quarta-feira, 25 de maio de 2016

UM BRILHO FANÁTICO


                                                                Reinaldo Lobo*

      Se você votou nos tucanos, gosta de Miami e de bons vinhos, critica o governo Lula ou Dilma, tem uma renda acima da média brasileira, então está imediatamente rotulado: é um (a) “coxinha”. Logo, é alguém cheio de preconceitos, elitista e só vê corrupção política nos outros.
     Se votou em petistas, acha que a desigualdade social e a má distribuição de renda são alguns dos problemas mais graves do País, então você não escapa: é um (a) “petralha”. Logo, deve fazer vistas grossas para a corrupção política, a subversão e, talvez, seja até um suspeito de conivência “com tudo isso que está aí”
      Os estereótipos são um resultado da radicalização da cena social, da disputa política e do ódio de classes no Brasil. Os rótulos tornaram-se verdadeiros palavrões usados para ofender e paralisar o adversário numa discussão ou troca de mensagens eletrônicas. Falar mal de alguém pode incluir “não passa de um (a) petralha” ou, do outro lado, de “um (a) coxinha”.
    Há uma forte conotação moral, de acusação e de desprezo nesses comentários. Sem falar, é claro, na onda de fundamentalismo político-religioso que invadiu o país com a chegada do neopentecostalismo e dos cultos evangélicos. Quem for, digamos, liberal e apoiar a descriminalização da maconha ou do aborto será imediatamente condenado ao fogo dos infernos.
    O fanatismo é o fenômeno implícito na rotulação e nos xingamentos. Ninguém se pergunta, nessas horas, se um petista gosta de bons vinhos ou se um eleitor de tucanos pode ter preocupações sociais. Vale tudo para “destruir” o adversário que, a essa altura, já virou um inimigo.
     Como tenho dito aqui e em outros lugares, o fanatismo tem cura. Não me refiro a mudar as condições políticas, culturais ou sociais de um país, ainda que tenham um peso considerável no assunto. Falo do aspecto ético e psíquico.
      É possível ver uma diferença entre o discurso e a ação fanática. O terrorista, um modelo padrão, age. Os que apenas discutem falam, gesticulam, gritam, mas somente de forma radical. No entanto, o discurso fanático tem consequências, estimula o ódio, dá um péssimo exemplo e se difunde como ideologia mais ou menos dominante.
      É fácil reconhecer uma pessoa fanática. Tem, via de regra, um entusiasmo militante, um forte brilho no olhar, uma obstinação e uma persistência nos argumentos e crenças. Falta ao fanático a curiosidade pelo outro e a curiosidade em geral. Ele já sabe. Detém um saber próprio e superior, uma verdade que não precisa ser oferecida, mas imposta ao outro.
     O fanático não quer convencer, quer salvar a todos nós. Conhece o que a humanidade precisa, chega a ser um altruísta dedicado à espécie humana. Os terroristas das Torres Gêmeas, de Paris e da Bélgica queriam dar um exemplo ao mundo, como se só eles soubessem o que é a verdade e que ela seria aplicável a qualquer cultura.
       O fanático, como sabemos, é um puro e um moralista extremo. O mundo está errado, todos os problemas estão projetados fora. O outro precisa ser salvo de si mesmo, pois se contaminou com os erros e a imoralidade.
      Do ponto de vista psíquico, é fácil dizer que o fanático é um louco. Só que isso seria mais um xingamento apenas, passível de igual uso fanático. Todos nós estamos sujeitos a momentos esquizo-paranóides, isto é, quando estamos de algum modo ameaçados, perseguidos, divididos e despejamos no outro as culpas pelo que está acontecendo. Vemos isso nas crianças de modo fácil, nos casais que brigam e em nós mesmos, de vez em quando. Falta ao fanático livrar-se disso que, nele, já se tornou um sistema de funcionamento. Escapa-lhe a capacidade de se preocupar e deprimir pelos erros e falhas humanos, a que está sujeito como todo mundo.
      Para tentar curar um fanático mal-humorado e sério – pois ele é o protótipo da falta de humor e da seriedade--, é preciso colocar-se dentro do seu universo de discurso, ver as coisas de seu ponto de vista e questioná-las por dentro. Empatizar com ele não é fácil, mas necessário. Assim como não se diz a um louco que ele não é Napoleão, pois vai retrucar que você é o Almirante Nelson e quer derrota-lo em Waterloo, também não se provoca um fanático.
       Um bom exemplo é dado por um especialista no assunto, o escritor israelense Amós Oz, um guia para a discussão moral do fanatismo.  Ele conta que um amigo seu, um romancista chamado Sammy Michael, de esquerda como ele, pegou um táxi e durante o percurso o motorista estava proferindo o costumeiro discurso sobre como é “imprescindível para nós, judeus, que se matem todos os árabes. Sammy o escutava e, em vez de gritar “Que homem horrível você é. Você é um nazista, um fascista? ”, ele decidiu lidar com aquilo de modo diferente.
      Ele perguntou ao motorista: “E quem você acha que deveria matar os árabes?” O motorista não hesitou: “Quem você acha? Nós! Os judeus israelenses! Temos de fazer isso! Não há alternativa, veja só o que eles estão fazendo conosco todo dia! ”  Então Sammy perguntou: “Mas quem exatamente você acha que devia se encarregar da tarefa: A polícia? Ou o Exército? Ou talvez os bombeiros? Ou as equipes médicas? Quem deve realizar o trabalho? ” O motorista coçou a cabeça e disse: “Acho que devia ser dividido de maneira equitativa entre todos nós, cada um devia matar alguns deles”. O escritor Sammy, ainda jogando o jogo, disse: “O.K., suponha que você seja designado para algum bloco de residências em sua cidade, Haifa, e você bater de porta em porta, ou tocar a campainha e perguntar: ‘Perdão, senhor, ou com licença, senhora, por acaso é árabe? ’ E se a resposta for sim, você atira nele ou nela. Aí você termina o serviço em seu bloco e está pronto para ir para casa, mas assim que se vira você em algum lugar num quarto andar de seu bloco o choro de um bebê. Você volta para atirar no bebê? Sim ou não? ”, perguntou Sammy. Houve um momento de silêncio e então o motorista disse a Sammy Michael: “Sabe, você é um homem muito cruel”.
      Essa história, dirá Amós Oz, é muito significativa porque revela que existe alguma coisa na natureza de um fanático que é sentimental e ao mesmo tempo carece de imaginação. Se você ouvir alguém dizendo que um “petralha” ou um “coxinha” precisa ser morto, faça a experiência de injetar nessa pessoa alguma imaginação e, talvez, ela consiga conversar de modo menos estúpido.

     Dá alguma esperança, não é fácil nem rápido, mas, quem sabe?, seja possível ajudar um fanático abrindo-lhe a mente para a imaginação, a curiosidade e a indagação.

terça-feira, 17 de maio de 2016

MANHAS E ARTIMANHAS

       
                                                                                Reinaldo Lobo

         Invocar Maquiavel nesse contexto de “manhas e artimanhas” em que vivemos, segundo a expressão de Dilma Rousseff, pode parecer o mesmo que convocar o Diabo para apagar o fogo do inferno. Mas é preciso chamá-lo a depor.
        Esse autor incompreendido foi o primeiro grande cientista político da modernidade ocidental. Personagem intrigante e ambíguo, porém genial. Um extremo realista. Próprio para entender o imbróglio do Brasil atual.
       Era um republicano confesso que, aparentemente, fingia só dar conselhos a príncipes. No entanto, sabia do que falava. Segundo ele, às vezes um príncipe precisa imitar os animais. Quando a maneira de agir moral dos homens não é eficaz para vencer a luta política é necessário recorrer ao modo das feras. O governante precisa saber qual dos animais imitar.
      O conselho famoso de Maquiavel é que o líder se sairá melhor se aprender a imitar “tanto a raposa quanto o leão”, combinando os ideais morais de um ser humano corajoso e combativo com as artes bestiais da força e da fraude. Inspirado em imperadores romanos, nosso autor sugere que um bom governante, digno possuidor da “virtú”, deve ter as qualidades de “um ferocíssimo leão e de uma astutíssima raposa”, e por isso será “temido e respeitado por todos”. 
     Vem daí, provavelmente, a expressão “raposa” para se referir a um tipo de político experiente e esperto, às vezes um verdadeiro velhaco. Um Eduardo Cunha, por exemplo, mas também um Tancredo Neves e um Ulysses Guimarães, que, além das qualidades “animais”, tinham a coragem e a grandeza de bons seres humanos.
     Dilma padeceu da falta de algumas dessas qualidades. Tem coragem e persistência. Em alguns momentos parece até ter uma força leonina, telúrica e indomável. Mas faltaram-lhe a habilidade política, que lhe permitiria negociar, e a astúcia da raposa. O pouco de jogo, de esperteza, apareceu tarde demais e, aparentemente, não foi sequer de sua autoria.
     Confiar em José Eduardo Cardoso, de resto um brilhante advogado e professor de Direito, para as derradeiras cartadas políticas foi o mesmo que apostar no gesto de um Waldir Maranhão para sinalizar os vícios do impeachment.
    É verdade que a própria Dilma não deve ter esperado mais do que isso: uma sinalização para o mundo, o STF e a História de que o processo de impeachment foi “sujo, hipócrita e mentiroso”. Todos sabemos que estava sendo preparado há anos, desde que ela venceu a segunda eleição. Teve apoio dos jornais, TV e revistas, da mídia conservadora, dos blogs pagos por empresários, do uso de instrumentos jurídicos e de alguns juízes. Movimentos de massa capitalizados pela Fiesp e outras organizações patronais não escondiam o seu objetivo.
     Não é possível, contudo, que Dilma não percebesse para onde se dirigia a opinião pública, mesmo que a julgasse manipulada. Não se pode crer que se apoiasse apenas no seu “dispositivo petista”, com Cardoso, Jacques Wagner e Aloísio Mercadante, nem em pequenos partidos como o PC do B e nos movimentos sociais. Tampouco poderia contar só com o suporte das empresas que patrocinaram sua campanha ou com os ministros fisiológicos que teve que engolir na coalizão chamada de “base governista”.
      Tudo indica que Dilma não sabia mesmo o que fazer, em meio a tantas e astutas raposas. Recorreu ao ex-presidente Lula, mas depois das gravações do juiz Moro, das reações do Supremo e, principalmente, do verdadeiro chefe da República de Curitiba, o procurador Janot, tudo ficou mais difícil. O próprio recurso a Lula já foi um dos muitos erros ao enfrentar a trama da politização da Justiça.
       Entre as raposas, estava Michel Temer, que vinha conspirando há muito tempo, fazendo reuniões com empresários e políticos da oposição para armar o seu bote. A aliança de Temer com Eduardo Cunha, preparando a Câmara dos Deputados e, ao mesmo tempo, manobrando o PMDB para deixar o governo acelerou o processo de impeachment, que chegou a ficar em segundo plano por um bom tempo, quando a presidente tentou mudar os rumos da política econômica, ganhando um fôlego junto à “oligarquia liberal”. 
       Dilma está caindo porque não foi capaz de artimanhas, mas vítima delas. Sua força leonina diminuiu paralelamente à perda da base política. Sua derrota veio por perder a base para governar, mas isto ocorreu porque não teve recursos para articular um projeto de conquista do seu sócio majoritário, o PMDB, que se foi deslizando cada vez mais para direita. Quando se juntou a Renan Calheiros, outra fera capaz de trair, já era tarde. Não conseguiu impor uma divisão suficiente no PMDB capaz de neutralizar o vingativo Eduardo Cunha.
        Muitos analistas políticos afirmam que a grande falha de Dilma e de seus conselheiros foi hostilizar Cunha quando ele quis proteção na Comissão de Ética do Congresso para evitar a própria cassação. Isso é um engano. Dilma naufragou quando confiou na possibilidade de manipular, com os métodos de raposa de Lula, os vários partidos da base governista, sem um programa mínimo comum capaz de elevar o nível de dignidade da política.
        Os ultrarrealistas dizem que a matéria prima do Congresso e do Ministério não permitiria elevar qualquer nível. Pode ser. Mas houve uma oportunidade quando explodiu a insatisfação popular, em 2013, de ganhar apoio do povo para reformas institucionais, sociais e políticas. Dilma dirigiu-se diretamente à população quando falou em Constituinte independente, plebiscito e reforma do quadro partidário. A crise se avizinhava, poderia, inclusive, fazer uma reforma ministerial. Faltou ali a estatura e a grandeza de uma estadista. Faltou também não só o “instinto animal”, a manha, mas a ação leonina recomendada por Maquiavel ao bom político.
       Não enfrentou o PMDB, rendeu-se ao pior da base governista e à vontade de Michel Temer, que vetou qualquer mudança. O resultado é que, agora, o galinheiro está entregue à raposa mais traiçoeira do seu entorno.

       O governo Dilma morre de uma morte ruim, ainda que sua líder continue lutando. Não é a boa morte que os gregos supunham: lutando, mas deixando a glória e a grandeza como heranças.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

AMOR À SENZALA

     
                                                         Reinaldo Lobo*

       Há um desejo secreto de boa parte da sociedade brasileira de se submeter, suponho, ao autoritarismo. Devemos encarar a existência desse estranho fenômeno. Assim como nos parece absurdo o masoquismo nos indivíduos é bem esquisita a submissão voluntária de um povo. No entanto, existe.
       Será uma nostalgia de nosso passado escravocrata? O mandonismo atrai. Não é raro lermos comentários de colunistas e até de alguns políticos conhecidos pedindo com frequência decisões firmes das autoridades e mais repressão policial. Podemos dar um desconto para aqueles que estão assustados com a criminalidade e com um certo caos administrativo que parece fazer parte da cultura brasileira. Também devemos excluir os fascistas e os velhos comunistas da “linha dura”, pois esses são por natureza autoritários, quando não amantes do totalitarismo.
      A questão é o povo, ou uma parte dele, que aceita submeter-se a uma elite política e empresarial frequentemente inepta e corrupta. Pior, parece querer mais disso, apesar dos protestos recentes.  Gosta dos salvadores, da “lei e da ordem” e das soluções de “machos” latino-americanos de vários tipos. Desconfio que essa considerável fração do povo prefere os da direita.
     Não é mero acaso o sucesso de personagens públicos como Jair Bolsonaro, de panfletários como Olavo de Carvalho e aquele Azevedo, da Folha e da Veja. Todos se anunciam rebeldes, insurgentes contra a “hegemonia cultural marxista”, mas não escondem que defendem, ao fim e ao cabo, a permanência de valores e das hierarquias mais tradicionais na sociedade e na política.
     Alguns deles nem chegaram ao espirito democrático da Revolução Francesa de 1789. No entanto, têm a admiração confessa de setores significativos da classe média revoltada com o período nacional-distributivista dos governos Lula e Dilma.
       A servidão voluntária fascina quem busca ou se acostuma à “proteção” e à “segurança” dos regimes autoritários. Boa parte do que temos hoje é resquício dos mais de 20 anos de ditadura civil-militar. Não duvidem disso.
      O elogio feito pelo deputado Bolsonaro a um notório torturador do período ditatorial, associando seu voto contra quem foi vítima da tortura, Dilma, ao nome do major torturador Ustra, só foi possível porque existem hoje as condições subjetivas e objetivas para um tal link. O que “legitima” a fluência do seu discurso fascista é o conluio antigo na nossa sociedade entre os que mandam e os que obedecem.
     O grande acordo dos vários setores da oligarquia, que impôs a anistia dos torturadores da ditadura, tem a mesma origem do acordo que se trama agora para colocar Michel Temer na Presidência, sempre em nome da conciliação, da estabilidade e da paz social.
      O mais grave é que surgiu uma paixão de direita entre nós: o desejo de obedecer e de se conformar. A revolta contra a corrupção, que postulo ser na verdade uma indignação superficial contra a revelação da corrupção, esconde um anseio de que tudo volte ao “normal”, isto é, que a sociedade volte à condição hierárquica tradicional e as mazelas não apareçam de forma tão transparente, com seus conflitos de classe e a sua podridão.
       A militância que surgiu à direita não é propriamente um engajamento político duradouro, mas uma explosão de indignação destinada a recolocar “cada macaco no seu galho”.
      A aceitação de um político de estilo tradicional como Michel Temer na chefia do governo, independentemente das suspeitas que pairam de estar no mesmo esquema de corrupção exposto pela “Lava Jato”, mostram que o objetivo das manifestações anticorrupção era só expelir o elemento estranho, o petismo, da ordem estável da política e, se possível, da sociedade.
      A submissão voluntária ao autoritarismo não se restringe aos 10 por cento dos que votariam no deputado Bolsonaro para a presidência. Não se enganem quanto a isso. A vergonha impede as pessoas de assumirem uma identidade autoritária, pois o discurso ideológico brasileiro apresenta-se como “liberal”.
      Um grande número dos participantes das passeatas dominicais festejadas e estimuladas pela rede Globo para servirem como a introdução ao impeachment, revelaram em pesquisas qualitativas que aceitariam uma intervenção militar para “pôr ordem na casa”. Muitos querem a exclusão dos políticos e a entrega do poder a “forças neutras” que possam promover a “limpeza” do País. O ideal varia: ou um militar e ou um juiz.
    É interessante observar que uma das acusações ao petismo, frequentes nas passeatas, era a de querer implantar um regime autoritário bolivariano ou cubano. Ao mesmo tempo, os manifestantes pediam um regime autoritário de direita, ainda que temporário, a fim de repor a “normalidade” das coisas.
    A própria trajetória do circo do impeachment, que agora tem até musas de beleza inspiradoras, segue um traçado de cooptações, traições e métodos subterrâneos de ação próprias da política tradicional brasileira, calcada no clientelismo. O PMDB tem sido um campeão dessa fórmula, ainda que não seja o único.
     O acordo entre os “de cima” que prevaleceu na redemocratização do País, anistiando os torturadores, na eleição indireta de Tancredo Neves, na entrada sem voto de Sarney e, agora, na fórmula do impeachment imposta por um Congresso submisso e corrupto, dirigido na Câmara pelo político mais rejeitado de todos, o célebre Cunha, está sendo aceito passivamente pelos “de baixo”, isto é, a parte do povo cuja identificação de pertencimento ao sistema a torna automaticamente engajada na busca da lei e da ordem. São os admiradores da PM e da repressão ao crime, e até o público dos programas sensacionalistas daqueles repórteres-policiais da TV.

       O Brasil continua a ser, infelizmente, o País cujos revoltados voltam à senzala, como aqueles escravos libertos pela primeira revolução democrática negra das Américas e do mundo, a revolução haitiana liderada por Touissaint Louverture, em 1791. Os revoltosos voltavam às fazendas e aos seus antigos donos logo depois da proclamação do fim da escravidão. Tinham medo e não sabiam o que fazer com a liberdade. 

sexta-feira, 15 de abril de 2016

O QUE HOUVE EM 2013

  

                                                         Reinaldo Lobo*

      A democracia liberal tem medo do movimento. Qualquer movimento, que possa levar à instabilidade. Por definição, democracia é o regime do conflito, da divergência e da disputa a céu aberto, nas urnas ou nos parlamentos. Mas aí é que está a contradição: o conflito assusta as democracias liberais contemporâneas porque não são apenas uma forma de governo.
     As modernas repúblicas representam, veiculam e articulam interesses de uma oligarquia de empresários, tecnocratas, militares, empreiteiras, corporações, organizações sindicais, fundos de investimento, fundos de pensão, monopólios e, sobretudo, dos próprios políticos. São “oligarquias liberais”, o que é sem dúvida um nome paradoxal.
    O povo sabe, em seu bom senso comum, dessa verdade -- isto é, que os políticos representam a si mesmos e a quem lhes garante recursos para sua eleição, suas ambições e a manutenção do seu estilo de vida.
   Os eleitores também têm a intuição de que seu direito de escolha é limitado ao dia da eleição e, mesmo assim, restrito aos candidatos previamente indicados pelos partidos existentes. Nos Estados Unidos, tentaram corrigir essa limitação inventando as eleições preliminares, as prévias para a seleção dos candidatos de cada partido. Mas, mesmo lá, os eleitores estão confinados a uma espécie de autocracia de apenas dois partidos poderosos e dominantes. Muitos cidadãos protestam simplesmente não comparecendo às urnas ou votando em branco e nulo. Entre nós, o voto é obrigatório e nem temos completamente esse tipo de protesto.
    Esses regimes são liberais, não recorrem à coerção e até preferem o protesto silencioso dos que negligenciam o voto. Os setores dominantes impõem uma espécie de meia-adesão indolente da população. Quase uma servidão voluntária. A indiferença, o recolhimento à vida cotidiana e aos negócios privados fazem parte do quadro mais ou menos confortável da sociedade de consumo. Quanto aos pobres, estão acostumados à sua condição e apenas às vezes se organizam em movimentos de base. Boa parte dos trabalhadores alienam-se nas empresas e no dia-a-dia. O funcionamento desses regimes é essencialmente não democrático ou apenas semidemocrático.
    O que parece ter havido no Brasil em 2013 foi uma rebelião espontânea de uma população aparentemente passiva, mas, como se viu, insatisfeita com essa distância da representação política na nossa Nova República. O abismo entre representantes privilegiados e representados insatisfeitos nunca ficou tão evidente.
     Os jovens saíram às ruas sob o pretexto inicial de impedir um aumento de centavos nos preços dos bilhetes do transporte coletivo, mas foram ganhando o apoio da opinião pública, engrossaram suas fileiras com camadas de trabalhadores, adultos de classe média, ampliaram seus temas e famílias clamavam por melhores serviços de saúde, educação e mobilidade urbana.
     Os manifestantes sofreram uma repressão violenta, alguns reagiram com igual agressividade, quebrando vidraças, bancos e lojas e até se soube de alguns saques. Houve feridos e até algumas mortes, uma delas de grande repercussão, pois foi a de um membro da imprensa, cujos patrões já vinham pedindo lei e ordem. Os Black Blocs foram presos e a repressão procurou justificar-se pelo uso da força da Polícia Militar que, por sinal, era um dos alvos dos protestos.
     O movimento foi ambíguo. Começou por iniciativas de estudantes e usuários de transporte público. Depois, foi recebendo adesões da classe média revoltada com os “privilégios dos pobres” nos governos Lula e Dilma. Imediatamente, líderes da oposição conservadora procuraram empalmar as manifestações e dirigi-las contra o governo, enfocando acusações de corrupção e o anticomunismo.
     Essa mistura de participantes sob o slogan genérico de combate à corrupção escondeu o sentido do movimento. O próprio Lula procurou minimizar o volume e as causas das manifestações, dizendo que o povo estava apenas “querendo mais”, depois de ter recebido o acesso ao consumo de massas e a integração ao mercado. De “barriga cheia” durante o período eufórico do lulismo, o povo estaria buscando melhores serviços e atenção.
      Muitos reduziram as explicações a fatores econômicos e diretamente sociais, inclusive quando se falou da classe média -- ela estaria apenas reagindo à ascensão dos pobres, à sua presença nos aeroportos e aos direitos trabalhistas das domésticas e outros trabalhadores. Deixaram de ouvir mais uma vez os slogans sonoros dos participantes: Reforma Política, Assembleia Constituinte, renovação do Congresso e das esferas de poder.
    O elemento essencialmente político desse fenômeno espontâneo de massas foi negado ou ignorado. Os próprios políticos não o perceberam, achando que tudo se resolveria nas eleições. Os petistas achavam que a vitória de Dilma bastaria; a oposição acreditava que a revolta havia amadurecido o eleitorado para uma vitória de Aécio Neves. Em parte, isso parecia e era verdade, mas não constituía toda a realidade.
     O antigovernismo das classes médias continuou, acionado pela oposição instalada, sobretudo, na mídia. A crise econômica o agravou, bem como os desvios de propósitos da presidente e a Operação Lava Jato dirigida quase exclusivamente contra o PT. Contudo, nas mais recentes manifestações contra o governo ficou evidente a crítica contra TODOS os políticos e a insatisfação com o sistema oligárquico de decisões.
    Mesmo a confusão ideológica de participantes das classes médias que pedem uma solução “manu militari” deveria ser entendida como um sintoma dessa doença da representação política.
    O que está em questão é a estrutura dessa Nova República surgida em 1985, cujo conluio entre empreiteiras, empresariado, políticos e o Estado tem excluído cada vez mais os cidadãos.
    A manobra para destituir Dilma é conduzida pelo mesmo sistema nos bastidores. Seus líderes esperam que, uma vez excluído o PT do poder, tudo voltará “ao normal”. Enganam-se. O PT ficará, sem dúvida, muito enfraquecido, mas a dinâmica implícita no interior das multidões permanecerá e pode até aumentar o seu movimento. O conflito não acabou.

   Nossos políticos ainda não se deram conta de que 2013 pode estar apenas começando. 

quarta-feira, 2 de março de 2016

COMO CURAR UM FANÁTICO?



                                                                           Reinaldo Lobo*

     O fanático é um virtuoso. Moralmente perfeito, um puro. Não quer saber de contaminação. Está acima do mal, é portador exclusivo do bem. Conhece a verdade, anda de nariz para o alto. Só disfarça quando teme que descubram suas certezas mais secretas. Sério, extremamente sério, não brinca. No máximo, é sarcástico com as falhas e fraquezas alheias. Condena o outro com muita facilidade, não tolera deslizes. Apresenta-se como juiz da humanidade. É um forte candidato ao terrorismo. 
     Nos anos 70, vários jovens assim pareciam livres e soltos, mas continham uma crença na purificação geral e foram parar nas Brigadas Vermelhas, nos Baader Meinhoff, no Setembro Negro e outros grupos. Conheci nessa época um casal que tinha a meta de educar ele próprio os filhos em casa, sem contato com as escolas instituídas, sem tomar Coca Cola ou assistir TV. Não conseguiram realizar sua utopia, é claro. Hoje, suprema ironia, um membro da dupla está na extrema direita, ostentando o mesmo brilho fanático, sangue nos olhos e a mesma superioridade ética e crítica dos tempos de esquerda guerrilheira.
     O fanatismo provoca exclusão entre extremos e estreiteza. Acho que uma boa receita de antídoto contra essa doença arrogante é fornecida por Amós Oz, esse excelente escritor israelense que já deveria ter levado o Prêmio Nobel, no seu livro recente, que acaba de ser traduzido pela Companhias das Letras: “Como Curar Um Fanático”.
     Dono de uma escrita fina e superior, de um senso de humor e de uma compaixão pelos seres humanos raros hoje em dia, esse sabra que passeia às quatro da manhã pelo deserto para curar as feridas causadas por uma era de terror e incompreensão, ri quando ouve verdades definitivas ditas por políticos de extrema direita em Israel ou líderes palestinos cegos pela crendice.
     Ri silenciosamente, diz ele, “como as pedras do deserto e as estrelas sobre o parque da cidade” quando um político usa palavras do tipo “para todo o sempre”, “por toda a eternidade”, “jamais, em um milhão de anos”, para descrever a percepção tola que tem do tempo.
     Esse é um modelo de linguagem e de visão generalizante, messiânica, que conduz ao fanatismo. Amós Oz propõe que se pare de falar em “guerra santa” para descrever o conflito entre israelenses e palestinos. Sugere que os dois lados se sentem a uma mesa para resolver a simples “questão imobiliária” que divide a região. Sim, porque o problema na Palestina é uma questão imobiliária, ainda que recheada de significados históricos, políticos e religiosos.
     O mais difícil é remover o vocabulário e seus significados inflacionados, a não ser que se mude a percepção e a perspectiva.  Para que qualquer solução seja possível é preciso um movimento psíquico de ambos os lados, que consiste em se perguntar o que o outro pensa e deseja, colocar-se no lugar do outro, na pele do outro.
      É impossível não se identificar com os argumentos humanos de Oz, ao afirmar: quando, depois do passeio matinal no deserto, “volto para casa, ainda antes do nascer do sol, preparo uma xícara de café, sento à minha escrivaninha e começo a me fazer perguntas. Não pergunto a que ponto está chegando o mundo, ou qual será o caminho certo a seguir. Eu me pergunto: “E se eu fosse ele? E se eu fosse ela? O que sentiria, desejaria, temeria e esperaria?  Do que teria vergonha, esperando que ninguém jamais soubesse? ”
       Para curar um fanático, sustenta ele, é necessário começar se colocando no lugar dele, considerar o outro como um igual, conhecer seus desejos e necessidades.
       Pessoalmente, identifico-me bastante com Oz, guardadas as devidas proporções, quando escreve:
       “Meu trabalho consiste em me pôr no lugar de muitas pessoas. Ou mesmo estar em suas peles. A força que me impele é a curiosidade. Eu fui uma criança curiosa. Quase toda criança é curiosa. Mas pouca gente continua curiosa em sua idade adulta e em sua velhice. Agora, todos sabemos que a curiosidade é condição necessária, até mesmo a primeira das condições, para todo trabalho intelectual ou científico. Mas quero acrescentar que em minha opinião a curiosidade também é uma virtude moral. Uma pessoa interessada é uma pessoa um pouco melhor, um progenitor melhor, um parceiro, vizinho e colega melhor do que uma pessoa não curiosa. Um amante melhor também”.
       Ao situar a curiosidade como um valor ético, Oz está apresentando o primeiro antídoto contra o fanatismo. O segundo melhor remédio é o humor. Fanáticos não possuem senso de humor e raramente são curiosos. O humor destrói as estruturas do fanatismo, e a curiosidade, diz ele, agride o fanatismo “ao trazer à baila o risco da aventura, questionando, e às vezes até descobrindo que suas próprias respostas estão erradas”.
       Ele sugere algo que vale não só para os indivíduos, mas para a sociedade. Sociedades alegres e curiosas podem ser menos fanáticas do que sistemas fechados e sisudos, geralmente baseados em crenças. As ditaduras não têm senso de humor.  Basta verificar como funcionam as extremas direitas, daquelas dos tempos de Pinochet, o nazismo, os regimes dos aiatolás, o Estado Islâmico e as ortodoxias.
        Comparem o clima “decadente” das democracias europeias, por exemplo, com a Coréia do Norte. O humorismo dos ditadores é involuntário. São ridículos em sua prepotência. Chaplin ajudou os Aliados a ganharem a Segunda Guerra ao pintar com seu humor cheio de humanismo o regime e a personalidade de Hitler, desmontando-os com mais eficácia do que qualquer discurso ideológico.
        O pensar, que está aliado obviamente à curiosidade, deve ser acrescentado aos antídotos contra o fanatismo. A racionalidade, que instaura as dúvidas, não deve ser desprezada como um remédio eficiente. Um bom raciocínio ofende, dizia Stendhal. Os arrogantes e estúpidos se irritam com o pensamento, mas sucumbem diante dele. Podem ser conduzidos a uma maior flexibilidade e a soluções negociadas para situações que parecem extremas e impossíveis de compromisso.
         O Brasil assiste neste momento a uma ascensão do fanático. Ele cresce com a onda de moralismo e de radicalização que vem com essa guerra jurídica pela limpeza política. A imitação cabocla da Operação Mãos Limpas italiana traz com ela, além de alguns atos de justiça, a figura do fanático vingador e perseguidor. O País está cheio de vestais e de almas puras. Esse é um ovo da serpente.

         Até a Bíblia nos adverte contra a “ira dos justos”, pois é a pior de todas. A Inquisição da própria Igreja, a caça às bruxas, o macarthismo foram momentos históricos que tiveram os seus Savonarolas da superioridade moral e da seriedade. Todos escondiam propósitos de poder puro e simples. Desconfio que, às notícias das gazetas sensacionalistas e às sentenças dos juízes da honra alheia, seja preferível ler o heterodoxo Amós Oz. 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

O CHARME CONSERVADOR

                             
                                    
                                                         Reinaldo Lobo
        O pensamento conservador namorou o autoritarismo fascista durante o século XX. Agora também. Mas é mais um flerte distraído, um jogo cheio de disfarces. A direita está pop e se pretende pós-moderna, faz-se passar por democrática, mas seus argumentos, seus truques dialéticos expressam o fundo de sua ideologia, sempre o mesmo.
        O truque mais frequente é parecer que representa as Luzes contra a escuridão da barbárie. Todos os que não compartilham suas doutrinas estão mancomunados com o terrorismo muçulmano ou com o totalitarismo que afundou com a União Soviética. Os mesmos intelectuais que justificam as ditaduras militares dos anos 60/70/80 na América Latina, hoje denunciam qualquer elevação de impostos ou medida estatal como “totalitária”.
      O pensamento conservador quer passar por tolerante e chama as cotas para o resgate da opressão racista de...racismo ao contrário. A defesa do meio ambiente, a ecologia, o feminismo, o ensino de Marx ou de Foucault nas escolas são formas de controle, de constrangimento das mentes e tecnologia de imposição de valores à sociedade.
      Alguns intelectuais que nunca protestaram contra a proibição de livros “subversivos”, a expulsão de professores de suas escolas, a tortura e a morte de estudantes sob o autoritarismo, são os atuais paladinos do “livre pensar”.
      Não enganam ninguém. O seu pensamento revela cinismo. Seus ídolos são os filósofos mais pessimistas, como Cioran, e “pós modernos”, como John Gray, para os quais a “natureza humana” é uma causa perdida e não existiria o progresso histórico. Não se dão ao trabalho sequer de reivindicar Hobbes, cuja obra é mais complexa do que parece aos ideólogos desse tipo e que já foi usada no passado, contudo, para justificar o poder discricionário do Estado.
     Para os conservadores, a “natureza humana” --se é que isso existe--, é invariavelmente egoísta, violenta, incapaz de incluir o outro, belicista, entregue a impulsos inconfessáveis e assassinos. Os ideólogos nazistas tinham essa visão negativa, daí idealizarem um “guerreiro” que subjugaria os perdedores dessa luta sem trégua pela supremacia. O modelo de ser humano desses pessimistas é o do individualista sedento por lucro, preocupado com a competição e o sucesso. O resto é “utopia”.
     Poderão perguntar: Freud não pensava assim? Não. A psicanálise não pode ser usada nesse sentido unidimensional e redutor, por ignorância ou deformação. Freud falava de conflitos subjacentes aos seres humanos, de amor, de ódio, de gula e contenção, de narcisismo e social-ismo, que não se resolveriam numa só direção e nem se limitariam a uma expressão automática de uma “natureza humana” caricatural.
    Quando esses ideólogos citam Freud e a psicanálise em geral é para mutilá-la em benefício da manutenção de um esquema que se pretende baseado na rivalidade e competição. A figura humana que traçam é a de um indivíduo cobiçoso e invejoso, frequentemente projetada fora e identificada com o adversário, isto é, com aquele que critica o capitalismo.
    O sonho do operário tem de ser invariavelmente o de se tornar um capitalista. E um socialista seria, na melhor hipótese, um iludido e, na pior, um candidato a ganhar dinheiro e poder.
   O pensamento conservador vê a sociedade organizada apenas por idéias e qualidades abstratas. Assim, quando alguém propõe uma crítica da própria sociedade é porque quer controlá-la ou destruí-la. Não é por acaso que fascistas e totalitários em geral queimam e proíbem livros. Acreditam que neles está tudo o que determina a vida social e política. Com esse fetiche das idéias, homenageiam involuntariamente os autores. É que desprezam a prática e não enxergam nada no trabalho, na vida  material e na estrutura econômica de uma sociedade que possa ser basicamente determinante.
    Os conservadores atuais são contra qualquer controle legal ou moral das ações que possam ferir a natureza ou mesmo os seres humanos. Impedir a discriminação, por exemplo, seria para eles, uma forma impositiva de atitude controladora. Impedir pela lei que os homens batam nas mulheres ou que homossexuais sejam ameaçados, constituiria uma forma de totalitarismo e de intolerância.
    Essa inversão dialética proposta pelos conservadores ignora que a democracia, desde a Grécia antiga, é o regime da limitação. Regula e limita o poder, as instâncias e as ações. Democracia significa autogoverno e este impõe a si mesmo limites. É por isso que a direita não entende que é preciso impedir a liberalidade de bater numa mulher ou de escravizar alguém mais frágil, seja por raça, nacionalidade ou circunstância.
   O filósofo Cioran sugeria que não há determinações livres de contingências, isto é, azares do acaso, mas é possível perguntar: alguém pode ser humilhado, preso ou torturado pela contingência de ter nascido com a cor, a religião ou a sexualidade errada?

    A democracia exige no mínimo, se não uma moral particular, o respeito público à lei.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

TEORIA ENCARNADA

      A psicanálise universitária predominantemente teórica, com raras exceções, carece da dimensão da experiência humana. Falta-lhe a carne viva da clínica. Sobra intelectualização.
       Já vi muito teórico pontificar sobre Freud, Lacan, Klein, Bion e Winnicott sem considerar ou fazer qualquer referência a um único caso sequer. É possível, mas limitado.
       Também existe, é verdade,um empirismo clínico cego, vazio de qualquer pensamento.É uma prática randômica e pobre.Às vezes, surgem trabalhos cheios de citações, mas incoerentes e inconsistentes.
       Desconfio que a psicanálise seja uma práxis criativa, a partir, portanto, da experiência efetiva e singular do consultório. Não é mimética ou reprodutora. É feita de matéria sensível. Uma poiésis.
       Parece que Freud e os outros elencados acima pensavam assim.