quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A VIOLÊNCIA QUOTIDIANA


                                     

 

                                                                    Reinaldo Lobo*

 

       Um idoso entra no banco , dirige-se ao caixa, retira um dinheiro e pede  que o funcionário troque uma nota de 50 reais, para que ele possa pagar sua condução. O rapaz do caixa responde: "Ah, não vai ser possível, pois minha gaveta não tem trocado". Diz isso com um certo prazer em negar o pedido, e despacha o idoso.

      Logo depois, chega uma mulher elegantemente vestida paga suas contas com cartão e pede para retirar algo do seu dinheiro em trocados, "para ter na carteira". O homem do caixa não hesita em lhe fornecer o que pede.

      Parece uma cena banal do quotidiano, quase ninguém aparentemente notou a diferença de reação do funcionário do caixa aos dois clientes, nem o seu prazer em negar um pedido a quem não apreciou ou teve algum "motivo"  para rejeitar.

    O que ocorreu foi o sadismo implícito na vida social, no dia-a-dia. A pessoa do idoso provocou desprezo no jovem que atendia na caixa do banco. Este não hesitou em demonstrar.

     O desprezo é o contrário do respeito e do reconhecimento, elementos emocionais e éticos de que todos os seres humanos têm necessidade na vida social e pessoal. O não-reconhecimento, o desprezo explícito pelo outro, é tanto maior quanto for o preconceito ou a indiferença pela pessoa que se apresenta em uma situação pública.

    O idoso é um "invisível", assim como os pobres, os negros , os mal-vestidos e os que não exibam os signos da superioridade social. O objeto da violência sádica -- dizia,aliás, o próprio Marquês de Sade em "Justine"-- é tão mais visado quanto mais se aproxima da condição de "coisa". Quando um corpo é reduzido a essa situação não é exatamente erotizado, no sentido explícito do termo, mas transformado em alvo de um poder. Às vezes, um pequeno poder, como no caso do rapaz no caixa do banco.

   O prazer sádico nestas situações, como em muitas outras, não está no exercício direto e visível da sexualidade, mas na imposição de uma submissão e de uma humilhação.  O gozo está justamente na indiferença em relação ao outro, no seu uso, na  manipulação do objeto , a partir de uma posição de "triunfo" maníaco e de superioridade narcísica.

   O desprezo é parte integrante do jogo sádico em inúmeras situações da vida. É bastante conhecida a antiga relação entre as "patroas" e "empregadas" na privacidade doméstica. Hoje, isso mudou um pouco, pois essa mão-de-obra é mais escassa e as domésticas ganharam  cidadania. Passaram a ter mais força porque são úteis, não porque se tornaram respeitadas.

   A raiva e a desconsideração com que certas donas de casa de classe média ou ricas ainda se referem às suas auxiliares revelam todo o distanciamento e a coisificação a que as submetem na esfera psíquica e moral.  Com freqüência, falam dessas pessoas como  "'elas' são isso... 'elas' são aquilo..." , ou seja, uma espécie estranha de gente.

    É até possível avaliarmos que uma parte da raiva seja diretamente proporcional à dependência dessas patroas em relação ao trabalho de sua empregada doméstica. Esse trabalho é o que garante o tempo livre da patroa, seu lazer ou mesmo outras atividades. Lembra muito a relação dialética entre o senhor e o escravo.

     Todos já tivemos algum grau de contato com a invisibilidade social dos maltrapilhos ou dos mendigos nas ruas de uma cidade grande. Também sabemos como uma sociedade branca promove a "invisibilização" dos negros, seja pela simples exclusão da cena social relevante , seja pela atribuição de atividades marginais e trabalhos subalternos.

     Os exemplos não faltam, mas todos ocorrem porque vivemos numa "sociedade do desprezo", como diz o filósofo social Axel Honneth. Inspirado nas teorias de Adorno e Habermas, bem como na  psicanálise -- sobretudo  na teoria das relações  de objeto, em Winnicott e também na concepção de sujeito de Lacan --, esse autor mostra que a "invisibilização" é um processo ativo, no qual se evidencia o desprezo. É um tipo de comportamento em relação a uma pessoa como se ela não estivesse presente ou existisse, e que, para essa pessoa, torna-se muito real.

      A visibilidade, ao contrário, significa reconhecer as características relevantes de uma pessoa.  Dessa maneira, Honneth apresenta a possibilidade de identificação individual ou singular como primeira forma de "conhecimento" . Esse momento é um ato social, uma vez que o indivíduo envolvido sabe de sua invisibilidade pela falta de reações específicas por parte dos demais. Já a  visibilidade o coloca num pólo da interação. Além disso, a falta de atos expressivos de visibilidade também pode ser percebida pelo resto das pessoas presentes.

    É possível falar, portanto, de uma invisibilidade social, o que conduz a uma diferenciação entre "conhecer" e "reconhecer".  Conhecer é a identificação não-pública de uma pessoa, enquanto reconhecer diz respeito à apreciação como ato público. 

     De um modo semelhante como ocorre nos bebês, segundo as contribuições de Winnicott e de Daniel Stern, os adultos também mostram abertamente sinais de que foram aprovados socialmente -- e sentem necessidade disso. Uma prova reside em considerar o sentimento que se produz nos casos em que se nega  essa aprovação a uma pessoa.

     A violência quotidiana, aparentemente "não traumática", consiste justamente em negar o reconhecimento a um ser humano. Já todas as expressões de aprovação, por outro lado, são interpretadas como um sinal, simbolicamente sintético, de toda uma série de disposições que fazem referência a um conjunto de atuações que se pode esperar legitimamente numa interação, como, por exemplo, ser tratado respeitosamente.

     A luta pelo reconhecimento começa na infância e percorre toda a vida dos indivíduos, atingindo inclusive as formas mais sofisticadas de cidadania e participação. Quando um trabalhador faz reivindicações e aspira melhores condições de vida, isso envolve a busca do reconhecimento de sua significância e do seu lugar na sociedade. Está buscando reconhecimento pelos outros e por parte de si mesmo -- auto-reconhecimento.

     A  busca pelo reconhecimento, que começa de forma elementar por meio do amor pessoal, evolui também para idéias sobre solidariedade e respeito, que situam as pessoas em diferentes esferas de relacionamento, com as diferentes formas de atuações que  podem ser legitimamente esperadas.

    A invisibilidade social é justamente  a negação desse reconhecimento. Por isso mesmo, é não só a indução de um trauma, mas também uma espécie de crime do dia-a-dia.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

UMA NOVA DEMOCRACIA


                                         

 

                                                                        Reinaldo Lobo*

 

    Não confundam "nova democracia" com "nova política", invenção eleitoreira de uma candidata à presidência. Por nova democracia, refiro-me a uma espécie de movimento espontâneo surgido, sobretudo, entre os jovens, cuja  fundação pode ser datada de junho de 2013.

    As manifestações de rua foram inequívocas quando pediam uma constituinte exclusiva para a Reforma Política e vieram culminar na coleta de assinaturas com essa finalidade. A coleta acaba de atingir meio milhão de adeptos e pretende chegar a um milhão e meio.. O objetivo era e continua a ser conquistar a possibilidade de uma democracia mais direta,  com a  participação presencial do povo nas deliberações do espaço público.

    Ficou mais evidente do que nunca que existe uma nova geração política entre a juventude brasileira, bem diferente daquela de 1968, mas não menos interessada em mudar as estruturas institucionais do País. Sua meta é também a democracia, ou melhor, uma radicalização da democracia. O seu aperfeiçoamento.

    Aquela antiga leva de jovens de 68 comandou uma revolução cultural e, apesar de ser considerada derrotada e alienada pelos sociólogos que a chamaram de "geração do AI-5", tinha como meta uma revolução social e política que ía além das mudanças de costumes e de educação. Numa certa medida, fracassou.

    Foi uma geração que caiu numa espécie de luto e melancolia pelo projeto fraudado de socialismo com liberdade, que almejava ver a reforma da  União Soviética e dos países ditos socialistas. Aqueles jovens trombaram com o muro do "socialismo real" e, apesar das reformas da "glasnost" de Gorbatchov, confrontaram-se com a falência de todos os regimes do Leste Europeu e mesmo da Ásia.

    A "melancolia da esquerda" -- no dizer do filósofo Ernildo Stein-- foi uma espécie de doença psíquica que tomou conta daquela turma de 68, até, pelo menos, a chegada de uma onda esquerdista na América Latina, inaugurada com a eleição de Michele Bachelet , no Chile, e Lula, no Brasil. A esperança renasceu com esses novos projetos transformadores vindos, desta vez , do Sul.

     Mais moderada, participando de partidos e de eleições, essa esquerda veterana da guerrilha burocratizou-se e empurrou a nova juventude para a esquerda, às vezes, até a extrema esquerda e o anarquismo. Herdeira de uma cultura autoritária e do viés guerrilheiro nascido da Revolução Cubana, aquela  "velha juventude" de esquerda tinha um compromisso maior com a democracia social e muito menor com a democracia política. A democracia política era vista ,antes, como um instrumento tático, e não como uma estratégia de longo alcance institucional.

   Já a juventude atual deixou a melancolia para os integrantes mais velhos da esquerda, os "órfãos da utopia". Nem tinham do que se lamentar ou nenhum luto grave para elaborar. A revolução clássica, com suas barricadas e palavras de ordem, ficou no passado.

   Os que estão hoje na faixa dos vinte anos sabem de 68 de "ouvir dizer", nos aniversários da Ditadura, nos livros escolares e no movimento das Comissões pela Verdade, contra a tortura e o autoritarismo.

   Formada por blogueiros e tuiteiros, a nova juventude rebelde está enfastiada da velha politicagem que envolve barganhas e corrupção. Educada numa época pós-ditadura, conheceu sistemas de amizade tribal e eletrônica, além de ter desidealizado figuras de autoridade, como os pais e os professores. A educação contemporânea, conquistada em parte pela revolução cultural desencadeada em 1968, criou padrões de convivência no qual a discussão, o diálogo e a cooperação mútua são, pelo menos, divulgados, cantados em prosa e verso.

  Os jovens de hoje estão mais acostumados a relações de igualdade e a parcerias de colaboração entre semelhantes e iguais. Seus ídolos não são os políticos nem as propostas que possam ser manipuladas pelos líderes de partidos e autoridades instituídas. Toleram as diferenças, combatem o racismo  a homofobia, e consideram a revolução das mulheres um fato consumado e aceito há muito tempo. Sua política é levar a democracia a sério.

   É quase natural que essa nova safra de estudantes e jovens trabalhadores tenha uma inclinação mais libertária. Sua desconfiança é óbvia em relação à democracia baseada apenas em tripartição de poderes, sem participação popular direta, onde a representação política se descola dos representados e instaura lobbies de interesses e sistemas burocráticos.

    Daí, a esperança de uma reforma política vinda de fora do sistema representacional. A idéia é de uma constituinte que possa examinar o voto distrital ( pelo qual se controla melhor o parlamentar); a formação de conselhos de cidadãos (que possam vigiar e deliberar sobre o dinheiro público); a realização de plebiscitos (em questões que interessem diretamente ao povo);  a diminuição do número de partidos (verdadeiras cláusulas de barreira que impeçam as legendas de aluguel); talvez o parlamentarismo (que elimine o presidencialismo de coalizão, fonte de compra de parlamentares); a redução do número de parlamentares (evitando gastos com uma espécie de empreguismo de eleitos), etc.

    Qualquer que seja o presidente eleito em outubro ou novembro, não tenham dúvidas de que terá de se haver com  esse novo espírito político e com esse movimento salutar de renovação das estruturas institucionais. Muitos foram os que procuraram se apropriar das manifestações rebeldes de junho de 2013, mas ninguém conseguiu drená-las inteiramente a seu favor. Essa nova juventude não é melancólica; é alegre e cheia de energia. Só que não esquece a que veio e, provavelmente, não vai desistir de seu movimento.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

SOBRE A CORRUPÇÃO


                                      
                                                                          Reinaldo Lobo*

 

              Sempre que o assunto é corrupção, aponta-se o dedo para os políticos. É uma forma de simplificar demais e buscar bodes expiatórios. Corrupção é um tema mais complexo e envolve toda a sociedade onde ocorre. E existem explicações que nunca são consideradas no caso brasileiro.     

             Para começar, a sociedade brasileira é corrupta em vários graus, já a partir dos índices de exploração próprios do capitalismo: hiper-mais-valia na cidade e no campo, baixos salários em várias áreas, desigualdade na distribuição de recursos, trabalho escravo, prostituição, sobretudo entre mulheres de baixa renda e pouca escolaridade, exploração de menores, crimes do colarinho branco,  negociatas de grandes empresas, falências fraudulentas, sonegação de impostos e muitos outros sinais. No Brasil, é considerado "normal" uma empresa sonegar, caso contrário "não sobreviveria".

            Uma lenda bastante  difundida sustenta que a corrupção é um assunto exclusivo do Estado e da área pública. E, em conseqüência, do funcionalismo e da esfera política. Mentira das grossas. Grandes difusores de corrupção são também o empresariado e as grandes corporações privadas que constituem lobbies e utilizam "processos informais" para comprar os políticos e, assim, fazer valer seus interesses na esfera pública e decisória. Se não houvesse mercado, nenhum político chegaria ao ponto de pagar a manutenção da amante com dinheiro de empreiteiras, como naquele caso bem conhecido.

           Ora, dirão, por que os políticos aceitam esse tipo de atitude, uma vez que deveriam estar voltados para a representação de seus eleitores e para o bem público.  A resposta envolve dois olhares -- um para a História brasileira e outro para a realidade presente na sociedade.

          A visão histórica é bastante conhecida: o Estado brasileiro foi formado no patrimonialismo desde o Brasil Colônia; quem é dono do poder se acha dono das terras e das decisões patrimoniais; nascemos de capitanias hereditárias, onde o beneficiário das concessões estatais de Portugal eram líderes políticos e, ao mesmo tempo, latifundiários e senhores de escravos; etc.Toda essa tradição não morreu inteiramente e banalizou, por assim dizer, a corrupção e o sistema de favores.

       Não é preciso nem lembrar o quanto era corrupta a sociedade "malemolente" descrita por Gilberto Freyre em "Casa Grande e Senzala". Aos filhos dos ricos, tudo. Aos pobres e escravos, nada -- dando origem entre estes a  sistemas de malandragem,  trocas espúrias e até mesmo ao tráfico de todo tipo.

         Quanto à realidade presente, não podemos responder pela vida psíquica e o possível  viés psicopático de cada um dos envolvidos, mas existe um fator nada discutido entre nós que é a busca do reconhecimento. Quem é zero à esquerda deseja ardentemente "ser alguém" e os meios mais fáceis para isso são o poder e o dinheiro, pelo menos em uma sociedade como a nossa.

        A corrupção torna rapidamente aceita uma "pessoa" no consumo e nos sinais exteriores de riqueza, mesmo alguém remediado ou pobre que chegou a um cargo público -- pode ser fiscal de renda, oficial de justiça ou deputado.  Numa sociedade de massas, onde todos são anônimos e indiferenciados, o poder significante do dinheiro e do acesso a bens torna visível quem era invisível ou até desprezível.

       Um outro elemento importante é a dissolução dos valores em uma sociedade com muita mobilidade social e com pressa de desenvolvimento econômico.

      O Brasil, assim como outras sociedades latino americanas,  africanas e asiáticas, passou de país subdesenvolvido, agrário exportador, com um sistema tradicional e patriarcal de valores, para uma complexa rede de classes e massas postas dentro de um mundo de redes de comunicação e negócios. Tudo isso em poucas décadas.

      O processo de desenvolvimento dissolve antigas hierarquias e laços. Essa dissolução produz confusão e anomia. Daí, decorre a ânsia de ganhar o único ícone visível de distinção e organização aparente -- o poder do dinheiro (e o dinheiro do poder).

       O nosso Pais é muito grande, com população crescente, mas unificado por meios de comunicação que transmitem os valores do consumo em massa e da vida nas grandes cidades mais desenvolvidas, atingindo assim até os grotões, como se diz.  Pensando nisso, dá para imaginar o grau de confusão que acomete os corações e mentes brasileiros. Dá para explicar até por que algumas tribos indígenas remanescentes na Amazônia, que descobriram o valor do dinheiro "civilizado", passam a vender madeira extraída clandestinamente de suas próprias reservas, que deveriam ser as mais sustentáveis. De tutelados pelo Estado, de inocentes donos das florestas, passam a comerciantes ilegais que contrabandeiam madeira não certificada para a Inglaterra , o Canadá e vários outros países.

        Explicar a corrupção não a  justifica, obviamente. Mas colocá-la numa perspectiva histórico-sociológica ajuda a entender melhor o Pais que temos e desejamos mudar. Auxilia ainda a não nos sentirmos tão desprezíveis em relação aos países já altamente desenvolvidos, onde a corrupção existe, mas os índices são bem baixos. E a pensar : somos corruptos, mas essa doença pode passar com os remédios do desenvolvimento e da  justiça social.

* Reinaldo Lobo é psicanalista e articulista. Tem um blog: imaginarioradical.blogpot.com

A MÃE DE TODAS AS REFORMAS


       
                                                                         Reinaldo Lobo*

 

         Seria preciso suprimir todos os partidos políticos, não só no Brasil mas em toda parte onde exista uma República? A idéia sugestiva foi pensada no início dos anos 40 pela célebre filósofa francesa Simone Weil, que, além de brilhante autora, era então uma brava combatente contra o nazifascismo. Publicada após sua morte, em fevereiro de 1950, a proposta causou escândalo. Como uma pessoa radicalmente democrata podia sugerir uma coisas dessas? Os partidos não fazem parte integrante e inseparável de uma sociedade livre?

         Os motivos de Weil eram elevados e sérios. Professora de filosofia cuja obra é considerada uma das mais importantes do século XX, tornou-se operária na Renault para conhecer a condição operária e militou na Resistência até 1943, quando morreu.  Ela fazia questão de dar exemplo e testemunho de suas idéias. Concebia o problema da existência dos partidos de uma forma a causar espanto na sua época, sobretudo logo após a II Guerra, quando eles  se consolidavam em direção ao poder em países recém liberados do totalitarismo. Mas a sua pergunta faz hoje mais sentido e pode ser  examinada até com certa benevolência, quando todos sabemos como está desmoralizada a representação política no mundo inteiro.

         A supressão dos partidos, dizia Weil, não ameaçaria a essência da democracia, que é um governo do povo que garanta constituir-se "do e para" o próprio povo. Isto é, a participação do conjunto do povo no poder. O que  a supressão corrigiria seria uma forma particular de organizar a democracia.

      Partido representa uma parte, portanto não a vontade comum nem o consenso geral. Na verdade, ele é uma parte interessada (e,às vezes, interesseira) que exprime pontos de vista particulares. A sua eliminação responderia a duas outras questões cruciais que se deve examinar com muita atenção: 1. como dar aos homens a possibilidade de exprimir um juízo sobre os grandes problemas da vida pública?; 2. como impedir, no momento em que o povo é consultado que circule através dele qualquer espécie de paixão coletiva distorcida? É impossível falar  de legitimidade republicana -- dizia nossa filósofa--  se não se pensa nesses dois pontos.

     A solução desse problema não é fácil de conceber, mas é evidente, após um exame atento -- dizia Weil, de modo radical--que toda solução implicaria, antes de tudo, a "supressão dos partidos políticos". Eles são um intermediário entre o povo e seu governo. Em muitas ocasiões, um intermediário falsificador  que , em lugar até mesmo  de representar, trava a representação.

       Liberais e marxistas têm discutido o problema da representação política a partir de seus desvios, como nas ditaduras e nas burocracias estatais. Estas se  formam a partir do descolamento dos representantes em relação aos representados, formando uma camada aparentemente fina que se engrossa cada vez mais com a posse do poder decisório.  Só que liberais e marxistas insistem em derivar suas reflexões de uma matriz economicista ,isto é, reduzindo o complexo problema a uma determinação econômica.

      A questão do poder é essencialmente política e o maior mérito do livrinho de Simone Weil-- "Notes sur la suppréssion genérale des partis politiques"-- consiste em apontar de maneira taxativa, radical e provocativa essa verdade negada ou escondida por muitos pensadores clássicos e modernos. Somente mudando as formas de participação, acesso e manutenção do poder é que se torna possível enfrentar os problemas de controle e fiscalização do próprio poder.

      No momento em que se discute não só como reduzir o número excessivo de partidos políticos, mas a própria reforma política exigida nas ruas pelo movimento de junho de 2013, ter em mente esses princípios indicados por Weil não significa uma adesão cega a um programa libertário. Significa , isto sim, tentar contrapor ao caos vazio da representação política atual uma forma ainda mais legítima de participação dos cidadãos nas decisões públicas.

       Quando o Brasil trouxe , por um breve instante,  a demanda de Reforma Política pela "voz das ruas", chegando-se a propor um plebiscito e uma Constituinte específica para esse fim, é mais do que urgente que se retire o poder de decisão das mãos dos maiores interessados em bloquear quaisquer mudanças -- os partidos e os políticos que os usam como meras máquinas de interesses. Os que estão no Congresso atual (e  no próximo) são os menos indicados, não por suas qualidades ou defeitos pessoais, para decidirem uma reforma. Pela simples razão de que estão na zona de conforto, onde chegaram pelos métodos tradicionais que prevalecem. Uma reforma política "vinda de fora" seria  mãe de todas as reformas.

      Em plena guerra eleitoral, quando o pensamento foi substituído pela obsessão de "tomar partido", é preciso lembrar a todos que seria interessante  ir mais fundo. E voltar a pensar -- se é que já se pensou seriamente nesse problema entre nós. Imaginar soluções de participação que não fiquem exclusivamente no troca-troca partidário, e que eliminem as distorções brutais como a enorme distância entre os representantes e seus representados.

      Talvez precisemos sair dessa atitude de  "a favor ou contra" e ouvir vozes inspiradoras como a Simone Weil, para quem essa postura se origina nos meios políticos e se estende "como uma lepra" às escolas, às artes, à religião, às ciências, através de todo e qualquer país republicano, atingindo possivelmente a totalidade do pensamento humano.

     Não é apenas utopia. A cisão paranóica da política partidária -- ou é amigo ou é inimigo-- deveria ser substituída com vantagem pela idéia de uma democracia, quem sabe, sem partidos.

     

quarta-feira, 30 de julho de 2014

FICA, DILMA!


        

                                                                 Reinaldo Lobo*

 

     Todos sabemos no mundo moderno que há uma influência dos nossos desejos sobre as nossas crenças. Isso é do conhecimento geral. A natureza dessa influência é, porém, muito mal interpretada. O costume é supor que o conjunto das nossas crenças provém de alguma base racional e dos fatos. O desejo seria apenas uma força perturbadora ocasional. Algo que só atrapalharia a lógica do senso comum. É justamente o contrário que mais se aproxima da verdade.

      A grande maioria das crenças pelas quais somos apoiados em nossa vida diária é apenas projeção do desejo, corrigida num ponto ou noutro pelo duro choque dos fatos. Desde pelo menos o surgimento da psicanálise, com Freud , descobrimos que o ser humano é essencialmente sonhador. Desperta , às vezes, em algum momento por algum fator especialmente penetrante do mundo exterior, mas logo a subjetividade humana retorna à feliz sonolência do devaneio e da imaginação. Nossos sonhos à noite são, em grande parte, a expressão pictográfica de nossos desejos em busca de satisfação. O mesmo vale para nossos sonhos acordados. Podem ser incluídos nesses sonhos acordados o que chamamos de crenças.

      O ser humano deseja acreditar. A crença dá segurança e nos tira do desamparo diante da vida natural, da morte, da presença do outro, da brutalidade e das incertezas das relações sociais. Não só a psicanálise pensou sobre isso, mas também inúmeros filósofos, tanto céticos quanto gnósticos, desde a Antiguidade.

      A publicidade e a política descobriram, por sua vez, o que a psicanálise e os filósofos revelaram tão bem. Passaram a manipular os desejos humanos a fim de provocar adesão às crenças que querem promover.

     Um exemplo banal é a estratégia das agências publicitárias para criar e provocar desejos no consumidor. E induzi-lo a comprar sem que tome consciência plena do seu ato. A propaganda de sabonetes parte do conhecimento de que as mulheres desejam inconscientemente ser acariciadas na sua pele e que isso faz parte da sexualidade feminina. Então, colocam-nas nuas no quarto ou debaixo de um chuveiro passando suave e repetidamente um produto para a maciez da pele, num movimento masturbatório semelhante a uma preliminar de um ato sexual. Não vendem limpeza, mas uma crença de que aquilo é bom e gostoso.

     A propaganda de manipulação política funciona também assim. É menos delicada e sutil, propõe a salvação nacional, inventa líderes, destrói outros,  nos faz acreditar que estamos em pleno caminho para a realização dos nossos desejos mais idealizados ou, ao menos, na rota de nos livrarmos das crises sociais e econômicas, do sufoco, enfim.

      Goebbels, o marqueteiro do nazismo, ainda que não gostemos da sua figura repugnante ou de sua ideologia, foi um gênio na arte de manipular  a informação para obter crenças sólidas e até fanáticas. Assim como Hitler na ação política, ele soube captar o medo dos alemães em relação ao futuro, após a Primeira Guerra e a crise de 1929, e projetou uma imagem de uma nova sociedade  brilhante e bem sucedida, formada por uma raça de seres indestrutíveis.

        No Brasil atual, os marqueteiros políticos, os ativistas pagos das redes sociais, os políticos da oposição ao governo atual,alguns jovens extremistas de  ultra-esquerda, a imprensa comprometida com as forças conservadoras, estão fazendo exatamente o contrário do que Goebbels fazia. Procuram induzir, há muitos meses, uma crença na opinião pública que possa apagar qualquer brilho, êxito ou realização positiva dos governos Lula e Dilma. Para isso, pintam primeiro um quadro de "terra arrasada" e de catástrofe, para depois oferecerem a salvação na forma de um novo presidente não tão brilhante nem mesmo muito confiável, mas "menos ruim" e passível de ser engolido pelo eleitorado.

       Querem gerar , antes , a crença de que estamos à beira do abismo para oferecer depois a saída do abismo. Na verdade, estão inventando uma crise muito maior do que qualquer possível crise real.

       "Não vai ter Copa", "Caos Aéreo", "Fuga de turistas", "Desemprego", "Caos Econômico", "Incompetência da presidente",  "Tropeções na forma de discursar", "Inflação galopante", "Apagão da Diplomacia" -- são estes  slogans e  estas manchetes que procuram inventar. Quase todas desmentidas pelos fatos, fica claro que repousam apenas nos desejos de seus autores.

       Como a era Lula e Dilma produziu pautas muito positivas junto aos trabalhadores e ao povo pobre, agora querem passar a idéia terrorista de uma crise inexorável que vai corroer os salários, a estabilidade , deixar todos na rua e minar a estabilidade econômica..

      Como admitiu a presidente em entrevista recente, mesmo que existam problemas e que os rumos do crescimento precisem ser controlados e até corrigidos, o que a campanha publicitária terrorista procura fazer é exatamente abalar a crença de um futuro melhor e empurrar a opinião pública por meio do medo. Com isso, espera gerar o desejo de mudança e a crença  de que a oposição neoliberal no poder seria a única saída.

     A última novidade é a distribuição na entrada e saída em massa no metrô, pelo menos no de São Paulo, de milhares de adesivos onde está escrito: "Fora Dilma!" É por onde passam milhares de pessoas que trabalham, justamente os eleitores de Lula e de Dilma.

    É o que chamamos de campanha negativa. Baseada no ódio, na sugestão de frustração e, em conseqüência, no desejo de derrubar o governo. Não se trata de iniciativa dos garotos tresloucados do Rio nem do Movimento Passe Livre, que não deveriam ser presos, pois são apenas "massa de manobra" de forças mais poderosas. Essas ações não constituem gestos espontâneos de protesto democrático, como as vaias da classe média ressentida ou o início do movimento de junho de 2013. Nada disso. São iniciativas políticas e publicitárias com direção certa, destinadas a insuflar o desgosto, o medo e uma  raiva programada.

      Repetidas mil vezes pelo bombardeio da mídia conservadora e os comitês de campanha oposicionistas, essas ações podem gerar um desejo de mudança artificial, pelo menos até que a militância a favor das reformas políticas e sociais propostas pela presidente, a primeira mulher a governar o País , possa começar, enfim, a campanha "Fica, Dilma!"

      

 

quinta-feira, 17 de julho de 2014

O DEBATE FURADO


 

 

                                                                     Reinaldo Lobo*

 

     Passada a Copa, começa outro torneio. A briga entre os neoliberais "versus" o Estado. É o pretenso FlaXFlu dos que se apresentam como defensores da "livre iniciativa" contra o monstruoso Leviatã. Esse é o maior falso problema que domina o debate eleitoral brasileiro desde pelo menos a era FHC, iniciada em 1994 e encerrada em 2002.

    Um exemplo ridículo desse debate absurdo ocorreu agora, no fim dos jogos do Mundial, após a derrota acachapante do Brasil por 7x1 para a Alemanha. A presidente Dilma juntou-se aos clamores dos torcedores e dos cronistas esportivos, declarando que seria preciso reorganizar a estrutura do futebol brasileiro.  Pronto, foi o suficiente para que um dos candidatos da oposição, o neoliberal Aécio Neves, caísse matando. Acusou-a de "estatista", pois ela pretenderia criar a "Futebrás". Atribui-lhe intenções para justificar sua própria pregação ideológica. E também por razões eleitorais, claro.  Não adiantou a presidente explicar que não quis dizer isso e nem falava de estatização da CBF, mas de uma simples sugestão, que poderia ter força em se tratando de uma opinião presidencial. Ficou a "acusação" um tanto patética.

    Esse tipo de obsessão anti-estatal já havia começado nos tempos da ditadura civil-militar brasileira sob o nome de "desburocratização". A expressão era uma disfarce de políticos do regime e de empresários "liberais" para clamar contra o "excesso de Estado" na área econômica, ainda que nem sempre preferissem sua diminuição na esfera política e institucional. Estavam interessados, como o general Pinochet no Chile, no liberalismo econômico, jamais no político. E em não pagar impostos.

    Na fase terminal do autoritarismo brasileiro, com a crise inflacionária e a estagnação da economia, quase todo empresário se tornou democrata desde criancinha. Passou-se a equacionar liberdade política com diminuição do peso do Estado. Começou-se, então, a falar do "custo Brasil", a protestar contra a carga tributária e a repetir outros clichês dos porta-vozes "do mercado". Não era suficiente argumentar que o empresariado brasileiro sucumbiria a crises sistêmicas e conjunturais sem o Estado e as intervenções keynesianas na esfera da regulação geral, da geração de capital e mesmo da produtividade.Esses argumentos eram imediatamente descartados e taxados de "marxismo" e "populismo".

     Houve um presidente da FIESP , ainda no final da Ditadura, que foi um dos principais repetidores ideológicos do combate ao Estado. Suas empresas prosperaram muito nesse período vendendo aço e implementos siderúrgicos para obras estatais do "Brasil Grande".Os recursos para seus investimentos vieram dos empréstimos subsidiados pelo Tesouro Nacional. Não só no seu caso, a expressão "mamar nas tetas do governo"  é até fraca para descrever a verdadeira promiscuidade entre empresas privadas e o Estado.

     Os neoliberais negam que temos entre nós, na verdade, um Estado privatizado e abusado pelos conglomerados industriais,  agropecuários, fundos de pensão, grandes bancos e corporações. Um estranho animal, parecido com o Ornitorrinco, como costuma dizer o sociólogo Chico de Oliveira.

      Ao final do regime ditatorial, os defensores de um papel para o Estado no desenvolvimento calaram-se por um bom tempo, receosos de serem confundidos com antidemocratas. Esse período vai até 1989, quando houve a primeira eleição presidencial democrática e ainda prevalecia uma certa unidade de propósitos no sentido de recompor a sociedade e o Estado, restaurando as liberdades civis.

     A luta eleitoral abriu a temporada de caça ao Estado, com Collor representando, então, as forças do "novo liberalismo". Seguiram-se brigas ideológicas agudas, quando cada uma das correntes políticas, que alegavam combater unidas o autoritarismo, já estava no seu  próprio galho.

     Nessa época,  foram criadas as condições internas para, além do advento do curto período Collor, a chegada posterior de FHC. O discurso "moderno" do ex-governador de Alagoas foi buscar suas justificativas para chegar ao poder  no velho tema da "desburocratização" e dos privilégios do funcionalismo. O ex-embaixador brasileiro nos EUA, Roberto Campos, também chamado de "Bob Fields" por sua paixão americanófila, ficou empolgado com a conversa de Collor sobre os "marajás" instalados na burocracia estatal. Escreveu: "O jovem político encontrou o "inimigo objetivo" a fim de combater o distributivismo". Quer dizer, o perigo não era o "marajá" usado como retórica eleitoral, mas uma possível distribuição de renda pela via do Estado.

      Se examinarmos o conflito por uma perspectiva histórica, fica claro que o auge do sucesso da palavra "desestatizar" veio com um movimento externo combinado com essas condições internas, resultando nos oito anos de FHC. Houve no mundo a "revolução" ultra-neoliberal de Margareth Thatcher e de Ronald Reagan na Inglaterra e EUA, continuada pelo risonho inglês Tony Blair, e pelos norte-americanos Bush (pai) e Bill Clinton.

      Foram mais de duas décadas de "pensamento único" no planeta.Cerca de 160 países aplicaram a fórmula neoliberal da "escola de Chicago" sobre a primazia da "mão invisível do mercado". Começou com o Chile do "grande liberal" Pinochet, espalhou-se por toda parte e, na América Latina, incluiu os governos de Menem na Argentina e FHC no Brasil.

     O Estado virou o demônio a ser exorcizado após a queda do regime do "socialismo real" da URSS. Tudo "justificava" o horror a qualquer intervenção do Estado. O ciclo de crise capitalista que vinha desde 1974 com a questão do petróleo e a escassez de energia, achou um vilão-- o Estado do Bem Estar Social. Qualquer forma de proteção aos trabalhadores e de segurança social virou "privilégio" e "prejuízo".

    A ordem era elogiar o empreendedorismo possessivo e individualista. Todos conhecem essa história, que culminou nas crises de  2002,2005 e 2008, cujos efeitos ainda sofremos. O capitalismo "cassino" e "globalizado" criou um caos na esfera internacional. O desemprego europeu e norte-americano, a  quebradeira geral e a retração atingiram ,sobretudo,  aqueles países que mais levaram a sério o programa neoliberal. Sob FHC, já se tornou um dado registrado na História que o País quebrou três vezes, sendo salvo pelo FMI e pelos aliados como Clinton. Teve ainda um desemprego crescente.

       Um paradoxo da posição dos neoliberais é que, mesmo favoráveis ao individualismo econômico, conduziram o seu programa por meio de um poder de Estado centralizado. Os casos de Thatcher e Pinochet são óbvios. Isso pode ser detectado inclusive no governo FHC, cujo presidencialismo de medidas provisórias e de conchavos oligárquicos promoveu, sim , privatizações, só que à custa de ignorar a sociedade civil. Nossos neoliberais negam a realidade em três pontos importantes: 1.a atual crise do capitalismo foi provocada pela própria política deles; 2. a rede de proteção aos trabalhadores no Estado do Bem Estar na Europa foi, até agora, o que reduziu o impacto da crise; 3. a saída dessa situação atual não pode ser por meio do mesmo modelo que a produziu, mas por programas alternativos.

     Dizem também que devemos almejar o mínimo de governo possível a fim de facilitar a livre concorrência e ,assim, liberar a economia. Esse é o maior mito de todos.  O "laissez faire" que visam é imaginário.  Como falar de uma liberdade de mercado e de concorrência numa economia cada vez mais monopolizada e cartelizada? O que a ideologia neoliberal esconde é a sua verdade mais íntima: não é pela livre concorrência "pura", mas pela concentração cada vez maior da propriedade e da renda nas mãos de uma minoria.

 

* Reinaldo Lobo é psicanalista e articulista. Tem um blog: www.imaginarioradical.blogspot. com.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

"Ser radical é tomar as coisas pela raiz e, para o homem, a raiz é o próprio homem".

Karl Marx
( "Manuscritos Econômicos e Filosóficos")