poder desde os tempos de Getúlio Vargas, pois este os derrotava repetidamente, e as forças trabalhistas que preconizavam as "reformas de base". O governo reformista de Jango tinha funcionários apartidários, como Santiago Dantas, e técnicos e intelectuais  de alto nível como Celso Furtado. A oposição tinha  líderes de linha jurídica,como Bilac Pinto e Adauto Lucio Cardoso,  também técnicos pró - norte-americanos, como Roberto Campos, e políticos beligerantes como Carlos Lacerda.  As "reformas" de base foram a chave de tudo.

   Havia uma nítida disputa entre a linha desenvolvimentista e distributivista do governo e a linha da oposição, monetarista e liberal-conservadora em economia.

     Até hoje, existe uma certa divisão entre essas tendências na sociedade brasileira. Como não conseguiam chegar ao poder por eleições, pois os partidos de centro se dividiam e o getulismo  tinha um eleitorado fiel e majoritário, os udenistas e conservadores em geral apelavam com freqüência para as Forças Armadas, a fim de que um golpe as levasse finalmente a Brasília. Houve ensaio de golpe em Jacareacanga,em 1956, quando oficiais lacerdistas da Aeronáutica tentaram impedir a posse de Juscelino Kubitschek. Depois, em 1961, na renúncia de Jânio, outra tentativa, frustrada pelo então governador do  Rio Grande do Sul, Leonel Brizola. Ele  conseguiu dividir as Forças Armadas. Quando divididas, elas não agem como corporação, paralisam-se ou, então, é a guerra civil. Ficaram, então, paralisadas.

  Difundiu-se o medo em 63/64, inclusive no interior das Forças Armadas, com a ameaça de cisão e quebra da hierarquia, estimuladas por personagens suspeitos de pertencerem à CIA, como o célebre Cabo Anselmo e outros agitadores. Do lado da extrema esquerda, havia uma ilusão de reproduzir a Revolução Russa, tentando criar sovietes de soldados e marinheiros. Esse foi o estopim entre os oficiais para desencadear o golpe.

   O governo Jango tinha inúmeras fraquezas. A primeira delas foi não reconhecer a radicalidade política da situação. Espalhou que tinha um dispositivo militar, mas era um pequeno número de oficiais leais, além de alguns traidores, como o general Amaury Kruel, comandante do II Exército, peça chave que teria passado para o outro lado na última hora, em troca de alguns milhões em dinheiro. O "dispositivo" era uma ficção. Com medo de uma guerra civil, Jango não conclamou o povo à resistência. Segundo o IBOPE na época , 72% da população estavam do seu lado, confiavam nas reformas defendiam a legalidade.

     Jango não tinha nada de revolucionário. O espantalho do comunismo foi um recurso da direita para barrar as reformas.O ponto culminante foi o comício da Central do Brasil em que assinou um projeto de reforma agrária e reiterou a elaboração da Lei de Remessa de Lucros (para o exterior), que afetava diretamente interesses empresariais norte-americanos. A esta altura, Jango sabia que ia haver golpe.

      Foi assim que começou a ditadura de 21 anos. As ditaduras repousam sobre o medo. Infundem medo no povo, mas os ditadores também têm  medo. Não é por acaso que se cercam de tantos aparatos de segurança e repressão. Sabem de sua ilegitimidade e profunda insegurança E assim também acabou a nossa ditadura cabocla, que matou centenas, prendeu e torturou milhares.  Acabou por medo. Desmoralizados, abandonados por aliados civis, os militares inventaram uma Anistia em que se perdoavam e  escondiam seus crimes. Tinham pavor  das conseqüências de um julgamento popular.

 

Reinaldo Lobo é psicanalista e jornalista. Tem um blog: imaginarioradical.blogspot.com