quarta-feira, 29 de março de 2017

O SISTEMA EM AÇÃO



                                                                Reinaldo Lobo

         O Brasil vai descobrindo, finalmente, a existência e a extensão do Sistema Corrupto. Várias provas foram fornecidas nos últimos dias. Ficamos sabendo que não se restringe a um esquema na Petrobrás, nos Correios ou qualquer ente isolado estatal, paraestatal ou privado. É uma verdadeira constelação de planetas e estrelas no meio de uma galáxia – a “oligarquia liberal” dominante.
         Soubemos, inclusive, que esse subsistema ilegal girando em nosso universo cultural e político é longevo e transgeracional. O patriarca da nossa maior empreiteira, o sênior Emilio Odebrecht, revelou em depoimento para a Operação Lava Jato que seu pai, avô de Marcelo, o neto detido, já pagava propina há décadas para operar junto ao Estado. Não é difícil deduzir que o mesmo processo acontece em outras gigantes do ramo.
         O Sistema existe estruturado desde, pelo menos, a Ditadura civil-militar que governou de 1964 a 1985, entrou pela Nova República, reina até agora pelas mãos do PMDB. Não nos enganemos: esse não é o único partido agente e beneficiário. Envolve todos os partidos, sem exceção. No governo de FHC, um jornalista, Paulo Francis, denunciou sua incrustação nas diretorias da Petrobrás, sem êxito. Acabou morrendo antes de dar as provas nem apresentar suas fontes de informação.
          Se não criaram, os militares foram os responsáveis pela consolidação do Sistema. Como se imaginavam nacionalistas, seus governos ditatoriais escolheram entregar a empreiteiras nacionais as obras do seu ufanismo sobre um “Brasil Grande”.
        Foi então que surgiram esses gigantescos conglomerados de “tocadores de obras” financiadas pelos bancos estatais. Participavam do esquema desde políticos como Paulo Maluf, militares como Mário Andreazza, até fundos de pensão e empresas privadas terceirizadas. Depois da Ditadura, já no período Sarney, o Sistema cresceu, “normalizou-se”, ficou colado nas diversas instituições do Estado. Foi quando se consagrou a expressão “mamar nas tetas do Estado”, dirigida como crítica tanto pelos liberais como pelos sociólogos marxistas.
        O governo FHC fez algo parecido com a invenção militar das empreiteiras locais, ao dar toda a força para fortalecer a concentração de um sistema bancário endógeno, criando grandes conglomerados de uma banca nacional, em detrimento da concorrência estrangeira. Hoje, esses monstros bancários monopolizam as decisões na esfera financeira e econômica, têm lucros exorbitantes, estratosféricos, agindo como verdadeiros cartéis. É esse controle da concorrência que impede a diminuição dos juros para o consumidor, mesmo quando o Banco Central derruba a taxa Selic.
        Nenhum político que quisesse se eleger estava isento de passar pelo filtro das empreiteiras, da rede bancária privada conivente, das indústrias e do agronegócio subsidiado. Os financiamentos de campanhas eleitorais contavam, como ainda contam, com a retribuição de favores dos partidos e políticos premiados.
        Os marxistas costumam dizer que o capitalismo é, por natureza, corrupto. Consideram essas acomodações sistêmicas apenas um efeito da corrupção essencial. Ora, não é dessa corrupção definida teoricamente que falamos. O subsistema da corrupção brasileira serve, sem dúvida, a uma oligarquia, mas tem sua especificidade histórica e suas peculiaridades.
       Muito já se escreveu sobre o patrimonialismo herdado da colonização portuguesa e o hábito de nossos políticos se considerarem donos do poder assim que o assumem. Vendem o poder como uma mercadoria que detêm.  Mas o mercado é restrito, passa por essa fusão dos interesses estatais com os privados, bem como por uma burocracia – escolhida muitas vezes pelos políticos e suas bancadas especiais: como a da Bala, do Boi e da Bíblia.
      Há ainda os gestores dos fundos de pensão, aparentemente regrados pelo Estado, mas que têm interesses e vida própria. Pelo menos um sociólogo, Chico de Oliveira, mostrou que o caso brasileiro não é de capitalismo “puro”, mas algo semelhante a um Ornitorrinco, aquele animal misto de ave e mamífero, raro, uma verdadeira exceção na escala evolutiva.
      O Sistema hoje parece ameaçado e em crise. Isso é “culpa do PT”. Ao entrar na cena política adquirindo poder, este introduziu o distributivismo e a participação popular, via Estado, nas benesses do consumo e da renda.
      Desequilibrou o Sistema, cuja única finalidade era beneficiar a “oligarquia liberal”, formada pela participação nas instituições e mantendo o  subsistema ilegal. Expôs sua contradição entre o funcionamento do crescimento das forças produtivas e o sistema de apropriação.
      A corrupção reinante mantinha o sistema capitalista em pleno funcionamento, até a entrada do caçula da corrupção, que trazia com ele, contudo, o vírus do distributivismo, chamado pelos ideólogos do Sistema de populismo.
      O atual governo do conglomerado PMDB-DEM-PSDB tem a missão de consertar o desequilíbrio, restaurando a exclusão das massas populares de qualquer participação. Para isso, é preciso primeiro “estancar a sangria” da Lava Jato e a perseguição aos seus membros genuínos, como sugeriu o mais claro e consciente de seus representantes, o senador Romero Jucá. A meta inicial era só pegar o PT, mas a Lava Jato fugiu do controle, uma vez que o Sistema considerava necessário também salvar “os outros”, como Aécio, Serra, Alckmin, Aloisio Nunes Ferreira, etc., cujos nomes foram revelados pelas delações das empreiteiras.
      Não está fácil. Os escândalos se sucedem. Um outro desequilíbrio ocorreu ao longo dos anos após a Ditadura, quando houve a independência da Polícia Federal e dos jovens Procuradores da República. Aparelhados para servir às instituições republicanas, os poderosos contavam com que eles se voltariam apenas contra os intrusos ou estranhos ao seu grupo. Mas a dinâmica do Judiciário, aliada à divulgação exacerbada pela própria mídia conservadora, impõe aos juízes que considerem as provas contra o Sistema que encontram no caminho.
      Essas provas estão ameaçando conter o furor antipopular do atual governo, ainda que este esteja inteiramente a serviço da oligarquia. Essa é hoje a principal contradição que faz com que até juízes do Supremo se comportem como verdadeiros militantes partidários, tentando sustentar a continuidade do Sistema Corrupto, pois está em jogo o próprio capitalismo, para que ele nunca acabe.


quinta-feira, 9 de março de 2017

A ESTUPIDEZ GENERALIZADA


                                                                              
                                                                              Reinaldo Lobo

     Um belo dia o francês Antoine, aos 25 anos, decidiu ser estúpido. Anuncia aos seus amigos mais próximos que, dali em diante, iria investir na idiotice. Tinha suas razões.
     Ser inteligente, apreciar leituras, não gostar da burocracia e de todos os seus disfarces, detestar ser manipulado e explorado, odiar ser obrigado a estudar assuntos desinteressantes, ser capaz de traduzir do aramaico, conhecer profundamente o cinema de Frank Capra e de Sam Peckinpah, “não o levaram muito longe”. Na verdade, a quase lugar algum.
     O seu plano perfeito foi o de se voltar para o cultivo da idiotice como forma de sobrevivência. Depois de tentar o alcoolismo e o suicídio, Antoine convenceu-se de que só a estupidez lhe permitiria ser plenamente aceito pela sociedade em que vive – a contemporânea.
     E o que pode ser, pergunta-se ele, mais estúpido do que ganhar dinheiro, muito dinheiro, e gastar em bens de consumo inúteis?
     Esse é o resumo do sentido inicial de um pequeno grande livro francês do jovem Martin Page, de 31 anos, possivelmente com motivos autobiográficos: ”Como me tornei um estúpido”, traduzido pela Editora Rocco em 2005 e relançado agora.
   Um texto nada estúpido, por sinal. Dele, disse o jornal “Le Monde” que se trata de “um romance coberto de razões e que revela um escritor que domina seu estilo tão bem quanto seu humor fino e sutil”.
    A contundência de Page está em revelar o “espírito do tempo” dominante na sociedade atual.  Apesar de se autodenominar “pós-moderna” ou de se situar para além da modernidade, parece imediatista, primitiva, gananciosa, violenta, regressiva, de uma ética rasteira movida por “interesses egoístas”. E conformista, quase de um conformismo generalizado.
    As exceções são pessoas como Martin Page e alguns outros que questionam a alienação dos cidadãos rotinizados do trabalho para casa, a balada e a TV, com seu lazer consumista e a submissão despolitizada. E, por que não, cretinizados?
     Se a modernidade era o questionamento permanente do que estava estabelecido, tanto em arte quanto em política ou filosofia, essa inquietação praticamente começou a desaparecer a partir de 1950. Essa é uma data arbitrária, mas é por volta dessa época que o demônio crítico que animava o Ocidente com seu sopro criador durante mais de dois séculos, como dizia Cornelius Castoriadis, começou a perder força até quase sumir hoje em dia.
     Não é caso de se exigir das pessoas em geral que leiam só bons livros, obras primas de gênios, mas pode-se dizer que o culto atual do pragmatismo e da imediatez ajuda e imbecilizar. Ah, dirão, mas as crianças leem e-mails e frequentam computadores, assistem a filmes e são obrigadas a redigir na internet. Sem dúvida, mas não é do QI nem de habilidades práticas de que se fala sobre a estupidez contemporânea. Citemos a ironia da personagem bem construída de Antoine:
      “Uma coisa que se pode admitir é que frequentar grandes obras, servir-se do seu próprio espírito, ler livros de gênios não asseguram a ninguém inteligência, mas tornam isso provável. Naturalmente, há pessoas que terão lido Freud, Platão, que saberão fazer trocadilhos com os “quarks” e ver a diferença entre os falcões-peregrinos e um peneireiro, e que, todavia, serão rematados imbecis. Não obstante, potencialmente, estando em contato com uma multidão de estímulos e deixando seu espírito frequentar uma atmosfera enriquecedora, a inteligência encontra terreno favorável para o seu desenvolvimento, exatamente como uma doença. Pois a inteligência é uma doença”.
      Ironia à parte, a inteligência é uma doença de que deveríamos nos livrar?
      A personagem tem certa razão em chamá-la de doença, pois produz inquietações. Até mesmo stress, quando se volta para o confronto com uma realidade estabelecida. “Pensar é dizer Não! ”, lembrava o filósofo Gaston Bachelard. É um tipo de doença contagiosa, que leva, contudo, ao progresso.
      O que estamos enfrentando no mundo atual é o contrário do progresso, ou, pelo menos a sua negação. Vejam o estado das artes e da política, por exemplo. Patinam sem sair do lugar. Não se pode dizer isso da tecnologia e da ciência, que avançam, mas em direção a quê? Qual a sua qualidade humana? Teria razão Heidegger quando desconfiava da ciência, pois ela imporia um déficit de Ser? 
       Há inteligência em toda parte, mas não parece acompanhada de sensatez. Há intelectuais, operários inteligentes, estrategistas do mercado que trabalham para reproduzir inteligentemente o sistema em que vivemos. O sistema é que é burro, digamos assim? A era da letargia do consumo e dos prazeres fugazes, dos laços rápidos e do whatsApp induz à estupidez? Dizer sim é muito fácil, talvez a situação seja mais complexa.
      Para o personagem Antoine, a estupidez é um grande refúgio e uma forma de se relacionar com os iguais na nossa vida cotidiana. Nesse sentido, a inteligência seria mesmo uma doença, algo negativo capaz de atrapalhar a convivência.
      No plano da técnica e da economia, a obsolescência rápida das máquinas, celulares e outras, mostra que a inteligência produz progresso, mas também problemas. Se algo existe hoje como um ser funcional, amanhã se torna um não-ser, inexistente. Será que desacelerar em vários planos o progresso, não seria tornar a convivência um pouco mais fácil e calma, aplainá-la, ainda que mais burra?
      Nosso herói Antoine pensa e repensa esses problemas do conformismo generalizado, apesar de almejar à estupidez. E diz, citando o roteirista de “Nascido para Matar”, Michael Herr, que comenta em seu brilhante livro sobre Stanley Kubrick :
    “A estupidez das pessoas não deriva de sua falta de inteligência, mas da sua falta de coragem.”

     

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

UMA OUTRA MILITÂNCIA

                          

                                                             Reinaldo Lobo*

        Vários são veganos e naturalistas, como os antigos anarquistas. Andam de bicicleta e combatem a cultura do automóvel. Dizem que a era dos combustíveis fósseis acabou, lutam pela preservação das reservas florestais e ecológicas, pela humanização das cidades e a sustentabilidade. Não se limitam a praticar esportes e se manterem “fit”; sua energia é canalizada para causas sociais e culturais. Lembram um pouco os antigos hippies, alguns vivem fora do perímetro urbano, mas muitos trabalham nas cidades como a maioria das pessoas.
        Aos poucos, vai surgindo no Brasil uma geração preocupada em dar um uso vital e humano aos espaços públicos, como salvar praças, destiná-las às crianças, aos idosos e à convivência. Em lugar de muros, preferem pontes – para citar a sugestão do Papa Francisco. Em lugar dos congestionamentos de trânsito, da poluição do ar e da falta de mobilidade, preferem andar a pé ou de metrô, valorizando o transporte público. Lutam pela energia eólica, os mananciais e fontes alternativas. São os campeões da reciclagem e do reaproveitamento da água.
       Alguns críticos ainda repetem a tolice de que esses são os “ecochatos”. Não são. Preparam o futuro.
       As próprias crianças, educadas na época do pós-fumo, da condenação dos cigarros de tabaco e dentro de uma consciência levemente ecológica, vão exigindo condutas dos pais, como se os educassem e, devagar, engrossarão as fileiras dessa militância discreta e menos eufórica do ponto de vista ideológico.      
      A consciência de estarmos perdendo a camada da atmosfera em que respiramos e vivemos impõe uma mudança de comportamento. Isso vai além dos partidos políticos e das causas tradicionais – o que não significa que outras lutas perderam o sentido, como, por exemplo, a dos Direitos Humanos. Curiosamente, essa nova geração de militantes é também tolerante com a diversidade de gêneros, as diferenças de opiniões e intolerante com a corrupção da política tradicional. Calcula-se que existam cerca de dois milhões de militantes sociais desse tipo no País.
      Como a mudança se passa na esfera dos comportamentos, é uma política relativamente silenciosa. Não faz alarde. Produz eventos, maratonas, apelo à saúde e ao bem-estar das pessoas, o que implica em reivindicações e crítica do caráter destrutivo da economia de consumo.
      Uma dessas críticas consiste em apontar a superficialidade, a banalização e a robotização dos consumidores. Algumas intervenções dessa nova militância, como as atividades ao lar livre num país ensolarado são uma denúncia direta dos shopping centers espalhados pela febre do consumo, cuja iluminação artificial em pleno dia cria ambientes de desperdício, clausuras de aprisionamento com foco exclusivo na sedução das compras. Num país como o nosso, cheio de Sol em todos os quadrantes, chega a ser bizarro que tenhamos tantos shoppings escuros e fechados, gastando energia preciosa  durante o dia  em ambientes concentracionários.
       Nas grandes cidades, como São Paulo, Rio, Porto Alegre, Salvador, etc., as praças públicas deterioram, entregues às vezes ao uso do crack e à ocupação dos sem teto. Os carros passam com motoristas apressados e indiferentes, pois a civilização do automóvel ignora os espaços públicos de virtual convivência. É verdade que os grandes problemas sociais agravam a situação, mas a condescendência geral nos informa: enquanto as desigualdades não forem corrigidas, nada mudará. É uma meia verdade.
     Se nada for feito pela política e as autoridades, ficaremos esperando uma revolução geral, por enquanto utópica. As praças e as pessoas estarão do mesmo jeito. Geralmente, nada é feito. A própria esquerda criticou o prefeito Haddad de São Paulo por priorizar pedestres e bicicletas, enfrentado pela primeira vez a cultura do automóvel. Quanto à direita, estava no seu papel de detonar tudo o que viesse de uma política da esquerda, sobretudo do PT, uma vez que sua visão de mundo prioriza a eficiência, a produção, o lucro, o empreendedorismo e a rapidez de resultados.
       O novo prefeito de São Paulo, João Dória Jr., percebeu essa falha da direita em se restringir a uma visão conservadora e procura combinar espertamente o empreendedorismo com uma tentativa de dar uma face humana. Como é uma política contraditória, que começou negando a ousadia de Haddad, premiada e elogiada internacionalmente, sua maquiagem de São Paulo ainda não se definiu, esbarrando na atitude equivocada de pintar de cinza os muros onde havia verdadeiras obras de arte em grafites. São Paulo era considerada uma das cidades com os melhores grafites no mundo, junto com Barcelona e Nova York.
       A característica principal da outra militância surgida no País são as ações sociais e ecológicas concretas, sem fazer ideologia disso. A crítica está no gesto, não no discurso. Não se propõe a traçar programa eleitoral ou tomar o poder. Como é --digamos-- uma política de baixo para cima, questionando as autoridades, age por atitudes críticas específicas e tem a tolerância da mídia conservadora. Atua na esfera da sociedade civil, mas não é privatista, uma vez que combate por melhores usos do espaço público e pela solidariedade comunitária.
      Penso que essas ações, principalmente da juventude, ajudam a instaurar uma nova estrutura ética na organização da sociedade, que assim não se limitará a políticos de vários matizes, sobretudo os corruptos. Devagar, bem devagar, vai-se criando uma postura educativa positiva que pode, um dia, tornar-se hegemônica. O italiano Antônio Gramsci aprovaria.
      Seria muito triste e pouco inteligente se todos os que se acham progressistas se limitassem a julgar ingênua, inconsequente ou ideologicamente equivocada essa outra geração espontaneamente contestadora, acreditando -- aí sim, erradamente-- que a mudança só se faz com sindicatos, barricadas ou mimeógrafos, como no passado.

        

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

PARA QUE SERVE A POLÍTICA?



                                                              Reinaldo Lobo

         Muita gente responde facilmente a essa pergunta. Dizem: “serve para organizar, civilizar, manipular, enganar, governar o animal humano, roubar, mandar, representar o povo, buscar a felicidade geral, o bem comum, evitar a guerra direta, manter privilégios, administrar e expressar o desejo de poder e grandeza”. Há um pouco de verdade em cada um desses ângulos e é do senso comum considerar a política algo inevitável para conter os impulsos hobbesianos de combater os vizinhos. Será só isso?
        Inúmeros filósofos e sociólogos deram respostas à questão, mas ela permanece aberta. Quanto aos psicanalistas, são os mais embaraçados ao lidar com o assunto. Ou o ignoram olimpicamente ou, então, reduzem o problema a algumas referências a Freud e aos conflitos psíquicos. A política, sob essa ótica, seria uma simples amplificação de fantasias e desejos inconscientes dos indivíduos.
        Os que escreveram sobre as relações entre a psicanálise e a política limitaram-se geralmente às formulações isoladas de Freud ou às suas incursões nas áreas da filosofia da história, da sociedade e da antropologia, como “Mal-estar na Civilização”, “O Futuro de uma Ilusão”, “Moises e o Monoteísmo”. Muitos tiraram conclusões “pessimistas” ou mesmo “reacionárias” desses escritos, a respeito das implicações da psicanálise quanto aos projetos de transformação política e social.
        Os psicanalistas têm mostrado uma certa “preguiça” em refletir sobre isso e, quando o fazem, é de maneira um tanto apressada e negligente, reduzindo tudo à privacidade dos consultórios ou, em casos raros, confirmando aquelas “conclusões” conservadoras.
       Há um mito psicanalítico sobre a moderação, a paciência e a neutralidade que é escandalosamente ... político.
        Uma exceção foi o greco-francês Cornelius Castoriadis, simultaneamente filósofo e psicanalista, ao examinar essas relações entre a política e a psicanálise sem nenhum preconceito e com muita liberdade. Ele não ignorou obras importantes como “Totem e Tabu” nem as inúmeras formulações de Freud sobre a co-presença do individual e do social na análise, sem que uma face se subordine à outra.
         Castoriadis, se não respondeu à questão, fez pelo menos as perguntas certas, em lugar de se fixar em algumas opiniões esparsas de Freud e mesmo de outros autores, como Klein, Lacan e Bion. Perguntou sobre a significação da própria psicanálise, como teoria e como prática.  Sobre suas implicações internas e externas, interrogando se ela não teria nada a ver com o movimento emancipatório do Ocidente. Se o esforço de conhecer o inconsciente e de transformar o sujeito não tem nenhuma relação com a questão da liberdade e com as questões milenares da filosofia. Se a psicanálise teria sido possível fora das condições sociais e históricas que a tornaram possível na Europa. Se o conhecimento do inconsciente não teria nada a ensinar sobre a socialização dos indivíduos, portanto também sobre as instituições sociais e a política.
        Esse autor pouco conhecido no Brasil, falecido em 1997, indagava ainda por que a psicanálise como prática no campo individual seria automaticamente nula quando se passa para o campo coletivo. O que poderia haver na práxis psicanalítica capaz de ensinar algo sobre a conquista da autonomia humana?
        Essas perguntas raramente foram formuladas, em parte, pela ânsia dos psicanalistas de se afastarem das disciplinas humanas e se voltarem para um outro mito: o modelo da ciência positiva da natureza.
         Em mais de trinta anos de reflexão e pesquisa, Castoriadis postulou que a verdadeira política, aquela que se desenvolveu desde a Grécia antiga, tem algo intrínseco a ver com a psicanálise, no que se refere aos objetivos. Tomando o modelo da práxis e da criação psicanalíticas, ele sugeriu que o processo de passagem da dependência (heteronomia) para a autonomia (independência) está presente em ambas. Ou seja, o que interessa não são apenas interpretações sobre as instituições políticas, mas a correlação estrutural entre a própria disciplina psicanalítica e a natureza da política.
        A política é o que diz respeito ao poder em uma sociedade. O poder em uma sociedade  sempre terá regras a serem respeitadas, como “Não matarás”, e que concernem às decisões da coletividade para sobreviver. A liberdade não é algo espontâneo e utópico, do tipo “tudo pode”, mas decorre de decisões responsáveis sobre a própria coletividade – tem, pois, um fundamento ético.
      O objetivo da política, assim como o da psicanálise, não é o poder em si mesmo nem a felicidade humana, mas a liberdade.
       Ambas têm isso em comum: a liberdade como meta, o que implica em emancipação tanto individual como coletiva, isto é, os sujeitos se tornarem responsáveis pelo seu destino, decisões, regras, constituindo uma sociedade em que predomine autonomia e não dependência heteronômica.
       A verdadeira política deveria servir para a emancipação humana, efeito também de uma psicanálise bem-sucedida, cujo processo não acaba quando o paciente finaliza sua “cura”, mas que prossegue após, na medida em que o sujeito vem- a- ser sem descansar, pois o inconsciente não acaba, nem os riscos da regressão à heteronomia.   A democracia constituí-se assim: a liberdade é escolha, conflitos sucessivos, emancipação e responsabilidade.

        Na contribuição de Castoriadis, assim como penso, não existe liberdade “com” responsabilidade. Ela é a própria responsabilidade.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

BARBÁRIE LATENTE

                                  

                                                                    REINALDO LOBO

     O sistema atual chamado de democracia não é democrático de verdade. Vivemos em sociedades onde os cidadãos não têm a possibilidade efetiva de participar da legislação, do governo, da jurisdição e, enfim, da instituição da sociedade. Existem arremedos de participação. O resultado é a falta de confiança na Política e na Lei -- hoje maior do que nunca, como lembrou Zygmunt Bauman em uma de suas últimas entrevistas antes de falecer.
    “Todos são iguais perante a Lei, mas alguns são mais iguais do que outros”. Você já ouviu essa frase. Revela a natureza das democracias contemporâneas. De todas elas, não só do Brasil. Não se refere a uma falha legislativa localizada capaz de transformar bandidos em inocentes ou, ao contrário, culpar quem não cometeu algum crime. Não é uma brecha no sistema. É o próprio sistema. Expressa a essência das instituições jurídicas e do Estado nesses regimes em decadência.
     A desigualdade está na base da corrosão institucional, apesar da equidade formal. É a fonte da violência e da barbárie nas sociedades que se consideram “democracias liberais”. No Brasil atual, cujo grau de desigualdade social e de participação política precária é cada vez maior neste momento, tem havido explosões de violência e de criminalidade cíclicas. É possível postular um caráter sistêmico permanente, originário da mesma natureza e da mesma fonte. O que desestabiliza a chamada “paz social” é a própria base instável de uma democracia precária.
    Deve-se acrescentar à situação brasileira o fato de o País ser hoje uma sociedade de massas, como os Estados Unidos ou a Índia.  Há algumas décadas, os sociólogos se surpreendiam com a diferença entre a criminalidade brasileira e a norte-americana. Dizia-se: lá, existiam massacres aleatórios provocados por atiradores enlouquecidos que buscavam chamar a atenção e participar de forma desesperada; aqui, matava-se apenas por paixão ou por dinheiro. Estamos hoje assemelhados  aos EUA em crimes randômicos.
     A anomia, a falta de reconhecimento no trabalho e na vida, a existência precária, a carência de identidade e a dependência de decisões dos outros – tudo isso somado à miséria e à enorme desigualdade social faz lotar as prisões de gente pobre e infeliz. Ainda existem crimes de paixão e por ambição, claro, mas constituem apenas um desvio da curva. A regra tem-se tornado a configuração de formas brutais de violência.
     Dizia-se que o assassino enlouquecido, o serial-killer, as matanças coletivas e as guerras de gangues eram um fenômeno estrangeiro, alheio a um “povo pacífico e ordeiro”, como diz o clichê do discurso de juízes, políticos e autoridades em geral.
      As nossas prisões não estão repletas de seres humanos-- desesperados e embrutecidos por infâncias e famílias de um meio incapaz de dar continência e educação. Nada disso. São, como diz a linguagem jornalística-policial, “elementos” e “bandidos”. Nessa condição, podem ser mortos como mosquitos da dengue ou moscas varejeiras, privados de sua condição humana.
    A boa sociedade, os homens de bem, sentem-se aliviados quando esses “elementos” são assassinados pelo Estado ou por eles mesmos, numa guerra de gangues pela posse e distribuição das drogas.
    Um conjunto de fatores faz lotar nossos presídios infectos, inclusive a existência de uma absurda “guerra às drogas”, iniciada mundialmente lá atrás por um governante norte-americano, Richard Nixon, deposto por ser nada menos do que um delinquente. Outro ponto, especificamente brasileiro, é o desprezo da boa sociedade pelos Direitos Humanos.
     Apesar da conjunção de vários motivos para a existência da violência brasileira atual, existe um que postulamos hoje como central: a inexistência de representação legítima da própria população. O que parece ser apenas um defeito institucional localizado é, na verdade, a essência da instabilidade geral. Esse ponto provoca inércia do sistema democrático e ondas centrípetas de sequelas e efeitos colaterais. É o foco permanente de uma barbárie latente, pronta para explodir de tempos em tempos.
    Só há democracia no dia das eleições – e, mesmo assim, os candidatos são selecionados por partidos comprometidos com interesses os mais diversos. Não surpreende que existam representantes do “povo” eleitos pelo PCC, o grupo de traficantes e assassinos mais conhecido.
    No dia seguinte ao da eleição, o povo é privado de voz ativa e seus “representantes” – ligados muitas vezes a grupos econômicos e áreas de influência--, se apropriam das funções legislativas e executivas. E adeus, até as próximas eleições. Quanto aos juízes e promotores, são escolhidos por regras mais particulares, ditadas pela sua própria corporação.
     O quadro se agrava quando sabemos, pelas estatísticas dos economistas, que 8 pessoas no mundo detém riqueza equivalente a 3.6 bilhões de outros habitantes da Terra.
     Uma situação como essa não se resolve com maquiagem e reformas paliativas, mas supõe mudanças radicais nas instituições atuais. Nesse sentido, tem implícito um projeto que pode ser chamado de revolucionário, entendendo-se que revolução não significa massacres, banhos de sangue, o extermínio dos burocratas, a guilhotina ou a tomada do Palácio de Inverno. Representa a necessidade de mudanças de ordem política por iniciativas de baixo para cima, partindo da própria população, sobretudo dos mais lúcidos e dos que trabalham para sustentar a riqueza das minorias.

     Os regimes existentes no chamado mundo ocidental são erradamente denominados “democracias liberais”, mas constituem de fato “oligarquias liberais”—o que é uma contradição de termos, pois um sistema democrático não poderia nunca ser oligárquico, pois repousa por definição sobre a autonomia dos cidadãos.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A MAIORIA SILENCIADA

  

                                                              Reinaldo Lobo*

    Muitas pessoas têm preconceitos, talvez a maioria delas. Ideias politicamente incorretas sobre raça, gênero sexual, imigrantes, pobreza e democracia. Até há poucos anos, enunciar publicamente essas opiniões era uma vergonha. Poderia prejudicar alguém no trabalho ou nas relações sociais. A maioria se submetia a uma era de avanço dos direitos civis e humanos e ficava silenciosa. Mas se sentia, ao que tudo indica, injustamente silenciada.
     Com a crise econômica internacional, o fracasso da chamada globalização em promover a integração, a harmonia cultural e a universalização dos valores, vai surgindo aos poucos o retorno do reprimido. A catarse promovida nas eleições norte-americanas por Donald Trump tem acelerado o processo de virada à direita no mundo dos valores e dos costumes.
      Há alguns dias, um veterano jornalista ligado ao PSDB e ao Movimento Contra a Corrupção soltou esta pérola na sua rede social :’Homem que é homem não casa com homem”. Recebeu algumas “curtidas” de seus semelhantes. A figura criou coragem e veio a público. Saiu do armário. Assumiu sua homofobia, como se fizesse uma piada. 
     Algumas décadas atrás, seu comentário seria considerado perfeitamente natural, motivo de orgulho entre os pares. Mesmo entre jornalistas, profissionais considerados na vanguarda da opinião e dos valores, o machismo, o racismo, o conservadorismo em relação aos jovens, às drogas e às mulheres era quase o “normal”.
     Depois da revolução feminina e da entrada massiva das mulheres no mundo do trabalho, o quadro foi mudado e o estupro, por exemplo, entrou na lista das coisas muito feias. Antes, não constava.
     O senso comum, que a escritora e filósofa francesa Simone de Beauvoir chamava ironicamente de “sabedoria das nações”, prescrevia que as mulheres deveriam ser “belas, recatadas e do lar”. E ninguém sentia arrepios ou se escandalizava ao ouvir que “lugar de mulher é na cozinha” ou que “homem com homem dá lobisomem” e “mulher com mulher dá jacaré”.
      O silêncio obsequioso das maiorias deu-se em função da força das minorias em países avançados e com o respeito aos direitos humanos que se seguiu à sucessão de ditaduras e de governos autoritários na América Latina, Ásia e África, mas também na Europa e nos Estados Unidos. Os governos Nixon, Reagan, e Bush, nos EUA, Thatcher na Inglaterra, e o advento da AIDS foram sinais de uma virada conservadora, cujo ápice contra a modernização foi atingido neste momento.
       A onda de emergência dos particularismos antiglobalização, a começar pela ascensão dos cristãos evangélicos e dos muçulmanos radicais, expressa a catarse das maiorias silenciadas. Nas conversas de salão, nos púlpitos e nas arenas políticas vai deixando de ser vergonhoso mostrar-se um reacionário.
      Penso que aqueles massacres estudantis sucessivos por tiroteios nas escolas norte-americanas e o de mais de 70 pessoas por um neonazista na Noruega há uma década, não são outra coisa senão um sinal (um sintoma) da emersão de algo sinistro na cultura, agora traduzido, de forma mais benigna nas urnas e em muitas partes. Mesmo a radicalização entre direita e esquerda em muitos países, inclusive em tradicionais “democracias liberais” de caráter centrista, consiste, a meu ver, em uma liberação do que fora considerado lixo político e varrido para debaixo do tapete.
      Ainda que a cultura norte-americana -- incluindo aí o faroeste do porte de armas até para adolescentes e crianças-- seja um tanto específica, não se pode descartar o fato que se desenrolava desde as décadas de 60 e 70, na forma de uma notável ascensão dos negros e de todas as minorais a posições de igualdade.
      Os brancos conservadores norte-americanos “engoliram” essa ascensão por muito tempo, mesmo porque a ideologia dominante era liberal. Os próprios republicanos chegaram a fazer concessões notáveis, integrando uma “ala gay” no partido.
       Agora, com os excluídos e os ameaçados pela globalização manifestando sua ira em muitas áreas do mundo, o recalque se rompeu. Vieram à tona a violência e os valores mais regressivos que estavam sob o manto do silêncio e da continência. As pessoas perderam a vergonha de votar num Trump, contra a paz na Colômbia no plebiscito sobre um acordo com as FARC guerrilheiras, e pela retirada da Inglaterra do Mercado Comum Europeu, essa utopia derivada do projeto de paz perpétua de Kant.
        Há um odor de fascismo no ar, sem dúvida. A democracia e a liberdade são conceitos predominantemente racionais. O nacionalismo, o racismo, a xenofobia e o ódio ao outro pertencem à categoria de paixões baixas e primitivas. Têm características emocionais infantilizadas, mal elaboradas e brutais. Sua natureza irracional é evidente: não há lógica nem argumentos sustentáveis que os justifiquem. São puros impulsos e emoções.
        No Brasil, a onda de ódio que precedeu o impeachment da presidenta Dilma tinha esses traços. O “desrecalque” de preconceitos sufocados por uma década de “lulopetismo”, de desprezo pelos pobres, revelou, sobretudo, o medo da classe média de se proletarizar, sentindo-se excluída em benefício de uma “nova classe média” criada por Lula. Esse ódio reverbera até hoje.
       Ficou patente que os ricos e os pobres se beneficiaram e surfaram na onda de crescimento econômico da era lulista, mas as classes médias, pelo menos nos seus setores mais conservadores, ficaram espremidas, sem lugar na nova ordem “socialista”—que, de socialista, nem tinha nada.
    As massas silenciadas estão cada vez mais ruidosas, despudoradas até, reivindicando seu lugar no admirável mundo novo do século XXI, mesmo que , para isso, tenham de adotar a legitimação da violência política como seu desejo explícito.

     

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O CAPITAL DE TRUMP


                                                                      Reinaldo Lobo
    O mundo se pergunta boquiaberto de onde vem a força social e política que elegeu Donald Trump. Da classe média branca empobrecida, respondem alguns. Do “lumpen proletariado“, dizem outros. Da decepção dos mais velhos com a globalização, afirmam os sociólogos. Do medo da imigração que rouba empregos e do fracasso dos democratas em distribuir renda, insistem os economistas.
    Todos talvez tenham fragmentos de razão. O fenômeno de um arrivista chegar à presidência da maior democracia liberal do mundo, com uma linguagem confusa e inclinações fascistas, não é pouca coisa. Exige no mínimo vários ângulos de uma abordagem multidisciplinar. Mas é possível pensarmos, além disso, que os vários pedaços da realidade norte-americana não apareçam ainda como uma Gestalt mais acabada, isto é, um conjunto significativo que dê visão precisa do que está ocorrendo.
     Uma hipótese a ser considerada sobre a ascensão de Trump, assim como a respeito do Brexit, a saída da Grã-Bretanha da União Europeia, é que sejam um resultado da mudança qualitativa do Capital no século XXI, gestada nas últimas décadas do século passado.  Não é difícil de entender.
      Com a avassaladora globalização que destruiu fronteiras econômicas e barreiras culturais, com a expansão de monopólios transnacionais e a política neoliberal que vigorou em mais de 160 países do planeta nas últimas décadas do século XX, não mudou só a forma do capitalismo mundial. Mudou a sua própria composição. Sua natureza mais íntima.  Mudaram as relações de produção e as forças produtivas, deslocando seu eixo lógico. Mudou a estrutura econômica e social, com consequências inevitáveis na política.
      Nos tempos de constituição e de desenvolvimento do capitalismo mundial, em sua fase parcialmente globalizada, a sua contradição principal era entre o Capital e o Trabalho, tal como foi diagnosticada por Marx e vários outros economistas. As classes, as hierarquias, os grupos de pressão, os sindicatos, as lutas socais, a produção e a apropriação, giravam em torno desse núcleo lógico.
      Hoje o eixo mudou, após as crises sucessivas iniciadas lá por 1914, passando por 1929 e culminando em 2008, seguidas de reordenamentos, primeiro, monopolizantes, depois estatizantes, como no New Deal norte-americano e do Welfare State europeu, e mais tarde neoliberais, como nos períodos pós Reagan e Thatcher, que vem até recentemente.
       Se quisermos usar uma linguagem consagrada pelo marxismo, pode-se conjecturar que a contradição fundamental do capitalismo atual é a relação entre o crescimento econômico e o rendimento do capital. Um dos primeiros autores a notar essa relação contraditória entre renda e crescimento foi o filósofo e economista greco-francês Cornelius Castoriadis, para quem existia de longa data um mito do crescimento infinito da produção, do emprego e da tecnologia na sociedade capitalista, combinada com o consumo. Na relação com a concentração e aumento da renda, o crescimento perde, gerando um descompasso permanente e a exclusão de milhões de pessoas do processo econômico.
        Outro que fez o mesmo diagnóstico, neste caso de modo mais exaustivo e técnico, é o professor Thomas Piketty, da London School Of Economics e do MIT, hoje lecionando na École de Economie de Paris. Ele é o autor de “O Capital no Século XXI”, onde apresenta uma abundância de dados para demonstrar que a taxa de rendimento do capital supera em muito o crescimento econômico. Isso provoca uma grande concentração de renda, ao ponto de cerca de um por cento da humanidade reter o equivalente a praticamente todo o resto da riqueza mundial.
        O descompasso estrutural gera um circuito de desigualdade que, levado ao às suas últimas consequências, pode atrair os descontentes de todo o planeta para causas como as propostas por Trump ao eleitorado norte-americano de áreas falidas. As migrações, as crises cíclicas do Terceiro Mundo e a monopolização da economia em escala mundial são alguns dos efeitos extremos da crise do Capital. Os pequenos empresários do centro norte e meio leste, bem como os agricultores do meio oeste dos EUA, foram a massa de manobra do populismo de direita.
        O capitalismo é um regime que se alimenta das crises. Elas destroem mercados e abrem novas oportunidades. São conhecidos os inúmeros casos de superação das crises pela abertura de novos mercados. Uma outra forma de resolvê-las têm sido as guerras. Outra, as mudanças políticas.
       O valor principal do regime do Capital é econômico. O lucro e a renda. Os valores humanos estão em outro nível, mais baixo, de consideração. Todos sabem que o capitalismo é um regime de crises, mas nem todos têm consciência de que as crises não representam uma ameaça ao sistema, nem mesmo a sua inevitável decadência. Fazem parte de sua lógica interna e garantem sua sobrevivência. Essa é a “plasticidade” do capitalismo.
        Além de abrir ou fechar mercados, as crises cumprem a função de inovar dentro do sistema, de ocupar áreas e de destruir outras. Os bairros inteiros destruídos de algumas cidades norte-americanas, de que tanto falou Trump na campanha, comoveram o eleitorado branco empobrecido. São o resultado da globalização na área da indústria automobilística e da siderurgia.
       O medo que setores da Inglaterra têm da migração dentro da União Europeia tem o mesmo sentido sintomático de desespero diante dos resultados da internacionalização monopolista e da  concentração da renda. As populações de zonas saturadas ou deslocadas dos centros beneficiários do Capital são presas fáceis do nacionalismo e da xenofobia.

       A hora é, infelizmente, a do sucesso da direita e do extremismo fascista.