quarta-feira, 26 de agosto de 2015

A DOR DA CRISE

                             
                                                         Reinaldo Lobo*

         O custo de uma crise econômica não se mede em cifras, números ou diagnósticos econômicos. Por mais que o empresariado e os governos apresentem as crises como fatos inevitáveis, quase naturais,  dos quais todos parecem vítimas de uma estranha "racionalidade" do sistema financeiro e industrial, o seu cálculo deve ser avaliado em sofrimento humano.
      Uma crise impõe às pessoas dor mental e física. A banalização das tormentas provocadas pelos ciclos do capitalismo esconde uma face sinistra, que é a incidência da insegurança e precariedade sobre os seres humanos. Depressão, suicídios , doenças psicossomáticas, impotência sexual e perda de sentido na vida -- são algumas das conseqüências mais freqüentes dos períodos de recessão.
     Durante a devastadora crise argentina de 2001/2002, quando ocorreram inúmeros suicídios, saques e violência,  uma psicanalista já falecida,Silvia Bleichmar, bastante conhecida  e respeitada na época, propôs num artigo de jornal que  as autoridades parassem de falar apenas em PIB, Índices de Preços, Taxas de Juros, e considerassem a elaboração de  uma espécie de ISH,  Índice de Sofrimento Humano . A idéia é sugestiva.
      Fala-se da crise como se fosse uma fatalidade, algo como um  terremoto que se abate  de tempos em tempos sobre todos nós. Sabemos que as crises econômicas não são um acidente, mas o resultado de um sistema econômico existente e o efeito de políticas públicas. Implicam em escolhas, decorrem também de erros dos governantes e do caminho selecionado para conduzir uma sociedade.
    A cruel política de "austeridade" que está sendo imposta ao Brasil neste momento não é algo "racional", mas uma estratégia de conseqüências destrutivas, sobretudo, para as pessoas.
   O capitalismo orienta-se pela lógica do Capital, mas na crise os seres humanos perdem muito mais do que dinheiro. Perdem a segurança, muitas vezes dissolve-se  a estrutura familiar, perdem a dignidade e até a identidade. Desabam certos mecanismos de defesa justificadores que fazem os trabalhadores terem resiliência ou tolerância ao sofrimento implícito no processo produtivo. A racionalização, a negação, as compensações de lazer, as válvulas de escape para a humilhação cotidiana e o stress -- tudo isso cai por terra e o que aparece na vida psíquica é  o medo, em alguns casos desespero, a violência e os "actings outs" (atuações fora de conflitos internos).




     Perder o emprego é humilhante. Para qualquer trabalhador, seja da classe  média ou operário, significa uma ameaça à sua dignidade pessoal e ao seu reconhecimento público como cidadão.  Ao ocupar um lugar na cadeia produtiva ninguém pretende "servir ao patrão", mas está em busca de uma "realização pessoal" e também do reconhecimento pessoal na intimidade dos mais próximos, da família, bem como da sociedade.
    Há toda uma psicopatologia do trabalho, tão bem estudada por autores como o francês Christophe Dejours, assim como existem as doenças decorrentes da perda do trabalho. São freqüentes os casos, inclusive entre executivos, de homens e mulheres que chegam aos consultórios médicos e psiquiátricos com sintomatologias difusas, que não entendem --como alheamento, perda de identidade e distúrbios sexuais--, desencadeadas depois que "saíram do mercado".
    Ao perderem o emprego de uma empresa com a qual estavam acostumadas ou se identificavam, as pessoas não deixam apenas de ganhar  dinheiro ou  de "vestir a camisa" do seu time de atividade. Em muitos casos em que há algum grau de desequilíbrio que fora disfarçado pela própria atividade, essas pessoas são levadas a uma perturbação  esquizóide,  paranóide ou de desrealização. Em outros casos, homens passam a se sentir "castrados".Há situações nas quais a identidade dos indivíduos está tão colada ao papel que ocupa no trabalho que, ao serem postos para fora (mesmo em eventual demissão coletiva por crise), sentem que perderam a própria individualidade.  Simplesmente passam a sentir que não são nada. Ninguém. E se "defendem" com mais mecanismos patológicos e sintomas.
    As crises econômicas destinam-se não à destruição de riquezas, mas á sua redistribuição. Em cada crise existem sempre alguns que ganham mais em detrimento de outros. Como lembra o sociólogo Zygmunt Bauman, estudioso da modernidade, após a crise de 2008 nos EUA, após a lenta recuperação da economia produziu-se  um PIB adicional, do qual 93% dele beneficiaram somente 1% da população.
    O ápice da crise não é um sintoma, mas a própria doença do sistema econômico  em ação. O capitalismo precisa de crises periódicas para poder funcionar , abrindo constantemente novas "áreas virgens" de mercado. Na fase de implantação do grande capital monopolista, as guerras mundiais cumpriram esse papel de reordenação dos mercados.  Hoje, o capital financeiro e de serviços recicla-se como se fora uma "revolução permanente", destruindo muitos recursos e criando novos.Estimula o mito do crescimento infinito e do consumo irrefreável. Tudo fica rapidamente obsoleto e os objetos se renovam.    

     Só que , no meio disso tudo, estão os seres humanos. 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

SOCIALISMO PARA BILIONÁRIOS



                                                               Reinaldo Lobo*
           Conselho de auto-ajuda de George Bernard Shaw em seu livro "Socialismo Para Milionários" (hoje, bilionários) : não desperdicem dinheiro fazendo benemerência, mesmo que seja uma vantagem junto ao imposto de renda. Ele será mal aplicado, destinado a uns poucos, às vezes desviado. Se tiver um dinheiro queimando no bolso e quiser "jogar fora", aplique pelo menos em educação, cujo alcance e reprodução será maior. Mas, o ideal mesmo, seria usar a verba para mudar progressivamente a infra-estrutura econômica e social do capitalismo, transformando-o em socialismo, distribuindo automaticamente a renda entre todos, limitando os lucros dos ricos, criando impostos decentes e gerando riquezas menos concentradas nas mãos de alguns privilegiados.
        É de duvidar que os muito ricos seguiram os seus conselhos, exceto talvez aqueles que gostaram da idéia  preferencial de investir em educação. Na maioria dos casos, os bilionários (cerca de um por cento da população mundial, segundo o economista francês Thomas Piketty) estão acumulando cada vez mais capital às expensas, às vezes, de um crescimento bem lento das  próprias economias de seus países e mesmo em plena crise ou recessão.  Justificam sua situação afirmando que, ao enriquecerem, estão criando postos de trabalho. O que é meia verdade, pois também estão criando consumidores de seus produtos e ampliando o escopo do acúmulo de capital.
      A ironia de grandes escritores como Shaw -- teatrólogo e humorista irlandês, um dos inspiradores do Partido Trabalhista britânico, da primeira metade do século XX-- deu origem a personagens curiosos e paradoxais, como o do poeta Fernando Pessoa,  o "Banqueiro Anarquista" :  um sujeito cínico capaz de sofismar ao ponto de provar que, mesmo sendo dono de banco, comerciante e açambarcador, representa o modelo exemplar da política anarquista e libertária. Respeita ,sobretudo, a "liberdade alheia" e, por isso, não ajuda a ninguém, para que todos  possam realizar sozinhos suas próprias potencialidades. Algo assim com o "banqueiro petista", que nunca lucrou tanto na vida, mas compreende e defende em teoria a causa dos pobres.
     Já Oscar Wilde, igualmente irlandês como Shaw, disserta com a elegância e o humor habituais em "A Alma do Homem sob o Socialismo" sobre  a crença de que a individualidade humana correria risco sob um regime socialista e , conclui que sim, correria perigo --  mas também poderia ser despida do seu egoísmo,   enriquecida, preservada e tornada mais livre para criar. O principal é livrar o indivíduo da escravidão de trabalhar para o enriquecimento de outro, dizia o autor de "O Retrato de Dorian Gray".
     No Brasil atual, não chegamos ao socialismo e, no entanto, já ouvimos algumas pessoas admitirem que a era Lula procurou diminuir a fome e a miséria, apesar de fazê-lo da "forma errada" e até de modo a preservar privilégios. Admitem, porém, que avançamos. É alguma coisa. Apesar do ódio generalizado da classe média contra a ascensão dos sem terra, dos sem comida, dos sem geladeira nova, dos  sem teto e dos sem letras, quem sabe alguns gatos pingados já aperfeiçoaram um pouco a própria alma?
     A tendência dos muito ricos, contudo, é "naturalizar" a sua situação. É "normal" que existam pessoas desmedidamente ricas e outras extremamente pobres. O único problema seria a dificuldade de resolver  a condição dos muito pobres.   A ordem natural das coisas, segundo essa ideologia, é que haja diferença de classes -- e não se questione nunca isso, pois é a "realidade". A questão da justiça fica reduzida às leis existentes -- fazer o quê, se as leis consagram a propriedade privada e a "livre" concorrência? Que vença o melhor...
    George Bernard Shaw sugere que a questão da justiça social seja colocada assim, com uma metáfora: "Quando um homem quer matar um tigre, chama a isto de "esporte". Quando o tigre quer matá-lo, o homem dá a isto o nome de "ferocidade". A distinção entre crime e justiça não é maior". Se os trabalhadores sem terra querem um pedaço do quinhão das grandes propriedades rurais, são criminosos; se os grandes latifundiários conquistaram seu quinhão pela violência, grilagem ou a matança de índios, mas detém o papel  que lhes garante a posse, então eles estão com a justiça do seu lado.
    A filantropia dos bilionários é, segundo Shaw, apenas uma forma de dispensar os governos de cumprirem o seu dever, isto é, prover educação, saúde e trabalho ao povo. Gente como Bill Gates, uma das maiores fortunas do planeta, compensa  privilégios enviando computadores usados para a África e fazendo contribuições para entidades assistenciais latino-americanas e asiáticas. Neste caso, o indivíduo foi pressionado pelo imposto de renda e pelas agências fiscalizadoras de seu país a não concentrar tudo num monopólio internacional. Ele merece ser rico, por ter tido a intuição genial de formar uma empresa de informática criativa? Talvez. Mas deveria concentrar o poder econômico e tecnológico exclusivos em escala mundial? Certamente, não. Monopólio não é "livre concorrência", como prega a ideologia oficial.

    Para que os bilionários aprendessem algo sobre o socialismo seria necessário, primeiro, que não fossem idolatrados como faraós e a diferença social não estivesse "naturalizada" na mente das pessoas. Em segundo lugar, seria preciso que a filosofia dos caçadores de tigres não prevalecesse e os pobres não fossem apenas chamados de invejosos, vagabundos ou de criminosos potenciais.
Aquele que diz a verdade cedo ou tarde será descoberto.

Oscar Wilde

terça-feira, 11 de agosto de 2015

UM LIVRO INQUIETANTE

   
                                                                             Reinaldo Lobo*
       Que tempo é esse em que vivemos? Quando começou, quais as suas linhas de ruptura e quando desandou? É um tempo planetário , global, ou fragmentário? Obedece a uma lógica dialética marxiana ou constitui um acidente histórico? Pura contingência?
       Que sociedade é essa,  em  estado de guerra civil permanente e  belicismo internacional, que parece ter um fio condutor unindo tudo:  extermínio colonial, campos de concentração, crises econômicas, escassez, a destruição da natureza, o colapso urbano, a ameaça de hecatombe nuclear , desemprego em massa, o sofrimento no trabalho, a exploração humana para a produção incessante de mercadorias, o medo crescente do futuro -- tudo isso ao lado da criação de tecnologias cada vez mais avançadas de administração da vida?
     O diagnóstico do filósofo Paulo Arantes, autor de "O Novo Tempo do Mundo" (Boitempo Editorial, 2015) é severo e peremptório -- essa é a natureza da sociedade moderna, que obedece a um ritmo e a uma temporalidade próprias. Uma sociedade que emergiu com o capitalismo, vive em regime permanente de crise e de destruição e que se alimenta disso.
      O texto de Arantes não é muito fácil para quem não está familiarizado. Autor de obras anteriores como "Hegel: a Ordem do Tempo" e "Extinção", seu procedimento dialético está contido no próprio discurso, marcado por uma considerável erudição e referências precisas. Já foi definido como um processo de pensamento em cascata, como se as palavras se derramassem em cachoeira. Às vezes, uma nota de rodapé é tão significativa quanto os longos parágrafos, cifrados por uma ironia fina e crítica. Certa vez, Bento Prado Jr. definiu o estilo de sua prosa como tendo sempre "algo de críptico, de elíptico  e de alusivo, que desnorteia o leitor", assinalando o que também dissemos acima, isto é, que o estilo é "expressão da matéria" de que trata.  Vale a pena o esforço de leitura.
      O prefaciador da obra, Marildo Menegat,  aponta que os escritos de Arantes  podem ser pensados como "uma das formas possíveis da teoria crítica, quando o mundo já não se apresenta em linhas bem armadas de encadeamentos progressivos quase óbvios". Sem dúvida, seu pensamento pertence à linhagem da teoria crítica, inspirada em autores da chamada escola frankfurtiana-- talvez tocado, salvo engano,  mais por Walter Benjamin do que Theodor Adorno ou Max Horkheimer. Tem, contudo, algo em comum com todos: o interesse pela negatividade, o proverbial laivo de pessimismo , a influência hegeliano-marxiana e a recorrência de uma problemática crítica encontrada no "jovem Marx".
      Há, contudo, algo de muito singular nos textos de Arantes, notável pelo menos desde o "Sentimento da Dialética", o "Ressentimento da Dialética" e o "Fio da Meada" --  é o seu traço 'brasileiro', de força literária , e também o seu encontro destemido e firme com a 'prática". Isso o torna muito diferente de autores mais teoricistas e abstratos, como o outrora estudioso de Marx, José Arthur Giannotti. Além disso, penso que há um fio de Ariadne em toda a sua obra:   a questão da temporalidade como ponto de partida e de chegada. Arantes busca e persegue a linha e a natureza do tempo como o processo que dá sentido e tecido à História.
       As entrevistas contidas neste livro inquietante  também mostram o lado militante de Arantes,  seu diálogo com grupos de teatro, seu respeito pelos movimentos sociais, seu confronto com os fatos de junho de 2013.  Revelam outra diferença em relação  aos frankfurtianos clássicos, que pareciam limitar-se à  espera passiva da negação da negação e a comprazer-se com o pessimismo, a melancolia e o exercício da  crítica literária e musical. Ao capitalismo nascido na promessa de felicidade e liberdade e tornado barbárie, boa parte do pensamento frankfurtiano ainda hoje limita-se a contrapor o desânimo diante da barbárie. Só enxerga a desesperança e não vê saída além dela.
       Arantes vai além: detecta esperança no "Occupy Wall Street", no "Podemos", no Syriza, na juventude que vai às ruas pelo Passe Livre, em rebeliões como a Primavera Árabe e em eclosões episódicas de negatividade anti-capitalista.
      Um outro interesse desta obra densa é o de ser um contraponto eficaz ao "pensiero debole" (Gianni Vattimo), que concebe uma superação da modernidade por uma suposta "pós-modernidade", onde os contrários se reconciliariam no bojo do status quo, na complacência em face da barbárie e na qual a liberdade iria imperar, finalmente, na forma de expressão cultural. Fruto do cinismo neoliberal, a ideologia da "pós-modernidade" esconde o quadro de conflitos, de violência e mascara uma época do capitalismo em que se tornaram inevitáveis as expectativas decrescentes.

       O quadro da contemporaneidade é, sem dúvida,  assustador. É a era das distopias. Nas telas dos cinemas, zumbis e dráculas. No mundo do trabalho, opressão e insegurança mal disfarçadas. Na sociedade, crises sucessivas e guerras  intermináveis.  Tudo parte de um tempo global de natureza ora bélica, ora de doença social crônica. Nas ruas, seres humanos ameaçados de extinção, isto é, em vias de se tornarem menos do que zumbis e dráculas. Ao mesmo tempo, porém, uma sociedade onde as pessoas nunca se casaram tanto, independente do gênero, onde a comunicação estendeu-se em escala planetária e a juventude busca avidamente livros e sinais de um novo tempo. Que sociedade é essa? Que destino terá?

quinta-feira, 16 de julho de 2015

PODER SIMBÓLICO

   Muitas pessoas inteligentes não entendem por que multidões seguem essas igrejas evangélicas --meio fajutas para os esclarecidos. Uma boa resposta é a de Pierre Bourdieu, sociólogo francês que escreveu livros inteiros de pesquisas sobre esse assunto e muitos outros:
" O poder simbólico é esse poder invisível, o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem.
"Poder quase mágico, que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica), só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário".

GOVERNO ESQUIZOFRÊNICO?

                                  

                                                               Reinaldo Lobo*
               A metáfora da esquizofrenia tem sido usada e abusada para descrever o atual governo brasileiro. É um equívoco e um diagnóstico apressado. Em primeiro lugar, é preciso perguntar: o que se define hoje  como o governo brasileiro. Há vários, com identidades independentes. Mas há um laço de sobrevivência política que os une.
             Na esquizofrenia -- a doença mental -- existe uma cisão de personalidade de um único indivíduo. Suas partes -- é verdade-- agem isoladas umas das outras e se ignoram mutuamente . Com Brasília, não é bem assim. Há vários elementos distintos , cada um agindo de modo mais ou menos  desorganizado do seu lado.  Cada um trabalhando como se tivesse identidade, autonomia e direção própria , porém contrária aos outros.  Cada um na sua, como se diz. E uns contra os outros, só até certo ponto. No fundo, há um fio de união.
           Há um governo que se imagina de esquerda -- bem moderada, diga-se-- , relativamente acuado e sob pressão dos adversários. É representado pela figura presidencial e alguns poucos ministros de sua confiança, como José Eduardo Cardoso e Aloísio Mercadante. Na base aliada, conta com o PCdoB, e com alguns membros do PDT, do PSB e pouquíssimos independentes do PMDB. É pouco, para uma base que reúne cerca de 22 partidos.
        Um outro é de direita, encarnado por amplos setores do PMDB, sintetizados em  figuras como Kátia Abreu, da Agricultura, sem excluir o vice presidente Michel Temer. Acrescente-se aliados do PP, PR e outras legendas mais ou menos fisiológicas.  A direita se amplia até toda a base governista, onde estão personagens de alta respeitabilidade como os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha,  e do Senado, Renan Calheiros.
       Há mais um governo, terceirizado do tucanismo, figurado pelo ministro Joaquim Levy, com uma ideologia  de ultra direita na área econômica. A grande polêmica é a carta branca dada pela presidente Dilma a este governo à parte, que age com desenvoltura, desmentindo completamente a idéia de um "governo voltado para os trabalhadores" propagada e articulada pelo PT.
        Ainda há um resquício de uma virtual representação do lulismo agindo nos bastidores, apoiado nos remanescentes do PT.
       Talvez seja melhor perguntar: qual dos governos governa o Brasil hoje?
        Dilma está vivendo o drama da esquerda que optou pelo caminho democrático e deixou para trás o velho processo de radicalização revolucionária. Não oferece o socialismo, mas uma coligação de partidos e orientações ideológicas em direção a graduais avanços de  distribuição de renda.  Estão errados -- ou só de ma fé-- os que acenam com o espantalho de Cuba ou do bolivarianismo da  Venezuela. Isso é a maior bobagem que circula na imprensa brasileira. O pior é que alguns saudosistas  do socialismo real ou da opção guerrilheira entraram também nessa história.
         É preciso dizer com todas as letras de uma vez por todas: Dilma entregou a hegemonia para a direita, não por ingenuidade, mas por estratégia. Ampliou o pacto de coalizão com o empresariado , os banqueiros e os latifundiários.
        Em parte, foi para sobreviver politicamente sem a retaguarda paternal de Lula, após uma vitória apertada nas urnas e a pressão das classes médias e de vários setores populares, inclusive  trabalhadores levados pela onda de moralismo e fervor evangélico que assola o país.
       Por outro lado, em grande parte a presidente Dilma vive o "dilema grego" que afeta toda a esquerda que veio de setores mais radicais pela via democrática e teve que adotar governos de coalizão com as classes dirigentes. Por não saber agir num ambiente tipicamente negociador, oportunista, em busca de sucessivas soluções de compromisso com as forças do capitalismo mundial e nacional -- e sem um forte programa alternativo estratégico--,  essa esquerda exagera na dose da aliança e da concessão, perdendo  a mão  sobre o processo político.
     O drama de José Dirceu foi exemplar : perdeu a mão na dose de compromisso, escorregando na ilusão de imitar o "pragmatismo" da direita. Acabou por virar uma figura de lobista, maltratado até injustamente pela mídia. .Atuou na mesma "zona cinzenta da política" de que falava um ilustre filósofo tucano. Só que, ao contrário dos vários  espertos tucanos que meteram à vontade o bico na cumbuca, foi apanhado numa armadilha sem a proteção da mídia conservadora. Restou-lhe a condição de "consultor".
       A direita nacional, composta por quase todos os partidos existentes, é como aquela velha dona de bordel que conhece cada uma das fraquezas de  suas profissionais e de seus fregueses. E as explora todas com eficiência. Eduardo Cunha é a personagem símbolo dessa direita esperta. É uma dessas donas do bordel. Na verdade, a sua turma está governando mais do que os outros vários "governos", pois tem obtido cinicamente , na calada da noite, mais resultados regressivos e conservadores do que a oposição tucana bem falante e inepta.
       A direita governa o País e mantém Dilma na defensiva. Há um pacto de governabilidade envolvendo todos os partidos, inclusive a oposição -- com hegemonia da direita, sobretudo dos banqueiros. A oposição finge se opor, de olho nas eleições futuras, mas  não tem nada de louca ou de esquizofrênica . Louco é quem rasga dinheiro.


Reinaldo Lobo é psicanalista e articulista,. Tem um blog: imaginarioradical.blogspot.com


quarta-feira, 1 de julho de 2015

A GUERRA RELIGIOSA

     
                                                                   Reinaldo Lobo*

        A mãe de um preso de alta periculosidade ligado do PCC contou em entrevista na TV que deu ao filho de presente o Novo Testamento e  o seguinte conselho:
      -- Decore trechos da Bíblia, aproveite enquanto está na cadeia, converta-se, saia mais cedo por bom comportamento e, aqui fora, funde uma Igreja Evangélica e você ficará rico muito mais depressa do que pelo tráfico.
       Essa senhora de visão falava a sério, não estava brincando ou ironizando. Um "convertido" tem um grande valor no "negócio da fé" e sua retórica é muito mais convincente.
      Tornar-se um pastor é um ato de empreendedorismo-- um tanto cínico e oportunista, é verdade, mas de grande futuro. O mercado cresce, as igrejas têm isenção de impostos e os seus pastores e bispos também.
      A Teologia da Prosperidade que move a pregação evangélica é harmônica com o capitalismo, dá-lhe um suplemento de alma, manipula multidões em busca de recompensa ou retribuição  pela doação do dízimo -- não no céu, mas na terra. Distribui milagres e encena curas espetaculares, próprias para a  histeria em massa.e perfeitas na televisão.
      A julgar pelos números divulgados recentemente, com 14 mil igrejas pentecostais novas no País em menos de um ano, o Brasil seria um dos países mais evangélicos do mundo. Mas a situação não é tão simples assim.
     Ocorre que as igrejas evangélicas, com apoio nas suas mídias, são fábricas de criar clientes. Abrem novas frentes evangelizadoras e vão ocupando espaços outrora pertencentes hegemonicamente à Igreja Católica. Não recolhem um mercado já existente, ainda que a fé sempre seja virtualmente existente em toda parte,  mas doutrinam os seus novos públicos. Na verdade, criam um público novo onde se instalam e vão-se espalhando pelos mais distantes grotões nacionais.
     Alguns antropólogos e sociólogos sustentam que essas igrejas são mais modernizadoras, pois utilizam sem pudor meios tecnológicos e eletrônicos para promover uma teologia condizente com a sociedade de consumo. Também socializariam membros de comunidades pobres e primitivas oferecendo-lhes valores diferentes de religiões mais"primitivas", como a umbanda e o candomblé. Aliás, esse é o discurso de alguns pastores mais espertos que jogam seu público contra a "magia negra", ou seja, os credos oriundos da tradição negra e africana, ao mesmo tempo em que usam recursos de prestidigitação em que imitam fora do contexto rituais dessas religiões.
     Tenho minhas dúvidas de que as denominações evangélicas sejam modernizadoras, no sentido de fazerem prevalecer o simbólico em relação à concretude das ações e da troca primitiva de bem estar por dinheiro. Ao contrário, parecem apropriar-se da linguagem alheia -- como no caso gritante da Universal do Reino de Deus, com seu Templo de Salomão do Velho Testamento, que veste seus pastores como se fossem rabinos do judaísmo. E, além de usarem linguagem dos outros cultos, propõem uma espécie de despojamento simbólico das tradições de séculos e dos significados contextuais de cada religião. Promovem assim uma espécie de alienação regressiva e uma ostensiva mistificação.
      Se na tradição católica, por exemplo, cada gesto de um ritual remete ao simbólico e à representação, dirigindo-se ao  pensamento humano, o que essas religiões propõem é o esvaziamento dos símbolos de seus significados. O seu valor passa a ser meramente utilitário. Derramam-se os conteúdos para fins quase teatrais visando uma troca comercial. O Templo de Salomão da Universal chega a ser kitsch porque é falso. É a cópia da cópia da cópia... Lembra um pouco o universo de Las Vegas, onde tudo parece, mas não é.
      A guerra por territórios das igrejas evangélicas tem também uma função ideológica e política mais ostensiva. Não só porque seus pastores não fazem a menor cerimônia em ocupar cargos públicos, chegando alguns deles até mesmo a figurar nas listas de presos por corrupção. Mas, sobretudo, porque cumprem, desde os tempos da Ditadura Civil -Militar, a missão, apoiada até pela CIA, de deslocar da cena a Igreja Católica que fez a opção pelos pobres.
      Há informações seguras de historiadores segundo os quais algumas denominações religiosas lideradas por anti-comunistas fanáticos foram escaladas, desde os anos 70, pelas classes dominantes e patrocinadas para iniciar o combate às pastorais operárias católicas e para conquistar setores das classes médias.
     Essas denominações incluiriam  desde a seita coreana do Reverendo Moon --que não teve nenhum sucesso em se implantar no Brasil, ainda que tenha recebido um bom dinheiro de seus padrinhos norte-americanos-- até as igrejas pentecostais que imitavam na TV os pastores-vendedores dos Estados Unidos. Estas tiveram e continuam a ter sucesso, mesmo ainda existindo uma maioria de católicos nominais no País. Pequenos empresários passaram, inclusive, a freqüentar essas igrejas, pois com as oscilações econômicas, entram em concordata e  desespero, formando verdadeiras falanges virtuais proto-fascistas.
     O conflito com outras denominações religiosas tem se radicalizado ao ponto de os fanáticos evangélicos hoje influírem no Congresso Nacional, onde o presidente da Câmara , Eduardo Cunha é um protótipo desses oportunistas eleitorais que se fazem passar por "fundamentalistas cristãos".

    O problema é que, ao organizarem falanges do fundamentalismo, chegam a provocar a violência, como houve no Rio de Janeiro contra membros do Candomblé. Esses líderes fajutos não se limitam apenas a fazer negócios e a levar o dinheiro dos crentes, mas constituem um sério perigo social, político e mesmo bélico. Querem levar a guerra às ruas e seus chefes ao poder.