domingo, 27 de dezembro de 2020

O QUE É SER DE ESQUERDA HOJE?

Reinaldo Lobo Ser de esquerda é ter um projeto de emancipação humana, de combate à injustiça e à desigualdade. Emancipação é sinônimo de fim da escravidão, da submissão e da exploração. Significa, portanto, liberdade. Ora, dirão os da direita: onde foi que esse projeto se realizou desde que o anunciaram, lá atrás, na Revolução Francesa, em 1789, com os jacobinos? Os direitistas proclamam que sempre houve poder, exploração e injustiça na História e sempre haverá. É da “natureza humana”, dizem. E concluem: já que isso é fatal, inevitável, por que não podemos ser nós mesmos os exploradores? O tradicional cinismo da direita se contrapõem “às ilusões utópicas da esquerda”. Como todo projeto político, houve desvios e excessos perigosos na esquerda, a começar pelos jacobinos franceses, que adotaram o Terror como forma de poder. Os vícios da esquerda foram notáveis, como o totalitarismo stalinista antes e depois da Segunda Guerra Mundial e a esclerose do poder de uma burocracia tão detestável quanto as classes dominantes do capitalismo, com seu colonialismo, escravidão e privilégios de uma minoria. Não é o caso, aqui, de justificar ou depurar esses erros graves impostos, em parte, pelas pressões da guerra e da luta de classes, mas de ressaltar a mudança na ideia de esquerda ao longo das últimas décadas no mundo. Antes, quando a URSS representava-- sobretudo após a vitória sobre o nazismo na Segunda Guerra--, a esperança de um futuro socialista para o mundo, o núcleo duro da esquerda era concentrado no marxismo e no leninismo, que se pretendiam “socialismo científico”. A História era vista como determinada racionalmente por etapas sucessivas, onde o objetivo final seria o comunismo, com a reconciliação das classes e o fim da opressão e da desigualdade. O comunismo nunca existiu dessa maneira em parte alguma, talvez apenas em algumas tribos originárias em algumas partes do mundo. A esquerda clássica oscilou entre a socialdemocracia adesista e o poder leninista de uma “intelligentsia” dirigista, mas os valores principais permaneceram intocados, ainda que sempre referidos ao marxismo. Hoje, tem havido mudanças consideráveis na ideia de esquerda. Até mesmo o marxismo “científico” foi posto em questão. Um marxismo que não é vulgar, como o da chamada Escola de Frankfurt, abriu caminho para outras reflexões, como o da escola francesa anti-totalitária de Cornelius Castoriadis, Claude Lefort e Edgar Morin, inspirada mais na psicanálise, na filosofia e na antropologia do que em uma economia dita científica. Uma pergunta comum hoje: os movimentos ambientalista e o feminista são de esquerda? Minha resposta: são, na medida em que colocam a sociedade capitalista em questão e também representam valores opostos ao conservantismo e ao cinismo da direita, sobretudo o neoliberal em voga. Ser de esquerda, atualmente, é ser anti-racista, anti-sexista, respeitar os LGBTQ+ e lutar contra a violência repressiva no interior da sociedade. Durante o movimento Occupy Wall Street as ruas de Nova York se encheram de gente de esquerda que nada mais tinha em comum com a esquerda autoritária do passado comunista-leninista. Foi um exemplo de movimento reativo às crises capitalistas sucessivas que provocam desemprego, miséria nas cidades e falências de agricultores no campo, que destroem famílias e futuros. A esquerda deixou de ser perfeccionista e não propõe mais revoluções que nos levem ao marco zero da sociabilidade, aprendeu com seus erros e o famoso dilema reforma X revolução vai sendo substituído por sucessivos avanços na cultura e na sociedade, um processo de transformações que não se pretendem “graduais” nem privilegiam a presença do Estado como chave para tudo, mas recorrem a laços comunitários como cooperativas e associações de cidadãos. Movimentos como o MST e o MTST, dos sem terra e dos sem teto, são modelos de uma onda constante de organização no interior da sociedade civil. Essa mutação não implica abandonar os valores de emancipação humana e de justiça. O grande desafio da esquerda clássica sempre foi conciliar justiça e liberdade, mas isso pode estar sendo tramado e resolvido no interior da própria esquerda quando discute as noções de representação política, em crise no mundo todo. Ser de esquerda hoje significa ter um conjunto de valores éticos opostos ao cinismo e ao “realismo” da direita, cujo compromisso com preconceitos milenares e com a opressão a torna sempre suspeita ao defender a democracia. O projeto de emancipação humana vem desde a Grécia antiga, passa pela Revoluções francesa e russa, desemboca nas ruas de Paris em 1968: “A imaginação ao Poder” e “Sejam realistas: peçam o impossível”. Tem algo de utópico? Tem, mas seu movimento inexorável é bastante real.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

NOVA ESQUERDA EM SÃO PAULO Reinaldo Lobo* “Uma nova esquerda está surgindo em São Paulo”, sentenciou Franklin Martins, o ex todo poderoso da comunicação do governo Lula e ex líder guerrilheiro durante a Ditadura. Sua opinião é importante, pois tem o pleno respeito da esquerda histórica e do PT. A frase de Martins é verdadeira. Uma nova estrela surge em SP: Guilherme Boulos (38 anos), do PSOL (Partido do Socialismo e Liberdade), que escolheu a veterana Luíza Erundina (86 anos) para sua candidata a vice para a Prefeitura. Seja qual for o resultado das eleições de domingo, a dupla Boulos-Erundina sai de uma campanha vitoriosa por chegar bem ao segundo turno na cidade mais conservadora do País. São Paulo é o fulcro do capitalismo brasileiro e, como dizia Jean Paul Sartre numa viagem ao Brasil, a esquerda deveria conquistar primeiro São Paulo e não as serras e florestas como fizeram Fidel Castro e Guevara em Cuba. Há muito tempo, os paulistas representam o que há mais capitalista no País, expandindo a partir deles a indústria moderna, as tecnologias, o agronegócio e a inovação. É onde estão as concentrações de serviços, as sedes das filiais das multinacionais, as finanças e os bilionários nacionais. Não é só uma questão de quantidade, mas do núcleo qualitativo do capital. Por isso mesmo, o candidato Boulos insiste em dizer que a cidade mais rica da América do Sul tem as contradições sociais e econômicas mais gritantes do regime capitalista brasileiro. Não se pode esquecer que as massas de trabalhadores da grande indústria e dos seus sindicatos foram a base paulista do movimento que confrontou a Ditadura e o patronato nos anos 70, dando origem ao Partido dos Trabalhadores. Ocorreu um fenômeno de burocratização tanto dos sindicatos quanto do PT ao longo dos anos e suas bases na região do ABC foram deslizando para outras direções políticas, inclusive o populismo da extrema direita bolsonarista. Muitos atribuem o que aconteceu à ausência da figura carismática de Lula no jogo direto da política, em face de sua exclusão pela Operação Lava Jato e a perseguição movida pelo juiz Moro, de extrema direita. Isso é verdade apenas em parte. Ocorre que surgiu uma nova geração de trabalhadores, hoje voltada também para os serviços da área eletrônica e outras, que não tem a memória dos idos da Vila Euclides e da fase heroica do PT. Essa é uma geração de jovens ameaçados de desemprego crescente pela políticas neoliberais e sedenta de um futuro com mais esperança. Boulos e o PSOL aparecem com mais relevância aos olhos dessa juventude, inclusive da universitária, de classe média, que está também saturada de populismo e da política tradicional. A sinceridade de Boulos em combater a pobreza diretamente, com ações concretas, seu apelo à periferia e a uma certa virgindade em relação à política tradicional, dão-lhe uma legitimidade inédita desde Lula no ABC. O discurso dessa nova esquerda lembra muito, na verdade, a autenticidade de um Pepe Mujica, o do “fusquinha”, o ex-guerilheiro uruguaio que foi um presidente original em seu país, reformador sem violência, mas implacável com a corrupção e em sua adesão à classe trabalhadora. A simplicidade de vida e sua ausência de ódio, próxima do exemplo de Mandela, encantou tanto a esquerda quanto a direita, que ainda hoje lhe rende homenagens e respeito. Valores como humanidade, empatia com o sofrimento alheio, respeito à diversidade e elogio à liberdade fazem dessa nova geração de esquerda realmente potente em sua comunicação com os desfavorecidos e a juventude. São valores autenticamente de esquerda e não apenas promessas de benefícios econômicos ou de paternalismo vazio. Pouca gente notou com clareza que as propostas de Boulos e da experiente Erundina são voltadas especificamente para São Paulo, mas inspiradas também nos modelos de cidades mais modernas do planeta, estabelecendo prioridades ecológicas e gerando espaços de convivência democrática. Por exemplo, São Paulo tem um sistema de coleta do seu enorme volume de lixo completamente viciado pelo domínio de máfias que giram em torno da Prefeitura. Essa nova esquerda propõe combater essas máfias e instaurar um sistema de reciclagem --sempre prometido e sempre adiado--, inspirado em cidades como Barcelona, Amsterdã, Oslo e outras. Esse é um exemplo de programa que pode ser aceito por qualquer eleitor, de direita ou de esquerda, pois remete à simples modernização, combatendo os perigosos aterros ou “lixões”. A direita se engana em rotular a nova esquerda paulistana, que já ganhou alcance nacional --como fez um “cientista político” da TV Bandeirantes-- como estando apenas “à esquerda do PT”. Não percebeu, em seu preconceito, que essa onda emergente na maior cidade sul-americana representa uma conciliação da esquerda com a modernidade e a superação de um passado conciliatório e proto-populista. Se Boulos e Erundina forem eleitos haverá muitas surpresas no País, não só na liquidação do bolsonarismo nefasto e similares, mas também na forma de administrar atualizada e ousada. Isso, sem falar no clima de humanização, no fim do espetáculo de gente procurando comida nos sacos de lixo e dormindo nas calçadas. Franklin Martins, que já foi porta-voz do PT e, antes, âncora da Rede Globo, tem toda razão: essa “nova esquerda” é mesmo nova. Está chegando para ficar, pois não tem como objetivo apenas criar consumidores e possui como prioridade algo valioso e insubstituível: a dignidade humana.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

UM FIO DE ESPERANÇA

UM FIO DE ESPERANÇA Reinaldo Lobo A perigosa e doce comunista Manuela d’Ávila, de rosto angelical e inteligência aguda, ameaça vencer a eleição municipal em Porto Alegre, cidade importante. O não menos perigoso socialista Guilherme Boulos, simpático e muito articulado, não para de crescer em São Paulo, cidade ainda mais importante, capital da classe média branca. Esse último, ao lado da íntegra nordestina Luísa Erundina, mais parece um José Mujica jovem, residente na periferia, no Campo Limpo, e dono de um Celta surrado. Ameaça sobretudo os candidatos tucanos e bolsonarianos, como o picareta Celso Russomano à frente. O crescimento das duas candidaturas de esquerda empolga principalmente a juventude, que se desdobra nas redes sociais fazendo campanha para elas. Ambas têm também o apoio de artistas renomados, como Caetano Veloso e Wagner Moura, o que está deixando alguns juízes reacionários (não são poucos sob o regime da família Bolsonaro) enlouquecidos com a possibilidade de a esquerda voltar a governos estratégicos dentro das próprias leis que essas autoridades manipulam. Tanto a gaúcha Manuela quanto o paulista Boulos são lideranças emergentes que têm a vantagem da transparência em suas fichas corridas, da honestidade e da confiança da parte menos alienada da população pobre. No Rio Grande do Sul, ainda que seja um Estado conservador e racista, há também uma tradição de esquerda e de combatividade desde os tempos de Leonel Brizola, passando pela governança de trabalhistas e até de trotskistas em Porto Alegre. O fato de Manuela estar no PCdoB não assusta os mais pobres, que querem trabalho e resultados sociais. Quanto à classe média branca, na sua grandiosa ignorância e mesquinhez política, ainda não se deu conta de que o PC do B é o menos comunista entre todos os partidos de esquerda, pois está na “linha chinesa”, sendo a China Comunista, neste momento, um dos países mais capitalistas do planeta, ainda que intitule seu regime de “socialismo com características chinesas”. O partido de Manuela e do governador do Maranhão, Flávio Dino, é desenvolvimentista, defende um capitalismo sob o estímulo e comando do Estado. Seus líderes não hesitam em propor um “socialismo com características brasileiras”. A estreiteza das classes dominantes brasileiras e dos tacanhos militares submissos aos EUA do presidente norte-americano Trump, é o que faz de Manuela uma perigosa ameaça à estabilidade do capitalismo brasileiro. Dentro das instituições democráticas, sem o poder absoluto do Estado como na China, os comunistas do PC do B são mais moderados do que o PT e até mesmo alguns personagens do MDB ou do PSDB. Já Boulos e o PSOL são diferentes, pois representam movimentos sociais e estão à esquerda do PT. São autênticos socialistas vindos de baixo para cima, das ruas e favelas do Rio e São Paulo, e de frações descontentes do próprio PT. Desconfiam da pureza ideológica dos petistas e da liderança zigzagueante de Lula. Detestam a corrupção e quase fazem votos de pobreza como alguns socialistas uruguaios. O ídolo de Boulos é Mujica, que tem um Fusca, mora num pequeno sítio nos arredores de Montevidéu, saiu pobre da presidência e hoje faz pregação socialista pela mídia, além de defender a liberdade e os direitos à candidatura de Lula. Um jornalista conservador, um amigo inteligente já falecido, Sandro Vaia, costumava dizer sarcasticamente que “o PSOL é o PT antes de crescer”. Tirando o sarcasmo, há uma verdade nisso. Como todo movimento vindo das classes sociais oprimidas e de intelectuais de esquerda, há um risco de que o partido de Boulos possa se burocratizar e envelhecer, como ocorreu com o PT . Por enquanto, Boulos representa, junto com Manuela, o fio de esperança de uma esquerda renovada e crescente. Será difícil Boulos vencer em São Paulo, cidade que já foi a mais malufista e sede das passeatas dos camisas amarelas que ajudaram a derrubar a democracia no golpe jurídico-parlamentar de 2016. Mas já é algo promissor o simples fato de sua candidatura estar em curva ascendente, ameaçando os candidatos coniventes com o golpe e/ou com o bolsonarismo. Alguns eleitores arrependidos de terem votado em Bolsonaro não hesitam em dizer que votarão na oposição para “contrabalançar o poder do louco de Brasília”. A esperança não é só para a esquerda se robustecer, mas a oposição em geral ao governo do bizarro neofascista de Brasília e seus aliados, agora ligados também ao Centrão corrupto, de onde, aliás, veio esse ser originado, em última instância, nos porões da Ditadura de 1964-1985. Naquele passado, as eleições municipais, geralmente menos importantes do que as gerais que foram proibidas, ganharam algumas vezes a grandeza de um protesto contra a Ditadura. Hoje, temos uma espécie de ditadura civil-militar corrupta disfarçada de “novidade” híbrida. Está cada vez mais claro que esse governo não veio para acabar com a corrupção, mas para instaurar a própria política corrupta das elites. As próximas eleições municipais podem servir de manifestação das forças e setores que não estão coniventes com a destruição do Meio Ambiente, dos direitos humanos e sociais. Podem ser um fio de esperança não só para alguns, mas para todos os que querem impedir a destruição completa da nação brasileira.

sábado, 19 de setembro de 2020

HISTÓRIA MAL CONTADA

Reinaldo Lobo A teoria é simples: o impacto das novas tecnologias eletrônicas e a mundialização das comunicações provocou uma mutação profunda nas sociedades e decretou o fim dos embates sociais e inaugurou a “Era dos Conflitos Culturais”. Alguns sociólogos, historiadores e filósofos “pós modernos” declararam o “fim da História”, mas não apenas isso. Procuraram demonstrar a impossibilidade de pensar a História e a sociedade com conceitos políticos e econômicos, como se fazia nos últimos dois séculos. A temática e os instrumentos para estudar o assunto, dizem eles, são as diferenças culturais, as religiões e as questões das minorias. Em parte, eles têm razão. A chamada sociedade industrial clássica não existe do mesmo modo. O panorama de fábricas com as chaminés fumegantes e os altos fornos não existe mais. Hoje, existe a automação e a produção se faz em alta escala por máquinas sofisticadas sem um intenso trabalho humano. A velocidade e o consumo em alta escala dão o tom de uma meta imaginária de “crescimento infinito” e “consumo sem limites”. De fato, vieram à tona as questões das minorias que participam disso sem uma inclusão clara e sem reconhecimento social, gerando tensões culturais e lutas de princípios. Esse tipo de pensamento, contudo, desvia a atenção e desarma a inteligência sobre os conflitos sociais que persistem, como a enorme desigualdade social em todas as partes do mundo e, inclusive, entre os mundos, isto é, o desenvolvido e o dos países subdesenvolvidos ou emergentes. Não foi por caso que essa teoria simples foi elaborada na Europa e nos Estados Unidos. Mesmo nos países de seus autores, como os EUA, a França e a Inglaterra, a desigualdade não só persiste como tem aumentado bastante, como mostram as pesquisas recentes sobre o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) dessas regiões. Os teóricos que declaram o “fim do social” descrevem uma paisagem de uma revolução tecnológica da informação cujos efeitos sociais e culturais são visíveis por toda parte, sem dúvida. O aspecto social é o desemprego provocado pela automação, que é negado ou omitido. O cultural é o surgimento de novas subjetividades “informatizadas”: já se fala em uma geração “digital born”, nascida na era digital. O ponto em que mais insistem, contudo, é a ausência de todo determinismo tecnológico nessa sociedade pós industrial da informação, que a separaria claramente da sociedade industrial moderna, onde a divisão técnica do trabalho não podia ser separada das relações sociais de produção. Teria surgido uma situação nova em função da grande flexibilidade dos sistema de informação. Haveria, então, uma espécie de sistema que funcionaria no ar, sem qualquer base social imediata, pairando acima das instituições, dos grupos e mesmo dos estados-nação, o que possibilitaria uma perfeita “globalização” da economia, restando às sociedades locais apenas a função de regular seus conflitos culturais: lugar da mulher, das identidades locais e de raça. Os argumentos desses teóricos parecem fortes, mas não dão e não deram conta de algumas perguntas igualmente simples: o modo de produção capitalista, a reprodução do capital, desapareceu ou apenas mudou de forma? A apropriação da riqueza e da propriedade, inclusive da propriedade intelectual dos “sistemas flexíveis”, mudou essencialmente na sociedade da informação? As crises capitalistas cíclicas se alteraram com a informatização ou apenas se agravaram com as concentrações e manipulações do capital financeiro mundial por meio da flexibilidade e da velocidade? O grande equívoco desse tipo de pensamento “pós moderno” não é a crítica da modernidade ou a constatação de que houve mudanças nas sociedades, mas o exagero em adotar uma novo modelo de interpretação, um tanto acrítico, do que veio com a virada para o século XXI. A relativa separação entre forças produtivas e relações de produção não resolveu os antagonismos sociais. Ao contrário, produziu uma imensa multidão de excluídos e de refugiados. Os computadores funcionam bem na Europa assim como na África, mas isso não tirou os africanos de sua condição social e econômica difícil. O desenvolvimento desigual e combinado continua mantendo a América Latina no “desenvolvimento do subdesenvolvimento”, como diziam o historiador da economia e sociólogo germano-americano Andrew Gunder Frank e o economista brasileiro Ruy Mauro Marini, autores da “teoria da dependência” do capitalismo. O que os pós-modernos exageram é o peso da tecnologia, sem considerar as nuances entre conflitos sociais e culturais. Dizem que um mundo acabou e começou outro, como se essa evolução fosse um simples milagre, não o resultado de inúmeras e complexas contradições e complementariedades no interior dos sistemas sociais. Deixam escapar toda uma dimensão, a reprodução do capital, e toda a esfera social, onde as classes subsistem e buscam sobreviver dentro do regime capitalista que está em busca do crescimento infinito. O raciocínio dos sociólogos, historiadores e filósofos “pós modernos” é reducionista e, às vezes, deslumbrado com um “admirável mundo novo”. Não é por acaso que alguns deles vendem uma “filosofia da felicidade”, aproveitando, aliás, a “flexibilidade” dos novos meios de comunicação, que aceitam muitas coisas.

domingo, 6 de setembro de 2020

MENTIRAS QUE NOS CONTARAM

Reinaldo Lobo Uma das mentiras mais escandalosas que nos pregaram, lá pelo final dos anos 80 e início dos 90, foi o rótulo de “globalização” para o que acontecia na economia e na sociedade do planeta. Foi uma invenção de neoliberais disfarçados de socialdemocratas, principalmente o presidente norte-americano Bill Clinton e o primeiro ministro inglês Tony Blair. Não é preciso dizer que logo foram imitados pelo nosso ilustre FHC, que a divulgou como se o mundo tivesse entrado numa nova era democrática, uma espécie de utopia de onde jorrariam o leite e o mel da comunhão entre os povos e da riqueza advinda do comércio sem barreiras. Um sociólogo britânico, Anthony Giddens, tido como conselheiro de Blair, deu a base teórica para a justificação ideológica desse programa, inventando outra mentira escrachada – na verdade reinventando, pois o fascismo já se denominava assim: foi a expressão Terceira Via (entre o comunismo-socialismo e o capitalismo). Na verdade, o governo trabalhista de Blair precisava de uma racionalização para explicar sua adoção, quase ao pé—da—letra, da política herdada de Margareth Thatcher, ultraliberal e conservadora. O objetivo do programa neoliberal era desmontar o Estado-do-Bem-estar Social adotado em quase toda a Europa após a Segunda Guerra Mundial. Essa desmontagem era um efeito do crescimento brutal da economia norte-americana no após-guerra, do novo domínio do capital financeiro e dos monopólios internacionais, chamados agora de multinacionais. A chamada globalização foi pintada como a livre circulação das pessoas e das ideias, como o congraçamento entre os povos, o início do fim das fronteiras e a aproximação cultural. A representação mais encantadora dessa nova etapa era a Europa do mercado comum, moeda comum e economias “cooperativas”. Só esqueceram de dizer que isso se dava no pano de fundo de um capitalismo cada vez mais voraz por novos mercados, além de se ignorarem três questões: os regionalismos culturais, como o do mundo árabe e muçulmano; a miséria crescente no Terceiro Mundo e seus conflitos como área estratégica das grandes potências; e—last, but not least—a crescente presença da economia chinesa, que aparecia como uma gigantesca nave deslizando num mar dominado pela Pax Americana. A economia dita mundializada se tornou um cassino de operações financeiras altamente concentradoras de renda e nunca se viu tamanha distância entre ricos e pobres no planeta. Hoje, a própria Europa, modelo para a utopia, enfrenta o Brexit e conflitos econômicos e monetários entre seus participantes. Com o 11 de setembro de 2001 caiu completamente a quimera de um mundo globalizado, e surgiu uma nova mentira: a crença de que tudo se resumia a uma guerra entre civilizações, a ocidental e a oriental, assim como a um conflito de religiões entre cristãos e muçulmanos. O que era a superfície virou a essência e, assim, fizeram-se duas guerras por petróleo no Oriente Médio, acirrando o novo espantalho—o terrorismo. A superfície, era o perigo terrorista; o fundamento, a guerra pela hegemonia do mercado de energia no mundo, bem longe de ser cooperativo e regulável apenas pelas leis de mercado. A aparente cena idílica da globalização foi substituída cada vez mais por conflitos com refugiados das regiões pobres, que tentam entrar em sociedades sobreviventes da crise geral do capital, cujas contradições consistem em buscar a internacionalização e , ao mesmo tempo, garantir os poderes hegemônicos locais e regionais. A mais nova mentira que nos contam é a do conflito fundamental entre os EUA e a China, quando as duas economias estão cada vez mais complementares e, se uma soçobrar, a outra também irá água abaixo. Há conflito político entre as duas potências pela manutenção dos atuais limites e interesses, agravados pela política regressiva de Donald Trump , forjando um falso nacionalismo norte-americano com finalidades eleitorais e, numa certa medida, financeiras. A pergunta que fica é: quem cria as mentiras, estimulando a ignorância e a submissão das pessoas em toda parte? Vimos como, no caso dos EUA e Inglaterra, a invenção ideológica da Terceira Via foi necessária para servir aos interesses políticos dos respectivos governos. Hoje, as lideranças da China e dos EUA também têm interesses semelhantes: os chineses, em manter o regime totalitário com o povo acreditando num inimigo externo; no caso norte-americano, a mentira serve para ganhar eleições para o partido de Trump, mas também para os democratas. Os chineses tinham um slogan do tempo de Mao Tsé tung: “ o imperialismo norte-americano é um tigre de papel”. Não poderíamos dizer agora que a China também é um tigre de papel?

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

O PODER E AS REDES SOCIAIS

 

 

 

                                                           Reinaldo Lobo

 

        Existem quatro tipos de hackers:

1. o ladrão, que invade os dados dos outros para roubar dinheiro, usar seu cartão ou levar sua identidade;

 2. o mercenário, especialista em espalhar fake news a serviço de Carluxo Bolsonaro, de Steve Bannon e de Donald Trump;

 3. o curioso, geralmente adolescente, que quer xeretar a vida alheia e bagunçar;

4.  o hacker militante, que quer revelar segredos de Estado para o povo, desmantelar o crime político e a corrupção, como Assange e Snowden. Estes, também são chamados de “hackers do bem”.

         Pode ser que talvez já exista um quinto grupo em formação, o dos cidadãos que querem se proteger da invasão e do roubo de dados sobre suas vidas. Nesse caso, os ladrões seriam os governos e as empresas que nos fazem colocar na rede nossos números de CPF, telefone e endereço. Como fazem uso disso, certamente é a favor deles, não do nosso lado, o povo.

       O hacker é um personagem da transição para o século XXI. Não existiria se não houvessem as redes sociais e a internet, que criou o especialista em eletrônica, filhos do Vale do Silício. Alguns desses jovens inteligentes viraram Bill Gates, Mark Zuckerberg, Eduardo Saverin, Jeff Bezos. Outros, estão por aí infernizando a vida do próximo.

       As relações e funções dos novos especialistas, incluindo aí os hackers, com a democracia e o poder político são bastante ambíguas. Podem ter um efeito positivo ou negativo. Políticos indianos, brasileiros e norte-americanos acusam o Facebook, o Whattsapp, o Instagram e o Twitter de provocarem uma deformação dos últimos resultados eleitorais nas eleições gerais de seus países.

      É difícil aferir a extensão do dano ao processo democrático, não só pela complexidade introduzida no sistema de comunicação, mas também porque as redes sociais são parte da criação da “Era da Pós Verdade” em que vivemos, quando os fatos se tornaram em muitos lugares puras versões, ou como se diz, narrativas.

      Um uso positivo dos novos meios de comunicação atuais , a favor da democratização, é quando se limitam a divulgar ideias políticas fora da publicidade paga ou oficial e apresentam alguém até então desconhecido do público, como Barak Hussein Obama, em 2008.

     Para quem não se lembra, foi uma equipe de jovens afeitos à Internet, principalmente de fora do Partido Democrata, que espalhou a boa nova de um candidato negro à presidência dos EUA. Até então, Obama era um jovem político, senador por Chicago, com boa votação em seu Estado, mas sem prestígio dentro do seu próprio partido e nada conhecido em escala nacional.

    O resultado todos conhecem: houve uma “onda Obama” no eleitorado jovem e negro que se espraiou para todas as áreas. A vitória nas primárias, contra Hilary Clinton, foi apertada e teve momentos ásperos de acusações, onde Obama chegou a ser apresentado como um esquerdista oportunista que teria “hackeado” fontes da adversária.

    Na eleição geral, contra o republicano John McCain, um candidato que parece ter jogado limpo nas redes, a vitória do democrata foi nítida. Mas, mesmo então, surgiram, por fora dos partidos, vindo da extrema direita que mais tarde encarnaria em Trump, insinuações de que Obama era um muçulmano a serviço do terrorista Osama Bin Laden.  A vida seguiu e, no poder, Obama coordenou o ataque que desmentiu essas insinuações, matando o terrorista, o que não fora conseguido pelo republicano George W. Bush.

    O potencial político dos hackers ficou evidente com a enxurrada de fake news orientadas pelo ultradireitista Bannon e as sucessivas equipes eleitorais, em 2017, na campanha e eleição de Trump. Até mesmo hackers russos, a essa altura cooptados em grande quantidade por Putin, teriam participado da destruição da imagem de Hilary Clinton.

    Na China, o governo totalitário capitalista-comunista (caso único no planeta) controla as redes e a mídia em geral. Se houver hackers, como na Rússia capitalista do Czar Putin, trabalham para o poder. O temor desses governos revela o potencial subversivo das redes e dos hackers.

    Certa vez, quando se discutia na esquerda como se posicionar diante das novas realidades-- uma vez que a classe operária foi ao paraíso sob o capitalismo de consumo, integrada e domesticada pelos sindicatos--, todos os presentes ao debate se perguntavam qual seria o grupo, classe ou categoria que poderia se rebelar ao ponto de iniciar uma mudança revolucionária. Alguns poucos mais ousados disseram: “os hackers”!

   Se for verdade que não estamos mais na era do social, mas das diferenças e conflitos culturais, não haverá dúvida de que os hackers e as redes sociais podem ter um papel decisivo na formação da opinião pública, inclusive impulsionando as mudanças.

   Quem for democrata irá preferir que essas mudanças derrubem instituições autoritárias e instituam uma democracia, mas de, qualquer modo, tudo depende da orientação dos líderes e dos hackers envolvidos. Isso implicaria num movimento prévio arrebanhando multidões de adeptos, o que não seria nada fácil, pois os agentes do status quo cuidariam de opor barreira tecnológicas, legais e politicas à mobilização. Estaria criada a guerra do hackers.

   Qualquer que seja o desenlace da nossa utopia, o fato é que hoje, no presente, já estão criando regras e leis de controle das mídias de modo a impedir sua maior democratização. Um dos perigos da democracia para o poder, seja ele qual for, é que além de ser representativa, ela permite a criação de novos direitos—culturais, sociais, biossociais e ambientais.

   A característica mais revolucionária do regime democrático é permitir a transparência das informações e restringir a área de segredo imposta pelo poder. A outra é justamente a de gerar novos direitos. Para isso, é necessário um fluxo de conteúdos pelas redes sociais e não apenas deputados, vereadores, senadores sensíveis às causas populares.

  Ao contrário do que muitos acreditam a respeito dos meios de comunicação do século XXI, que seriam um Big Brother repressivo e sua maior parte, pode ser que exista um aumento da participação decisória do povo em escala até mundial. Um exemplo de assembleia pode ser o “zoom” da internet, que pode escapar eventualmente ao controle do Estado, se for manejado por hackers ou especialistas em comunicação comprometidos com as causas populares.

  A nossa esperança democrática pode estar nas redes sociais e também nas mãos nos hackers militantes.

     

 

 

 

 

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

 

     O FIM DO SEGREDO

 

                                               Reinaldo Lobo

    Uma psicanalista francesa brilhante, já falecida, Piera Aulagnier, escreveu um artigo que ganhou notoriedade nos anos 70 e 80, intitulado “O Direito ao Segredo – condição para poder pensar”. Nessa época, havia muitos regimes totalitários no mundo e alguns interpretaram seu escrito como um protesto contra a invasão da vida privada e da intimidade pessoal pelas ditaduras de plantão. Era isso em parte, mas sua ideia ia muito além e alcançava o futuro, que é hoje.

    Seu pensamento sugeria que, para poder pensar, o sujeito humano precisa ter uma área só sua, uma zona secreta, uma reserva de solidão. Ou seja, necessita de uma certa invisibilidade e intimidade não devassada pelos outros ou pelos meios de comunicação.

     Aulagnier ilustrava seu artigo com uma vinheta clínica curiosa, sobre um homem que lhe pediu uma consulta, não para ele, mas para indicar à sua mulher, que estaria “louca”.  Quando a psicanalista perguntou por que a julgava louca, ele respondeu:” Ela fala tudo o que lhe vem à cabeça, tudo o que pensa.”

    A loucura, comentou Aulagnier, pode ser vista como a loucura de um discurso. Poderíamos acrescentar: é possível vê-la também como a falta de continência do discurso e de limites para a psique. Se dizemos tudo o que nos vem à cabeça, podemos acabar levando um tiro. É um risco, mas as pessoas não param de devassar suas vidas, de se exibir por todos os meios eletrônicos e de tornar “transparentes” suas existências. Talvez Umberto Eco tivesse razão quando disse que a “internet deu a palavra a todos os idiotas”. Não só a eles, mas também a eles.

    A sociedade contemporânea sofre de algo paradoxal, contido em apenas em germe no artigo de Aulagnier: tudo tem tanta visibilidade que se torna invisível, impossível de interpretar ou de rastrear o significado mais profundo. A excessiva visibilidade nos tornaria cegos.

    Um autor espanhol bastante interessante, Daniel Innerarity, escreveu um ensaio premiado intitulado “La Sociedad Invisible” (publicado em 2004), em que mostra que a sociedade contemporânea se tornou invisível por excesso de visibilidade. Sua transparência a tornou opaca, sobretudo à interpretação de seu sentido profundo. Diz ele:

“Nossa cultura não dá a impressão de caracterizar-se pela intransparência, mas pela exaltação da imagem visual. Nenhuma geração esteve tão obcecada pelo visual como a nossa. Nos rendemos ante o visível e quase não podemos nos livrar do poder das imagens, tanto das fascinantes quanto das terríveis”.

    A televisão ajudou a sociedade a se constituir em torno da imagem, acostumada a crer só no que vê e a crer em tudo o que vê. Depois da TV, vieram os PCs, a internet, os celulares, as câmeras de segurança, os drones, as redes sociais – todos esses meios “atestam” o que é real e o que não é.

    Um outro autor, o famoso Régis Debray, sustentou já em 1994, em seu “Vida e Morte da Imagem”, que a era do visual parece supor a “desaparição do invisível”.

   Atribuímos --dizem esses pensadores-- à visibilidade um valor central, ao qual se associam outros, como a autenticidade, a sinceridade, a imediatez ou a transparência. É preciso desconfiar dessa certeza em torno da visibilidade. A hipótese de Innerarity é que essa visibilidade ou transparência da “sociedade da imagem” tornou-se, já faz tempo, fictícia ou problemática.

    Não é que o segredo desapareceu completamente na sociedade atual, mas ele está em outra parte, escondido pela excessiva visibilidade dos meios de comunicação e de exposição. Quando se pensa que tudo está exposto e visível, perde-se a noção de que, ao mesmo tempo, os poderes que determinam de verdade a nossa vida são cada vez mais invisíveis, mais difíceis de identificar.

   É possível ver claramente algumas partes, mas se perde o todo. Os sinais são mais difíceis de interpretar e, como diz Innerarity, por trás das aparências “se abre uma fossa indecifrável onde se ocultam os verdadeiros significados das coisas que nos passam”.

  Numa sociedade de massas tão complexa como a atual no Brasil -- e em muitas partes do mundo-- as evidências são escassas sobre quem comanda de verdade, quem decide os detalhes e o destino das decisões em geral.

    É preciso suspeitar sempre das falsas evidências oferecidas pela sociedade que alguém já chamou de “transparente” (Gianni Vattimo). Tudo o que se pode saber sobre esse tecido viscoso recoberto de camadas de conotações ideológicas deve ser buscado, dizem nossos autores, sob o estatuto da suspeição ou de suposições. Sob essas camadas de imediatez equívoca pode estar a trama de uma realidade construída e veiculada pelos meios de comunicação.

    O sociólogo alemão Theodor Adorno dizia que “quanto mais completo seja o mundo da aparência, tanto mais impenetrável a aparência como ideologia”.

    Um exemplo claro que se oferece é a televisão: dá a impressão de “proximidade” e até de “intimidade”, as coisas aparecem como verossímeis e reveladoras, mas tem “uma opacidade que funciona como imediatez social”. Um exemplo é a Rede Globo no nosso País, que manipula até mesmo resultados eleitorais sem cometer nenhuma fraude ostensiva. Apenas mostra a “sua realidade”, que passa a ser a de “todos”

     Talvez estejamos vivendo hoje numa sociedade “louca”, no mesmo estilo da loucura da esposa daquele homem que procurou Piera Aulagnier, expondo tudo sem filtro, mas certamente ocultando, como toda loucura, o sentido subterrâneo de seus atos.

    A novidade das novas formas do segredo pode estar na sua hipervisibilidade. Existe uma trama estrutural: não há mais segredo, porque ele está ainda mais oculto.

   

    

   

   

 

 

 

quarta-feira, 29 de julho de 2020

TEMPOS DIFÍCEIS



                               Reinaldo Lobo

Passei sem querer na frente de um espelho e vi um velho com medo de pegar Covid.
No início, assustei-me, depois olhei para ele com certa ternura. Inspirou-me cuidados e senti carinho. Pedia indulgência.
Lembrei-me do meu pai na velhice, andando com cautela, mas com um olhar de pressa em fazer o que ainda não fizera, de pedir o perdão que faltou, de publicar o livro que não foi escrito.
Recordei-me de um texto do psicanalista inglês Elliott Jacques sobre a velhice obrigada a elaborar novamente a posição depressiva diante da ambivalência entre vida e morte, amor à vida e ódio inconformado, a fim de lidar com a maior perda de todas.
Como gosto de livros e autores, veio-me também à lembrança o bruxo de Cosme Velho, dedicando ironicamente as “Memórias Póstumas de Brás Cubas” ao primeiro verme a roer “meu cadáver”.
Surgiu igualmente na memória Erik Erikson, o psicanalista que escreveu sobre a “escolha final” entre generatividade (deixar algo para as futuras gerações) versus desespero.
Ou Winnicott e o seu último desejo pedido a Deus: “fazei com que eu esteja vivo na hora da minha morte”.
Então, depois da inevitável tristeza e da comiseração, veio a esperança.




quinta-feira, 23 de julho de 2020

ATUALIDADE DO NAZISMO


  
                                      
                                                  Reinaldo Lobo

      O Nazismo foi uma política de destruição para reconstruir um mundo pior. Uma revolução regressiva, destinada a voltar para trás, levando a civilização, se desse certo, até a uma forma de barbárie. Quem viu o excelente documentário “Arquitetura da Destruição” sabe do que falo. O objetivo final do titio Adolf e de seus amigos era acabar com a modernidade, suas obras de arte, sua cultura, seus costumes, seu iluminismo e as ideias de democracia e progresso.
       Os nazistas chegaram a decretar o fim do vinco das calças masculinas, porque representava um costume do passado burguês da Alemanha, não condizente com um homem da “raça superior”, um guerreiro inquieto, não acomodado, capaz das maiores conquistas e vitórias—como mostrou Joachin Fest na sua biografia de Hitler. Destruíram até o cinema alemão no seu auge como arte com o expressionismo, transformando-o em mero veículo de propaganda política do regime. Perseguiram artistas e intelectuais extraordinários como Albert Einstein e Thomas Mann, que brilharam na espantosa “era de ouro” da culta e conturbada República de Weimar (1918-1933).
     Em apenas alguns meses após assumir o poder, em 1933, o ditador conseguiu transformar em refugiados, presos ou exilados gente como Einstein, o escritor Mann, o teatrólogo Bertold Brecht, o arquiteto Walter Gropius, o filósofo Erwin Panofsky, o pintor Wassily Kandinsky, o historiador da Filosofia Werner Jaeger, o artista Bruno Walter, o psicólogo Wolfgang Köhler, o teólogo Paul Tilich e o filósofo Ernest Cassirer.
     Para se ter uma ideia do que foi a República de Weimar, fruto de uma revolução democrática na Alemanha conturbada após a Primeira Guerra Mundial, basta lembrar do que disse dela o sociólogo Karl Mannheim, um dos grandes sobreviventes da destruição cultural nazi: “Os anos futuros olharão para trás para Weimar como uma nova era de Péricles”. 
     A comparação com o auge da cultura grega antiga não foi exagerada. A curta República de Weimar produziu algo na cultura que se tornou uma lenda. O brilhante historiador Peter Gay , que escreveu “A Cultura de Weimar”(1968), comentou sobre sua esplêndida e breve trajetória:
   “Quando pensamos em Weimar, pensamos em modernismo na arte, literatura e pensamento; pensamos em rebelião, dos filhos contra os pais, dos dadaístas contra a arte, berlinenses contra os musculosos filisteus, libertinos contra moralistas retrógrados; pensamos em “A Ópera dos Três Vinténs”, “O Gabinete do Dr. Caligari”, “A Montanha Mágica”, Bauhaus, Marlene Dietrich. E pensamos, acima de tudo, nos exilados que exportaram a cultura de Weimar para todo o mundo”.
      Se dependesse dos nazistas não existiria a “cultura de Weimar”, que leva o nome da cidade onde houve uma Assembleia Constituinte da República Alemã, em 1918. Eles cuidaram de arrasar com tudo o que puderam. Os exilados é que a salvaram.
     O nazismo odeia a ciência e a cultura, que desmente seus mitos megalomaníacos de poder e ordem. Esse passeio por Weimar foi para lembrar o que os nazis, e agora os neonazis, querem destruir: a cultura civilizada moderna. Parecem desejar a volta a um “estado natural” onde todos guerreiam contra todos, como na mitologia hobbesiana.
       É preciso assinalar o risco que corremos no Brasil – e no mundo atual—com a aparição de governos como o de Bolsonaro, inimigo da ciência e da cultura, e similares nos EUA, na Inglaterra, na Itália, na Polônia, na Hungria, na Índia e em outros lugares da Terra.
      Foi necessária uma guerra, a Segunda Mundial, para barrar o nazifascismo e a praga corrosiva que ameaçava a vida cultural e a civilização.
     Hoje, é possível que a pandemia do novo Coronavírus e a crise econômica solapem esses governos conservadores, que reagiram à globalização com um pseudo nacionalismo e a retração das respectivas sociedades a uma posição de desamparo diante de um poder autoritário. 
    A resposta popular pode vir por meio das urnas ainda este ano nos EUA, país que ajudou a derrotar o nazifascismo, mas hoje se encontra sob o governo proto-fascista de Trump.
    Muitas pessoas talvez não se deem conta da atualidade do nazismo em pleno século XXI, mas na verdade ele nunca foi embora completamente. Existia em estado larvar nas mentes de todos nós e no fascínio que exerce com sua estética grandiloquente e o culto do poder.
    Os chamados “supremacistas brancos”, na Europa e nos EUA, espelham o medo das sociedades capitalistas e, até há pouco tempo atrás, colonialistas, de perderem o domínio sobre a maioria do mundo da qual dependem, que, queiram ou não, são os trabalhadores e pobres da Terra.

sábado, 18 de julho de 2020

DESEJO DE CAPITALISMO


  

                                                                  Reinaldo Lobo*

        Muitas pessoas acreditam que o capitalismo é eterno. Como em qualquer religião, sonham com um “paraíso” sem fim. Fora dele não há salvação, dizem.
       Não se dão conta de que o capitalismo não existiu sempre, que começou devagar na alta Idade Média, cresceu um pouco no Renascimento com o artesanato urbano, os primeiros banqueiros e o marcado nas cidades, ganhando força nos séculos 17 e 18 com a burguesia ascendente e suas revoluções anti-aristocráticas, acabando por explodir selvagemente na revolução industrial e tecnológica entre o século 19 e início do 20.
     O capitalismo é um produto histórico. Portanto, pode ser modificado e destruído.
     O sociólogo germânico Max Weber dizia que esse sistema, tal como o conhecemos, sobretudo na Inglaterra e nos Estados Unidos, era filho direto do protestantismo calvinista e do culto meritocrático ao trabalho suado e sacrificial. Hoje, mais parece fruto de um materialismo simplório e imediatista:” Time is Money”.
    Já o historiador britânico Arnold Toynbee sugeria que o capitalismo seria uma consequência do monoteísmo judaico-cristão e da ideia de uma razão universal. Hegel, o filósofo alemão, pensava parecido, já que considerava a História como a realização consumada de uma razão universal. Seria a realização do Espírito Absoluto. Foi outro alemão, Karl Marx, quem trouxe a questão para a Terra, fora da religião e da razão espiritual. Inverteu a equação, demonstrando que a razão e a religião também são produtos de uma História que se passa no registro das forças produtivas materiais, da economia e das estruturas sociais que dão forma à condição humana.
    Mesmo na sua juventude, Marx ressaltava que a ganância e o desejo de lucro são derivados, em grande parte, de uma situação social desigual, calcada na exploração do trabalho. A religião, dizia ele, é um meio de alívio para a situação de miséria, de alienação e de submissão dos trabalhadores às classes dominantes.
      Freud, o médico austríaco que criou a psicanálise, nunca foi marxista e até criticava Marx por usar a chave explicativa da economia, que determinaria, em última instância, até mesmo fenômenos culturais, artísticos e filosóficos. Mas o psicanalista também considerava, por exemplo, a religião como uma “ilusão” necessária para que os seres humanos suportassem o mal-estar na civilização, isto é, a tensão entre os impulsos mais primitivos, sexuais e agressivos, e a repressão imposta pelas instituições, a moral instituída e os costumes civilizados. Acrescentou também que o sofrimento geral e a miséria encontravam alivio em recursos ideais, como num sonho ou mesmo nas alucinações, delírios e rituais obsessivos. Dizia que a religião é a “neurose obsessiva” da Humanidade.
     Alguns dos primeiros seguidores de Freud, como Ferenczi, Wilhem Reich, Otto Fenichel e Alfred Adler, procuraram aproximar, cada um a seu modo, o pensamento freudiano do marxismo, inaugurando uma análise psicossocial do que consideraram uma submissão ao capitalismo. Seria esse desejo de capitalismo o que empolgaria as massas e as sociedades contemporâneas, fazendo com que acreditassem no mito da eternidade e da naturalidade do sistema existente. Alguns procuraram estudar a gênese desse desejo.
     Essa foi uma análise crítica pioneira que, aliás, não se resumiu a esses autores, incluindo depois o filósofo Herbert Marcuse, a chamada Escola de Frankfurt, de Theodor Adorno e Max Horkheimer, além de muitos outros.
    Hoje, é preciso avançar e dar continuidade a essa visão crítica, desconstruindo o aparato ideológico que se armou em defesa do Capital e afinando as análises psicossociais, que vão para além do marxismo ortodoxo.
    Há uma crença bem difundida de que o individualismo possessivo e a fé no capitalismo são fenômenos “naturais”, pertencentes à natureza humana. Isso é pura racionalização ideológica. A Antropologia e a História já demonstraram que nem sempre foi assim e que existiram sociedades solidárias onde o desejo do lucro e a exploração do trabalho não foram predominantes. A lista dessas sociedades é enorme, não vou enumerá-la aqui, e não se resume às sociedades pré-colombianas das Américas.
     A crença que “naturaliza” o desejo de lucro confunde a luta pela sobrevivência com a divisão do trabalho injusta e desigual. Parte do pressuposto falso de que todos partiriam do mesmo ponto inicial na corrida da sobrevivência, como se fossem iguais, ignorando que existem os “mais iguais” do que outros. Isso piora nas sociedades mais complexas, nas quais as especializações do trabalho e a multiplicidade de classes e categorias sociais mascaram a hegemonia do capital, agora concentrado nas mãos de minorias.
    À medida em que o capitalismo fica mais complexo, com as tecnologias e novas formas de comunicação, aumenta a manipulação dos desejos e subjetividades humanas. O desejo de capitalismo é uma construção social a partir da educação familiar, da reprodução ideológica nas escolas e nos aparatos ideológicos do Estado.
    A sociedade de consumo cria necessidades que não existem, como a troca periódica de um carro ou compra de um celular de “última geração”. Assim como a tecnologia, as “necessidades” e “desejos” são construções substituíveis para peças cada vez mais efêmeras e descartáveis da produção e comércio capitalistas. Uma pesquisa feita por cientistas europeus sobre as fábricas japonesas de automóveis revelou que os carros fabricados tinham prazo de validade de cinco anos e, aos poucos, o Mercado “exigiu” que durassem menos na sua integridade, caindo para quatro ou três anos.
      A publicidade usa, inclusive, os achados da Psicanálise sobre os impulsos mais profundos das pessoas para fabricar desejos artificiais como fumar e beber cada vez mais. Todos conhecem os anúncios de cigarros para homens, associados à aventura, potência e mulheres lindas. Com as bebidas, as mulheres loiras ficaram famosas. O mesmo ocorre com a publicidade destinada às mulheres e à sua sexualidade, como os cremes e sabonetes que “acariciam” e “massageiam” a pele feminina, órgão receptor de impulsos sexuais difusos ligados à superfície da epiderme.
       O mito do empreendedorismo é outro sonho implantado pela ideologia dominante nas massas pouco esclarecidas. As pesquisas de mercado indicam que uma grande parcela da população no Brasil -- e no mundo-- prefere ser “patrão” do que trabalhador assalariado ou precário, por razões óbvias. O que essas pesquisas não mostram é que existe hoje uma concentração feroz do capital nas mãos de poucas empresas monopolistas e a deglutição das pequenas e médias empresas pelos grandes conglomerados.
       Até mesmo a teoria marxista tem sido usada pelas classes dominantes para saber como readaptar o capitalismo, a fim de evitar a luta de classes e as crises cíclicas do Capital. O capitalismo parece ter uma capacidade de se reciclar com frequência, o que lhe dá a imagem de eternidade.  Mesmo camisetas com a estampa da foto de Che Guevara viram produtos de consumo no mercado. Dizia o filósofo Marcuse que, se cocô vendesse, seria moda no mercado.
      Ocorre que o capitalismo tem uma face altamente destrutiva, do tipo “tudo o que é sólido desmancha no ar”. Está destruindo todos os recursos naturais e a própria vida na Terra e, por mais que recicle, é bem possível que tenha chegado a um ponto de saturação, sendo capaz de destruir a si mesmo num futuro mais próximo do que se imagina.

  

sexta-feira, 19 de junho de 2020

A TENTAÇÃO FASCISTA


  Reinaldo Lobo

      Diante da ascensão de Benito Mussolini, em 1922, o italiano Antônio Gramsci perguntou: “O que é o fascismo?”. E deu uma resposta hoje histórica: “É a tentativa de resolver problemas de produção e troca com disparos de metralhadora e tiros de pistola”.
      O fascista clássico resistia à complexidade da sociedade surgida com a revolução industrial e pretendia resolver tudo pela violência. Para isso, precisava de mitos, rituais e perfis humanos específicos.
     O fascista típico é um reducionista. Tudo se resume a uma questão de força e de vontade. É uma força que leva ao “triunfo da vontade”, como intitulou a nazifascista alemã Leni Riefenstahl. O próprio Mussolini escreveu em 1932, dez anos depois do diagnóstico gramsciano: “Eles [os inimigos] se perguntam sobre programas, mas já há programas demais. Não são programas que estão faltando para a salvação da Itália, mas homens com força de vontade”.
     Era uma reunião de fanáticos armados em torno de uma extrema simplificação diante de situações difíceis como a luta de classes, a diversidade de demandas, o pluralismo democrático, as novas estruturas sociais surgidas com as classes médias, a radicalização operária e a concentração do capital.
    O fascista sempre foi um inimigo feroz da ciência, das artes e da cultura e partia para a agressão à modernidade. Propunha suas próprias ciência e cultura megalomaníacas. Combatia a racionalidade iluminista e as instituições liberais.
     Vários sociólogos classificaram o fascismo como uma “revolução conservadora”, regressiva. Havia uma nostalgia romântica da vida no campo, da base agrária e dos pequenos artesãos anteriores ao tsunami capitalista ocorrido na passagem do século 19 para o 20.
     O meio buscado para realizar essa revolução era um Estado forte e um líder (o Duce, o Füehrer) ditatorial, dotado dessa visão mítica da sociedade simplificada e “purificada” dos “maus elementos”. Daí o genocídio e os campos de concentração.
      Hoje existe um neofascismo, que se livrou parcialmente da ideia de um Estado totalitário forte e se aliou até a um extremo liberalismo econômico, o neoliberalismo. Mas o neofascismo não se afastou de muitos traços antigos, como de um pseudo romantismo simbólico, e, principalmente, da simplificação violenta.
       Freud foi o primeiro psicanalista a notar que havia “um estado mental” específico para o tipo de perfil do fascista, ao se referir àquelas pessoas nas quais predomina a pulsão de morte, contrária à energia heterogênea provocada pelas pulsões de vida, Diante da anarquia da vida, impõe-se dentro dos seres humanos (nós todos), uma pulsão conservadora, voltada para a repetição e geralmente vinculada ao poder e à dominação.
     Haveria em todos nós uma tentação totalitária oposta à liberdade, que gera muita insegurança e angústia, obrigando o Ego a ter força suficiente para assumir responsabilidades éticas e realistas. Depois da intuição freudiana, expressa em sua linguagem particular, surgiram vários outros psicanalistas a tocar no assunto.
    O alemão Willhem Reich falava de um “desejo de fascismo” que animava as massas e os indivíduos. Os psicólogos e sociólogos da Escola de Frankfurt , Adorno, Horkheimer  e Eric Fromm realizaram uma pesquisa de campo na Alemanha pré nazista que apontou a existência de uma “personalidade autoritária” pronta para se identificar com um ditador prepotente, arrogante e dominador.
    Eram pessoas frágeis e desamparadas, no fundo, ameaçadas pela brutal crise econômica após a I Guerra mundial. Ficou conhecido um ensaio de Fromm, de muito sucesso  após a II Guerra e as revelações das atrocidades nazistas, intitulado “Fuga à Liberdade”, onde ampliou os achados iniciais de Freud.
      Tanto Fromm como outros autores seguiram uma linha de relativa “patologização” do fascista. Seria um sujeito muito particular : um louco, um anormal, um delirante furioso, um psicopata, um sociopata ou alguém que teria um perfil médio que mereceria ser internado num hospital psiquiátrico. Os outros frankfurtianos eram mais sóbrios e diziam que destacavam a personalidade autoritária no momento particular da crise alemã e não faziam tantas generalizações.
          Sem dúvida, alguns personagens como Hitler e Mussolini poderiam encaixar-se no perfil capaz de ocupar o papel, mas prefiro a linhagem de interpretação de que há um “estado mental fascista”, que ultrapassa a teoria política e a ideologia, e se refere à condição humana.
       É a concepção que vem da intuição inicial de Freud, passa por Reich, a filósofa Hannah Arendt, o psicanalista  italiano Massimo Recalcati e o anglo-americano  Christopher Bollas, para os quais existe um fascista dentro de cada um nós, sendo que somos passíveis da tentação por essa política autoritária em certas circunstâncias. Os fascistas explícitos não são os únicos a encarnar o Mal.
      É um desejo de fascismo ou uma busca de segurança extrema, disparada pelas crises do capitalismo, o que induz até ao racismo e à intolerância. Precisamos de cuidados próprios especiais e de egos fortes para resistir ao apelo fácil que atinge as massas, pois temos forças da morte dentro de nós, que operam de forma conservadora e, ao mesmo tempo, destrutivas. Imaginem se o governo Bolsonaro, como o de Hitler, tivesse um êxito econômico inicial. Quantos neofascistas não teríamos?
    O bolsonarismo brasileiro surpreende algumas mentes das elites liberais, assustadas com a força remanescente de um governo inepto, sem considerarem que elas próprias estão sujeitas ao desejo de fascismo.
   A pulsão de morte conservadora envolve o poder e os poderosos de tal modo ambíguo que perdem a perspectiva que os ameaça. Não se pode esquecer que Mussolini, o inventor do fascismo, acabou pendurado num poste.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

VOLTA AO NORMAL?


  Reinaldo Lobo
    Muitos se perguntam quando voltaremos à normalidade. Mas de qual “normalidade” se fala? É a da volta ao trânsito engarrafado, da poluição, do stress e da neurose urbana? Do retorno ao desemprego estrutural? Ao consumo desenfreado de bens desnecessários e supérfluos? À rotina do lazer programado por terceiros e dosado para as horas de maior cansaço? Volta a quê?
     A quarentena imposta pela pandemia do novo Corona Vírus abriu uma brecha no cotidiano social bastante reveladora. Um exemplo: foi preciso um evento de proporções traumáticas e assustadoras, capaz de produzir uma espécie de paranoia generalizada, para que descobríssemos a possibilidade de vivermos com o básico necessário para a sobrevivência.
   Por um instante, muitos de nós tivemos que nos confrontar com a simplicidade da vida doméstica, com a intimidade, a evidência de problemas conjugais, sem a fuga compulsiva para o prazer em eventos hipomaníacos, atividades comerciais programadas ou o consumo permanente em qualquer escala.
    A rotina e os hábitos repetidos têm um papel importante na estruturação da vida mental das pessoas de qualquer país. Independente da cultura, a continuidade do cotidiano forma um quadro de referência, como uma moldura do dia-a-dia, dando limites e parâmetros.
   Mesmo quando as condições de existência são difíceis, quase insuportáveis, os indivíduos se adaptam, criam e mantém esse quadro referencial que é o cotidiano minimamente confiável. Há uma expectativa permanente de acordar no dia seguinte e encontrar a rotina, as programações e os projetos no mesmo lugar onde foram deixados no dia anterior. É como a nossa crença de que, após a noite, o sol vai aparecer.
   A pandemia instaurou uma espécie de eclipse solar, um apagão e uma quebra surpreendente na continuidade da vida cotidiana. Isso tem sido traumático, pois toda ruptura brusca na linha da existência causa uma perturbação importante na mente individual e no esquema de representação coletiva.
   Houve grandes perdas, como no luto. Todos sentem nostalgia dos objetos e referências perdidas, por mais difíceis que tenham sido nas circunstâncias anteriores “normais”. Uma cultura alienada não deixa de ser uma cultura funcional a seu modo. O rompimento da estrutura do cotidiano abala a continuidade da própria vida cultural e de seus valores.
    Para os trabalhadores, voltar ao “normal” seria superar a ameaça à própria sobrevivência, mas também ter a segurança de alimentar a própria família. Ocorre que os que trabalham sob o regime do Capital estão permanentemente ameaçados pelo desemprego, os congelamentos salariais e as ordens cuja racionalidade nem sempre está clara ou bem estabelecida. Seria voltar para a insegurança diária que já conhecem
     No Brasil, como em alguns outros países, a quarentena provocada pela pandemia teve um problema a mais com a redução salarial, às vezes sob o pretexto da diminuição da jornada ou do “home office”. Além disso, veio junto com a retirada de direitos trabalhistas e sociais, o que aumentou muito a insegurança das famílias.
    Como ter um salário, por menor que seja, é melhor do que não ter salário algum, os trabalhadores aceitaram a situação, mas estão nostálgicos e ansiosos pela volta à “normalidade”. Os que simplesmente perderam seus empregos e passaram a engrossar o Exército de reserva do Capital mantém a expectativa de que, com a volta da vida rotineira, algo possa ser resolvido.
     Voltar ao cotidiano de uma sociedade alienada de seus fins e propósitos, calcada na desigualdade e na exploração do trabalho, não é o melhor dos mundos. Mas, mesmo assim, é ter de volta um quadro comportamental e mental conhecido, que torna possível alguma expectativa e a retomada das atividades populares de lazer, ou da elite. O respiro da roda de samba, dos shows e espetáculos, não muda uma existência, mas a alivia. Por isso, muitos torcem pelo fim da crise sanitária e das mortes pela Covid19.
     Num regime capitalista, a “normalidade” é acomodar-se às condições de trabalho, aceitar as regras do jogo e aproveitar migalhas de descanso e lazer. As pessoas mais adaptadas à realidade do sistema almejam ter uma propriedade, educar os filhos, reproduzir a mão de obra e adequar-se ao dia-a-dia da indústria cultural.
     A rotina de trabalho- cansaço--assistir à TV-- churrasco no fim de semana-- cerveja -- futebol pode ser o melhor para a maioria. Muitas vezes, são ações sem criatividade alguma.
    As mídias cumprem o papel de moldar as consciências, oferecendo, muitas vezes, um lixo cultural como um caminho para a fuga da realidade.
    Ao contrário do que pensava Nietzsche, a arte só torna a realidade mais suportável para alguns. Para a grande maioria, o que se oferece hoje é um entretenimento de baixa qualidade, que faz parte dessa mesma realidade difícil de suportar.
    Os homens primitivos, das cavernas, provavelmente viviam num estado em que muitos de nós vivemos durante a quarentena: com medo, perseguidos pela morte e voltados para a sobrevivência. Muitos aproveitaram a quarentena para ler, escrever, ouvir música, fazer yoga e pensar. Esses são os privilegiados do sistema, com acesso à educação e a uma cultura mais sofisticada.
   A maioria, porém, ficou submetida às palavras de ordem de Bolsonaro ou lutando para sobreviver nas filas da caridade aos “mais vulneráveis”. Como disse um amigo, foi preciso a pandemia para descobrirem que o Eduardo Suplicy tem razão. Uma renda básica de cidadania pode salvar vidas e manter um consumo mínimo na sociedade, até para que a economia funcione.
    Enquanto prevalecerem as condições de desigualdade e privilégios, de egoísmo e o individualismo possessivo, a norma será a do crescimento econômico “infinito” e do consumo sem limites.
      Se retornar à normalidade for ao eterno retorno do mesmo, isto é, à “normalidade anormal”, insegura e disfuncional do capitalismo, cabe ainda a pergunta inicial: voltar a quê?