terça-feira, 21 de agosto de 2018

SALADA IDEOLÓGICA




                                                         Reinaldo Lobo

         Não é de espantar que o cabo Daciolo tenha inventado a URSAL, “União das Repúblicas Socialistas da América Latina”, para descrever suas preocupações com o avanço do chamado “comunismo” nessa região do planeta. O cabo presidenciável, avatar de Bolsonaro, foi injustamente alvo de chacota nas redes sociais. Chamado de delirante e paranoico, é apenas um simplório e ignorante em matéria de política, ainda que se ache um espertalhão. Como, aliás, a maior parte da “elite” política brasileira.
         O cabo não sabe distinguir socialismo democrático de comunismo e isso não é só culpa dele. Toda a direita brasileira não vê gradações e nuances entre os que estão à esquerda no espectro político. Para essa turma, uma simples crítica social vira sinônimo de “comunismo”, a fim de aterrorizar a classe média e defender “intervenção militar”.
       A pobreza do imaginário político brasileiro só é comparável à sua capacidade para criar siglas falsas, vazias e absurdas, além das mais complexas fantasias conspiratórias.
      Temos um Partido Social Democrático, que não é social, mas só um grêmio fisiológico liderado pelo oportunista ex-prefeito Kassab, de São Paulo.
      Há um Partido Progressista, de Maluf, filho da Ditadura, agrupamento que não tem nada de “progressista”, dedicado hoje a fazer negócios e cujos membros apenas buscam se safar da cadeia.
     Existe uma série de partidos “trabalhistas” cujos militantes e líderes nem sabem exatamente o que é trabalhismo e nunca ouviram falar de Alberto Pasqualini. Hoje, seu chefe é o honorável Roberto Jefferson, cujo estilo nem chega perto do perfil de Getúlio Vargas.
     O PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), tido no início como de centro-esquerda, comportou-se como um autêntico grupo neoliberal no governo FHC, e, agora, alinha-se com o apodrecido governo Temer, cuja política de “austeridade” é ultraconservadora. Já o MDB de Temer nada tem em comum com um movimento que foi capitaneado por Ulysses Guimarães, tendo se tornado um saco de gatos pardos e noturnos.
     O próprio Partido dos Trabalhadores, considerado o mais coerente ideologicamente e visto como representante da classe operária, uma vez no governo defendeu interesses de banqueiros, de algumas empreiteiras corruptas e teve seu auge no governo Dilma, que chamou o banqueiro conservador Joaquim Levy para dirigir a economia. Quanto ao PC do B, originário da” linha chinesa”, afirma defender a democracia, mas tem no seu passado a meta da ditadura do proletariado.
     É de se duvidar que exista no mundo tamanha proliferação de partidos e  tanta contradição entre os seus “princípios” e sua prática efetiva como no Brasil. Não nos referimos somente ao jogo das denominações, mas ao vazio de conteúdo programático e ideológico. Boa parte do discurso político nacional reflete a ignorância em relação a qualquer filosofia, ética e fundamentos da política.
    Na Europa, o presidente francês Macron já citou o filósofo liberal Bertrand de Jouvenel com facilidade; os alemães social democratas lembram a filosofia de Jurgen Habermas ou mesmo recordam seus sólidos antecessores políticos, como Willy Brandt. Já os conservadores não hesitam em evocar Conrad Adenauer e, quanto aos ingleses, falam com naturalidade do filósofo liberal anglo-austríaco Karl Popper e de Winston Churchill, o seu grande estadista.
    É claro que, na Europa, existem o fisiologismo eventual e a estupidez dos neofascistas franceses ou, nos EUA, a de Donald Trump. Mas isso não é a regra dos partidos tradicionais nem do eleitorado que demonstra alguma fidelidade.
     Em nosso País, falta-nos uma tradição ideológica nítida, fundada não em reações epidérmicas, mas em pensamento. Nossos partidos têm programas frouxos, que oscilam em expressar interesses ou motivos eleitorais de ocasião.
    Boa parte do mantra anticomunista e anticorrupção que anima a direita vem dessa estreiteza de pensamento, que estimula fantasias simplistas como as dos eleitores de Bolsonaro e as do cabo Dalciolo, esse novo emergente da estupidez nacional, que ganhou uma audiência súbita e fugaz.
    Para esses, a política se resume a uma luta entre bandidos (comunistas e imorais) e a polícia (incluídos aí procuradores de justiça e juízes). Os mais sofisticados entre os conservadores falam do perigo “populista” na América Latina que precisa ser combatido com a extirpação de seus líderes e a promoção de uma “centro direita” privatista e pró-norte-americana. Desse ponto-de-vista, a URSAL é o populismo. Esquecem que pode existir populistas de direita, como fascistas, neonazistas, bolsonarianos, capitães, coronéis e generais latino-americanos, além de malucos do tipo de Trump.
    Em épocas de crise do capitalismo, que se sucedem em ondas recentes, o aparecimento de fantasias autoritárias é tão comum quanto as Fake News hoje em voga. As pessoas inseguras preferem crer em teorias conspiratórias e buscar soluções “rápidas e simples” para a segurança pública, o desemprego e a instabilidade social e econômica.
   Grande parte dos que seguiram Hitler nos anos 30 não se baseavam em nenhuma teoria filosófica nazista nem tinham tanta clareza do que faziam, mesmo existindo tradições social-democráticas na Alemanha, bem como liberais e monárquicas, todas foram diluídas pela salada ideológica oferecida pelo “tio Adolf”. Ele foi seguido, em grande parte, por gente motivada por impulsos reativos ao caos, à inflação e à ameaça de miséria permanente.
    Nossa salada ideológica não tem a maionese filosófica francesa nem o molho democrático inglês ou mesmo o chucrute prático alemão. Nossa salada tropical é salpicada de violência, fantasias mitômanas e ignorância profunda. Precisamos de muito cuidado nesse momento eleitoral pelo qual passamos.
   

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